terça-feira, novembro 17, 2009

União Europeia continua à deriva na política energética


Ontem, sem esperar pela realização da cimeira UE-Rússia, que se realiza a 18 de Novembro em Estocolmo, o ministro da Economia da Rússia, Serguei Chmatko, e o Comissário para a Energia da União Europeia, Andris Piebalgs, assinaram, em Moscovo, um memorando sobre um mecanismo de pré-alerta no domínio energético.
Este documento prevê acções comuns a tomar em caso de interrupções dos fornecimentos de recursos energéticos russos à Europa, provocadas, entre outras causas, pelos países de trânsito. Além disso, ele define conceitos como “situação de emergência” e “mecanismo de pré-alerta”.
À primeira vista, trata-se de um documento de extrema importância tendo em conta os problemas que têm surgido no fornecimento de gás russo à Europa desde 2000.
Porém, é surpreendente o facto deste memorando ter sido assinado entre a Rússia e a União Europeia, sem que os países de trânsito tenham participado na elaboração e assinatura deste documento.
Isto é tanto mais estranho se tivermos em conta que nunca existiram problemas entre a Rússia e a União Europeia, mas sim entre a Rússia e a Ucrânia.
Ora, se a Ucrânia, tal como aconteceu o ano passado, deixar de fornecer gás à Europa, alegando que o não recebia da Rússia, o que poderão fazer Bruxelas e Moscovo?
Moscovo poderá repetir a experiência do ano passado e fechar a torneira, acusando Kiev de não cumprir os seus compromissos. E o que poderá fazer Bruxelas? Exercer pressão sobre a Ucrânia em plena campanha eleitoral para as presidenciais, que se realizam a 17 de Janeiro, para que regularize as contas com o país vizinho ou pagar as dívidas ucranianas?
Alguns analistas defendem que , este ano, os dirigentes ucranianos não ousarão provocar uma crise nos fornecimentos do gás, porque tanto o Presidente da Ucrânia, Victor Iuschenko, como a primeira-ministra, Iúlia Timochenko participam na corrida eleitoral e quebras de fornecimento de gás podem custar votos.
Mas, por outro lado, os participantes na corrida eleitoral, que deverão ser mais de vinte, poderão utilizar métodos tais de luta política para desacreditar os adversários, que tudo é possível. Alguns deputados do Bloco de Iúlia Timochenko foram acusados de pedofilia; o Presidente já acusou a primeira-ministra de provocar a gripe A H1N1. Até Janeiro, tudo é possível, basta recordar as presidenciais de 2004 com envenamentos, assassinatos, fraudes, etc.
O problema do fornecimento do gás russo à Europa mostra uma vez mais a incapacidade de a União Europeia ter uma política energética sensata e coordenada.
Apenas mais um exemplo, quando a Rússia lançou o projecto de construção do gasoduto “North Stream”, que deverá transportar combustível azul russo para a Alemanha através do Mar Báltico, países como a Estónia, Finlândia e Suécia levantaram sérias reservas à passagem do pipeline pelas suas águas territoriais, alegando preocupações ecológicas.
Os governantes suecos prometeram “consultar cada peixe do Báltico” antes de aceitarem a proposta russa, mas acabaram por ceder depois de a Rússia aceitar suspender os trabalhos durante “a desova do bacalhau”. Pelo menos, os portugueses podem ficar descansados quanto ao futuro do “fiel amigo”.
A Finlândia recebeu mais um ano de facilidades alfandegárias na importação de troncos de madeira da Rússia, que Vladimir Putin admitiu prolongar por mais um ano.
A Estónia não cedeu e ficou fora do negócio.
Ter uma política energética comum não significa isolar a Rússia, mas faz aumentar o peso da União Europeia no diálogo bilateral. Por enquanto, cada um dos membros da UE puxa “a brasa para a sua sardinha”.

9 comentários:

PortugueseMan disse...

Ora, se a Ucrânia, tal como aconteceu o ano passado, deixar de fornecer gás à Europa, alegando que o não recebia da Rússia, o que poderão fazer Bruxelas e Moscovo?

Apenas podem provar se é a Ucrânia que está a desviar o gás. E essa prova só interessa à Rússia.


Moscovo poderá repetir a experiência do ano passado e fechar a torneira, acusando Kiev de não cumprir os seus compromissos. E o que poderá fazer Bruxelas? Exercer pressão sobre a Ucrânia em plena campanha eleitoral para as presidenciais, que se realizam a 17 de Janeiro, para que regularize as contas com o país vizinho ou pagar as dívidas ucranianas?

Burxelas apenas poderá pagar. Enquanto não houver mais alternativas de escoamento, qualquer outra solução só coloca em perigo o fornecimento e isso é o que se quer evitar.

O problema do fornecimento do gás russo à Europa mostra uma vez mais a incapacidade de a União Europeia ter uma política energética sensata e coordenada.

