quarta-feira, outubro 21, 2009

Presidente Medvedev defende desaparecimento de empresas públicas


O Presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, afirmou hoje que as corporações públicas são “uma forma desnecessária” e “terão que desaparecer”, à excepção daquelas que “funcionam na parte competitiva da economia” e deverão transformar-se em sociedades anónimas.
“Creio que, a um dado momento, escapou-se do nosso controlo a criação das cooperações estatais”, reconheceu Medvedev numa reunião com a direcção da Associação de Empresários e Dirigentes Industriais da Rússia, conhecida por “sindicato dos oligarcas”, hoje realizada.
O Presidente propôs levar até ao fim o processo de privatizações iniciado na Rússia há quase duas décadas, fazer um balanço e definir o nível óptimo de participação estatal que se manterá como orientação durante os próximos 10-15 anos.
Oito corporações públicas foram criadas por iniciativa de Vladimir Putin, quando ocupava o cargo de Presidente da Rússia, com o objectivo de fazer delas o motor do desenvolvimento económico. Porém, a maioria parte delas transformaram-se em grandes aparelhos burocráticos pouco eficazes.
Medvedev volta a insistir que é necessário modernizar a economia russa, deixar de apostar apenas na exportação de matérias-primas.
“Não se pode viver mais assim. Se não nos modificarmos, uma nova crise sepultará muitas das empresas que estão aqui representadas”, dirigiu Medvedev aos empresários.
“Os capitais ganhos no nosso país devem, em considerável medida, ser investidos no nosso país”, acrescentou.
O dirigente russo considerou a experiência de reformas económicas na China “muito interessante, muito simpática”, mas frisou que “esse não é o nosso modelo de desenvolvimento: a começar pelas dimensões da economia, pela forma da tomada de decisões e a terminar nas questões da responsabilidade por esta ou aquela questão, nomeadamente entre os funcionários públicos e os homens de negócios”.

15 comentários:

Ítalo Tavares disse...

Interessante. coisa que deverá ser feita aqui no Brasil mais cedo ou mais tarde.


70% das empresas estatais aqui são cabides de emprego que só dão prejuízo, e na melhor das hipóteses não geram dividendos positivos pro país.

Gilberto Mucio disse...

A Russia esta se tornando uma colonia, cada dia mais dependente do capital estrangeiro. E cada dia mais desindustrializada.

Put-Med -- falo em conteudo, e nao em rotulo ou estilo -- eh uma continuacao de Boris Yeltsin.

O que nao foi saqueado na epoca de Yeltsin, esta terminando de ser com Put-Med.

Gilberto Mucio disse...

[Levando em conta a economia e nao a politica em si]

Cinismo descarado do Medvedev:

[i]Medvedev volta a insistir que é necessário modernizar a economia russa, deixar de apostar apenas na exportação de matérias-primas.[/i]

Eh justamente a desindustrializacao do pais, que o esta tornando um exportador de bananas(commodities), e nao outra coisa.

A Lada, como empresa russa, esta com os dias contados. Ja eh 25% francesa, e a tendencia eh ser cada vez mais capital estrangeiro. Alem de que todos os acabamentos(kompetuyushy) ja sao importados.

A aviacao civil russa esta em frangalhos, isso porque Put-Med abriu as pernas para Airbus, em vez de investir na reformulacao da industria russa.

Eh assim em todas as areas. Me adimira esse cinismo do Medvedev em falar que a Russia nao pode ser um mero exportador de banana, quando foi justamente ele --Put-med -- um dos principais responsaveis por isso.

A Russia esta num caminho aparentemente sem volta.

MSantos disse...

"Os capitais ganhos no nosso país devem, em considerável medida, ser investidos no nosso país”

Este é o grande e verdadeiro dilema.

E esperemos que continuem a ter o bom senso de não optar pelo modelo chinês (trabalho em semi-escravatura).

Cumpts
Manuel Santos

Cristina disse...

