sexta-feira, dezembro 04, 2009

Moscovo apoia estratégia de Obama para o Afeganistão

A Rússia saúda a nova estratégia norte-americana no Afeganistão e Paquistão e espera que Washington contribuia para a transformação do Afeganistão num Estado próspero e independente, lê-se numa declaração publicada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia.
O Presidente Obama apresentou na véspera a nova estratégia dos Estados Unidos para o Afeganistão que prevê, entre outras coisas, o envio de um reforço de 30 mil soldados para a região.
Segundo a diplomacia russa, Moscovo compreende a decisão de Washington e espera “que o povo afegão, apoiando-se nas suas forças armadas e numa economis sã, deva solucionar os problemas que o país enfrenta”.
A Rússia apoia a nova estratégia americana que visa devolver ao Governo afegão “a totalidade do poder e a responsabilidade no que diz respeito à situação no país” e conceder a Cabul “uma ajuda multilateral técnica, social e económica”.
A diplomacia russa sublinha o papel prioritário da nova estratégia face à agricultura afegã, considerando que o apoia a ela ajudará a “irradicar a indústria da droga, na condição de outros métodos, nomeadamente policiais, sejam paralelamente utilizados com eficácia na luta contra esse flagelo”.
A Rússia aprova também as medidas que visam “desmantelar o mais rapidamente possível a infraestrutura terrorista nas regiões paquistanesas limítrofes do Afeganistão”.
Depois de sublinhar o “papel positivo” que devem desempenhar as organizações internacionais da região, antes de tudo a Organização de Cooperação de Xangai e a Organização do Tratado de Segurança Colectiva, a diplomacia russa conclui que o seu país “contribuirá para os esforços de estabilização no Afeganistão... com base numa parceria de igual para igual com outros membros da comunidade internacional”.

9 comentários:

Jose Milhazes disse...

Uma análise interessante, publicada pela Ria-Novosti, que completa o artigo:

La nueva estrategia estadounidense con respecto a Afganistán depara retos serios a Rusia, advierte el politólogo Fiódor Lukiánov en un artículo publicado hoy en el diario digital ruso Gazeta.Ru.

Lukiánov, quien dirige la revista "Rusia en la política global", señala que la rápida retirada de EEUU y la OTAN desde Afganistán implica una amenaza para el Asia Central en primer término. Es probable que los talibanes se hagan con el poder en Kabul, y aunque difícilmente iniciarán una expansión hacia el norte, muchos "guerreros libres del Islam", en particular, los nativos de países centroasiáticos, volverán la mirada hacia territorios vecinos.

La seguridad del Asia Central influye directamente en la de Rusia que se verá obligada por tanto a asumir el reto. Moscú procura transformar en una alianza eficaz la Organización del Tratado de Seguridad Colectiva (OTSC) pero todos sus intentos se ven atascados por ahora y no está claro, si conseguirá este propósito en un plazo breve.

Otro de los posibles problemas tiene que ver con el grado de presencia que Washington decida mantener en la región. Retirándose de Afganistán, EEUU querrá seguramente preservar sus bases militares en Kirguizistán y Tayikistán y, tal vez, instalar otras en Uzbekistán, lo cual obviamente causará descontento de China y Rusia que prefieren arreglárselas sin forasteros en esta parte del globo.

El deterioro de la situación regional, agravado por la creciente rivalidad entre las grandes potencias, augura complicaciones desagradables, no sólo en Afganistán. La evolución de los acontecimientos en torno a Irán es otro factor que podría incidir en el asunto. Si la tensión aumenta y las nuevas sanciones, hipotéticamente avaladas por Rusia, no surten efecto alguno, EEUU se verá ante la espinosa opción de intentar una solución militar del problema iraní. Y habrá que decidirlo justamente en el próximo año y medio, período que Barack Obama fijó para la estabilización en Afganistán. El posible uso de la fuerza, desde luego, cambiaría de raíz la situación.

La ventaja de Obama es que procedió a una revisión de la estrategia en el primer año del mandato a diferencia de su antecesor, George W. Bush, quien lo intentó casi cinco años después de lanzada la operación en Iraq. Si la nueva línea fracasa, el presidente de EEUU tendrá tiempo para esbozar otra, alternativa, antes de las elecciones de 2012.

