segunda-feira, janeiro 19, 2009

De regresso a Moscovo, mas com pensamentos ainda em Kiev


Caros leitores, estou de regresso a Moscovo, mas não podia deixar de relatar uma experiência única em Kiev, a que está ligada a caricatura publicada.

O jornalista Savik Schuster, que fez dos melhores programas políticos da televisão russa enquanto na Rússia existia liberdade de expressão e, depois, mudou-se para a Ucrânia, onde pode continuar a fazer o seu trabalho, convidou-me para eu participar no seu talk-show político "Schuster Live", transmitido na sexta-feira à noite no canal televisivo Ukraina.

A Ucrânia tem realmente coisas únicas e uma delas é o grande interesse da população por programas televisivos sobre a vida política do país. O programa citado e outro talk-show no canal televisivo Inter prendem a atenção de 48% dos espectadores. E isto é ainda mais extraordinário se tivermos em conta que o programa da Inter tem uma duração de três horas e o da Ukraina cerca de quatro horas e meia.

Claro que aceitei o convite e não fiquei arrependido. Ao contrário da unanimidade dos canais de televisão russa, claramente imposta pelo Kremlin, na Ucrânia ainda é possível discutir todos os problemas nacionais e internacionais abertamente, embora, por vezes, sem as mais elementares regras de respeito pelos interlocutores.

Savik Schuster reuniu no estúdio cem representantes da opinião pública ucraniana, três embaixadores de países da UE (República Checa, Hungria e Lituânia), numerosos deputados e outras figuras políticas proeminentes da política ucraniana, bem como jornalistas e especialistas. O objectivo era discutir a "guerra do gás" entre a Ucrânia e a Rússia.

Ia-me esquecendo de dizer que a Rússia estava representada por Boris Nemtsov, antigo ministro da Energia de governos do Presidente Ieltsin, e pelo dirigente nacional-palhaço Vladimir Jirinovski (via satélite).

Os diplomatas da UE foram um reflexo bastante real da política, ou melhor, da falta de uma política concertada de Bruxelas no campo da energia, prometendo soluções apenas para o futuro.

Quanto às discussões entre os políticos, é difícil transmitir a verdadeira balbúrdia criada, mas ela está reflectida na caricatura acima publicada, obra do conhecido artista ucraniano Vozniuk. Ficou bem claro que os políticos ucranianos colocam os seus interesses pessoais e políticos acima dos interesses do país. Nem sequer o perigo da falência económica e financeira da Ucrânia os faz enterrar o machado de guerra.

Verdade seja dita, fora dos estúdios, os insultos e acusações dão lugar a beijinhos e abraços. Talvez tenha sido por esta razão que os embaixadores da República Checa e da Hungria ficaram indignados quando eu afirmei que "a competência dos dirigentes da UE parece estar ao mesmo nível da competência dos políticos ucranianos", embora tenha sublinhado que "não pretendo ofender ninguém".

Ainda mais indignados ficaram quando afirmei que a UE ainda não tem um sistema de fornecimento e gás único, não obstante ser do domínio público que a Espanha e Portugal, bem como os países do Báltico não estão ligados aos países da Europa Central e do Sul por gasodutos.

O programa terminou de madrugada, com os convidados praticamente esgotados e sem conclusões, ou melhor, apenas com uma conclusão: a sociedade ucraniana está extremamente dividida e não se prevê que as forças políticas decretem tréguas na guerra entre elas para permitir a solução dos graves problemas do país.

20 comentários:

PortugueseMan disse...

"...Ainda mais indignados ficaram quando afirmei que a UE ainda não tem um sistema de fornecimento e gás único, não obstante ser do domínio público que a Espanha e Portugal, bem como os países do Báltico não estão ligados aos países da Europa Central e do Sul por gasodutos..."

- O que quer dizer com o não ter um sistema de fornecimento de gás único?

- E quem é suposto alimentar esses pipelines todos?

Anónimo disse...

Professor e amigo, quando ouço os seus comentários, é um momento de 'ar puro e clarividência, que corre no meu espírito.' Farto de ouvir Professores catedráticos, que não sabem o que afirmam e falam sobre tudo ( Marcelo Rebelo, Nuno Rogeiro ),ou deputados sem formação e nível. admiro tanto conhecimento numa pessoa, simples e acessível. Já agora deixo uma pergunta : 'existe ou não interesse em dividir o território ucraniano?'

Jest nas Wielu disse...

Embora é possível discutir quem ganhou na guerra do gás (e não quero entrar nessa), não é menos verdade, que a Ucrânia conseguiu ganhar nestes aspectos:

1. Penalizações? Não foram mencionadas, significa que não são à favor do Gazprom.
2. E o tal gás “roubado”? Nunca existiu.
3. O que conseguiu a Ucrânia? Salvou a Europa do “holocausto do gás”, criado pelo Gazprom.
4. O que consegui a Rússia? Nada.
5. Quem é culpado pelo corte do gás a Europa? A Rússia.

