segunda-feira, novembro 10, 2008

Contributo para a História - Angola

A situação militar criada em torno de Luanda era tão grave na véspera da proclamação da independência, em 11 de Novembro de 1975, que os dirigentes soviéticos deram autorização secreta para que os seus militares participassem nos combates ao lado do MPLA contra a UNITA e a FNLA.
“Na véspera dos acontecimentos decisivos de 11 de Novembro de 1975, recebemos de Moscovo um telegrama cifrado que autorizava directamente aos nossos especialistas militares a participarem em acções de combate ao lado das forças do MPLA e das tropas cubanas. Isto era explicado pela situação extremamente tensa da situação que surgiu no país na véspera da proclamação de independência do país”, recorda Boris Putilin, que trabalhou nos meados dos anos 70 do século passado como primeiro secretário da Embaixada soviética no Congo (Brazzaville).
Foi precisamente este homem que, em 1975, coordenou, pela via da GRU (Direcção Principal de Reconhecimento – espionagem militar) do Ministério do Interior, os fornecimentos de armas ao MLPA da URSS, mas também os planos de ajuda da parte dos especialistas militares soviéticos e cubanos.
“O primeiro grupo de militares soviéticos, dirigido pelo coronel Trofimenko, que se encontrava na República do Congo, através da qual passava a corrente fundamental de ajuda para o MPLA, foi enviado para Luanda”, continua Putilin, acrescentando que este grupo tinha uma espécie de “carta branca” de Moscovo para participar em acções militares.
O primeiro grupo de militares e tradutores soviéticos entrou em Angola a 16 de Novembro de 1975, cinco dias após a proclamação da independência.
“No dia 1 de Novembro, o primeiro grupo de especialistas e tradutores militares soviéticos, entre os quais eu me encontrava, chegou a Brazzaville, então a capital da República Popular do Congo, num voo regular da Aeroflot”, recorda Andrei Tokarev, tradutor militar, em declarações à Lusa.
“Antes de nos enviar e dando-nos as últimas instruções, em Moscovo, no Estado Maior tentaram dar-nos o máximo de informação fresca sobre os acontecimentos em Angola. O MPLA controlava a maioria das províncias do país e a capital, mas compreendemos que este controlo não era seguro”, continua Tokarev, hoje professor da Universidade Militar de Moscovo.
Segundo esta fonte, “cada uma das partes fazia esforços para desenvolver o seu êxito; por exemplo, o Zaire comprou à França “Mirages”, esperava-se a qualquer momento a sua chegada. Talvez eles participassem nos voos sobre a capital de Angola, Luanda, no seu bombardeamento.”
“A fim de evitar isso - continua Tokarev - o nosso comando enviou para essa região (por um prazo de mês e meio, mas com a possibilidade de prolongamento) o nosso grupo: oficiais e sargentos, especialistas no emprego militar de complexos móveis de defesa anti-aérea “Strela”, e nós, cadetes-tradutores militares”.
Estes primeiros especialistas militares soviéticos começaram de imediato o treino dos soldados e oficiais do MPLA.
Tokarev recorda: “Os nossos especialistas montaram rapidamente, numa antiga base aérea militar portuguesa de Luanda, vários pontos de treino e começámos imediatamente a treinar os combatentes das FAPLA. Os nossos especialistas iam frequentemente à frente de combate, que estava situada a apenas algumas dezenas de quilómetros. Normalmente, eram acompanhados por cubanos. À frente, regra geral, ia um jipe, um carro blindado ou tanque cubano, que nos protegiam.”

6 comentários:

Pippo disse...

JM, este assunto interessa-me de sobremaneira!
Poderia dar-nos mais pormenores da participação directa de soldados soviéticos na guerra em Angola?
Obrigado.

Jose Milhazes disse...

Caro Pippo, tenha paciência. Eu estou há anos a fazer um trabalho sobre o tema, que talvez um dia alguém esteja interessado em publicar.

Pippo disse...

Ahahah!Há anos?! Bem, neste caso terei paciência :o) Faz-me lembrar uma tese de Mestrado sobre a Ásia Central que tenho na minha secretária, também há anos...
É que eu e uns amigos meus estamos a debruçar-nos sobre o assunto e constatamnos que há uma escassez impressionante de informação, e quanto às existentes, nenhuma escapa à tirada ideológica.
Agradeço-lhe o esforço e bom trabalho (e pode ter a certeza que isso será publicável pois é um assunto muito interessante).
Abraço,

Afonso Henriques disse...

Isto vai com um carinho especial para o Sérgio, cuja juventude perimtiu-lhe afirmar por aqui que os Comunistas Portugueses eram bonzinhos e não poderiam ser comparados á escumalha Soviética, entre outras barbaridades que não quero agora aprofundar.

Sérgio, Comunista é tudo a mesma escumalha, não importa a raça ou o país. Nenhum povo deveria viver sob regimes Comunistas. E, ver uma Nação Civilisada como aquela de Tolstoi cair face ao Comunismo é, quanto a mim, assistir a um crime contra a Humanidade.

SOBRE O PARTIDO COMUNISTA PORTUGUÊS (e outros) EM ANGOLA:

Mas talvez o Sérgio queira dar uma vista de olhos nisto: http://pissarro.home.sapo.pt/carta.jpg
e aqui, a reacção de um blog "mainstream": http://oinsurgente.org/2008/04/13/o-meu-pai-tinha-razao/
ou num Grande Blog "mainstream": http://o-lidador.blogspot.com/2007/03/alta-traio-ao-servio-de-moscovo.html

Para ter um "glimpse", como os Ingleses dizem, da contribuição que os Comunistas ofereceram em Angola, pode ler este artigo na Wikipedia em Inglês: http://en.wikipedia.org/wiki/Angolan_Civil_War

e compará-lo com este: http://en.wikipedia.org/wiki/Angolan_War_of_Independence

... e sim, sou uma espécie de Anglófilo.

Jest nas Wielu disse...

2 Bruno

Nesta página (http://veteranangola.ru) os russos soviéticos que passaram pela Angola falam do seu passado, criam a lista dos que lá morreram, etc.

N!B! Têm alguma dificuldade de ler em inglês, não entendem o português de tudo...

Afonso Henriques disse...

Sérgio, por vezes o silêncio é ensurdecedor.

Cumprimentos.