terça-feira, dezembro 01, 2009

Contributo para a História ("Golpe" de Nito Alves)


O "golpe" de Nito Alves em Angola, ocorrido a 27 de Maio de 1977, constitui uma das páginas mais misteriosas da história recente desse país lusófono. Os arquivos soviéticos, que poderiam esclarecer muita coisa, nomeadamente sobre o papel da URSS nesses acontecimentos, são inacessíveis e é difícil encontrar pessoas na Rússia que queiram falar do caso.

Resta-nos juntar partícula a partícula com vista a tentar criar um quadro minimamente objectivo daquele episódio da luta no interior da direcção angolana.

Nesta investigação, é importante ter cuidado no manuseamento dos factos para não se complicar ainda mais as coisas.

Recentemente, numa das minhas rápidas passagens por Portugal, comprei o livro "O meu Testemunho. A purga do 27 de Maio de 1977 e as suas consequências trágicas", de José Fragoso, publicado em 2009.

Pelo que compreendi da leitura, José Adão Fragoso esteve ligado a esses trágicos acontecimentos e, como a mim me interessa esclarecer o papel dos conselheiros militares soviéticos no 27 de Maio de 1977, li com atenção os parágrafos onde esse político angolano aborda essa questão.

José Fragoso escreve na página 133: "O apoio dos soviéticos aos niitistas não tinha reservas. Conhecedores da história do MPLA, desde os tempos de Brazaville, em que Lúcio Lara chegou a proibir a entrada de Putin na sede do MPLA, hoje primeiro-ministro, na altura delegado soviético, cientes da natureza das diferentes tendências do movimento, os soviéticos consideraram Nito Alves, o dirigente político capaz de superar as ambiguidades no seio do MPLA".

Começo por notar que Vladimir Putin, actual primeiro-ministro russo, não podia andar por Brazaville visto ter nascido em 1952 e ter apenas 21 anos quando se deu o 25 de Abril de 1974. Como os "tempos de Brazaville" são ainda anteriores a essa data, Putin, nessa altura, ainda terminava a escola secundária em Leninegrado ou começava a frequentar a Faculdade de Direito da universidade da mesma cidade soviética.

Segundo a biografia do dirigente russo, ele trabalhou no Departamento do KGB de Leninegrado entre 1975 e 1984 e só depois foi trabalhar para a República Democrática Alemã.

Trata-se claramente de uma confusão de apelidos. Na altura a que José Fragoso se refere, em Brazaville e, depois, em Luanda, trabalhou o coronel da GRU (espionagem militar soviética) Boris Putilin.

Este agente soviético é um profundo conhecedor da situação no interior da direcção do MPLA e não esconde as tensas relações existentes entre Lúcio Lara e Agostinho Neto, por um lado, e a União Soviética, por outro. No entanto, penso ainda não haver bases muito sólidas para concluir que o apoio de Moscovo "aos niitistas não tinha reservas", como escreve José Fragoso.

Este problema parece ser bem mais complicado, sendo necessário continuar as investigações históricas.

16 comentários:

Inácio Cristiano disse...

Caro J.Milhazes,
Em 74/75 o MPLA era uma manta de retalhos ideológicos, resultado das diferentes motivações que os diversos líderes levaram para a luta contra o sistema colonial.
Neste caldo de revoltados, emergia Agostinho Neto pela indiscutivel credibilidade interna e externa como continuação de natural liderança.
Neste ambiente começaram a tomar posicionamento no partido os "parladores" do Materialismo Cientifico, e aí ninguem batia no demagogo, jovem professor primário oportunista e mui fluente orador Nito Alves, e apadrinhado pelos comissários soviéticos, que ouviam deslumbrados as locubrações deste sobre o socialismo Marckcista Stalinista, assim como reunia todo o apoio de representantes do PCP em Angola, como no caso explicito da malograda Sita Vales.

Jose Milhazes disse...

