quarta-feira, novembro 04, 2009

Governo russo surpreendido com decisão da General Motors de cancelar venda


O Governo russo ficou “surpreendido” com a decisão do grupo General Motors (GM) de cancelar a venda da sua filial europeia Opel ao consórcio Magna/Sberbank, declarou hoje Dmitri Peskov, porta-voz do primeiro-ministro russo.
“A GM passou a gestão da Opel para o consórcio que, de facto, já tinha aprovado a transacção, e o consórcio já decidira os próximos passos a dar. Por isso, surpreende-nos a decisão de cancelar a venda”, explicou.
Dmitri Peskov acrescentou que a Magna/Sberbank planeia realizar consultas com a GM e fazer uma profunda análise jurídica da situação, mas o Governo russo não participará nesses trabalhos.
Ele recordou que o Governo russo apoiou a compra da Opel pelo consórcio canadiano-russo Magna/Sberbank.
“O Governo estava disposto a assumir os riscos para diminuir a carga sobre o Governo alemão e, tendo em conta os planos da Magna/Sberbank, investir no desenvolvimento da indústria automobilística russa”, frisou o porta-voz de Vladimir Putin.
Ao comentar a transição em si, Peskov considerou-a “realista e fundamentada do ponto de vista económico e social”.
“É o resultado de um amplo trabalho levado a cabo pela Magna/Sberbank e pela General Motors. A venda da Opel foi acordada com a GM e com os governos dos países onde a Opel tem empresas”, concluiu Dmitri Peskov.
As autoridades russas desdramatizam a decisão da GM, mas prometem problemas ao avanço da Opel na Rússia.
Uma fonte do Governo russo citada pela agência Ria-Novosti assinalou que a empresa canadiana Magns e o banco russo Sberbank tencionavam investir no alargamento da produção e no aumento das vendas da Opel no mercado russo.
Porém, conhecida a decisão da GM, a fonte governamental “neste caso, não irá receber nada. Há outras grandes empresas automobilísticas a concorrer com a Opel no mercado russo. Por isso, o optimismo exagerado da GM no que respeita ao melhoramento da conjuntura, neste contexto, pode ser infundado”.

Parece-me que os conservadores norte-americanos conseguiram uma vitória, considerando ter assim impedido a cedência de alta tecnologia à Rússia. Se assim foi com a Qimonda e é com a Opel, estas decisões podem agudizar as relações não só entre a Rússia e os Estados Unidos, mas entre estes e alguns países da Europa. O facto de a decisão ter sido tomada quando Angela Merkel, chanceler alemã, se encontra de visita aos EUA, é uma humilhação dupla para a Alemanha.

Uma coisa parece ser certa: a Opel vai ter sérios problemas no mercado russo, bem como a GM em geral. Esta medida foi também uma bofetada para o Kremlin, que considerava o negócio já encerrado.

45 comentários:

Anónimo disse...

É só destas coisas. Os Ocidentais a enganar os Russos. E estes caem quase sempre.
Mas depois os russos é que são "paranoicos".

PortugueseMan disse...

Esta medida foi também uma bofetada para o Kremlin, que considerava o negócio já encerrado.

O negócio já estava considerado encerrado por toda a gente.

A meu ver este caso pode ficar mais sério. É que a bofetada não foi para a Rússia, foi para a Alemanha.

A Alemanha andou meses a tentar resolver o problema da Opel, avançou com dinheiro e até acordos foram feitos com os sindicatos, os trabalhadores cederam nos ordenados, prémios e aumentos e sabiam que milhares de postos iriam ser eliminados.

Isto foi tudo negociado por vários meses. Merkel meteu-se à frente e disse explicitamente que queria o consórcio onde os russos participavam e agora a GM dá um pontapé nisto tudo?

Penso que a situação é grave demais para passar em branco e não será a Rússia que se vai mexer aqui.

É claro que o que os EUA querem é impedir a passagem da tecnologia para a Rússia, mas fizeram isto com a Alemanha e a Alemanha não é um país qualquer e pode bem dar uma resposta dura.

Já existiu uma situação semelhante há poucos anos em que a Alemanha deu um murro na mesa e nessa altura os EUA estavam económicamente saudáveis.

E sinceramente a Rússia não perde totalmente nesta situação. Porque as relações entre a Alemanha e Rússia não saem enfraquecidas neste caso, pelo o contrário.

Vamos ver os próximos episódios.

PortugueseMan disse...

E já agora caro JM,

Pode ser interessante deitar um olho à Renault/ AvtoVAZ, porque isto também terá implicações com a situação da Opel.

Podemos dizer que neste momento para a Rússia, a Opel e a Renault são os parceiros estratégicos para relançar o sector automóvel russo.

Uma vez mais estamos a falar da Alemanha e França, que são os principais aliados da Rússia em vários sectores.

Vamos ter que ter aqui algumas decisões rápidas nos próximos dias a meu ver.

Jest nas Wielu disse...

off top

Alguns anónimos falavam recentemente do clã da Lviv, no entanto, em Moscovo, na praça Bolotny, teve o lugar a “Marcha russa”, alguns slogans da marcha:

À terra russa – a ordem russa, à terra russa – o poder russo!
Libertaremos a nação russa – fecharemos a imigração do sul!
Dos inimigos fazemos a (carne) moída – isso irmão, é a marcha russa!
Moscovo – a cidade russa,
Etc,
Etc,
Etc
http://www.dpni.org/articles/
lenta_novo/13700

++
Andrei Shiropaev: “Stalin é a quintessência da nação russa”
http://shiropaev.livejournal.com/38054.html

+++
A TV estatal chinesa começou os programas em russo, será que a Rússia conseguirá manter o Estremo Oriente?
http://russian.cctv.com/01/index.shtml

MSantos disse...

Ouvi esta notícia logo pela manhã na rádio e apercebi-me logo da monumental jogada política por trás disto.