Meu caro... o que entende por "política energética sensata e coordenada"?

A Estónia não cedeu e ficou fora do negócio.

A Estónia não pode ceder. É um dos países que irá ficar à mercê da Rússia em termos energéticos. E estão na lista...

Ter uma política energética comum não significa isolar a Rússia, mas faz aumentar o peso da União Europeia no diálogo bilateral. Por enquanto, cada um dos membros da UE puxa “a brasa para a sua sardinha”.

Ter mais pipelines para a Europa é bom. O problema é que estes novos pipelines colocam em perigo a segurança energética de alguns novos membros da UE. Nenhum pipeline (russo) veria a luz do dia se isto fosse a votos na UE. Os interesses nacionais sobrepôem-se aos interesses europeus. E são vários políticos a dizerem isso mesmo.

MSantos disse...

"União Europeia continua à deriva na política energética"

Fosse só na política energética.
Infelizmente é em tudo.

"mas acabaram por ceder depois de a Rússia aceitar suspender os trabalhos durante “a desova do bacalhau”. Pelo menos, os portugueses podem ficar descansados quanto ao futuro do “fiel amigo”."

Isto é que é o mais importante!
Especialmente se for bem feitinho e à lagareiro, o meu preferido.

:P

Cumpts
Manuel Santos

Wandard disse...

Manuel,

Boa lembrança, no meu próximo retorno a Portugal este prato estará na lista acompanhado de um ótimo vinho é claro.

Pippo disse...

Não entendo porque o JM afirma que a UE não tem uma política energética concertada.
Então não foi essa UE quem acabou de assinar um acordo com a Rússia??? Qual é a crítica então? É por não envolver a Ucrânia? Mas porque raio deveria envolver a Ucrânia? Para esta exercer pressões? A Ucrânia só tem que deixar fluir o gás que não é dela e receber o pagamento por esse trânsito, mais nada. Não tem de ser nem tida nem achada nesta negociações.

O que o JM está a pôr em causa não é a falta de concertação na Pol. Da EU mas sim a não participação dos países de trânsito nas negociações. Mas esse é um problema à margem do acordo. Se a Ucrânia desviar gás, só a UE é que é afectada e portanto, só a UE o poderá resolver, sem o envolvimento russo.

O está a ser feito neste momento é aquilo que nós gostamos que seja feito na nossa esfera económica privada: acabar com os intermediários e ligar directamente o produtor ao consumidor.

Se a UE optar por pagar as dívidas dos países de trânsito (algo com que não concordo pois não é para isso que pago um dos IVAs mais altos da União), muito bem; se optar por penalizar esses países, melhor ainda. Eles que façam pela vida, em vez de andarem a roubar o que não é deles. Paguem o que querem consumir. Ou então, como diz o povão, "se não há dinheiro, não há palhaços".

Quanto às negociações bilaterais, acho muito bem que cada país defenda o seu interesse se este estiver refém, no seio da UE, de politiquices ligadas a ressentimentos bacocos por parte dos "novos Estados-Membros".

Como já se provou N vezes, os novos EM não têm pejos em colocar o seu "interesse nacional" à frente do interesse colectivo da UE, colocando em perigo o fornecimento energético dos outros EM. Como tal, estes outros têm de se "chegar à frente" e também colocar o seu "interesse nacional" à frente do colectivo.

O problema destes países que fazem boicotes não é o de verem perigar o seu fornecimento energético. O que eles vêm perigar, e muito, é a sua capacidade de exercerem poder sobre os contraentes, europeus ocidentais e orientais (russos). A posição de intermediário é fabulosa pois permite bloquear os acessos, exigir compensações, etc. Os antigos Partos e Sassânidas, e depois os Emirados do Médio Oriente lucravam fabulosamente por serem intermediários na Rota da Seda.
A galinha dos ovos de ouro deixou de dar ovos quando os portugueses foram comprar directamente às Índias...

No fundo, o Nordstream e o Southstream são a versão gasífera da Rota do Cabo. E isso aborrece muita gente. Mas não há dúvida que isso favorece a Europa no seu conjunto pois permite negociar preços e garantir o fornecimento.

Enfim, tudo isto é sobejamento conhecido e nem sequer é notícia.

Notícia mesmo é que o bacalhau seja poupado! Não só pelo futuro da espécie, mas também pelo futuro dos nossos apetites (sim! Esta 2ª feira também eu me deliciei com uma bacalhauzada!)

Jose Milhazes disse...

Caro Pippo, o acordo foi assinado, mas o texto do memorando não foi divulgado em Estocolmo, como está previsto. E isso irritou o Presidente Medvedev. Por alguma razão será.

PortugueseMan disse...

Caro Pippo, o acordo foi assinado, mas o texto do memorando não foi divulgado em Estocolmo, como está previsto. E isso irritou o Presidente Medvedev. Por alguma razão será.

