terça-feira, maio 04, 2010

Blog dos leitores (Impressões de uma Repatriada)

Texto traduzido e enviado pelo leitor António Campos:

"Julia Ioffe é uma jovem e talentosa jornalista e blogger americana de origem russa, conhecida pelas suas descrições incisivas e sarcásticas da realidade política do seu país de nascimento. Vale a pena ler o seu blog (http://trueslant.com/juliaioffe/). Este seu artigo, publicado recentemente no Washington Post, reflecte, de uma forma quase sentimental, a sua posição ingrata de exprimir o seu descontentamento pela evolução do seu país e chocar com a barreira do orgulho e do ressentimento dos que a consideram uma estranha privilegiada. Um vislumbre sobre a alma russa, tanto dos que a abandonaram como dos que ainda por lá vivem.
Há cerca de um mês, ao chegar a casa recebi um estranho email de Alexander Parkhomenko, um homem que nunca vi na vida. "É tudo assim tão mau na Rússia?", perguntava.
Desde há seis meses que trabalho na Rússia como jornalista e Parkhomenko andava a ler os meus artigos. Afirmou que gostava das peças, mas que "ficamos com a impressão de que foste trazida para aqui à força para este país odiado, de volta para os russos esquisitos e estúpidos, de volta para uma cidade horrível e inadequada para viver, e que a tua relação amor/ódio tem mais que ver com ódio do que com amor".
Não foi a primeira vez que fui atacada por um russo (ao estilo "só-eu-é-que-posso-gozar-com-a-minha-família") pelas minhas críticas à Rússia, o que para muitos aqui é o mesmo que odiar a Rússia. Mas algo sobre a forma como Parkhomenko foi direito ao dilema central abalou-me.
Porque estou de volta. E, descontando o pormenor de estar a viver na mesma rua e no mesmo prédio onde passei parte da minha infância, e de onde os meus pais, refugiados judeus, me arrancaram há praticamente 20 anos, estou de volta de uma forma que facilmente gera ressentimentos. Posso ter nascido aqui, falar a língua e ter família e amigos russos, mas já não tenho cidadania russa. Em vez disso, retornei na qualidade de representante da imprensa americana, a mesma instituição que achincalha os russos pelos seus falhanços e absurdos. Sou, por outras palavras, uma traidora. Não sou como os repatriados sino-americanos ou indiano-americanos, milhares dos quais se apressaram a retornar em ascensão meteórica para desenvolver as suas pátrias de origem, enriquecendo pelo caminho.
Sou uma repatriada russa e não há tantos de nós quanto isso. De facto, a maioria das pessoas desloca-se na direcção oposta. De acordo com uma estimativa recente, mais pessoas emigraram durante a alegada estabilidade da era de Vladimir Putin do que durante os caóticos anos noventa. Até ao ano passado, a Rússia estava entre os três países que produziam mais pedidos de asilo. No ano passado, fez progressos: ficou em quarto lugar.
Poucos de nós estão aqui para participar em algo estimulante, um facto do qual me apercebi quando tive a minha primeira conversa resmungona e fatalista com um local. Há um par de semanas, por exemplo, tomei um café com um porta-voz de uma empresa estatal russa. De início, ele perguntou se eu acreditava realmente em todas as coisas negativas que escrevia sobre a Rússia e sobre a sua empresa, ou se era essa simplesmente a linha editorial americana. Por altura da segunda caneca, ele já revirava os olhos ao pensar nos subornos e kickbacks que sabia grassarem pela empresa, apelidando depreciativamente de "potemkinismo" a patacoada sloganista russa sobre a modernização.
Se os russos não têm muitas esperanças para esta terra, nós, os nascidos aqui e educados nos Estados Unidos, têm ainda menos. Um repatriado que conheço andou recentemente a discutir o Evgeny Onegin de Pushkin com a sua professora de russo. Quando chegaram à parte que exprime esperanças de que, em 500 anos, a nação teria estradas decentes, desataram ambos às gargalhadas. Onegin foi publicado pela primeira vez em 1825.
Para aqueles de nós que aqui nasceram, a questão de quando a Rússia irá correr ao mesmo ritmo das suas esperanças não dá tanta vontade de rir. Há vinte anos, a 28 de Abril de 1990, os meus pais, com 30 anos, apenas 3 anos mais velhos do que eu agora, deixaram para trás as suas carreiras e os amigos que se reuniram no aeroporto para chorar, pegaram nas suas duas filhas pequenas e atravessaram o guichet dos passaportes, abdicando para sempre da sua cidadania. Nós fomos levadas com eles numa espécie de manifesto político sobre as hipóteses de um futuro brilhante para esta nação. Para eles, eram nenhumas.