Discordo da ideia que sejam só os conservadores envolvidos nesta manobra. Penso que no geral, os políticos norte-americanos mesmo os democratas, são muito sensíveis a eventuais transferências de tecnologia para potências estrangeiras em particular a Rússia ou a China.

Tal como certas posições dos russos são compreensíveis pois são na defesa e perservação dos seus interessses, a mesma coisa se passa relativamente a este caso em relação aos norte-americanos: estão somente a proteger os seus interesses.

Cumpts
Manuel Santos

MSantos disse...

No meu ponto de vista acho mil vezes mais escandaloso e anti-ético o que se passou com o programa KC-X, de fornecimento da nova frota de aviões-tanque à USAF.

A NORTHROP em consórcio com a europeia (maioritáriamente alemã) EADS tinha ganho o concurso para fornecimento de cerca de 180 aviões A330 e o lobby BOEING interveio e houve cancelamento da adjudicação.

Em linguagem de crianças: se tu ganhas, assim não vale!

Esta foi uma das maiores subversões de um processo de competição económica em mercado livre e aberto que os EUA tanto defendem apenas para praticar proteccionismo camuflado e desleal de um gigante norte-americano.

Ou seja, a economia de mercado e competitividade só são válidas quando estão do lado das grandes corporações/grupos económicos norte-americanos.

Isto obviamente resultou num grande rombo para a carteira de encomendas da EADS, AIRBUS e outras empresas europeias.

Cumpts
Manuel Santos

António Campos disse...

Caro José,

A motivação da GM foi acima de tudo económica e, na minha opinião, faz bastante sentido. NA verdade, a GM, quando se viu forçada a pôr à venda o negócio da Opel no ano passado, teve propostas que eram muito mais lógicas do ponto de vista empresarial do que a oferecida pelo consórcio Magna-Sberbank (tais como a da Fiat e a da RHJ). No entanto, a opção favorecida pelo governo alemão foi a da Magna, pela simples razão de que o consórcio prometeu preservar a maioria dos postos de trabalho alemães, o que ficaria muito bem na fotografia, especialmente em época de eleições. Foi por isso que o governo alemão ofereceu a este negócio (e a mais nenhuma das outras alternativas) garantias no valor de 4,5 mil milhões de euros. E na verdade, este negócio tinha virtudes discutíveis até para a Magna, uma vez que sendo a mesma um fabricante de peças, a entrada no mercado do fabrico de veículos completos geraria um incómodo conflito de interesses que decerto afectaria o seu negócio principal. Por exemplo, a Volkswagen terá ameaçado cortar relações comerciais com a Magna se o negócio fosse avante.

O posicionamento alemão de favorecer a Magna na condição de preservar postos de trabalho locais viola a regulamentação europeia do mercado único, tendo sido essa a abertura que a GM aproveitou para fugir de um negócio pelo qual nunca andou perdida de amores e que tinha levantado vozes de indignação nos corredores de Bruxelas, por ser considerado um favorecimento injusto de um país em particular com objectivos políticos.

Após um pedido de explicações pela comissária europeia para a concorrência, o governo alemão foi forçado a admitir publicamente que o auxílio governamental estaria em princípio disponível fosse para quem fosse, e a GM viu a oportunidade e agarrou-a.

Assim, as actuais exigências da devolução dos auxílios por parte do governo alemão, em retaliação pela não concretização do negócio, serão seguramente sol de pouca dura, caso se pretenda assegurar o futuro da Opel na Alemanha. Além disso, o plano de reestruturação da Opel proposto pela GM é substancialmente mais barato do que o proposto pela Magna.

Por seu lado, os britânicos estão radiantes com a decisão.

Relativamente à “análise jurídica da situação”, não me parece que dê nalguma coisa, uma vez que a GM é um dos principais clientes da Magna.

António Campos

Ítalo Tavares disse...

"É só destas coisas. Os Ocidentais a enganar os Russos. E estes caem quase sempre.
Mas depois os russos é que são "paranoicos"."


SE FOSSEM UM ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO TALVEZ FOSSEM MAIS RESPEITADOS. UM PÁIS QUE NÃO SE DÁ RESPEITO NÃO O MERECE.

António Campos disse...

Também deve ter pesado na decisão a perspectiva sinistra de a GM passar a ser accionista minoritária de um consórcio que ficaria à mercê das maquinações do empresário sem escrúpulos (e agora, provavelmente, o maior insolvente do planeta) chamado Oleg Deripaska.

António Campos

anónimo russo disse...

Jest nas Wielu disse...
off top

"Alguns anónimos falavam recentemente do clã da Lviv, no entanto, em Moscovo, na praça Bolotny, teve o lugar a “Marcha russa”, alguns slogans da marcha:

À terra russa – a ordem russa, à terra russa – o poder russo!
Libertaremos a nação russa – fecharemos a imigração do sul!
Dos inimigos fazemos a (carne) moída – isso irmão, é a marcha russa!
Moscovo – a cidade russa,"

São nacionalistas. Como voce. Só que há uma diferença: eles agem nas ruas, dando e levando golpes, e não à noite, na internet, escondidos por detras de um "nick" sem sentido, sujando nalgum blog "da Ucrània". Hehe.

anónimo russo disse...

Hoje surgiu a notícia de que foram detidos os assassínos do advogado Margelov e da jovem joranalista que estava perto dele no momento do asasalto (não me lembro do nome).
È uma notícia para aqueles, que acusam o governo rússo de estar por detras destes assassínios, e para aqueles que mentem, que a imprensa russa não investiga crimes de nacionalistas, skinheads e outros (os supostos assassínos foram ex-membros de uma organização nacionalista radical, parece, proibida atualmente). Repito: a imprensa russa investiga, e muito. Só que é preciso ler esta imprensa.

