sábado, setembro 12, 2009

Blog dos leitores (Viagem à Rússia) Parte 4




O leitor Manuel R. Ortigão esteve recentemente na Rússia e decidiu compartilhar as suas impressões e fotografias com os restantes leitores. Aqui fica a continuação.



No 2º dia em S. Peter fomos na única excursão organizada em que participamos nesta viagem para visitar o palácio de Verão de Catarina a Grande – Tsarskoe Selo. Optámos por uma excursão porque há grandes filas para entrar no palácio e desta forma entra-se com mais facilidade para além do facto de que assim também tínhamos assegurado o transporte para o local que fica a cerca de 60 kms de S. Peter. O palácio é enorme, imponente, cheio de ouro e de uma ostentação excessiva. O parque e jardins circundantes são fantásticos, com um grande lago, à volta do qual demos um lindíssimo passeio.

No 3º dia fomos então ao Hermitage para o que chegamos bem cedo à porta do palácio no sentido de evitar a fila: o museu só abre às 10:30 e cerca das 9 já havia umas dezenas de pessoas na fila. Esperamos, entramos e pudemos então desfrutar não só das fantásticas e diversificadas colecções de arte e objectos preciosos que ali estão expostos, mas também do edifício em si mesmo.

Após umas horas de visita ao museu precisávamos era de descansar um pouco porque ao fim do dia íamos à Opera, para o que é preciso estar bem acordado e descansado! Depois de uma sesta no hotel fomos para o Marinsky Theatre, para assistir a uma ópera de Wagner: “The Flying Dutchman” para a qual tínhamos comprado bilhetes ainda em Portugal, com alguma antecedência. O Marinsky Theatre é um dos locais de maior tradição no panorama musical e de dança na Europa, pelo que era com grande expectativa que íamos para este espectáculo. E as expectativas não foram defraudadas, bem antes pelo contrário: para além da beleza da sala e do seu imaculado estado de conservação, para além da emoção de estar ali naquela cidade, rodeados de um público maioritariamente Russo, com alguns turistas pelo meio, para além de tudo isso presenciamos a uma ópera de 2 horas e meia, sem intervalo, com grandes interpretações e sobretudo com uma encenação simples, despretensiosa mas sobretudo muito eficaz no sentido de criar o ambiente necessário para o desenvolvimento da historia e sua fruição e compreensão por parte do espectador.

O 4º dia foi marcado pelas viagens de barco. Era domingo e fomos de manhã no hydrofoil até Peterhof. O hydrofoil é um barco que desliza sobre as águas do Volga em grande velocidade, sem fazer praticamente qualquer onda e que em pouco mais de meia hora nos deixou no cais do parque de Peterhof. Ai compramos um bilhete que permite visitar os magníficos parques e jardins que circundam o palácio de Verão de Pedro o Grande. Optámos por não entrar no palácio propriamente dito pelo tamanho das filas e porque achamos que a experiência seria semelhante à do palácio de Catarina, mas passear nestes parques foi novamente uma experiencia agradabilíssima. Visitamos o “Mon Plaisir” , um pequeno recanto especial de Pedro o Grande onde, segundo reza a historia, ele instalava os seus amigos mais chegados e fazia grandes boémias. Uma pequena casa toda envidraçada com excelente vistas sobre o parque e sobre o rio e mantendo intacta a decoração da época, facilmente se imagina como Pedro e os seus amigos se deveriam aqui sentir tão bem, a desfrutar os privilégios que a vida lhes proporcionava. Pudemos também apreciar as fantásticas fontes que se encontram espalhadas pelos jardins e como o dia estava quente sabia especialmente bem parar junto da água a correr. Os numerosos visitantes com que nos cruzamos durante este dia eram maioritariamente Russos, alguns de S. Petersburgo e outros que se percebia virem de mais longe. Deu para perceber de qualquer forma que esta ida de barco e passeio nos parques de Peterhoof faz parte dos hábitos de fim de semana da população local.

Ao longo deste dia, como em todos os outros, fomos apreciando algo que nunca nos deixou de surpreender: os Russos quando se fotografam uns aos outros, colocam-se sempre em poses especiais, em que o olhar, as mãos, os braços, a postura do corpo tem sempre um carácter especial, estudado e extremamente curioso aos nossos olhos, quando para eles isso é feito com toda a naturalidade. Aqui está uma diferença cultural interessante! Outra diferença cultural é também o habito de os casamentos se movimentarem para os locais públicos, com os noivos e convidados vestidos a rigor, fazendo-se acompanhar das garrafas de champagne ou vinho branco e passando uma horas nesses locais públicos a beberem, tirar fotografias e sem dúvida a divertirem-se. No próprio hydrofoil ia também uma festa de casamento, mas ao longo dos dias em S Peter foram inúmeras as festas de casamento a que presenciámos. De regresso ao centro de S Peter, novamente no hydrofoil, tivemos um almoço tardio num restaurante grego perto da Catedral e Praça de S. Isaac e dos famosos hotéis Astoria e Inglaterra. Ao entardecer fomos noutro passeio de barco, desta vez numa viagem pelos canais da cidade, o que é uma experiencia em si mesma fundamental pela perspectiva que oferece da cidade.