Uma vez na segurança dos luxuriantes subúrbios americanos, os nossos pais tornaram-se sentimentais face ao país que abandonaram: a cultura, a língua, as melhores maneiras à mesa e o claro facto de termos ganho a segunda guerra mundial virtualmente sem ajuda. E, como muitas crianças expatriadas que mal conheciam o país, apaixonei-me acidentalmente.
Após um curso universitário sobre história soviética ter ajudado a cimentar a minha obsessão, voltei à Rússia quase todos os anos, até que decidi tentar viver aqui. Mas voltar é um luxo. Os repatriados como eu adoram viver aqui porque o fazem voluntariamente. Porque nós, com os nossos passaportes azuis, podemos sair quando quisermos, porque os nossos pais tiveram a presciência de o tornar possível por nós. Não temos que nos aborrecer, tal como acontece com a minha avó em Moscovo, com o facto de as eleições serem falsificadas, porque não é a nossa democracia que está a ser roubada. Não temos que pagar a corrupção que está a devorar, mesmo segundo as próprias estimativas governamentais, um terço do orçamento do país. Aqui, vivemos uma vida mágica paralela, e a magnitude de tal ficou clara quando, numa noite recente, numa cozinha de uma amiga, me encontrava imersa em mais uma conversa deprimente sobre quanto tempo a actual encarnação da Rússia irá durar. Subitamente, a sua filha de 3 anos corre na nossa direcção. A minha amiga, baixando-se para a abraçar, murmurou tristemente contra os seus cabelos: "Oh filha...o que vai ser de nós?"
Poucos dos repatriados que conheço ficam mais do que 5 anos. A maioria de nós voltará para as nossas vidas mais estáveis, mais protegidas e mais previsíveis. Moscovo tornar-se-á numa memória, uma história louca que, anos volvidos, tornar-se-á num estribilho repetido em festas até ficar gasto pelo uso. Leremos as notícias sobre a Rússia cada vez menos frequentemente e comunicaremos menos com os nossos amigos russos que ainda têm que cá viver. Claro que isto irrita pessoas como Parkhomenko. Foste-te embora, viveste a tua confortável vida americana e agora estás de volta para criticar, antes de voltares à pressa para o teu subúrbio?
Há uns dias lá arranjei coragem para responder. Expliquei que a minha função era de relatar objectivamente o que via, e não lisonjear ou criticar. De seguida, perguntei: "Como é que podes amar a Rússia e ignorar todos os seus problemas?" Ele respondeu rápida e longamente. Disse que vivia agora no Cazaquistão. Muitos dos seus amigos tinham sido presos. "Acredita em mim", escreveu, "que o que acontece aqui está para Moscovo como Moscovo está para Nova Iorque". Disse também que tinha rapidamente esbarrado em cazaques que lhe disseram para calar a sua boca hipócrita. Mas a sua reacção foi distintamente russa: não lhe competia criticar e, fosse como fosse, o que é que um homem pode fazer? "Algum tempo depois, acabei por me calar", escreveu. "Posso criticar o governo, apontar os erros, mas não posso afirmar que a minha verdade é melhor que a deles. Enfim, cada um tem a sua. E se puder ajudar, propondo o que acho que está certo...ficarei contente se o aceitarem. Mas eles não são, de forma alguma, obrigados a fazê-lo."
Mas o Cazaquistão não é de Parkhomenko, pelo menos não da forma como a Rússia ainda é minha, e sê-lo-á indelevelmente. A sala onde estou a escrever é onde a minha avó passou os últimos anos da sua vida. Estou rodeada pelos restos da sua elegante porcelana e pelos livros de arte do meu avô. Todos os dias passo pela escola onde fiz a primeira classe: um bloco marfim recuado da estrada. Também a minha mãe andou nessa escola. Estas coisas tornaram-se de novo parte do meu quotidiano, sendo talvez por isso que senti as palavras de Parkhomenko como se fossem um soco no estômago. Sim, critico a Rússia, mas porque desejo que o país atinja os níveis que estabelece para si próprio. Quem me dera que o governo parasse de se comparar com a Europa e os Estados Unidos num fôlego e no seguinte professar o seu sagrado excepcionalismo. Quem me dera que parasse de se arrogar e exigir respeito e que simplesmente o obtivesse com as suas acções, tal como demonstrou que podia quando metade do governo polaco se despenhou numa floresta russa.
Tenho a noção de que estes sentimentos não são lá muito russos, especialmente num país onde 85% dos adultos, de acordo com uma sondagem recente, acham que não podem fazer nada para influenciar o seu governo. Mas como é que podemos amar este lugar e permanecer educadamente calados, respondendo apenas a mando da batuta do Kremlin?"