Caro Inácio, eu acho que as coisas não são assim tão simples como as descreve. Se a credibilidade de A.N. era indiscutível então como é que os comissários soviéticos (KGB, GRU, etc.)se deixaram levar pelo professor primário Nito Alves? Quer-me dizer que o PCP estava contra A.N.? E os cubanos decidiram ir contra a URSS e salvar A.N.?

thais disse...

Achuuu assim que naum foi assim naum Inacioo

Inácio Cristiano disse...

Caro J.Milhazes,
Não obstante a credibilidade de A.Neto advir da sua formação superior (era médico), manifestamente humanista, era um "ignorante" no que respeitava aos "postulados" do Materialismo Dialéctico.
Para ele a URSS era mais "fornecedora de armamento" do que inspiração governativa.
Nito Alves, leu e decorou os principais canones teorizados pela "inteligentzia" soviética.
A forma fácil como verbalizava a verborreia ideológica, fornecida pelos comissários soviéticos faria de Nito Alves o "Lenine Africano"

Jose Milhazes disse...

Caro Inácio Cristiano, o presidente Agostinho Neto um humanista? Você vive em que ano? Esse senhor ordenou o assassinato de centenas, muitas centenas de pessoas! É um ditador como muitos outros da história recente de África.
Sabe que havia carrascos que trabalhavam em campos de concentração nazis e estalinistas e eram médicos? Médico e humanisata deveriam ser sinónimos, mas tal não aconteceu no caso de Agostinho Neto.
Quanto à sua opinião de Nito Alves, apenas gostaria que me respondesse: porque é que, tendo em conta a enorme presença militar soviética em Angola, Moscovo não apoiou Nito Alves no derrube de Agostinho Neto?

Inácio Cristiano disse...

Caro J.Milhazes,
Quem despoletou o golpe de Nito Alves por antecipação foi a "entourage" de Agostinho Neto. Nito Alves pouco mais fez do que esconder-se e ser perseguido, o mesmo aconteceu aos seus apoiantes.
Perante a eventualidade duma cisão no MPLA, os cubanos mantiveram-se neutrais e mesmo anteriormente nunca deram apoio à facção mais dogmática representada por inexprientes e ambiciosos jovens urbanos recrutados recentemente.
Quanto à barbarie implantada durante o "consulado" de A.Neto, esta fica a dever-se à justiça popular posta em prática por sugestão dos comissários soviéticos que estavam adstritos em toda a estrutura de poder, fosse o poder militar ou civil.
Agostinho Neto, era visto pela população como o paí da independência principalmente pelos Luandinos e etnias Kibumdu e Kicongo, mas notóriamente fraco com uma saúde débil ecompletamente penhorado aos interesses estratégicos da URSS, sem quaiquer alternativas perante a ameaça Sul Africana na parceria com Savimbi.
Como se isto não bastasse, no território Humbundu, as estruturas de poder do MPLA eram detidas por uma grande minoria da população, o que levou algumas vezes o MPLA a ostentar o "poder" através de fuzilamentos públicos em campos de futebol (não ví, mas quem viu contou-me).Não tenho a certeza se Agostinho Neto tomava conhecimento disto, antes ou depois dos actos acontecerem.
felizmente todo este "modus-operandi" acabou, com a ascenção de Eduardo dos Santos ao poder.
Quanto à sua questão, de a URSS apoiar ou não Nito Alves devido à sua enorme presença militar. Eu chamo-lhe à atenção que em termos "Operacionais" no terreno apenas a tropa cubana era relevante para este tema, neste caso os elementos da URSS estariam sempre acantonados e a bom recato (não podemos descorar a importância da aviação soviética no combate à UNITA e ao aparelho militar da Rep.Sul Africana).
Basta conhecer a tropa cubana, para perceber quão pragmáticos eles são, o que menos lhes interessava eram os "papagaios falantes".

Jose Milhazes disse...