O presidente Medvedev, que me parece não apreciar especialmente as políticas do seu antecessor, tenta (com pouco sucesso) fazer vingar as suas ideias. Mas esta mudança constante de paradigma é fonte de grande instabilidade na Rússia. Ainda há poucos anos Putin resolveu nacionalizar e fundir empresas em grandes corporações públicas porque alegadamente isso teria vantagens económicas; agora, depois de os resultados não serem famosos, quer-se fazer o contrário. O pior é que se dentro de alguns anos Putin voltar à presidência (como muitos prevêem), o país voltará às nacionalizações.
Mudar é importante, mas há coisas que deverão ter um mínimo de estabilidade, como seja a participação do Estado na economia, para que os empresários possam saber o que os espera nos próximos anos. É essa uma das razões porque "o dinheiro não é aplicado no país". Por outras palavras, quem tem dinheiro na Rússia prefere retirá-lo para o estrangeiro porque no seu país nunca sabe o que lhe pode acontecer no futuro. Só se combate a fuga de capitais gerando confiança e respeito pela propriedade privada.
Com as regras do jogo sempre a mudar, os investidores pensam duas vezes antes de aplicar o seu dinheiro no país, preferindo ir viver para Londres, onde os direitos de propriedade são melhor respeitados.

Jest nas Wielu disse...

A luta pelo poder entre Medvedev e Putin começou já ontem, mas agora insensificou-se...

Anónimo disse...

A crise económica global mostrou que o neoliberalismo fracassou. O grande problema da Rússia é cultural. Pois é a corrupção, a maior inimida de uma empresa estatal. Soma-se à isto a falta de uma cultura empreendedora...

Medvedev só estará a piorar a situação. Lembrem-se que empresas privatizadas não honram os interesses nacionais, ao vistos, que parte em mãos de estrangeiros, os lucros certamente irão fora do país.

Em alguns países evitou-se o pior da crise económica graças a força de empresas públicas (China, India, Brasil etc) mais presente do que em países que estão a sofrer mais na crise.

Os neoliberais já arruinaram muitas nações, a Rússia não poderá de cair novamente com a amarga experiência implantada pelos ChicagoBoys na era Yeltsin.

Putin tem de fazer algo. Medvedev pelos vistos não é um kukle dele.

PortugueseMan disse...

...Mas esta mudança constante de paradigma é fonte de grande instabilidade na Rússia. Ainda há poucos anos Putin resolveu nacionalizar e fundir empresas em grandes corporações públicas porque alegadamente isso teria vantagens económicas; agora, depois de os resultados não serem famosos, quer-se fazer o contrário. O pior é que se dentro de alguns anos Putin voltar à presidência (como muitos prevêem), o país voltará às nacionalizações.
..


Cara Cristina,

Mudança? eu preferia ver exactamente quais as empresas Medvedev quer privatizar. Serão mesmo essas corporações? se são, será necessário algo mais explícito quanto a isso e ainda não vejo nada que me faça pensar que são essas.

Em que corporações os resultados não são famosos? pode ser mais específica?

Ítalo Tavares disse...

"Os neoliberais já arruinaram muitas nações, a Rússia não poderá de cair novamente com a amarga experiência implantada pelos ChicagoBoys na era Yeltsin."


CHICAGO BOYS?


NA RÚSSIA?



KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

Cristina disse...

PortugueseMan

Como me pediu para ser mais específica, aqui vai mais alguma informação.

No país existem nove grandes corporações públicas:
1- RosTekhnologuii (construção de maquinaria, sector automóvel);
2- RosAtom (energia nuclear);
3- Fundo de Apoio à Reforma dos Serviços Habitacionais;
4- VEB - Banco de Desenvolvimento e Comércio Externo (sector bancário);
5- ACV - Agência de Protecção de Depósitos (sector bancário);
6- OlimpStroi (construção dos
equipamentos para os Jogos Olímpicos de Sochi);
7- OAK (construção aeronáutica);
8- OCK (construção naval);
9- RosAvtoDor ( construção de estradas).