PortugueseMan disse...

Não concordo com essa análise.

A Rússia considera uma ameaça maior a presença dos EUA na zona. Esse é o principal objectivo russo, os EUA não devem ficar na zona.

Depois dos EUA sairem é que se vai ver como vai ficar a zona. Só depois.

Não percebo como é que se diz que os EUA queiram manter as suas bases na zona, quando eles foram abertas com a justificação do acesso ao Afeganistão. Se os EUA sairem do Afeganistão, vai ser muito difícil para Obama justificar a manuntenção dessas bases e irá criar novas tensões com os russos. e chineses...

Opção militar para o Irão? Então Bush no auge não conseguiu tal feito e agora com Obama cheio de problemas em casa, a tentar acabar com 2 guerras e não se sabe quando é que isso vai ser, vai meter-se militarmente com o Irão??

Bush meteu-se com 2 países militarmente fracos e evitou o Irão, porque com este a coisa pia mais fino e seria agora Obama a ir para a frente??

Era aqui que que queria ver este politólogo explicasse como é que Obama iria fazer estes passos todos de mágica.

Moscovo vai estar sossegado a ver como as coisas se desenrolam e não vai ajudar os EUA nisto. Este desgaste da nação americana com todos estes atritos traz vantagens para a Rússia.

PortugueseMan disse...

Caro JM,

Tenho aqui um pedido a fazer.

Talvez tenha cruzado com alguma informação adicional e se calhar consegue tirar-me esta dúvida:

Foi anunciado um acordo entre a Rússia e a Itália para a entrada dos franceses no South Stream. Isto já é falado há muito tempo, mas agora a coisa parece oficial e russos e italianos chegaram a um consenso.

A minha dúvida e não vejo nenhum artigo a esclarecer isto, (o que acho muito estranho) é saber QUEM cedeu parte da sua percentagem, de modo a permitir a entrada dos franceses.

Os russos querem ter um bloco maioritário e qualquer cedência da sua parte, implica a sua perda. E para mim esta parte não está explicada em lado nenhum, foram os italianos que cederam? os russos perderam o bloco maioritário para os franceses entrarem? Isto é que é a informação importante sobre este acordo e estou muito surpreendido por não ver esclarecido nos artigos que saiem.

Se por acaso apanhar por aí qq coisa que me esclareça, ficava muito agradecido.

Cumprimentos,
PortugueseMan

Jose Milhazes disse...

Caro PM, foi tomada uma decisão de princípio sobre a participação francesa, mas vão realizar-se conversações sobre a forma e as quotas de participação.

PortugueseMan disse...

Muito bem.

Obrigado.

Pippo disse...

Evidentemente que existem razões securitárias que levarão Moscovo a desejar a pacificação do Afeganistão. A presença de militantes radicais activos perto do seu espaço estratégico (como o são o Cáucaso e a Ásia Central) comportam riscos evidentes.

No entanto, a pacificação do Af-Pak também poderá originar alterações substanciais no domínio geoeconómico da região, nomeadamente possibilitando o desejado (pelos EUA) escoamento dos hidrocaobonetos centro-asiáticos directamente para o Índico. Neste campo, já será mais conveniente para a Rússia que subsista uma boa dose de instabilidade na região, de forma a desencorajar ou gorar possíveis projectos de construção de "pipelines".

De igual modo, o como bem o referiu o PM, a presença norte-americana na região só se justifica com a "Guerra ao Terror". Se o Afeganistão for pacificado mas a presença americana se mantiver, aumentará a tensão na região pois aquela presença será entendida como intrusiva, e não como sendo meramente episódica.

Portanto, Moscovo fica numa encruzilhada. Por um lado, a manutenção da instabilidade pode, e eu repito, pode, representar riscos de segurança para a Ásia Central e para todo o seu flanco Sul; por outro lado, a estabilização do Afeganistão, com forte presença norte-americana, pode significar um desafio ao domínio da região por parte dos russos e dos chineses.