Caro Inácio, então não houve qualquer tipo de golpe de estado da parte de Nito Alves, mas de uma operação preventiva da parte dos homens próximos de Agostinho Neto para travar o avanço dos "esquerdistas". É isso? A intervenção dOs cubanos não foi decisiva para manter A.N. no poder aquando da crise de 27 de Maio?
Os crimes cometidos antes e depois do 25 de Abril de 1974 por Agostinho Neto foram feitos sob a influência dos comissários soviéticos?
Segundo os documentos que li, A.N. mandou assassinar pelo menos cinco dos seus camaradas antes do 25 de Abril, o que deixou os soviéticos surpreendidos.
E como comenta estas memórias de um coronel soviético a propósito de 27 de Maio:“O nosso trabalho complicou-se depois da tentativa de golpe de Estado de 27 de Maio de 1977, cuja causa foi a luta fraccionista no interior do Bureau Político do MPLA. Nito Alves dirigiu a oposição. Uma parte dos militares das FAPLA apoiavam as suas ideias. Nós desconhecíamos a essência das divergências. Só depois da derrota da oposição surgiu uma grande quantidade de publicações sobre o fraccionismo de Nito Alves e dos seus adeptos. Vários homens foram detidos também na nossa região militar, nomeadamente o comissário político da região militar por mim aconselhado, membro do CC e do Conselho Revolucionário Santos; o comandante do serviço de defesa anti-aérea, mais nove pessoas que nós conhecíamos pessoalmente.Talvez estivessem implicados muitos que desconhecíamos, incluindo civis. O major Ivadi, comandante da região militar, fugia às perguntas a este propósito. Por isso desconhecíamos o seu posterior destino. Segundo fontes não oficiais, muitos foram fuzilados junto do precipício Tuandaval (com uma profundidade de 400 metros”.
“Infelizmente, é preciso dizer que muitos dos fuzilados tinham estudado na União Soviética”, sublinha ele,

Inácio Cristiano disse...

Caro J.Milhazes,
Permita-me que lhe responda por partes, conforme sua transcrição:

"...operação preventiva da parte dos homens próximos de Agostinho Neto para travar o avanço dos "esquerdistas". É isso?

-Sim, o acontecimento foi mais isso do que qualquer outra coisa.
Outra ilação foi o afastamento de "ideólogos" portugueses e de alguns angolanos pró-soviéticos importantes no evidente descalabro que se indiciava.

"...A intervenção dOs cubanos não foi decisiva para manter A.N. no poder aquando da crise de 27 de Maio?

-Mais do que manter A.N. no poder, foi garantir o Poder na posse do MPLA/Partido do Trabalho.

"Os crimes cometidos antes e depois do 25 de Abril de 1974 por Agostinho Neto foram feitos sob a influência dos comissários soviéticos?

-Desconheço a que crimes se refere antes do 25 de Abril de 1974.
Depois de 4 de Fevereiro de 1975 até 11 de Novembro do mesmo ano, morreram mais civis e militares angolanos do que durante 13 anos de luta anti-colonial, motivadas pelas lutas dos 3 partidos ou das diversas facções partidárias. Foi como que um introito de oito meses à futura liderança de qualquer dos 3 líderes de controlo remoto, fossem eles "controlados" por americanos, chineses ou soviéticos.

"...Nós desconhecíamos a essência das divergências. Só depois da derrota da oposição surgiu uma grande quantidade de publicações sobre o fraccionismo de Nito Alves e dos seus adeptos.

-Acredito nesta declaração, ela significa uma incompreenção grave quanto à anàlise politico-social e composição doutrinária heterodoxa dos elementos mais proeminentes do MPLA, que atravessa a pequena burguesia urbana,intelectualidade, cristãos católicos e evangélicos de todas as etnias incluindo brancos e mestiços.
Não esquecer que a URSS "forçou" a passagem do Movimento a Partido do Trabalho. Só a chegada de E.dos Santos iria "restaurar" o MPLA e devolver-lhe um novo "elan" nacionalista congregador.