31 comentários:

PortugueseMan disse...

Caro JM,

Gazprom Net Rises as Russian, Europe Demand Recovers

the world’s biggest gas producer, increased profit eightfold on a gain from an asset swap deal with E.On Ruhrgas AG and after fuel consumption in Russia and Europe started to recover.

Net income in the fourth quarter rose to 309 billion rubles ($10.5 billion) from 37.5 billion rubles a year earlier...

...Gazprom boosted proved gas reserves about 2.2 percent last year through exploration ...


http://www.bloomberg.com/apps/news?sid=aM_CZLOL.Ws0&pid=20601087

A Gazprom está a reportar um aumento de mais de 800%, o que mostra a direcção que a coisa vai tomar.

Ao mesmo tempo se olharmos para as reservas financeiras, os dados de Março indicam que estão em muito boa saúde com 447 Biliões de dólares, quase tanto quanto todos os países que integram a UE.

A Rússia entrou nesta última contracção económica mundial, com uma reserva financeira de dimensão semelhante, com as dívidas saldadas e não pede dinheiro ao exterior como por exemplo o FMI e lida com os problemas dos seus bancos sózinha.

Assiste a uma queda abrupta dos preços da energia o que a afecta grandemente dado que a Rússia é um pais que continua dependente dos seus recursos energéticos, assiste a uma guerra do gás com corte à Europa com todos os prejuízos associados, a uma guerra com todos os seus problemas e o que vemos agora?

Ao contrário de alguns países falidos e outros muito dependentes de empréstimos, a Rússia até se dá ao luxo de ajudar um país com a dimensão da Ucrânia, coisa que nem a Europa se atreveu a fazê-lo.

Não interrompeu projectos de interesse nacional (e são muitos), não parou a reforma militar (que é muito grande)

Está a estabelecer novas linhas energéticas com a Europa e o Oriente, onde envolve os mais influentes paises europeus e orientais.

A Rússia passou por cima desta contracção económica mundial como um carro que passa por uma pequena lomba.

A andar assim, esta década será uma década de consolidação do que se tem estado a fazer e vamos assistir a um crescimento em várias àreas.

ALONE HUNTER disse...

Com certeza é uma traidora! Nasceu e foi educada em solo russo, comeu a comida que brota do solo russo, ganhou todos os benefícios para uma cidadã russa, e na primeira oportunidade que tem, faz um visto e se muda para Nova York.

E covardemente, de Nova York, cospe na cara da Terra Mãe, numa traição á Pátria!!!

É uma traidora, que merece então, ser excomungada da Rússia! Para sempre!!!

Corrupção... Como se não existisse em outros países, como México, Brasil, China, Portugal, etc...

São mal amados, qe fracassaram e agora se prostituem na América!!!

anónimo russo disse...