Segundo o vice-presidente do Serviço Federal Anti-Monopólio(FAS-sigla em russo), Anatoli Golomolzin, “as corporações do Estado são formas de organização perigosas para a economia da Rússia. Elas não apenas são monopólios como combinam funções económicas e políticas”. O responsável falava esta semana no Parlamento, na “hora do Governo”. Esta conclusão teve por base a inspecção recentemente realizada pelo FAS e pela Procuradoria Geral a pedido do presidente Medvedev.
O dirigente do FAS recordou que o seu serviço já tinha alertado para tal em 2007 mas que naquela altura, “a nossa opinião não foi tida em consideração”.
O presidente da Câmara de Contas (Tribunal de Contas) da Rússia, Serguei Stepachin, também criticou as corporações do Estado, tendo dito no dia 20 deste mês num encontro em Novossibirsk:
“Infelizmente, esta forma, que parecia necessária e interessante, não teve sucesso. Esta é uma das razões por que os programas federais /de desenvolvimento/estão a ser implementados de forma tão fraca”.
Alguns exemplos:

*ACV - Agência de Protecção de Depósitos (Director-Geral: Aleksandr Turbanov) – No início deste ano, o Parlamento criticou a Agência por esta corporação apresentar prejuízos de 11,5 mil milhões de rublos em 2008.
*Banco VEB – (Presidente: Vladimir Dmitriev) - Desde o início da crise, o Estado injectou na corporação 450 mil milhões de rublos, provenientes do Fundo de Bem-Estar Nacional. O Banco Central canalizou igualmente para o VEB 50 mil milhões de dólares, com taxa de juros bonificada de 7%, para o refinanciamento dos empréstimos externos das empresas e bancos russos. Não obstante, em Março de 2009, os prejuízos do VEB eram de 41 mil milhões de rublos (dados referentes a 9 meses).
*Fundo de Apoio à Reforma dos Serviços Habitacionais (os serviços habitacionais na Rússia incluem o arrendamento, manutenção e reparação das habitações do Estado, serviços de água, electricidade, esgotos, limpeza urbana etc.).
Em 2007, o Estado canalizou para a corporação 240 mil milhões de rublos.
Em Abril deste ano, a Procuradoria Geral da Rússia efectuou uma inspecção à corporação, cujos resultados foram os seguintes: Os gastos administrativos da corporação, que tem um quadro médio anual de pessoal de 97 pessoas, foram superiores as 340 milhões de rublos (cerca de 11 milhões de dólares). Só no pagamento de prémios e subsídios aos funcionários foram gastos 235 milhões de rublos.
As despesas com os membros da direcção da corporação (director-geral, vice-directores e director do Departamento Jurídico) constituíram 55 milhões de rublos.
O presidente da Direcção da Corporação, Constatin Tsitsin, teve um rendimento anual (vencimento) de 16,5 milhões de rublos (cerca de 551 mil dólares). Como comparação, o presidente Dmitry Medvedev em 2008 apresentou rendimentos de 4,1 milhões de rublos).
*RosTekhnologuii - A corporação resultou da fusão de 440 empresas. Destas, 278 empresas são consideradas estratégicas. Em Fevereiro deste ano, o endividamento de todas as empresas da corporação era de 625 mil milhões de rublos. Num terço de todas as empresas há indícios de falência.
Fontes em russo:
http://www.strana.ru/doc.html?id=134318
http://www.novayagazeta.ru/data/2009/079/01.html
http://www.pravda.ru/news/economics/09-10-2009/326712-fas-0

Cristina Mestre

Cristina disse...

Existe ainda uma outra corporação, a RosNano (Desenvolvimento das nanotecnologias), chefiada por Anatoli Chubais.O Governo russo tem apostado neste sector, considerando que pode ser o motor da inovação na economia. Cristina Mestre

Jest nas Wielu disse...

