sexta-feira, dezembro 12, 2008

Cardápio ou Constituição?


A Rússia celebrou na sexta-feira o 15º aniversário da sua Constituição com manifestações para todo o gosto.
A oposição extra-parlamentar reuniu-se nos arredores de Moscovo para constituir o movimento "Solidariedade".
Como vem sendo habitual, as autoridades tudo fizeram para impedir a reunião. Segundo o sítio Kasparov.ru, os participantes da reunião foram travados por um autocarro que transportava carneiros, com chapéus na cabeça onde estavam escrito "Solidariedade". Os animais, com as patas partidas e alguns já mortos, foram atirados para a estrada.
Não obtante, a reunião realizou-se e aprovou o hino desta organização da oposição russa. Trata-se da canção "Mudanças, queremos mudanças!", com letra e música do grande cantor Victor Tsoi. Quem viveu na Rússia ou se interessa pela história deste país, sabe que esse foi o hino da perestroika dos anos 80 do século passado, época de grandes sonhos e esperanças que tive o privilégio de viver por dentro.
Os nacionalistas russos, cerca de 200, juntaram-se no centro de Moscovo para exigirem a expulsão dos trabalhadores estrangeiros e a Rússia para os russos. São poucos, mas agressivos.
Desta vez, a oposição conseguiu "infiltrar-se" no Kremlin, sob a forma de participante da conferência realizada no Kremlin a propósito da Constituição. Um dos ouvintes de Dmitri Medvedev interrompeu o Presidente da Rússia quando este falava na conferência , transmitida em directo por um dos canais da televisão russa.
“As emendas à Constituição são uma vergonha, queremos eleições livres!”, gritou um jovem ouvinte que estava sentado na décima fila da sala de conferências do Kremlin.
Recentemente, pela primeira vez em 15 anos, o Presidente russo decidiu fazer alterações à lei suprema do país, que permitirão aumentar o mandato presidencial de quatro para seis anos e o mandato dos deputados da Duma Estatal (câmara baixa) do Parlamento de quatro para cinco anos.
Dmitri Medvedev continuou a discursar, expondo “as possibilidades que a Constituição abre para o desenvolvimento e o aperfeiçoamento da legislação russa”, mas o ouvinte não parava de exigir eleições livres.
Quando agentes da segurança de Medvedev se aproximaram do homem que protestava para o expulsar da sala, o Presidente interrompeu o seu discurso e disse: “Que fique, que ouça. Sinceramente falando, a Constituição foi aprovada para que cada um possa expor a sua própria posição”.
Estas palavras foram recebidas com fortes aplausos, mas a segurança não cumpriu as ordens do Presidente e expulsou à força o ouvinte descontente.
Mais tarde, o “desordeiro” foi identificado como sendo Roman Dobrokhotov, dirigente do movimento da oposição “Nós”.
Sanado o incidente, Medvedev continuou o discurso para defender a possibilidade de novas revisões da Constituição da Rússia.
“Nenhum de nós sabe o futuro. A Constituição não é uma lei recebida do Céu, mas o resultado de um acordo social que pode ser alterado”, sublinhou.
Roman Dobrokhotov foi conduzido a uma esquadra da polícia, onde, segundo ele, foi tratado muito bem pelos agentes. O chefe até lhe ofereceu café e, depois de algumas horas, foi mandado em liberdade.

Na era comunista, existia uma anedota a propósito da Constituição Soviética, que era farta em promessas: "Um cliente de um restaurante senta-se à mesa, consulta o cardápio e dirige-se ao empregado:

- Traga-me um bife.

- Não temos bifes, respondeu o empregado de mesa.

- Então traga-me frango assado, encomendou o cliente ao mesmo tempo que ia perdendo a paciência.

- Também não temos frango assado, retorquiu o empregado.

- Então traga-me uma almondega, gritou o cliente.

- Também não temos, respondeu calmamente o empregado.

- Então isto é uma ementa ou uma constituição?, perguntou o cliente, depois do que pousou o cardápio e abandonou o restaurante.
P.S. Roman Dobrokhotov, que trabalhava como jornalista na rádio "Daqui Moscovo", foi despedido no mesmo dia a pretexto da "redução de quadros".

15 comentários:

Anónimo disse...

20 pontos para Medvedev. Grande homem! Grande pão!( Já que falamos de cardápios).

XICO RIBEIRO disse...

Cuba celebra el día de los derechos humanos con detenciones masivas de opositores del gobierno


ABC.ES

La Habana.- El gobierno cubano celebró ayer a su modo el Día Mundial de los Derechos Humanos: una treintena de opositores de distintas agrupaciones fueron detenidos entre ayer y anteayer en la capital y en las provincias de Villa Clara y Santiago de Cuba, según denunciaron fuentes de la disidencia interna.