Tambem, a notícia do assassinato apareceu logo neste blog, com o barulho do costume:) E a notícia de hoje, ainda não. No entanto, este caso parece muito mais prosáico de que alguns esperavam.

kakaroto disse...

será que os Estados Unidos deram um tiro No Pé?

Oblonsky disse...

Tudo indica que teremos um novo conflito entre russia e georgia. É questão de tempo.

Anónimo disse...

"Se assim foi com a Qimonda"? Essa é para rir? Quem não quer a Qimonda são os russos.

Anónimo disse...

"Também deve ter pesado na decisão a perspectiva sinistra de a GM passar a ser accionista minoritária de um consórcio que ficaria à mercê das maquinações do empresário sem escrúpulos (e agora, provavelmente, o maior insolvente do planeta) chamado Oleg Deripaska."

Pois!

Azar da Rússia não ter empresários e gestores honestos e escrupulosos, livres de tenebrosas e sinistras ramificações como Dick Cheney ou Donald Rumsfelsd.

anónimo russo disse...

António Campos disse...
Caro José,

"A motivação da GM foi acima de tudo económica e, na minha opinião, faz bastante sentido. NA verdade"

Realmente, na sua opinião. Mas já na opinião do diretor da GM Europe, cujo nome eu já esqueci, "é dificil de explicar". Esse mesmo diretor da GM Europe anunciou ontem a sua possivel demissão como um ato de protesto contra essa mesma decisão da GM.

António Campos disse...

Qualquer pessoa com dois dedos de testa e um mínimo de conhecimentos de economia percebe em dois minutos que o negócio GM-Magna não fazia sentido nenhum do ponto de vista empresarial. Com a venda da Opel, a GM perderia a capacidade de concorrer no mercado global de automóveis e, pior que isso, estaria a criar um concorrente às suas próprias marcas no mercado europeu. Por outro lado, apenas pelo capricho do dono da Magna de se transformar num fabricante de automóveis, esta empresa canibalizaria o seu negócio principal, uma vez que afastaria muitos dos sues principais clientes. Aliás, logo que o colapso do negócio foi anunciado, as acções da Magna registaram uma subida drástica, sinal de que o mercado de capitais não via de todo o negócio com bons olhos.

A verdade é que a GM, independentemente dos erros de gestão que tenha cometido no passado, foi forçada a alinhar neste negócio numa altura em que estava desesperada por sobreviver, através de uma manobra de chantagem com conotações altamente políticas por parte do governo alemão disposto a comprar votos subsidiando uma indústria com um tremendo excesso de capacidade.

Em condições normais, este negócio NUNCA teria sido contemplado.

Por outro lado, o elevadíssimo risco de envolver parceiros russos, especialmente ligados ao estado, terá certamente sido um elemento de peso na decisão. Estão ainda frescas na memória do meio empresarial as maquinações do Alfa Group para se apoderar de activos do consórcio TNK-BP, nas quais executivos da BP viram recusado o visto de entrada na Rússia e abundaram acusações de “espionagem” sobre funcionários da empresa, o terrorismo regulamentar de Putin sobre a Shell para a forçar a vender a sua posição na exploração de Sakhalin quando considerou que já não precisava da empresa, o caso Hermitage Capital, ao qual já me referi exaustivamente, a disputa entre o Alfa Group e a telco norueguesa Telenor, bem como a recente chantagem de Putin sobre a Renault para a obrigar a meter mais dinheiro no saco sem fundo que é a Avtovaz, contrariamente ao inicialmente acordado.

Assim, em vez de andar a acusar toda a gente e mais alguma de mais um conluio contra a Rússia (que sinceramente me faz brotar um bom par de gargalhadas), os poderes vigentes deveriam pensar seriamente no que há que mudar para que mais do que empresas entre a espada e a parede considerem a Rússia como uma opção viável de investimento.

Para convencer empresários estrangeiros é necessário muito mais do que o canto de sereia de Putin em Sochi em Setembro.

“Fool me once, shame on you! Fool me twice, shame on me!”

António Campos

Pippo disse...

Aparentemente, a decisão de não vender a Opel ao consórcio canadiano-russo foi baseada em sólidas razões económicas. Razões essas que escapam ao presidente da GM Europe e ao governo alemão.

Só não vê quem não quer que as razões foram políticas.

Berlin, Germany (CNN) -- The president of General Motors Europe, Carl Peter Forster, plans to resign in the wake of GM's decision this week not to sell its European wing, a source told CNN on Friday.

Forster will leave in the coming days, said the source, who declined to be named because the resignation is not yet official.

German media speculated that GM executive Nick Reilly could take Forster's place. The source said it is likely Reilly could take over in the interim, but that GM may seek a manager from outside the company to head the division in the long term.

General Motors announced this week that it has decided to keep its European Opel unit, canceling its planned sale to Canadian firm Magna.

Forster had been a strong supporter of the Magna deal and had criticized GM's U.S. management for letting the deal fall through.

The GM board of directors said an improving business environment over the past few months and the importance of Opel and its British brand, Vauxhall, to GM's global strategy were reasons to keep Opel.

The deal was a setback for Magna and the German government, which had brokered the deal.

The German government loaned Opel $2.1 billion this year to assist with completing the sale. At the same time, 65 percent of Opel's stock was transferred into a trust controlled jointly by representatives of GM and the German government.

The German government has demanded that GM return the money by November 30.

http://www.cnn.com/2009/BUSINESS/11/06/gm.resignation/index.html

MSantos disse...

Apenas os esforços dos americanos em tentar manter e perservar o seu domínio económico num mundo multipolar.

E nem ponho em causa que não sejam legítimos.

Cumpts
Manuel Santos

anónimo russo disse...