- Tu, não liga, – sussurrou, inclinando-se o avo da Xaninha, – nós, é pá, temos … o salário…

O dia-a-dia da Xaninha na Rússia:

1. O avo e Natália abusam da vodka.
2. O noivo Aleksey andou na porrada com Natália (ele próprio afirma que levou dos locais). Até agora não conseguiu nenhum emprego.
3. Chefe da polícia local: “Ontem Natália não bebeu, hoje não posso confirmar”.
4. Departamento de controlo de crianças da Administração estatal possui uma pasta bem grossa com o material sobre a família Zarubiny. Por exemplo, no dia 15.09.2009, Natália veio foi á creche para buscar a filha em estado de embriagues. A administração de creche não quis entregar a criança. Natália armou o escândalo. A avo teve que ir buscar Xaninha.

Ler mais:
http://www.kp.ru/daily/24383/562957 (a tradução inglesa no estilo: "Do you speak London? yes very best!")
http://www.kp.ru/daily/24383/562938 (original em russo)

Anónimo disse...

"Medvedev só estará a piorar a situação."
Certíssimo!
Todos os dias e a toda a hora, esta espécie de PR está a lançar a confusão. pior que o bêbedo do yeltsin.
Como Putin se pode enganar tanto quando o escolheu?

PortugueseMan disse...

Cara Cristina,

Li a sua resposta, mas pelo o que vejo o maior problema que reportam é problemas de fiscalização e os gastos em ordenados dos elementos de gestão, o normal em empresas públicas.

Mas isto não quer dizer que os resultados não sejam famosos como diz e não se pode olhar em termos de resultados monetários líquidos.

Estas corporações não tem como objectivo principal o lucro. O objectivo destas corporações é relançar sectores de economia, injectando o componente principal, que é o dinheiro.

Estas corporações pretendem relançar sectores estratégicos, onde a Rússia detém importante know-how, mas que devido à passagem caótica dum sistema comunista para um sistema ocidental, não conseguiram florescer.

A maioria dessas empresas já teriam fechado, com perda de know-how, centenas de milhares de postos de trabalho e muitos técnicos especializados.

É necessário reconverter o tecido indústrial, absorver novas tecnologias, novas técnicas de fabrico, dar formação e produzir um produto de qualidade e que se consiga vender.

Existe um elemento primordial para isto tudo que é o dinheiro. Esse só o estado o pode dar, dado as enormes quantidades que estão a ser requeridas e só o estado pode defender o know-how russo. Pode haver empresas estrangeiras que queiram aproveitar algo do que existe actualmente, mas o resto será para deitar fora.

Relançar sectores estratégicos da Rússia de modo a não dependerem da produção de energia e não perderem o know-how que possuem é o objectivo principal.

Para este objectivo ser atingido serão necessários muitos anos e um constante fluxo de dinheiro até estas empresas começarem a poder funcionar por si próprias, gerando os seus próprios lucros.

E eu francamente ainda não vi indícios de que estes objectivos foram mudados. Isto são projectos para anos.

MSantos disse...

Ítalo Tavares

Os "Chicago Boys" são os partidários de uma corrente de pensamento económico que nasceu na década de 60 na Escola de Economia de Chicago e que promove o ultra-liberalismo sem freio e mercados desregulados cujo mentor principal foi o economista prémio Nobel Milton Friedman.

Esta corrente de pensamento foi aplicada em vários países do mundo, em particular no Chile de Pinochet, Bolívia, Rússia de Ieltsin e também na América de Bush.

Apesar da Wikipedia não ser suficientemente boa para muitos, acho que é um ótimo começo para quem quiser se iniciar nestes estudos pelo que tem aqui material para aprender:

http://pt.wikipedia.org/wiki/
Chicago_boys

http://pt.wikipedia.org/wiki/
Milton_Friedman

Se dominar o inglês, as versões nesta língua são mais ricas em informação.

Se quiser aprofundar este tema ainda mais deverá ler:

"Liberdade para escolher" - Milton Friedman

"O fim da pobreza" - Jeffrey Sachs

"A doutrina de choque" - Noami Klein

...entre outros ou as respectivas edições brasileiras.

Procure ler e informar-se.

Cumpts
Manuel Santos