sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Contributo para a História (Portugal-Rússia) 4


Seja como for, mas o facto é que os rumores sobre esse encontro chegaram aos ouvidos de Puschkin e o poeta sentiu-se um homem enganado. Aliás, ele parecia acreditar pouco na inocência da sua esposa. O príncipe Alexandre Trubetskoi recorda um episódio curioso: “No Natal, realizou-se um baile em casa do embaixador português, um excelente caçador, se a memória não me engana. Ele residia junto da actual Ponte de Nicolau. Durante as danças, eu entrei num gabinete, cujas paredes estavam todas cobertas de chifres de diferentes animais, abatidos pelo fanático caçador, e, desejando descansar, comecei a folhear revistas. Entrou Puschkin: - “Que faz aqui? Um oficial de Cavalaria, ainda por cima solteiro, não deve estar aqui. Vê – ele apontou para os chifres -, esta sala é para casados, para homens como eu”. “Chega, Puschkin, até para o baile trouxe o seu fel; aqui ele é completamente desnecessário”.
Depois disso, ele começou a insultar tudo e todos, entre eles d’Anthés, e como este era oficial de Cavalaria, também estes. Não querendo envolver-me nessa história, saí da sala e, quando me encontrava junto da porta da sala de bailes, vi que d’Anthés dançava com Natália”.
Dois dias após o encontro do oficial francês e da esposa do poeta em casa de Idália, Puschkin recebeu uma carta anónima com um “Diploma dos Cornudos”, que alguns investigadores dizem ter sido escrito pela mão da neta da Marquesa de Alorna, e, depois de saber da boca da esposa os pormenores da cena na casa de Idália, desafiou o francês para um duelo.
Alexandre Puschkin desconfiava que por detrás de todas essas intrigas estivesse a vingança de uma mulher e os estudiosos russos apressaram-se a apontar o dedo acusador na direcção de Idália: “Há razões para pensar que Puschkin, conhecendo as qualidades da Sra. Polética, ofendeu-a e ela, arrastada pelo sentimento de vingança, foi a autora de cartas anónimas que provocaram o duelo fatal” – escreve Piotr Barteniov.
No dia 27 de Janeiro de 1837, Georges-Charles d’Anthés fere mortalmente Puschkin num duelo e o poeta acaba por sucumbir dois dias mais tarde. A condessa Iúlia Stroganova e o seu marido Gregori, pais de Idália, estiveram ao lado do poeta nos momentos da sua agonia, mas as suas relações com Puschkin eram muito complexas e pouco claras. Por um lado, a família Stroganov pagou o funeral de Puschkin e ajudou financeiramente os filhos e a viúva do poeta, pois ele praticamente não deixou bens: “Depois da morte de Puschkin, foram encontrados apenas 300 rublos em toda a casa. O velho conde Stroganov, parente da Senhora Polética, apressou-se a dizer que se responsabilizava por todas as despesas com o funeral. Ele mandou chamar o seu gerente e encarregou-o de organizar e pagar tudo. Ele queria que o funeral fosse o mais solene possível, visto que era feito à sua custa”.
Cont.

2 comentários:

ABC disse...

Mas que grande novela das 6 entre russos e lusos. Não tinha a mínima ideia de que os portugueses eram tão importantes na Rússia de então, nem que o Pushkin tivesse tais problemas pessoais.
Conte o resto. A linda Idália não tinha nenhum amante russo?

Jose Milhazes disse...

Caro ABC, o mais provável é que Idália tenha tido não um, mas vários amantes russos. Naquela altura, isso era comum na alta sociedade. Na Rússia, bem como noutros países, a nobreza não era propriamente um poço de virtudes. Mas nem todos os romances ficam para a história, ficam aqueles onde estão envolvidas pessoas famosas.
Quanto às relações entre Portugal e a Rússia, elas foram muito ricas, com episódios épicos e menos épicos, dramáticos e alegres. Eu dediquei grande parte da minha vida a estudar essas relações, mas faltam trabalhos sobre russos em Portugal, com bases nos arquivos portugueses.
No entanto, já nos séculos passados, o mundo era muito pequeno para os portugueses e não há local onde não tenha passado pelo menos um português.