Pode ser que GM realmente se tenha sentido melhor economicamente. Mas, claro, de maneira nenhuma foi por medo de trabalhar com os russos. Se alguns russófobos tentarem olhar calmamente para as coisas, verão que neste caso foi a GM que se comportou de uma maneira não muito decente.

anónimo russo disse...

Um artigo interessante em russo sobre o assunto, que cita opiniões de vários analistas estrangeiros. Mas nenhum deles diz de algum medo das companhías em questão de ter companhías russas como parceiros. Porque seria, sr. Campos?

http://www.vedomosti.ru/tnews/news/2009/11/05/384

anónimo russo disse...

Acabo de saber que a maior parte das acções da GM pertense ao governo norte-americano. Será que, se isso é verdade, podemos falar só de motivos económicos?

PortugueseMan disse...

Acabo de saber que a maior parte das acções da GM pertense ao governo norte-americano. Será que, se isso é verdade, podemos falar só de motivos económicos?

Anónimo russo, antes de começar por lhe responder, apenas uma correcção: escreve-se "pertence".

Relativamente à sua pergunta, sim a GM foi "nacionalizada". Como tantas outras empresas nos EUA. Foi a solução encontrada de modo a evitar a falência de um dos maiores contrutores de automóveis.

Claro que não foram os motivos económicos a razão do recuo. Foram políticos. A Opel iria passar para as mãos russas, o know-how iria ser transferido.

É importante salientar que quando a GM entrou em falência a Administração Obama entrou em acção e uma das coisas que fez foi mudar a direcção e colocar outros responsáveis para lidar com a situação.

Isto aconteceu há alguns meses atrás. Tomaram a decisão,agora vamos ver de onde vem o dinheiro.

Para mim o objectivo principal foi atingido, impedir que a Rússia desenvolva o seu sector automóvel. E esse objectivo está em parte atingido, porque estas coisas levam anos e isto vai definitavemente colocar um grande atraso ao desenvolvimento e vai obrigar a Rússia a desembolsar maiores quantias de dinheiro para manter à tona a sua indústria automóvel.

É um preço caro e interrogo-me se haverá algum tipo de resposta por parte da Rússia.

Para a Alemanha se forem criadas condições semelhantes que tinha a Magna, com a salvaguarda de postos de trabalho, qualquer solução será aceitável.

António Campos disse...

Esta mania da perseguição, ainda que previsível, já que é sempre boa para consumo interno, dá sempre vontade de rir. Até agora, o departamento do comércio americano não se tem preocupado grandemente, por exemplo, com a maciça transferência de alta tecnologia para a China (um mercado extremamente problemático do ponto de vista da protecção da propriedade intelectual, como todos sabemos), através do estabelecimento de joint-ventures entre empresas de ambos os países, muitas vezes ligadas ao que muita gente costuma etiquetar como “sectores estratégicos”. Ainda que existam alguns analistas que afirmem que se deve proceder com cuidado (por razões óbvias, e quanto mais não seja, para garantir reciprocidadee a protecção da tecnologia patenteada), os critérios usados em todas as situações são fundamentalmente económicos. Aliás, as big-three da indústria automóvel americana (Chrysler, GM e Ford) exploram joint-ventures na China e recorrem em grande medida a fornecedores locais, o que implica uma maciça transferência de tecnologia.

Por outro lado, a administração Obama nunca colocou entraves ao negócio com a Magna, tendo o presidente americano sido um dos primeiros a felicitar a chanceler Merkel na iminência da assinatura do acordo. Os mais vocais críticos/cépticos relativamente ao negócio foram não os americanos mas o mercado de capitais em geral, a Comissão Europeia e os governos dos países que iriam ser negativamente afectados, nomeadamente, o Reino Unido, a Espanha e a Bélgica. Sabe-se que o acordo levou uma eternidade a avançar exactamente pelas dúvidas colocadas pela Comissão quanto à legalidade do negócio e ao possível favorecimento de um país em particular em detrimento de outros, através do uso do “suborno” alemão das garantias bancárias para desalojar os outros concorrentes. E mais interessante ainda é o facto de os novos membros da coligação governamental com Merkel (o FDP, democratas liberais) estarem abertamente contra o negócio.

Por seu lado, os sindicatos espanhóis já tinham ameaçado com greves se o negócio fosse adiante. E protestos noutros países estavam na manga.

Estarão Nellie Kroes, Peter Mandelson (reputado amigalhaço de Deripaska), Dirk Pfeil, o FDP em geral, todos os países afectados negativamente pelo negócio e o mercado de capitais internacional todos a soldo dos falcões norte-americanos empenhados em pôr a Rússia de joelhos? Seria preciso ter uma imaginação infinitamente fértil, quase estalinista, para o engolir.

Aliás, desafio quem quer que seja a explicar o racional económico de uma decisão de uma empresa livrar-se, sem precisar disso, de um braço fundamental da sua estratégia global, incorrendo com tal em custos para os contribuintes europeus 50% acima dos necessários.

O que é verdadeiramente impagável nesta história é a reacção (que raia os píncaros da hipocrisia) de Putin ao afirmar que “terá que ter em conta este estilo de negociação com parceiros no futuro, embora esta abordagem desdenhosa às parcerias afecte principalmente os europeus, e não nós”.

Percebemos então que o Vladimir acha que o pão que ele próprio amassou sabe um bocado a azedo.

António Campos

PortugueseMan disse...

...desafio quem quer que seja ...

Quem quer que seja? Você desafia? e acha-se capaz com aquilo que escreveu? é que é demasiado fácil, nem chega a dar luta.

Por falar em desafios, já apresentou aqui a fonte dos dados relativamente à nossa discussão anterior?

é que ainda estou à espera.

anónimo russo disse...