Mas honestamente, preferia uma derrota evidente e significativa dos radicais islâmicos. Não é tanto por causa do Afeganistão ou da Ásia Central, nem é sequer pela questão geoestratégica, mas porque a vitória dos guerrilheiros islâmicos e da Jihad teria um profundo significado político, spicológico e até cultural, similar, se não maior, do que o triunfo da Jihad afegã contra os soviéticos. Por isso é que é imperativo derrotar, civil e militarmente, a Jihad.

As consequências de não o fazer serão insuportáveis.

MSantos disse...

100% de acordo Pippo.

A velha guerra civilizacional que já falámos e que tanto russos, europeus, americanos ou qualquer povo que se rege pelos padrões de sociedade que conhecemos, tem todo o interesse em que não sejam os obscurantistas radicais e obcecados pelo ódio a ganhar.

É o séc. XXI em combate com o séc. XI

Cumpts
Manuel Santos

PortugueseMan disse...

Pois é Pippo,

Mas vai ser complicado vencer um inimigo deste tipo. E eles estão a ver o enfraquecimento dos EUA que são o pilar das operações.

Os EUA perdem terreno no Iraque, perdem terreno no Afeganistão, perdem força para pressionar o Irão. A aposta na Geórgia deu problemas, a Ucrânia está como está, a Rep. Checa e a Polónia estão a ver o que está a acontecer com o sistema antí-míssil, que sofre um recuo devido à pressão russa, o défice americano não para de aumentar, a moeda de desvalorizar...

Todos nós vemos isto, eles também vêem. É uma questão de tempo e eles estão a combater no seu terreno.

É complicado. Mas não podemos esquecer também que a força dos EUA é maior que aquilo que demonstra nestas guerras de atrito.

E isso a Rússia não pode ignorar e não está a ignorar.

Espera-nos ainda muitos anos de conflitos. E quando começar o petróleo a subir de novo e a procura... Temos muita coisa por resolver ainda, muita coisa.

A procissão ainda vai no adro...

Pippo disse...

Tem razão, PM, mas neste momento, se não houver alterações súbitas na cena Mudial, durante os próximos 20/30 anos o tipo de guerra que se espera que o Ocidente e a Rússia enfrentarão serão as guerras de baixa intensidade de cariz subversivo (ou como um ideólogo as chamou, de "Guerras da 4ª Geração").

Ora, neste tipo de guerra, a luta é mais ao nível da moral e da capacidade de resistência do que do poder militar "puro". De nada serve a uns EUA terem uma forte economia, um grande poder de inovação, ou um M1A2 ou um Predator, de os seus alvos forem resistentes, fanáticos, esquivos e se esconderem atrás da "população civil inocente" a qual não pode ser alvo. Temos o claro exemplo disso na operação das IDF no Líbano e em Gaza na qual os israelitas foram criticados por atingirem civis que serviam de escudos humanos ao Hizballah e ao Hamas. E apesar de sangrados, os "ressistentes" não foi derrotados.

Neste aspecto até acho que os russos estarão melhor preparados moralmente pois eles não se importam de sacrificar a população inimiga. Mas no caso russo (sobretudo o relacionado com a Chechénia), tratava-se de uma guerra de conquista efectiva, e não apenas de derrotar o inimigo e voltar para casa, como foi no Afeganistão. Talvez por isso é que nesta guerra foram derrotados e naquela ainda estão vitoriosos, mau grado a permanência de focos de insurrectos.

Ora, verifica-se que é só quando a guerra visa o domínio efectivo do território (e portanto podem ser implementadas medidas repressoras), ou quando a guerrilha não tem o apoio da população (vide caso da guerrilha comunista na Malásia), é que a insurreição é derrotada. No Afeganistão passa-se o contrário: os aliados estão numa terra estranha para impor um governo por eles escolhido, e a guerrilha tem o apoio de boa parte da população, pois a sua força baseia-se nas relações tribais e na religião.

Neste momento o Obama já deu um prazo para as forças americanas declararem "vitória" e sairem do país. Isso, no meu ponto de vista, é uma estupidez pois à guerrilha basta-lhe aguentar para ser vitoriosa. Portanto, mesmo reduzindo as suas acções militares, se os taliban deixarem a insurreição "au ralenti" a vitória será deles e da Jihad.
E neste caso, como eu apontei e me parece ser consensual, a vitória moral dos jihadistas terá enormes repercussões na cena mundial.