O “levantamento do chão” do “império energético”, poderá terminar antes do seu início...

PortugueseMan disse...

A Ucrânia não ganhou nada com isto só perdeu e muito.

1. As penalizações terão que recair na Ucrânia. O facto de terem que pagar quase o valor de mercado sem mexerem no valor que pagam de trânsito mostram a gravidade do imbróglio onde a Ucrânia se meteu.

2. O gás foi roubado, mas declaração de tal coisa implica graves repercussões políticas e monetárias e como tal sem poder de negociação para obter um valor mais baixo. E desta vez não haverá adendas a documentos nenhuns a dizer que a Ucrania não possui o gás roubado e que não tem dividas...

3. O que a Ucrânia consegui foi enfiar-se num enorme buraco.

Arranjou um conflito com a Rússia e mostrou à Europa que não tem problemas em cortar o fornecimento aos europeus de modo a atingir os seus objectivos. Já se fizeram guerras por menos.

Portanto neste momento a Ucrânia tem contas a ajustar dos dois lados, tanto da UE como pela Rússia.

4. A Rússia conseguiu mostrar que a Ucrânia não tem problemas nenhuns em cortar fornecimentos, mesmo que isso pare países. Portanto ter a Ucrânia como país de trânsito por onde passa 80% do gás russo destinado à Europa tem que acabar o mais rápidamente possível.

Como tal tanto o Nord Stream e o South Stream vão ter agora urgência política por parte da União Europeia e esse era um dos objectivos da Rússia, acelerar o processo e vai ter do seu lado a Alemanha e França para a ligação norte e Itália e Grécia para a ligação sul.

Os dias de chantagem por parte de países trânsitos estão contados.

5. Culpado é óbviamente a Ucrânia que começou por não querer pagar mais que 200 dólares, contra os 250 oferecidos.

Contra-propôs para 235 e aumento de trânsito, o que foi recusado pelos russos.

PASSOU para 80% do valor de mercado, SEM incremento do valor de trânsito

Em 2010 vai passar a poder a cobrar o valor de mercado de trânsito e vai ter que pagar o VALOR DE MERCADO.

A Ucrânia bem pode rezar que os preços se mantenham em baixa, por caso contrário estão metidos num grave sarilho onde não haverá empréstimos do FMI que os salve.

E toda a indústria vai rebentar com preços destes, com falências e desemprego.

Eu nem esperava um acordo tão mau.

Gabriela Galvão disse...

Tah, agora li que Rússia e UE assinaram um acordo, falta a assinatura da Ucrânia.

Qual o teor do acordo? Pq a Ucrânia ñ assinou?

Houve msm roubo?

O tal desconto seria justo? Pq?

Quero saber!!! (Vou continuar procurando, eh bom que conste.)

Brigada e abraço

Jose Milhazes disse...

A Europa Ocidental deveria ter um sistema gasífero único, ou seja, que ligasse todos os 27 países da UE e que permitisse, em caso de crises como a actual entre a Rússia e a Ucrânia, que uns países fossem em ajuda de outros. Por exemplo, Portugal e Espanha recebem gás da Argélia e da Venezuela. O nosso país tem grandes reservatórios e se o país vizinho estivesse ligado à França, o gás poderia também ser fornecido a partir da península Ibérica. Além disso, esse sistema permitiria diversificar as fontes de fornecimentos.

Jose Milhazes disse...

Leitor anónimo, realmente há na Rússia forças interessadas em dividir a Ucrânia e não fazem grande segredo disso. Na próprio Ucrânia, há políticas capazes de tudo em proveito próprio e até de hipotecar o futuro do país.

Jose Milhazes disse...

Caros leitores, eu não me arriscaria a discutir tão superficialmente sopbre quem venceu e perdeu a guerra, porque ainda há muito por esclarecer.
A Ucrânia, se for para preços europeus (que ninguém sabe dizer bem o que é porque eles são diferentes para todos os países), arrisca-se a ter de pagar mais nos primeiros três meses de 2009, mas irá pagar muito menosa depois devido à queda do preço do gás.
Acho que ganhou a Sra. Iúlia Timochenko do ponto de vista político.
Quanto à Rússia, por enquanto, ainda não ganhou muita coisa. Ainda não ficou provado que a Ucrânia roubou ou tenha impedido o transporte do gás e seria bom se a UE investigasse para se apurar a verdade.
Que nem tudo é limpo neste jogo mostra o facto de ainda nenhuma parte da contenda ter recorrido aos tribunais internacionais, não obstante todas as ameaças.
A Rússia e a Ucrânia perderam grande parte da sua credibilidade internacional.
Vamos aguardar promenores, poisfalta ainda saber muitos pormenores.
Venceria a UE se tomasse não só juízo mas medidas para reforçar a sua independência energética.

Anónimo disse...

Se Portugal tem reservatórios para gás, porque é que os países da Europa central ainda não os construíram e estão directamente dependentes do gás que vem nas condutas?
É isso que não se percebe. Se tivesse os reservatórios, estas situações não teriam acontecido de forma tão brusca.