1. Talvez fosse em parte o complexo dos emigrantes que se tentam convencer a si próprios que não foi em vão que emigraram da rússia. Mostram uma intoleráncia aínda maior quando vêm o sucesso de alguns colegas seus que ficaram aqui. Segundo notei, os "criticos" mais radicais dos males russos e até por vezes mais desesperados são exatamente esta espécie de gente que emigrou daqui e que agora nem sempre pertence à mesma classe social que pertencia aqui. E gastam agora a sua saliva apontando os males, gritando que a Rússia não tem futuro etc. Mas isso parece mais uma tentativa de se convencerem a si próprios de que não foi em vão que fugiram, valeu a pena etc. Porque, realmente, talvez essa jornalista não se sinta tão à vontade como, por exemplo, um meu amigo desde os tempos de escola que agora é um jornalista, trabalha em moscovo, viaja pelo mundo, visita de vez em quando tambem os EUA. Para viver uma vida decente nem ele, nem os seus pais não tiveram de fugir do país, pedir humildemente a cidadania americana e, talvez, por alguns anos viver como uma pessoa da 3 categoria, lavando os chãos nos moteis etc. Talvez seja por isso que ele não se indigne tanto com a "opressão da democracia", "falsificalões" e não pronuncia constantemente todas essas cliches hipocritas.

2. Waschington Post, sem dúvida, é uma fonte mais isenta para ler sobre a Rússia e, sem dúvida, a redação deste jornal pensa unico- e exclusivamente em bem-estar da Rússia e deseja um futuro risonho para o nosso país.

anónimo russo disse...

3. E mais uma coisa. Talvez seja por isso que Portugal está nesta situação economica que nós todos conhecemos que os seus "genios" financeiros gastam o seu tempo de trabalho escrevendo nos blogs? Ou, quem sabe, talvez Portugal só ganhe com isso? Quanto mais longe estiverem estes senhores blogueiros da economia portuguesa, mais depressa esta última vai melhorar?

Jest nas Wielu disse...

Um drama tipicamente russo (embora poderia acontecer nos destroços de qualquer império).

Uma expatriada judia que ama profundamente a Rússia, a sua pátria de nascimento. Um ucraniano de origem que vive no Cazaquistão e se aborreça com as críticas da Rússia.

Os russos têm um sentimento contraditório perante os estrangeiros: por um lado invejam os pela sua liberdade (“ele é estrangeiro”, - dizem, “pode fazer o que quer”), pela possibilidade de comprar o bilhete e sair do país em qualquer altura (assim mesmo, como escreve Júlia). Por outro lado, os russos ficam chateados com os estrangeiros, quando estes criticam o país deles. Já citei uma vez as palavras do Pushkin (também ele, de uma certa maneira, o estrangeiro no seu próprio país): “É claro, que desprezo profundamente a minha pátria, mas odeio quando este sentimento é compartilhado por um estrangeiro”.

Por isso, os expatriados, os russos que emigraram para o estrangeiro (e os descendentes deles) são encarados na Rússia de uma forma complexa: uma miscelânea de inveja & admiração e inveja & ódio.

Mas para perceber isso, não basta de ler e perceber Dostoevski ou Voynovich. É preciso nascer russo, ou pelo menos na URSS.

p.s.
Na Ucrânia o sentimento para com a nossa Diáspora também é complexo, mas é diferente e é uma outra história.

p.p.s.
http://en.wikipedia.org/wiki/
The_Life_and_Extraordinary_Adventures_
of_Private_Ivan_Chonkin

anónimo russo disse...

Jest nas Wielu disse...


"Os russos têm um sentimento contraditório perante os estrangeiros: por um lado invejam os pela sua liberdade (“ele é estrangeiro”, - dizem, “pode fazer o que quer”)"


Haha. "Pode fazer o que quer"? Quem sabe, talvez há uns 25 anos alguns diziam assim. Agora qualquer um aqui pode fazer o que quer e, o que é mais importante, quem tem a vontade de trabalhar e ganhar (pelo menos entre os jovens) tem todas as oportunidades para isso.

anónimo russo disse...