António Campos disse...
"Esta mania da perseguição, ainda que previsível, já que é sempre boa para consumo interno, dá sempre vontade de rir. Até agora, o departamento do comércio americano não se tem preocupado grandemente, por exemplo, com a maciça transferência de alta tecnologia para a China (um mercado extremamente problemático do ponto de vista da protecção da propriedade intelectual, como todos sabemos), através do estabelecimento de joint-ventures entre empresas de ambos os países, muitas vezes ligadas ao que muita gente costuma etiquetar como “sectores estratégicos”. Ainda que existam alguns analistas que afirmem que se deve proceder com cuidado (por razões óbvias, e quanto mais não seja, para garantir reciprocidadee a protecção da tecnologia patenteada), os critérios usados em todas as situações são fundamentalmente económicos. Aliás, as big-three da indústria automóvel americana (Chrysler, GM e Ford) exploram joint-ventures na China e recorrem em grande medida a fornecedores locais, o que implica uma maciça transferência de tecnologia."

Sobre a China, você não leu o artigo qeu eu recomendei?

http://www.vedomosti.ru/tnews/news/2009/11/05/384

anónimo russo disse...

Tambem, ouvi a opinião de alguns analistas que dizem que, nas condições atuais (as condições ANTES da crise eram diferentes daquilo que temos hoje, não é, sr. Campos?), EUA pode simplesmente enterrar Opel, porque tem modelos semelhantes para promover, mas totalmente americanos.

MSantos disse...

Caro António Campos

Relativamente à actual administração norte-americana permitir transferência de tecnologia para a China, gostaria de conhecer esses casos ou pelo menos alguns.

A administração Clinton foi inflexível nesse ponto e as que houve, foram fugas.

Os próprios russos já aprenderam depois do célebre caso da clonagem do SU-27.

Cumpts
Manuel Santos

anónimo russo disse...

António Campos disse...
"Esta mania da perseguição, ainda que previsível, já que é sempre boa para consumo interno, dá sempre vontade de rir. Até agora, o departamento do comércio americano não se tem preocupado grandemente, por exemplo, com a maciça transferência de alta tecnologia para a China (um mercado extremamente problemático do ponto de vista da protecção da propriedade intelectual, como todos sabemos), através do estabelecimento de joint-ventures entre empresas de ambos os países, muitas vezes ligadas ao que muita gente costuma etiquetar como “sectores estratégicos”. Ainda que existam alguns analistas que afirmem que se deve proceder com cuidado (por razões óbvias, e quanto mais não seja, para garantir reciprocidadee a protecção da tecnologia patenteada), os critérios usados em todas as situações são fundamentalmente económicos. Aliás, as big-three da indústria automóvel americana (Chrysler, GM e Ford) exploram joint-ventures na China e recorrem em grande medida a fornecedores locais, o que implica uma maciça transferência de tecnologia."



Na Rússia tambem há fabricas de ford e outras companhias, mas, por exemplo, no artigo que eu referi (o link, parece, não funciona aqui), analistas estrangeiros dizem que a alguns países do BRIC é dificil ou por enquanto impossivel ficar proprietários de empresas ocidentais chamadas estrategicas, enquanto são sempre bem vindos para investir nas montes dos papeis que um dia podem desvalorizar (se assim quiserem os poderes financeiros dos EUA).

PortugueseMan disse...

MSantos,

Os próprios russos já aprenderam depois do célebre caso da clonagem do SU-27.

Mas eles não conseguiram clonar o motor como deve de ser. O motor chinês tem montes de problemas.

Se não estou em erro tanto o J-11 (o clone do SU-27) como o J-10 (o novo deles), ainda estão a ser equipados com motores russos. E devem estar a ser muito bem pagos.

E parece haver mais uns tantos sistemas no avião que a versão chinesa é inferior.

anónimo russo disse...

Realmente, seria bom conhecer exemplos concretos no caso da China. Não sou especialista nesta área, mas a informação que li diz o contrário: um caso, semelhante ao da Opel aconteceu não há muito com a companhia australiano-britanica Rio Tinto e a Chinalco chines, onde os representantes da primeira cancelaram tudo logo que se sentiram um pouco melhor. E todos estão a espera para ver como vai terminar o caso da Volvo que tambem devia ser comprada por chineses, mas, com o passar do tempo surge cada vez mais dúvidas e os especialistas dizem que a transação prevista fica cada vez mais semelhante ao caso da Opel.

MSantos disse...

PortugueseMan

Até o J-10 é uma clonagem.

Provavelmente houve aquisição dos planos do defunto LAVI isrealita.

O J-10:

http://en.wikipedia.org/wiki/Chengdu_J-10

O LAVI:

http://en.wikipedia.org/wiki/IAI_Lavi

Descubra as diferenças.

;)

Cumpts
Manuel Santos

anónimo russo disse...

Sr. Campos está sem argumentos? Onde estão os exemplos concretos?

António Campos disse...

Uma táctica comum dos ilustres comentadores putinófilos neste fórum é a de tentarem desviar o foco da discussão do tema central para questões laterais, provavelmente por falta de capacidade de argumentação para debater o fulcro da questão. Mas uma vez que insistem em bater na mesma tecla não se percebe muito bem porquê, não posso deixar de dizer que é assombroso achar que, com o volume de investimento directo dos Estados Unidos em unidades industriais localizadas na China, incorporando mão-de-obra e fornecedores locais, não ocorram maciças transferências de tecnologia. Pura e simplesmente, não existe forma de tal não acontecer.

É evidente que, por razões mais do que claras, as empresas tentam proteger a sua propriedade intelectual e muitas vezes retraem-se de transferir mais tecnologia do que a estritamente necessária para dar corpo ao seu plano de negócios. Especialmente num país onde se verifica pouco respeito pela protecção da propriedade intelectual (embora tal esteja a mudar com a admissão da China na OMC). Mais uma vez, os critérios usados na transferência de tecnologia são estritamente económicos: estabelecimentos de barreiras à concorrência, seja ela leal ou desleal e, à excepção da tecnologia susceptível de ter utilizações militares, a política não tem nada que ver com o assunto.

