quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Rússia sente falta de "Magalhães"


Os leitores que acompanham este blogue com alguma atenção devem recordar-se de uma proposta que eu fiz no mês de Novembro do ano passado, quando da visita do Presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, a Portugal.

Então, eu propus que os nossos chefes supremos oferecessem um computador "Magalhães" ao dirigente russo, gesto bonito tendo em conta que Medvedev é um forte adepto das novas tecnologias e dirigiu, no Governo russo, um programa nacional de informatização das escolas nacionais.

Fiz essa proposta a sério e, tal como frisei então, sem qualquer tipo de ironia, mas talvez a minha mensagem não tenha chegado a tão altas esferas ou não tinha sido levada a sério.

É pena, porque o computador "Magalhães" podia ter na Rússia mais um prometedor mercado.

Aqui fica a notícia que fundamenta o que acima escrevi: "O Presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, reconheceu hoje um atraso significativo do seu país no campo das tecnologias de informação.
“As tecnologias e serviços de informação converteram-se, nos últimos tempos, num item bastante importante das exportações russas civis não primárias e atingiram o nível de mil milhões de dólares“, declarou Medvedev, numa reunião do Conselho para o Desenvolvimento da Sociedade de Informação na Rússia.
“Porém, continuou o Presidente, a Rússia mantém um tremendo atraso em relação à maioria dos países desenvolvidos no que respeita a indicadores fulcrais”.
“E em vez de diminuir, esse atraso tende a aumentar”, acrescentou.
Medvedev reconheceu que, não obstante o enorme potencial da Rússia, este país “ocupa o 70º e 80º lugar no mundo nas respectivas classificações internacionais”.
Medvedev constatou que, não obstante todos os esforços, na Rússia não foi criado o “Governo electrónico”.
“No nosso país não existe qualquer Governo electrónico, tudo isso são quimeras”, lamentou, acrescentando: dediquei-me a isso há seis ou sete anos atrás, quando trabalhava na Presidência. Tentei fazer isso sem êxito, de nada me posso gabar”.
“A principal tarefa do Conselho para o Desenvolvimento da Sociedade de Informação na Rússia consiste em criar premissas para que o país, apesar das dificuldades criadas pela crise, se integre na sociedade global de informação”.

9 comentários:

Andre Zeferino disse...

Caro José, acredita que, de facto, a Rússia sente mesmo a falta do "Magalhães"... Não acha que o capital intelectual e os recursos em produção tecnológica da Rússia são suficientes para fabricar algo minimamente idêntico? Acredito que não seja uma questão de recursos, mas sim de gestão interna, mas daí a ter de "importar" algo como o Magalhães que sabemos ser um produto pré-fabricado de tecnologia terceira (Intel, Microsoft, etc.) apenas montado em Portugal, é uma perspectiva bem diferente.

Tal como é referido nas declarações de Medvedev: “As tecnologias e serviços de informação converteram-se, nos últimos tempos, num item bastante importante das exportações russas civis não primárias e atingiram o nível de mil milhões de dólares"...

Com o aparecimento da Internet, o interesse da população Russa pela sociedade de informação tem vindo a crescer abruptamente nos últimos anos. A Rússia é dos países que mais cresce no acesso à Internet (devido não apenas à dimensão do mercado, mas, sobretudo à literacia da população) e no desenvolvimento de produtos de gestão de interfaces para o ambiente web.

Paralelamente, nas áreas de investigação e desenvolvimento das grandes produtoras de micro-chips e de processadores da indústria de computação (como a própria Intel) imperam técnicos e engenheiros Russos, que aplicam o seu "know-how" no fabrico de componentes que são posteriormente exportados para países como Portugal, através da incorporação desses componentes em produtos como o Magalhães, o que pode parecer irónico.

Trata-se, na minha óptica, de um problema grave de estratégia governamental e não de escassez de matéria-prima.

Jose Milhazes disse...

Caro André, você tem razão, mas veja em que lugar está a Rússia no mundo. É verdade que a Rússia tem bons quadros, mas não os sabe aproveitar e eles vão trabalhar para o estrangeiro. Além disso, não basta apenas inventar, é também precisar introduzir na produção. A União Soviética fazia foguetões, satélites e mísseis, não não fabricava um televisor ou um ferro de engomar em condições.
Era necessário ter aproveitado o dinheiro do petróleo para modernizar a indústria russa, para realizar muito do que é inventado aqui. Não foi feito.
Quanto aos Magalhães, eles têm um preço que pode ser concorrente. O facto de ser montado em Portugal, já cria postos de trabalho.
Se você acompanha o meu blogue há algum tempo, verá que eu defendi a vinda da TAP para o mercado russo. A TAP vem em força, mas durante uma crise profunda no sistema de transportes aéreos e turismo. Se, nessa altura, tivesse iniciado com cinco voos por semana, teriam casa cheia. Quando começarem em Junho, duvido muito que venham a ter passageiros para tantos voos.
Claro que a TAP está também a tentar vender o facto de o Brasil e a Rússia terem anulado o sistema de vistos, mas isso não é um facto, porque o acordo foi assinado, mas ainda não foi aprovado pelos parlamentos dos dois países, o que só deverá acontecer em finais de 2009 ou 2010.
Além disso, veja o que estão a fazer as outras transportadoras aéreas. A Ibéria vende bilhetes para a Rússia a partir de Lisboa a partir de 158 euros. Em junho, quando a TAP começar, entra com o preço a partir de 392 euros. E aqui podem surgie desagradáveis surpresas.
É preciso utilizar as oportunidades atempadamente...
Espero enganar-me.