Por sinal, nós aínda podiamos acreditar que os nossos irmãos (governo norte-americano e alguns dos funcionários europeus que por alguma razão seguem devotamente a política deste governo sem seguir por vezes os interesses da própria Europa) com todo o seu média-acompanhametno apenas nos querem ajudar, colocar no caminho certo etc., mas, infelismente, vé-se logo que são muito parciais em tudo (e não pode ser de outra maneira, é politica, com toda a hipocrisia e tudo). Há uns 25 anos, talvez, alguns acreditavam que os EUA apenas querem semear democracia e progresso por todo o mundo, mas agora acho que ninguem pode pensar assim à sério. Por isso considero um pouco ingénuo procurar a verdade sobre a Rússia nas páginas do Washington Post.

Pippo disse...

Se essa é mais uma tentativa pueril de criticar a Rússia ou o seu Governo, bateu na trave. Trata-se apensa de uma opinião de uma jornalista, sem apresentar dados concretos para as suas afirmações.

Ainda por cima, a tradução denota o mau português do tradutor:
"quando tive a minha primeira conversa resmungona e fatalista com um local"... Conversa com um local??? A jornalista conversou com uma Praça, com uma rua, com uma cidade?
"Local", em inglês, traduzir-se-á como nativo ou autóctone, não como "local".

anónimo russo disse...

Pippo disse...
"Se essa é mais uma tentativa pueril de criticar a Rússia ou o seu Governo, bateu na trave. Trata-se apensa de uma opinião de uma jornalista, sem apresentar dados concretos para as suas afirmações."



O pior é que algumas dessas pessoas, que publicam aqui os seus textos, pelos vistos, nem têm por objetivo criticar o governo russo com o fim de melhorar algo etc. Eles, pelos vistos, têm o seu motivo pessoal de publicar tais textos, talvez por alguma ofensa ou deus lá sabe por que razão. Por que no caso deste texto não se podia imaginar uma fonte mais parcial e uma jornalista que não tem nenhuma autoridade moral para ensinar o que quer que seja à Rússia. Porque ela, ao contrário de milhões e milhões dos russos que produzem cada um a sua pequena parcela do PIB russo, que criam os seus filhos aqui, mostra o seu orgulho por não mais o passaporte russo. Que maravilha, hein! Sem falar do estabelecimento onde ela trabalha.

Aos portugueses peço perdão se ofendi alguem, ma há coisas que não podem ficar sem resposta.

anónimo russo disse...

P.S.


"Tenho a noção de que estes sentimentos não são lá muito russos, especialmente num país onde 85% dos adultos, de acordo com uma sondagem recente, acham que não podem fazer nada para influenciar o seu governo"


Ela se esqueceu de dizer que uns 70-80% dos russos, segundo as sondagens, apoiam a atividade do governo e do presidente, e estes dados não são meus. Quem quiser, pode procurar na internet os resultados das pesquisas sociológicas, não acho que haja alguma falsificação.

È tambem mais uma coisa que me indigna a mim pessoalmente: se querem apontar os problemas da Rússia atual, sejam honestos até ao fim, não se esqueçam de dizer que o governo e o presidente têm apoio da maioria da população, que, pelos vistos, as autoridades tentam fazer alguma coisa e sem dúvida já obtiveram sucesso nalgumas áreas. Mas desconfio que não seja este o objetivo de alguns dos "criticos do regime".

António disse...

De novo, um indistinto representante dos lacaios putinófilos revela, em todo o esplendor, o calibre intelectual da cáfila a que pertence. Mais do mesmo, portanto.

Não é que mereça algum comentário, mas não posso deixar de manifestar o meu assombro pelo facto de publicações como o The New Yorker, o New Republic, o Washington Post, o Foreign Policy Magazine, o New York Observer e o Columbia Journalism Review terem descido a qualidade editorial ao ponto de aceitarem todos publicar estas tentativas pueris de criticar a Rússia sem quaisquer bases factuais. Agradeçamos portanto ao leitor pipo, seja lá ele quem for, o favor de nos ter aberto os olhos para tamanha calinada perpetrada por aqueles monstros jornalísticos.

Quanto ao português, impõe-se aqui um pequeno apontamento gramatical. Também não é surpresa que o leitor pipo não se tenha apercebido que a palavra "locais", além de ser usada como substantivo, também o é como adjectivo, significando nesse caso "relativo a determinado lugar". Ora como se sabe, o contexto pode permitir o subentendimento do sujeito, não sendo necessário referir, neste caso específico, que "locais" são os "habitantes".