Por outro lado, existe agora um incentivo forte para a transferência de tecnologias “verdes” para a China, no sentido de contrapor ao carácter extremamente poluente de uma grande parte do seu sector industrial.

Exemplos muito bem documentados são, por exemplo, a GE-Wind, a Beijing-Jeep, a Shanghai-GM (incidentalmente, a GM é considerada como uma das empresas mais generosas em termos de transferência de tecnologia) e a Shang’an-Ford. Se quiserem saber mais sobre estes casos, façam o trabalhinho de casa.

Voltando ao verdadeiro cerne da questão, continuam por explicar os tais racionais económicos que apontariam para uma possível atractividade empresarial da compra da Opel pela Magna, e que terão sido alegadamente “contrariados” por uma manobra política americana. Mas não tenho ilusões: ficaria bastante surpreendido se alguma explicação coerente para tal aparecesse neste fórum.

A verdade é que a habitual retórica anti-americana, tão útil para consumo interno, não resiste aos factos, por um lado, de as verdadeiras motivações políticas envolvidas no negócio terem tido exclusivamente origem na Alemanha, que tentou uma manobra de chantagem sobre a GM, com um favorecimento ilícito de um concorrente à aquisição(no sentido de comprar votos) e por outro, talvez ainda mais importante, de que a Rússia está muitíssimo longe de ser um local atractivo para investidores estrangeiros, pelas razões que todos sobejamente conhecemos.

António Campos

anónimo russo disse...

1.

"Exemplos muito bem documentados são, por exemplo, a GE-Wind, a Beijing-Jeep, a Shanghai-GM (incidentalmente, a GM é considerada como uma das empresas mais generosas em termos de transferência de tecnologia) e a Shang’an-Ford. Se quiserem saber mais sobre estes casos, façam o trabalhinho de casa."

Eu já disse, fabricas de produtóres estrangeiros nós já temos aqui. Outra coisa é vender o negócio inteiro. O sr. não tem exemplos concretos (com a China)? Neste caso o importante é não apenas alguns segredos tecnológicos, mas toda a estrutura da geréncia da empresa. Mas mesmo assim, o que aconteceu não foi uma tragédia irreversivel para a Rússia.

2. Essa mania de repetir a mantra "consumo interno, consumo interno" é mesmo surpreendente. Deixe-me lhe revelar um segredo: nós aqui no mínimo não somos mais tolos que o sr. No mínimo.


Se a GM tinha razões económicas para a venda ou não só sabe a diração da companhia, mas, de maneira nenhuma o sr. Campos.
Eu tambem não sei. Mas o que aconteceu não é uma tragédia para Rússia.

PortugueseMan disse...

Bom, com estes "arrozoados" acerca da GM/Opel, se calhar é melhor recapitularmos a evolução deste assunto.

Em 2008, com a agudizar da crise a GM afundou-se (com as suas dívidas a aumentar exponencialmente), juntamente com outros fabricantes de automóveis americanos. Com a perspectiva de falência, pede ajuda ao estado.

Com a crise instalada, a GM pede ajuda à Alemanha para salvar a Opel, pois não tem dinheiro.

Em 2009, a GM declara falência e o estado passa a ser o accionista maoritário com 60% das acções. Obama subsitui a direcção da GM.

A Alemanha avança com um empréstimo para manter a Opel à tona até se arranjar um comprador.

A Magna juntamente com os russos são um dos candidatos e Merkel dá a sua preferência a este grupo, o que indica que aceita a passagem da Opel para a Rússia.

A Rússia afirma estar interessada na Opel pela transferência de know-how.

A GM, controlada pelo o estado, muda de ideias e nega a passagem da Opel para a Rússia.

A GM uma empresa falida e apenas a funcionar devido aos biliões de dólares vindos do estado, recusa-se a vender a Opel. Uma empresa falida dá-se ao luxo de escolher compradores. Só consegue fazer isso porque tem um estado a proteger.

Porque se ela tivesse prosseguido com o processo de falência normal, nunca a GM poderia dizer nada, a Opel já estaria nas mãos dos russos.

Dado que a GM, está agora nas mãos do estado e este decidiu manter a Opel, caberá a Obama manter a Opel.

A que custo? isso ainda vamos descobrir.

MSantos disse...

"o volume de investimento directo dos Estados Unidos em unidades industriais localizadas na China, incorporando mão-de-obra e fornecedores locais, não ocorram maciças transferências de tecnologia. Pura e simplesmente, não existe forma de tal não acontecer. "

Sem dúvida, António Campos mas esta transferência de tecnologia prende-se com os automatismos de fabrico, processos de produção em série, fabrico de cabeças de motor ou placas de circuitos integrados. Estas tecnologias em qualquer parte do mundo estão num patamar acessível a qualquer país que as queira adquirir. Até microchips vulgarizados e não passando determinados níveis de processamento.

Como o PM referiu e muito bem não têm a tecnologia para orgãos sofisticados e de grande complexidade como é o motor de um avião.

A empresa onde trabalho fornece estes sistemas e outros mais complexos (ou já forneceu) até para o Irão e Coreia do Norte e garanto-lhe que isto é verdade e já lhe estou a dizer muito.

Mas o que gostaria de saber é se nessas transferências vai o verdadeiro cerne da tecnologia, outro patamar, que é por exemplo processadores integrados de alta capacidade, o coração mecânico de um motor e o seu processador electrónico ou compostos para determinados fármacos.