O 5º e último dia em S Peter foi dedicado à história política. Começamos por visitar a fortaleza de Peter e Paul com vários pontos de interesse nomeadamente a igreja do mesmo nome e o museu prisão. Na prisão nas muralhas da fortaleza estiveram encarcerados muitas pessoas famosas durante os anos que precederam a revolução de Outubro, e à porta de cada cela está uma biografia dos mais importantes hóspedes que ali estiveram. Por lá passaram entre outros Trotsky e Máximo Gorky e também Alexander Ulianov, o irmão mais velho de Lenine que no final do sex XIX organizou um atentado para matar o Tsar Alexandre III, com a sua organização “Narodnaia Volia” (A Força do Povo) que passa por ter sido a primeira organização terrorista existente no mundo. Alexander Ulianov viria depois a ser transferido para outra prisão onde seria enforcado anos antes da Revolução de 1917, e reza a historia que todos estes factos viriam a ser determinantes na formação política de Lenine. Após a Revolução de 1917 antigos ministros e dirigentes militares do Tsar aqui ficariam também presos.

De seguida e pela proximidade fomos visitar o Museu da História Política da Rússia que está instalado numa magnífica mansão que antes pertenceu à bailarina Matilda Kshesinskaya, famosa não só pelos seus dotes artísticos mas sobretudo por ter sido amante do Tsar Nicolau II que a presenteou com aquela excelente casa. Depois da Revolução os dirigentes bolcheviques apoderaram-se do local e transformaram-no num dos seus quartéis-generais onde Lenine tinha o seu escritório e de cuja uma das varandas discursava para as massas. O museu actual mostra um pouco de tudo isso: como era a vida de Matilda quando ali vivia, como ficaram algumas das salas depois da ocupação pelos dirigentes revolucionários, estando as restantes divisões repletas de documentos e adereços da história política do país, incluindo uma das boinas de Lenine!

Mais tarde fomos visitar a casa museu de Kirov, também no mesmo bairro. Kirov foi uma figura proeminente do partido bolchevique que em 1934 foi assassinado presumivelmente por Estaline. Embora nunca tenha sido “oficialmente” assumido que a sua execução foi feita a mando de Estaline, existe um consenso generalizado entre os historiadores que foi esse o caso. A casa de Kirov fica num grande apartamento de um prédio do inicio do século XX, muito moderno para a altura. O apartamento está extremamente bem reconstituído mantendo toda o mobiliário e decoração originais, permitindo imaginar como seria o estilo de vida do seu ocupante. Destacam-se os cerca de 20.000 livros que compunham a biblioteca de Kirov e os inúmeros troféus de caça por ele acumulados. Na secretária de trabalho está o manuscrito do discurso que Kirov havia preparado para proferir no dia em que foi assassinado. Ao sair do apartamento imaginei que à porta da rua estaria parado um Volga preto com o motorista à espera de Kirov para o levar para uma reunião do comité central do partido…" (cont.)

7 comentários:

Anónimo disse...

Aqui está uma redacção da 4ª classe escrita pelo... qual é o nome dele. :-D

Jose Milhazes disse...

A comentários como este diz-se que são pessoas mal-agradecidas. Sabe escrever melhor, faça-o.

Lenskiy disse...

"...que desliza sobre as águas do Volga..."

Talvez não eram as aguas de Volga...

Anónimo disse...

Lembra-se que eu o contactei porque queria saber como era a segurança e os dinheiros e essas coisitas. Já voltei, a minha viagem foi fotocópia desta, os russos preferem os euros, máquinas a dar euros, as guias que apanhei não querem nem ouvir falar em comunismo, os russos vivem mal, 80% de licenciados e muita fome, campos abandonados,..., um professor ganha 300 euros e nas férias fazem de guias e outros trabalhos, sendo o custo de vida por metade do nosso, mas gostei daquilo, catedrais por todo o lado, só mais um pormenor, não consegui ver o mausoléu do Lenine, não estava previsto nas visitas e na segunda feira, em que tentámos ir, estava fechado.Disseram-nos que estão a pensar tirar o Lenine do Kremelin ou até enterrá-lo, como era aliás sua vontade. Os armazéns do povo voram lojas de marca. Pareceu-me que um país tão rico como aquele deve estar ao serviço de alguns. Os russos não se riem, dizem que quem ri é tolo, grandes traumas da falta de liberdade de quase um século, muito mais havia para dizer, mas gostei e voltaria principalmente ao Hermitage.

Anónimo disse...

Este anonimo dos 12:06 era Jest ou Italo?

Anónimo disse...

Este anónimo é uma pessoa que gosta de viajar, de conhecer as pessoas dos países onde vai, falar com elas e tirar as suas conclusões, sempre em verdade e liberdade. Antes da queda do comunismo já tive problemas na Bulgária, mas felizmente que esse regime acabou.

Anónimo disse...

Obrigada ao sr. Manuel Ortigão pela organização na descrição da sua viagem.