El arresto de los opositores de las provincias se produjo cuando se disponían a viajar a La Habana para participar en los actos programados ayer en protesta por las violaciones a los derechos humanos. Entre los detenidos figuran Jorge Luis García «Antúnez», Guillermo Fariñas, Idania Yanes o Lázaro Alonso, señaló a ABC el activista de derechos humanos Elizardo Sánchez, que subrayó que la mayoría seguía bajo arresto ayer por la tarde

Anónimo disse...

Acha que foi o Presidente que mandou despedir o tipinho? Não acredito. O que acontece é que ninguém quer ter problemas com o poder, daí serem mais presidentes do que o próprio.

Pippo disse...

Em Portugal as coisas não são muito diferentes, como foi noticiado pelo Correio da Manhã no dia 12 de Dezembro:

"A cena mostra até que ponto chegaram as relações entre a Comunicação Social e o Governo socialista. A ministra da Saúde, Ana Jorge, foi ao Centro Nacional de Cultura apresentar o plano de combate à sida nas escolas.
Como tem sido hábito neste Governo, o acontecimento tinha a pompa e a circunstância do costume. Acabada a cerimónia, com os inevitáveis discursos da praxe, Ana Jorge pôs-se à disposição dos jornalistas para responder a mais algumas questões sobre aquela matéria. Acontece que Ana Jorge não estava sozinha. Estava acompanhada de Maria de Lurdes Rodrigues, ministra da Educação, que, como se sabe, tem andado na berlinda devido à guerra com os professores.
O jornalista da RTP aproveitou a ocasião e tentou naturalmente fazer uma pergunta a Maria de Lurdes Rodrigues sobre o assunto. Foi então que Ana Jorge saltou indignada com o comportamento do jornalista: 'O quê? O senhor não sabe o que está combinado? Que hoje só se pode fazer perguntas sobre esta cerimónia e sobre o plano de combate à sida nas escolas? Ainda por cima é a RTP, a televisão pública, a fazer uma coisa destas. E, depois, logo à noite, não sai a reportagem.' Assim vão a informação e o poder neste País."

Destaco as expressões "o que está combinado", "hoje só se pode fazer perguntas sobre (...)" e "logo à noite, não sai a reportagem".

Muito esclarecedor, muito esclarecedor mesmo!

Em vez de olharmos para a Rússia faríamos bem em olhar para o nosso umbigo...

Anónimo disse...

ao que parece a russia vai entrar em recessão em 2009..

v

Anónimo disse...

Porque é que em Portugal toda a gente se cala? Porque quem fala, lixa-se. Os despedidos são sempre os que falam. Admiram-se que isto aconteça na Rússia? Claro que os patrões do jornalista não quiseram problemas. Mas não me admiro nada que Medvedev o receba publicamente nos próximos dias. Só assim as coisas irão mudando. A Rússia tem um grande Presidente, como se irá vendo.

Anónimo disse...

Já que o senhor XICO RIBEIRO fala de Cuba no blog da Rússia, dê-nos mais notícias da América Latina, como vivem as pessoas nas Honduras, no Belize, no México, na Guatemala, na Costa Rica, Nicarágua, Haiti, etc.?

Tenho curiosidade em saber disso, mesmo estando a ver o blog "DA RÚSSIA".

--Leitor

Afonso Henriques disse...

"Os nacionalistas russos, (...) São poucos, mas agressivos."

São poucos são... na Rússia? Se calhar o senhor José Milhazes anda se a esquecer de fazer o trabalho de casa... ai anda, anda... Quer que lhe ajude a fazer os trabalhos de casa?
E diga-me lá, qual é o terceiro partido mais votado na Rússia? Sim, aquele partido que é radical até de mais, mas pronto, é o quê?

E quem está inscrito no segundo partido mais votado na Rússia? Existe por lá alguém com menos de 35 anos, tem a certeza?

Depois, não sei porque razão estava o outro ser humano a clamar por eleições livres, pode o sr. Milhazes ou qualquer outro esclarecer-me?

Deixo aqui também uma palavra de apreço em relação ás palavras proferidas por Medvedev no que toca á dinâmica da Constituição Russa, dinâmica mas sólida.

P.S. - E já agora sr. Milhazes, a vítima de despedimento foi a única a ser despedida ou houve mesmo uma redução dos quadros?

Afonso Henriques disse...

Pipo,

"Em vez de olharmos para a Rússia faríamos bem em olhar para o nosso umbigo..."

É mesmo, á coisa de um mês, uma professora amiga minha foi impedida de dar aulas derivado de um processo disciplinar. O seu "crime"?