É que na minha opinião e perdoe-me a visão tão "putinista" e tão anti-americana como refere, no que concerne à China, tudo se resume a uma frase que muito bem empregou:

"incorporando mão-de-obra e fornecedores locais"

e dado as caractrísticas desta mão-de-obra e fornecedores locais voltamos ao velho assunto que estamos cansadíssimos de discutir sendo esta a principal razão do paradoxo da integração chinesa na OMC dado a extrema abertura e solicitude dos mercados chineses às companhias ocidentais para providenciar serviços e fornecimentos a preços à custa daquilo que todos já sabemos. Sabemos que existem algumas questões de direitos humanos mas isso, à exepção do Tibete, não nos incomoda muito.

Há também o perigo desta benéfica China, que nunca abdicou dos princípios comunistas e a veneração desse grande "humanista" que foi Mao Tse-tung (mas pelos vistos isso não choca, só Estaline) se vir a tornar na verdadeira ameaça aos interesses que agora a promovem tal como foi o Bin Laden para os americanos. E note que aqui estou a distinguir interesses e americanos, pois os primeiros infelizmente também estão do lado de cá.

Desculpe ter usado isto para desviar as atenções.

Cumpts
Manuel Santos

MSantos disse...

E já agora António Campos, deixe-me dar-lhe a conhecer que antigos colegas meus que estiveram até há bem pouco a exercer funções altamente especializadas, com muitos anos de expriência e conhecimento, ganhando salários na ordem de vários milhares de euros (merecidos) estão a ficar desempregados e quando voltam a exercer, mesmo que seja a mesma função, o salário poderá atingir 600€ o que para um profissional com prestígio e anos de expriência, família, filhos pequeninos para alimentar e criar, é um drama humano insustentável.

Embora continue empregado, vejo sempre a iminência deste risco me ser aplicado.

É por isso que a China para mim e posso dizer para a grande maioria das classes trabalhadoras na Europa, é muito mais ameaçadora que a Rússia, mesmo com todos os defeitos que esta tenha.

Cumpts
Manuel Santos

António Campos disse...

Caro Manuel Santos, esse é um argumento excelente contra a tentativa de politização da decisão da GM!

António Campos

Pippo disse...

Mas o que acontece, quer nos carros quer nos aviões (e outros sistemas complexos como carros de combate, mísseis, artilharia, etc.) é que a Rússia tem capacidade de investigação, concepção e produção de equipamentos avançados, coisa que a China não tem, mesmo com o reverse engeneering que já lhe é tão característico.

É portanto bastante diferente colocar fábricas na China ou colocar-lhe nas mãos toda uma empresa.
No fundo, é como termos umas cartas na mão ou termos todo o baralho.
E o novo accionista da GM (isto é, o Estado norte-americano), que não tem problemas em distribuir uns ternos ou umas manilhas pela China, parece não estar muito disposto a dar todo o baralho aos russos.

Isso não é uma decisão económica, é uma decisão política.

António Campos disse...

Para quem acha que a venda falhada da Opel à Rússia não faz grande mossa, aqui vai a tradução de um artigo hilariante da impagável Yulia Latynina, publicado hoje no Moscow Times (eu cá fartei-me de rir):

Incompetência de última geração

Em Outubro, o primeiro-ministro Vladimir Putin e o director da Rusnano Anatoly Chubais visitaram a fábrica Mikron em Zelenograd, localizada a 37 km de Moscovo, na qual são produzidos os mais recentes chips de 180 nanómetros de produção russa. Foi assinado um acordo que estipulava que, caso o estado investisse 16 mil milhões de rublos adicionais, a fábrica poderia iniciar a produção de chips de 90 nanómetros da última geração.
Durante a última década, as dimensões dos circuitos dos microchips foram reduzidas a metade de dois em dois anos. Quase todas as principais empresas usam actualmente plataformas de 45 nanómetros. Isto significa que, quando a Mikron começar a produzir chips de 90 nanómetros, daqui a 4 anos, a Intel estará provavelmente a trabalhar em circuitos de 5 a 10 nanómetros.

Isto é como se os fulanos da empresa de alta tecnologia Sitronics tivessem mostrado a Putin um caça-bombardeiro com uma velocidade máxima de apenas 160 km/h e prometessem que duplicariam a sua velocidade se o estado enfiasse mais 200 milhões de dólares no programa. Os tipos da Sitronics não foram sumariamente despedidos.

No início de Junho, a Interfax relatou a seguinte notícia assombrosa: “após um atraso de 2 anos, o presidente russo recebeu um novo avião retransmissor de rádio capaz de permanecer em comunicação durante o voo. Na segunda-feira, dois aviões Tu-214SR chegaram ao aeroporto de Vnukovo”. A notícia descrevia o sistema de retransmissão como o mais fiável do mundo.

Por outras palavras, na era das comunicações por satélite, em que um sargento do exército americano pode ver em tempo real uma imagem do campo de batalha transmitida por um drone, o presidente russo foi presenteado com dois telemóveis voadores obsoletos com um preço combinado de 2,6 mil milhões de rublos. Aparentemente, a Rússia começará em breve a usar o sistema de última geração de sinais de fumo para transmitir informação.

Por alguma razão, os criadores deste “telefone voador milagroso” não foram despedidos sumariamente.

Na semana passada, o ministro-adjunto para o desenvolvimento económico Andrei Klepach anunciou que o seu ministério estava a propor alterações que permitiriam aos funcionários estatais designar estradas como “estradas com portagem” mesmo em caso de não existirem estradas alternativas gratuitas, tal como é feito “na Alemanha e na China”.

Tenho novidades para Klepach: não existem estradas com portagem na Alemanha. E além do mais, a Rússia já possui uma lei para estradas com portagem, que define “estradas alternativas” como estradas gratuitas com uma extensão pelo menos três vezes superior à estrada com portagem paralela alternativa.

Mas Klepach não foi fuzilado nem despedido por incompetência.

Mesmo sendo filóloga, não consigo sequer adivinhar o que os cientistas russos pensaram quando leram sobre a “tecnologia de 180 nanómetros de última geração”. Estarão eles a chorar ou a amaldiçoar o actual estado das coisas?