Meu caro,

Se de facto foi a Ucrânia que desviou o gás, a Rússia já anda irritada há muito tempo.

Quem poderia esclarecer esta situação seria uma declaração da UE indicando quem de facto cortou o gás.

Se esse memo reforça a ideia de que a Ucrânia não é um parceiro de confiança, então no interesse europeu, o melhor é ficar calado, fazer o mínimo de ondas até se ter alternativas de escoamento.

Ficar calado e pagar, claro.

Mas isto não resolve o problema à Rússia. O facto é que os media nunca puseram em causa a Ucrânia como país de trânsito, mas puseram em causa a Rússia como fornecedor fiável.

Mas o que eu critico mais neste seu post é mesmo o título. A UE não anda à deriva na política energética. Apesar das guerras tanto internas como externas, o processo segue o seu rumo. A UE sabe o quanto gasta, o quanto estima gastar e aonde pode ir buscar energia.

À deriva andam certos países que pensam que segurança se traduz unicamente por protecção militar. Não há protecção militar que valha para proteger segurança energética de alguns países. Não há.

Pippo disse...

Ora, e porque é que o texto não foi publicado? Qual é, exactamente, a razão para essa ocorrência? Pode elucidar-nos?

Pippo disse...

Encontrei esta notícia interessante:

WASHINGTON PRETENDE INTERVIR NO DIÁLOGO ENERGÉTICO ENTRE RÚSSIA E EUROPA

O enviado especial estadunidense para os Assuntos energéticos na Eurásia informou ter sido criado em Washington um comitê incumbido de elaboração de política energética e regulação das situações de crise entre a União Europeia e a Rússia. O mesmo órgão decidirá quais as transações com a Rússia que possam ser consideradas “legítimas”. Por outras palavras, a Casa Branca pretende intervir ativamente no diálogo energético entre essas duas partes na Europa.
Pelo visto, tal comitê já está funcionando. Durante o IV Fórum Energético, realizado em Budapeste, o ex-primeiro-ministro tcheco, Mirek Topolanek, publicou o conselho recebido pela União Europeia de peritos estadunidenses, os quais acham que a União Europeia deveria preparar-se para uma nova crise do gás. São da opinião de que no próximo inverno a Rússia novamente deixará os gasodutos com destino à Europa vazios. Tal lavagem ao cérebro – é forçoso reconhecê-lo – exerce o efeito desejado sobre a Europa, pelo menos sobre a Oriental. Presentemente, no intuito de alterar a estrutura do seu sistema de gransporte de gás, a Hungria, não partencente aos grupo dos mais ricos, está construindo um duto à Romênia, um projeto incompreensível se analisado através da ótica da racionalidade. Tudo isso causa estranheza ao nosso analista Konstantin Simonov, diretor-geral da Fundação de Energia Nacional, que diz:
O papel desempenhado pelos Estados Unidos no desenvolvimento do setor energético europeu é destrutivo. Esse país vai empurrando energicamente a União Europeia para a ruptura das relações energéticas com a Rússia. Estão pintando detalhadamente uma imagem da Rússia como sendo um fornecedor de energia inseguro. Entretanto, são precisamente os Estados Unidos quem promove ativamente a ideia de fornecimentos de gás a partir da Ásia Central. Como é tradicional, os países do Leste Europeu vão navegando na esteira dos Estados Unidos, não conseguindo se independizar plenamente. Até agora que vêem a Rússia como uma ameaça para si. Estou certo de que a União Europeia haveria de resolver seus problemas por sua própria conta e não ceder a provoações.
A Rússia supõe que problemas no diálogo energético com a Europa vem surgindo em face de uma politização artificial de uns temas comerciais. Acha também que Bruxelas e Moscou enfrentam umas tarefas comuns. A Rússia adotou a mesma estratégia de diversificação que a escolhida pela União Europeia, como provam os projetos russos“Corrente do Sul” e “Corrente do Norte”, os quais têm vindo a avançar de uma forma bastante satisfatória em estreita colaboração com países europeus. Ao fim da cúpula Rússia/União Europeia, que acaba de se encerrar em Estocolmo, o presidente russo Dmitri Medvedev declarou em coletiva de imprensa que as Partes tinham alcançado compreensão mútua no referente â colaboração no setor energético, especialmente para garantir segurança energética.

http://portuguese.ruvr.ru/main.php?lng=prt&q=9317&cid=58&p=19.11.2009&pn=1

MSantos disse...

Pippo

Apenas a descrição daquilo que já falámos tantas vezes.

A Europa deveria acordar para esta constante irresponsabilização e subalternização dos Estados Unidos mas como foi exposto naquela artigo que apresentei, do "Der Spigel" existe na Europa o fetiche americano.

Cumpts
Manuel Santos