"muitos foram fuzilados junto do precipício Tuandaval (com uma profundidade de 400 metros”.
“Infelizmente, é preciso dizer que muitos dos fuzilados tinham estudado na União Soviética”,

-Nunca ouvi falar que a fenda da Tundavala no Lobango servisse para tal cometimento, até porque históricamente estamos a referir uma àrea de uma certa hostilidade ao MPLA. Nesta àrea, tal como no Lobito, Benguela ou no Huambo os fuzilados, costumavam ser os habituais "sabotadores contra revolucionários" da etnia Humbumdo a soldo dos sul africanos/UNITA como era dito na versão oficial pelos persuctores do Partido do Trabalho.

Jose Milhazes disse...

Caro Inácio Cristiano, pelos vistos você é um leitor Angola que vive em Angola. Não sei se o livro que recentemente editei sobre as relações entre a URSS e Angola chegou a Luanda, mas se chegou, leia, pois acho que irá encontrar surpresas.
Por exemplo, eu publico documentos dos arquivos sovviéticos sobre os assassinatos de dirigentes do MPLA a mando de A.N. antes do 25 de Abril, bem como declarações de altos funcionários soviéticos que afirmam que a forçagem da passagem de Movimento a Partido do Trabalho oi realizada pela direcção do MPLA e contra a vontade dos soviéticos.
Se conseguir ler o meu livro, fico à espera da sua crítica, pois gostaria de receber reacções de Angola. Obrigado. JMilhazes

Inácio Cristiano disse...

Caro J.Milhazes,
Terei todo o prazer em ler o seu livro, e espero encontrar informação que se cruze com algumas situações do meu conhecimento/vivência, principalmente a partir de 1985, ano da minha primeira vinda a Angola.

Cito:
"...declarações de altos funcionários soviéticos que afirmam que a forçagem da passagem de Movimento a Partido do Trabalho foi realizada pela direcção do MPLA e contra a vontade dos soviéticos."

Quanto a esta afirmação, que diz constar no referido livro, não tenho a minima dúvida que poderá despoletar em Angola um autêntico Case Study principalmente entre os veteranos do MPLA

Com os melhores cumprimentos

Anónimo disse...

É com enorme satisfação que leio a verdadeira História do meu país, na altura quando estudava em Angola idolatravam A.N como grande Humanista, mas graça ao "Contributo para a História ("Golpe" de Nito Alves)" fiquei a saber o que realmente se passou, ja agora ja pesquisei nas grandes livrarias de lisboa e não encontro o seu livro.

Obrigado.

Jose Milhazes disse...

Caro, pode encomendar o livro em: http://www.cornucopia.com.pt ou encontrar nas livras da FNAC ou Bertrand. Cumprimentos. JMilhazes

Dário Salvador disse...

Caro Milhazes, cham-me Dário Salvador, e sou um dos que procuro clariar acontecimentos encoberto da nossa história. nós cá, estudamos tão bem a história dos outros países, e da nossa... Nada! Se eu não conseguir, por favor envia-me em formato PDF os conteúdos do teu livro pois, nesta altura eu não tinha ainda nascido sou de 1983 e tenho apenas 30 anos, por favor. O meu email: dassissa@hotmail.com.

Dário Salvador disse...

Caro Milhazes, chamo-me Dário Salvador e, com estas leituras, ganhei curiosidade em ler o seu livro se puder enviar, envia-me o teu livro em formato PDF agradecia bastante mas, em suma, farei o esforço para encontrá-lo. Saudações!

Dário Salvador disse...

Oh! Esqueci-me de perguntar-lhe: qual a referência do livro?

José Milhazes disse...

Caro Dário, escrevi dois livros em que abord este tema: "Angola, O princípio do fim da União Soviética" (2009) e "Golpe Nito Alves e outros momentos da história de Angola vistos do Kremlin".
Se quiser adquir algum, envie mail para: zemilhazes@hotmail.com.