A senhora foi temerária o suficiente para dar uma entrevista á SIC expondo:
1) Que os professores têm uma carga enorme de trabalho extra não remunerado apenas para tratar da burocracia do Magalhães. Aliás, os professores nem sequer são pagos para praticar esse tipo de actividades...
2) Que são os professores que têm de pagar o Magalhães, esperando apenas que depois os pais contribuam para devolver o dinheiro que o professor tem de tirar do próprio bolso.
3) Que os professores têm agora que realizar tarefas não remuneradas para as quais não têm qualquer obrigação: desde limpeza a primeiros socorros a alunos a burocracia.

Sérgio disse...

Os Russos continuam a ir pela cepa torta. Se se vier a concretizar a adesão de países como a Ucrania e geórgia na UE daqui a muitos anos, perdendo assim a Rússia os seus submissos e imprescindiveis servos, a continuar neste caminho de falta de respeito pelos valores democráticos e consequentemente um maior afastamento da UE, a quem irá a Rússia aliar-se no futuro quando perceber que já não é uma super-potencia e que sozinha não vai a lado nenhum. Será esse parceiro a China? Como se estará a desenvolver o trabalho do grupo de Xangai? Interessante é no entanto o facto de todos os países que pertencem a esse grupo estarem mais perto de regimes autoritários e não democráticos. Será esta a nova ideologia que vai dividir o mundo em esferas de influencia, entre democracias e não democracias.

Anónimo disse...

Isso seria verdade, sérgio, se houvesse democracias.

Jose Milhazes disse...

Leitor Afonso Henriques, quando escrevi que os nacionalistas eram poucos, tinha em vista o número dos que participaram na manifestação do dia 12. Quanto ao partido nacionalista, se você tem em vista o Partido Liberal DEmocrático de Vladimir Jirinovski, só dá para rir. Trata-se de uma criação e de uma forma domada pelo poder. Jirinovski é conhecido na Rússia por nacional-palhaço e se ouvir o que ele diz, não ficará com opinião diferente. Na Rússia não há grandes forças políticas nacionalistas organizadas, embora reconheça que sejam muitos os nacionalistas na Rússia.

Afonso Henriques disse...

José Milhazes, você reconhece que há muitos Nacionalistas na Rússia portanto tenho de pedir desculpas pelo meu lapso, mas creio que isso não estava muito explícito no texto a cima.

Também temos de considerar que existem diversos tipos de Nacionalismos na Rússia, não é...?
Mas na Rússia o Nacionalismo (do bom tipo) cresce a olhos vistos, como em toda a Europa mas com a particularidade de o Nacionalismo ser visto com bons olhos pela opinião pública e o estabelecimento político Russos.

Quanto ao terceiro partido Russo, é uma força crescente, ao contrário do Partido Comunista. E, ao contrário do Partido Comunista, tem atraído bastantes jovens e até bastantes "intelectuais", "teóricos" ou "brains". Agora, o que me espanta é a frase que o senhor Milhazes emprega:

"Trata-se de uma criação e de uma forma domada pelo poder."

Ora isso a meu ver, não tem qualquer fundamento. De facto, este Partido Liberal Democratico é na realidade muito radical, radical até de mais, pelo que creio que concordo consigo na questão do "nacional-palhaço" mas quero também dizer que isso é a visão dos sectores mais esquerdistas e neo Comunistas da Rússia e não "do mainstream".

Este partido não é uma criação do poder, nem dominado por ele, tanto quanto sei. O que é verdade é que Putin, e agora Medvedev, têm feito um bom trabalho, de tal forma que os Liberais Democratas Russos têm, regra geral apoiado o partido dominante. Fazem isso pondo os interesses da Rússia e dos Russos acima de qualquer interesse partidário. É o que nos falta por cá.

Continuo a achar o partido muito radical, no entanto, indespensável.

Já agora, senhor Milhazes, sabe dizer-me qual foi a posição deste partido em relação á Guerra por causa da Ossetia do Sul?

Defendiam a Guerra?
Defendiam uma anexação da Ossétia do Sul?
Ou Defendiam apenas a criação de um estado Alano independente?

Obrigado.

Jose Milhazes disse...

Leitor Afonso Henriques, o partido de Vladimir Jirinovski não só apoiou a guerra entre a Rússia e a Geórgia, como inicita à guerra contra praticamente todos os vizinhos. Jirinovski não se cansa de repetir que gostaria de ver os soldados russos molharam as botas no Oceano Índico.
Eu sou daqueles que consideram que Jirinovski não passa de um provocador controlado pelo poder, desde que este pague. Ieltsin mandava nesse político, Putin faz o mesmo. É uma questão de ver as decisões apoiadas por esse político. Jirinovski grita, espuma, mas, na hora da verdade, apoia as decisões tomadas no Kremlin.

Afonso Henriques disse...

"Jirinovski não se cansa de repetir que gostaria de ver os soldados russos molharam as botas no Oceano Índico."

Olhe, desconhecia na totalidade. Conhecia apenas os intuitos expansionistas virados á Europa de Leste, e certas Repúblicas Soviéticas. Tenho de me informar mais. Obrigado.