Mas graças a Deus, na sua demanda por novas tecnologias e novas soluções, o presidente Dmitry Medvedev empreendeu alguns passos decisivos: ordenou ao chefe da sua administração que estudasse seriamente a proposta do blogger Maxim Kalashnikov para a criação de uma “bioagroecópole” – um protótipo da “cidade do futuro” repleta das mais recentes inovações tecnológicas.

Será mesmo possível que os nossos líderes se estejam nas tintas para o país e só se preocupem com as suas vivendas e outras propriedades no estrangeiro?

PortugueseMan disse...

Confesso sempre sentir tristeza e perplexidade com este tipo de artigos.

Que objectivo move as pessoas com esta necessidade de denegrir sem se darem ao trabalho de se informarem sobre as coisas como elas são?

Mas eles existem independentemente de que país fôr, cá em Portugal é a mesma coisa.

Estou a lembrar-me de uma notícia onde um "especialista de visão" dizia que o Magalhães fazia mal aos olhos das crianças.

Claro que faz, tudo faz mal desde que seja usado em excesso.

Curiosamente este especialista só viu estes problemas com o magalhães. Nos outros modelos semelhantes à venda, pelos vistos podiam ser usados pelas crianças.

Também não via problemas nos telemóveis onde as crianças passam o tempo a jogar e a enviar SMS e em ecrãns minúsculos.

Se passarem horas a jogar playstation também parece não fazer mal, se fôr as portáteis muito menos.

E que dizer do "bem" que faz aquelas televisõezinhas colocadas nos assentos dos automóveis, para as crianças irem entretidas a ver filmes durante as viagens?

Não o que preocupava mesmo aquele especialista era mesmo o magalhães.

Haja paciência para este tipo de artigos, onde não se procura informar mas sim atingir um objectivo.

Entretanto como falei disto fui vez se encontrava o tal artigo. Pelos vistos não era um especialista de visão e sim a Sociedade Portuguesa de Oftalmologia, mas já não corrijo o que escrevi acima para não perder mais tempo.

'Magalhães' pode aumentar miopia

http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1230266

PortugueseMan disse...

Incompetência é dessa Yulia Latynina, se realmente este artigo tem algo a ver com a realidade.

Se tem fins políticos então já percebo a natureza do artigo.

A Rússia está a tentar recuperar, é sobejamente reconhecido os problemas/atrasos que a Rússia tem no campo da electrónica.

Que raio, não foi este sector, considerado prioritário?

Que quer a mulher? que as coisas se resolvam com o mesmo tempo que ela demora a lavar a loiça?

Em relação ao "telefone", santa paciência! está a comparar o incomparável! porque é que a mulher não diz para que foram construidos estes aviões? e como é que consegue ligar isso a um sargento que fala por satélite e drones??

Eu sinceramente, dar credibilidade a este tipo de artigos, cada um é que sabe, como quer ver as coisas.

Pelos vistos há quem fique feliz.

Pippo disse...

É interessante que a autora esteja já a pensar em simicondutores de 5 a 10 nanómetros, quando se espera (repito, se espera) que lá para 2015 - na melhor das hipóteses - ou 2020 se tenham atingido os 11-nm!

A produção de electrónica na URSS sempre esteve mais atrasada do que no Ocidente. A ausência de competição e de mercado livre tem destas coisas. E a evolução nos semicondutores na Rússia estagnou nos princípios da década de 2000.

Ora, a Mikron quer passar dos semicondutores de 180-nm (o patamar atingido em 2000) para os de 90-nm (e para os de 65-nm) em 2010-11. Isso implica um salto de três gerações, isto é, de 6 anos, em apenas 2.

Os sc de 45-nm começaram a ser produzidos em 2007-08, mas só são aplicados em produtos topo de gama. Ou seja, os de 90-nm ainda são actuais. E havendo mais investimentos, se calhar daqui a 4 anos a Mikron já estáa produzir os sc de 45-nm.

O objectivo deste investimento, tanto quanto me parece, é o de "queimar etapas", ou seja, em lugar de saltos qualitativos de 2 em dois anos, o processo quer-se mais rápido. Mas isso requer investimento.

Compreendo que a esclarecida autora deste texto (e aqueles que se divertem a ler o que ela escreve) queiram o despedimento dos directores da Sistema e associadas. Presumo que, nas suas cabeças, esses despedimentos espoletassem, subitamente, como que por milagre, um salto tecnológico de uma década.

Ou será que as suas ideias são outras?

MSantos disse...

António Campos

Só sobre os Tu214SR, a senhora só revela que não percebe nada do assunto que escreveu quando refere que o avião é uma mera estação retransmissora.

Veja o artigo sff:

http://www.airfleet.ru/arhiv/
n3_2009/special_assignment_for_tu-214/


em particular, o parágrafo:

"The Tu-214 are considered for a wide variety of applications: relay aircraft, flying command posts, airborne communications centers, electronic reconnaissance, radio emission analysis, VIP transport, airborne early warning and command, maritime reconnaissance aircraft etc"

e já agora porque é que os avançadíssimos americanos (e aqui não estou a ser irónico) mesmo com o GPS (que os militares russos também têm) mantêm estas mesmas funções nas plataformas E-3B/E-4C, nos E-8C JSTARS e nos velhinhos RC-135?

Eu, embora não tendo a pretensão de ser especialista de armamentos (como cinicamente já fui classificado), posso responder-lhe que num ambiente de guerra total e saturação electrónica, estas plataformas continuarão a ser por muitos anos os suportes mais fiáveis e fidedignos no tocante a comunicações e dados sensíveis de modo a não serem inviolados pelo inimigo apenas só na função referida.

A dita Sra. devia ter-se informado melhor (à distância dum simples search no google) e não se ter autodesacreditado a si própria.

Cumpts
Manuel Santos