Um exemplo prático: se nos quisermos referir ao leitor pipo e às respectivas qualidades intelectuais, poderemos usar isoladamente na frase o adjectivo "néscio" sem que tenhamos que o preceder de substantivos tais como "indivíduo" ou "fulano". Ou outro substantivo com cariz mais quadrúpede.

António Campos

Cristina disse...

O artigo teria de provocar polémica porque o tema dos emigrantes russos é sempre muito doloroso, quer para os que partem, quer para os que ficam. Aliás, esta relação da Rússia com os seus cidadãos que escolheram emigrar sempre me intrigou muito, porque os portugueses, um país de emigrantes, convivem com isso com muito mais naturalidade: aqui os emigrantes são sempre bem-vindos quando regressam, ninguém lhes chama traidores, são até elogiados pelo Governo por enviarem remessas, etc. etc.
Mas na Rússia a situação é diferente. Não sei se por terem vivido uma guerra civil no início do século entre "vermelhos" e "brancos" e muitos destes últimos terem abandonado o país, se por muitos dos que partiram e partem da Rússia serem judeus, ou porque as leis obrigavam as pessoas a renunciar à nacionalidade soviética (o que já não se verifica hoje), a verdade é que quem emigra da Rússia é quase sempre, aberta ou veladamente, visto como alguém que traiu o seu país.
Esta visão dada no artigo, que achei muito bem escrita, reflecte o drama de uma geração que foi educada no Ocidente, tenta voltar às raízes, mas os valores com que foi educada não lhe permitem voltar a integrar-se na Rússia actual.
Há uma coisa que o tradutor (António) se equivoca: a jornalista não é um vislumbre sobre a "alma russa" porque vem de uma família judia, tal como as muitas outras que nos anos 80 e 90 deixaram a Rússia e emigraram para Israel e para os EUA. Não há melhores críticos da Rússia do que os intelectuais judeus que nasceram no país.Aliás muitos deles integram hoje a oposição em Moscovo.
A verdadeira "alma russa" acho que é um pouco diferente.

a.tavares.almeida disse...

Esse país de mentalidade/alma ''bizantino-mongol'' demorará muito pra se tornar uma democracia de verdade.

É só ver o nível dos que apóiam o governo russo nesse blog.

Esse povo sonha mesmo é com um novo Ivan, o terrível.

a.tavares.almeida disse...

E digo mais: Nesse ponto até os iranianos tem mais dignidade: dão literalmente o sangue por uma democracia que demorará décadas pra se concretizar. E haverá muito sangue.


Os russos? lambem as botas do "papai estado", admiram carniceiros como Lênin e Stálin e não têm a decência de pelo menos respeitar os 30 milhões de seres humanos triturados pelo regime mais criminoso da história da humanidade. Como servos e escravos que sempre foram, odeiam a liberdade, odeiam quem tem uma cor diferente, odeiam quem tem uma religião diferente. Odeiam quem tem UM PENSAMENTO diferente. Simplesmente porque o GOVERNO/ESTADO/AUTORIDADE ordenou ou incentivou.

Claro que nem todos são assim, mas essa minoria é esmagada com violência tradicional.


Deus tenha piedade desse povo.

Wandard disse...

Com todo o respeito ao Antonio Campos, trata-se da opinião de uma pessoa. Russa de nascimento, porém aculturada desde a infância nos "Estados Unidos". É mais do que certo que a mesma sofra um impacto negativo considerável ao resolver morar na Rússia, pois para ela trata-se de outro país, apesar de russa ela é uma estranha em uma terra estranha. Quanto a animosidade do citado russo por ela, é absolutamente normal, visto que trata-se de uma jornalista americana e russa de nascimento, que fala mal da Rússia em seus artigos.

anónimo russo disse...

01:15

a.tavares.almeida disse...