Jose Milhazes disse...

Leitor anónimo, os países da Europa têm reservatóirios, mas nem todos. Os que mais sofreram com a crise: Bulgária e Eslováquia não possuem reservatórios.
Isto só não chega para colmatar a falha. É preciso da parte da UE uma política concertada e global no campo da energia, que passa pela criação de um sistema de fornecimento de gás único, diversificação das fontes de combustível, exploração de energias alternativas, mas continua a política do salvasse quem puder.
Caro leitor, isto não teria acontecido se tivessem sido tomadas medidas quando crises semelhantes começaram em 2006.
A política da UE é esta e adjective-a como quiser.

PortugueseMan disse...

O nosso país tem grande capacidade de reserva, para a nossa realidade, não para servir de buffer para as enormes quantidades necessárias na Europa. No entanto concordo que deveria haver um sistema que unisse todos.

É bom lembrar que a realidade a 27 é recente e este tipo de sistemas demoram anos a ser implementados.

Existe uma boa diversificação de fontes de energia, o problema é que algumas delas estão a esgotar, a Rússia continua e vai continuar a ter capacidade de resposta para fornecer a Europa, sendo por isso o mais importante fornecedor de gás europeu e a sua importância vai aumentar dentro da Europa.

"Ainda não ficou provado que a Ucrânia roubou ou tenha impedido o transporte do gás e seria bom se a UE investigasse para se apurar a verdade."

Se a UE investigasse e ficasse provado que a Ucrânia tinha retido o gás, como deveria actuar a UE?

há verdades que são incómodas.

A resposta é só uma, a UE não pode estar dependente de um país de trânsito. Estamos a falar de quantidades massivas de energia que transitam todos em apenas dois países e não existe estabilidade política, que garanta que mais não surjam. É imperativo mais ligações à Rússia.

"Venceria a UE se tomasse não só juízo mas medidas para reforçar a sua independência energética."

Palavras bonitas, mas não resolve o problema. Onde vai a Europa buscar o gás que consome e estamos a falar de quantidades gigantescas?

Jose Milhazes disse...

Leitor, eu não defendo que a Rússia seja isolada ou que a UE deixe de comprar gás à Rússia. Pelo contrário, sempre defendi uma maior integração de Moscovo na Europa. Mas Bruxelas tem de defender os seus interesses, ou melhor, os interesses dos europeus. É só isso.

Gilberto Mucio disse...

Caro Milhazes,

Esse debate nesse talk show da TV da Ucrania foi realizado em língua russa?

Será que seria possível disponibilizar no youtube? Gostaria de assistir.

Abraços.

Jose Milhazes disse...

Caro Gilberto, se tiver paciência para ver o talk show, aqui vai o endereço: http://shuster.kanalukraina.tv/video/309_gazovyi_spor_mezhdu_rossiei_i_ukrainoi/
Quanto à língua, foi em russo e ucraniano, numa mistura muito original. Talvez ainda hoje eu coloque um post sobre o bilinguismo na televisão ucraniana. Caso único.

Gilberto Mucio disse...

Muito agradecido, senhor Milhazes!

Já estou assistindo. O rosto desse Schuster me é familiar. Há muito tempo que ele saiu da Rússia?

(Já tem uns 3 anos que desisti de televisão, aqui na Rússia, de modo que nem aparelho de TV tenho mais)

O formato do programa parece ser interessante. Parece diferente dos histriónicos e circenses talk shows da TV russa.

Voltemos ao programa! :)

Abraços

Jose Milhazes disse...

Caro Gilberto, Savik Schuster é um grande jornalista. Na Rússia, apresentou o programa Liberdade de expressão na NTV, quando esta era independente e não pertencia à Gazprom.

Gilberto Mucio disse...

Sim, claro, é vero, lembrei. Ele era da NTV. Pena que, na época que via TV com mais frequencia, meu russo não era tão bom ao ponto de acompanhar debates mais profundos sobre temas mais específicos.

Ps.: Fantástico esse programa! Quando será que teremos aqui um programa desse nível, hein?!

Incrível como o Zhirinovsky é palhaço(hahaha). Está a levar(ainda estou assistindo) uma bonita surra do Boris Nemsov.

Aliás, um sujeito como ele ocupar a posição que ocupa na política russa, é um sinal de total falta de seriedade, além de profundo atraso das próprias instituições. Lamentável...

Jest nas Wielu disse...

Sim, longe vão os tempos, quando Zhyrinovskiy e Nemtsov se lançavam a água um contra o outro em directo na TV russa (uns 16 anos atrás).

Jest nas Wielu disse...

Concordando plenamente com Sr. José sobre a maneira algo bárbara, como os políticos na Ucrânia tratam uns aos outros em público (e de facto é só abraços e beijinhos em privado), acho que poucos políticos em Portugal / na UE tem a corragem para uma coisa semelhante:
http://stolitsa.glavred.info/archive/2009/01/19/183803-1.html

splendid disse...

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