ABC disse...

Pois, JM, o Prof. Dr. Medvedev anda todo enrolado na Internet, em especial no bloguismo, e vive, de facto, em realidade virtual. Não quer contar aos seus leitores a história do porco da India? Aí se vê para o que serve o blogue do Presidente: é só show off e ainda complica a vida da população, porque o sistema continua como na União Soviética.O que é preciso é informatizar a burocracia, não é ter um site engarrafado com mensagens que ele não vai ler e quem as lerá servir-se-á delas para controlar os autores. Grande borrada. Mas é pós moderna, pelo menos.

Jose Milhazes disse...

A história do porquinho da Índia é apenas mais uma prova da "eficácia" do sistema vertical criado por Vladimir Putin.

Andre Zeferino disse...

Caro José, estou inteiramente de acordo quando refere que a riqueza gerada com o petróleo deveria ter sido canalizada para a modernização da indústria. Claramente. Daí ter abordado o aspecto da gestão interna.

Quanto à TAP, é óbvio que vai entrar a perder competitividade. Há muito que se esperava uma alternativa para voos directos, desde o encerramento de operações da Aeroflot em Portugal a partir de 2003, mas a Ibéria foi mais eficiente e oportuna, porque, além de ter em Espanha uma comunidade de Leste 3 ou 4 vezes maior que em Portugal, que rentabiliza os voos, soube aproveitar estratégicamente a lacuna que passou a existir na ligação Lisboa-Moscovo, para passar a servir esta rota como operador Ibérico.

De facto, é necessário aproveitar as oportunidades.

ABC disse...

Ó JM, então o sistema vertical virou vertical com este rombo da farra privada! Não, isto não foi VP quem inventou: vem da União Soviética e existe em todas as sociedades não livres.

MSantos disse...

"Era necessário ter aproveitado o dinheiro do petróleo para modernizar a indústria russa, para realizar muito do que é inventado aqui. Não foi feito."

Caro José Milhazes
Para quem costuma frequentar este blog, esta é uma permissa constantemente posta e de uma maneira geral eu estou de acordo.

No entanto, sobre o ponto de vista económico, coloca-se a questão: teria sido isto praticável?

Nos últimos 8 anos a Rússia sempre esteve inserida no sistema económico mundial, em que qualquer intervenção do estado na economia era vista como uma "violência" contra esta e um atentado ás liberdades e democracias (quando convém). Mesmo até os antagónicos já evitavam esta abordagem inconscientemente, dado a mentira ter sido tantas vezes repetida que se tornou "verdade" (na realidade, esquecemo-nos do que era a verdade).
Eu pelo menos entendo que não tivesse havido ingerência directa dos governantes russos.

Ou seja, a bola estaria do lado dos empresários e empreendedores.
No entanto e após 70 anos de colectivismo, sabemos bem o tipo de "empreendedorismo" que faz parte das elites económicas russas.

Sabemos quantos oligarcas há, quem são, os milhões que possuem. E que género de empresas criam? Fábricas de computadores ou electrodomésticos? Aventuram-se na fabricação automóvel? ou a desenvolver produtos de consumo?

Teria havido mais Kodorovskis e poderiam ser estes uma alternativa aos Abramovich ou outros que tais?

Cumpts
Manuel Santos

Jose Milhazes disse...

Caro Manuel Santos, você escreve: "Nos últimos 8 anos a Rússia sempre esteve inserida no sistema económico mundial, em que qualquer intervenção do estado na economia era vista como uma "violência" contra esta e um atentado ás liberdades e democracias (quando convém). Mesmo até os antagónicos já evitavam esta abordagem inconscientemente, dado a mentira ter sido tantas vezes repetida que se tornou "verdade" (na realidade, esquecemo-nos do que era a verdade).
Eu pelo menos entendo que não tivesse havido ingerência directa dos governantes russos".
Ora, com a chegada de Putin ao poder, o Estado, ou melhor, o grupo que se encontra no poder, concentrou tudo nas suas mãos. A Gazprom ou outros gigantes russos são controlados por este grupo. Quanto aos oligarcas, depois da ripada que apanhou Khodorkovski, os outros só fazem o que manda o Kremlin.
A Rússia é um sistema extremamente centralizado e isso é uma das causas da ineficácia, pois "mata" a competividade.
Se Vladimir Putin e a sua gente tivessem querido diversificar a economia russa, teriam feito isso e a integração na economia mundial não tem culpas neste caso.

ABC disse...

Uau! Até parece que Medvedev me ouviu e vai de começar com umas conversas em família na tv para o povo. Muito bem, todos os meses as pessoas poderão vê-lo e ouvi-lo, o que não acontece no blog, que será sempre para uma ridícula minoria. Depois o JM logo nos contará como correu a primeira, que vai para o ar no dia 15.