domingo, novembro 15, 2009

Contributo para História de Portugal (parte 1)


No dia 13 de Maio de 1937, chegou às mãos de José Estaline e de Viatcheslav Molotov um documento conseguido pela Direcção Principal de Segurança do Estado do Comissariado do Povo para Assuntos Internos (NKVD, antecessor do KGB) junto de “uma fonte próxima do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Polónia.
Tratava-se de um resumo de uma conversa entre Karl Dubic-Penter, embaixador polaco em Lisboa, e Oliveira Salazar, chefe do Conselho de Ministros de Portugal.
Publico a tradução integral do documento de russo para português, pois ele revela algumas das ideias de Salazar sobre política interna e externa.
“No dia de 13 de Março, eu fui recebido por Salazar, ditador de facto de Portugal, que desde Outubro de 1936 ocupa o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros. Salazar é, desde 1928, ministro das Finanças e, desde 1932, primeiro-ministro.
A minha visita foi motivada pelo facto de, antes de entregar as credenciais, dever ser recebido pelo ministro dos Negócios Estrangeiros. Visto que Salazar está muito subcarregado de trabalho e está muito ocupado, a minha visita e entrega de credenciais diplomáticas ocorreram com um certo atraso. A minha conversa com Salazar durou mais de uma hora. Quero expor abaixo os momentos mais importantes e característicos dela.
Salazar, tal como todas as camadas da população portuguesa que apoiam a actual ordem de coisas, receia a infiltração do comunismo e a actividade subversiva da III Internacional. Salazar perguntou-me como é que a Polónia conseguia controlar a acção da Comintern, não obstante ter uma longa fronteira comum com a URSS. Ao caracterizar-lhe a situação na faixa fronteiriça e ao chamar a atenção para uma espécie de vacina preventiva através do contacto directo, eu falei-lhe da criação da K.O.P. (Corpo de Protecção de Fronteiras), das causas, da organização do trabalho e resultados, bem como do nosso estudo da organização, dos métodos de trabalho e da constituição pessoal da Comintern, que se tornou um ponto de partida no nosso trabalho bem sucedido.
Visto que eu tinha sido incumbido pelo chefe do Estado-Maior e pelo chefe do 2º Departamento de estabelecer com o Governo português, na base do intercâmbio de informação sobre a III Internacional, cooperação que prevê também a prestação de ajuda da nossa parte na tarefa de organização de espionagem e de actividades de segurança, eu propus a Salazar ajuda nesse sentido. Salazar recebeu a minha proposta com extrema benevolência e garantiu-me que irá utilizar amplamente essa possibilidade.
Depois, a nossa conversa passou para o tema das nossas relações com a União Soviética, compreendendo Salazar muito bem a situação. Depois, o primeiro-ministro fez-me uma pergunta sobre a acção do coronel Koz.
Realizando uma certa analogia com a criação, em Portugal, da “Unio Nacional”, ele expôs-me os pontos fundamentais do seu programa. Salazar interessou-se muito pela actividade de partidos políticos no nosso país, pelo papel que eles desempenham na vida estatal, parlamental, cultural e educativa do país. Eu desenhei-lhe um quadro da situação até Maio de 1926 e mais tarde. Eu expus-lhe as bases da nossa Constituição e os médotos na sua realização prática.
Depois, passámos para o tema de Espanha. Salazar deseja ao general Franco uma vitória rápida e definitiva, sem a qual será difícil criar um governo forte e operativo na nova Espanha. Se vencerem os comunistas, considera Salazar, surgirá um sério perigo não só para Portugal, mas também para a Europa Ocidental. À luz disso, ele expôs-me uma caracterização clara do papel de Inglaterra.
A Inglaterra tem receio do fascismo. Isso explica a sua indecisão e meias-medidas na questão espanhola. Infelizmente, a Inglaterra, enquanto Estado com sólidas tradições parlamentares, tem de voltar novamente, com base nos erros cometidos, a convencer a sua opinião pública, o que provoca perda de tempo e ritmos vagarosos da evolução decorrente.
Salazar disse textualmente o seguinte: “Eu tentei ardentemente aqui convencer os ingleses a prestarem assistência ao general Franco e a garantir a si próprios, através da iniciativa, influência decisiva no desenrolar dos acontecimentos; infelizmente, eles não se decidiram a fazer isso e, por conseguinte, o seu lugar foi ocupado por alemães e italianos, e isto, por sua vez, fez afastar os ingleses. Porém, agora, eles conseguiram guardar para si a última palavra, mas agora é difícil dizer se o arrastar da situação não enfraquece as forças do general Franco”.
(Cont.)

7 comentários:

fangueiro.antonio disse...

Boas José.

Do maior interesse este documento que nos traduz. Aguardo por mais.

Atentamente,
www.caxinas-a-freguesia.blogs.sapo.pt

fangueiro.antonio disse...

José,

KOP(em Polaco) = Korpus Ochrony Pogranicza (Corpo de Protecção de Fronteiras), formada em 1924 por Sikorski para controlar os frequentes ataques terroristas comunistas em solo polaco.

Atentamente,
www.caxinas-a-freguesia.blogs.sapo.pt

Jose Milhazes disse...

Caro António, muito obrigado pela informação.

Anónimo disse...

Na foto, o Salazar parece o Dracula.

Jose Milhazes disse...

Leitor anónimo, não fui eu que o desenhei.

Maquiavel disse...

Parem de ofender o Drácula!

Com que entäo o António das Botas queria que uma democracia parlamentar (Reino Unido) apoiasse um rebelde fascista? Com que bases? Que ele restabeleceria a monarquia em Espanha?

O energúmeno andava alheado do Mundo já em 1937, näo foi só em 1961...

Luis Almeida disse...

Maquiavel, as democracias não defendem democracias, defendem apenas os seus interesses geopolíticos.
Exemplo: não se contam pelos dedos das mãos quantas ditaduras de direita o governo americano apoiou durante a guerra fria.