"Os russos? lambem as botas do "papai estado", admiram carniceiros como Lênin e Stálin e não têm a decência de pelo menos respeitar os 30 milhões de seres humanos triturados pelo regime mais criminoso da história da humanidade. Como servos e escravos que sempre foram, odeiam a liberdade, odeiam quem tem uma cor diferente, odeiam quem tem uma religião diferente. Odeiam quem tem UM PENSAMENTO diferente. Simplesmente porque o GOVERNO/ESTADO/AUTORIDADE ordenou ou incentivou."


Italo, é você? Então nem vale a pena responder. Só uma nota: como você muito bem sabe (ou, se viveu na Rússia pouco tempo demais, pode não saber) nenhum governo desde o fim da época sovietica não ordena nada a ninguem em relação aos pensamentos, ideologia etc. Se o governo tem o apoio da maioria da população ou pelo menos a maioria não sente a necessidade de mudar esse governo, isso não significa que todos eles são lacaios de alguem, mas significa apenas que a maioria, alguns mais, outros, menos estão contentes com o trabalho do governo atual. E têm razões para isso. Não é tolo apoiar um governo, mas é tolo não respeitar a vontade e a opinião de um povo só por alguns motivos pessoais, Italo.

António disse...

Caro Wandard, do meu ponto de vista, o artigo da Julia Ioffe, longe de exprimir uma opinião, é muito mais um relato pessoal das impressões de uma filha de emigrantes que ama o seu país de origem e, por exposição a uma sociedade mais aberta, não entende a passividade dos seus conterrâneos face ao estado das coisas e, pior que isso, ressente-se de ser atacada pelos seus pares por o tentar defender na imprensa. Coisa que aqui neste blog, aliás, passa o tempo a acontecer também.

Cristina, como bem sabes, características importantes do que se convencionou designar por "alma russa" são (para além do sentimentalismo, da tendência para o misticismo e de muitas outras pequenas coisas) a submissividade, a resignação e o fatalismo. Estas últimas, infelizmente, têm vindo a ter consequências desastrosas para a evolução social do país, na forma daquilo a que eu chamaria "complexo do czar". Vemos aqui, por um lado, essa manifestação de deferência resignada por parte do correspondente da jornalista, ele próprio um emigrante que, aliás, sofre do mesmo tipo de ataques no Cazaquistão, quando se revolta contra o que observa à sua volta. Por outro, vemos a influência de uma cultura diferente na atitude de alguém, que aprendeu a não se resignar, face ao que se passa no seu país. Aqui, assistimos à perversão desse lado da "personalidade" russa.

E ainda que grande parte da intelectualidade russo-judaica tenha tendência para o inconformismo, como disseste, parece-me mais que a exposição a culturas diferentes, independentemente da etnia, é fundamental para contrabalançar esta submissividade nefasta. Vêm-me à cabeça exemplos famosos de emigrantes russos não judeus que se converteram em críticos do status quo: Igor Stravinsky e Paul Klebnikov, este último também um jornalista "repatriado" (filho de emigrantes russos, netos de um almirante do exército branco e nascido em NYC, na verdade) que acabou por ser baleado em Moscovo em 2004 e morreu por incompetência do pessoal paramédico e hospitalar que o "tratou".

António Campos

ARS disse...

Os comunistas gregos dizem:
-Pague a crise quem a causou!
Se isso significa identificar a corrupção, os desvios, as incompetências que a originaram, a Grécia e a Europa só podem aplaudir.

anónimo russo disse...

António disse...

"Caro Wandard, do meu ponto de vista, o artigo da Julia Ioffe, longe de exprimir uma opinião, é muito mais um relato pessoal das impressões de uma filha de emigrantes que ama o seu país de origem e, por exposição a uma sociedade mais aberta, não entende a passividade dos seus conterrâneos face ao estado das coisas e, pior que isso, ressente-se de ser atacada pelos seus pares por o tentar defender na imprensa. Coisa que aqui neste blog, aliás, passa o tempo a acontecer também."



"...por exposição a uma sociedade mais aberta, não entende a passividade dos seus conterrâneos face ao estado das coisas..."



Ao ler estas linhas sentimentais, eu já estaria a chorar, talvez... Se não tivesse um parente que vive há uns 10 anos no ocidente. Ele é relativamente jovem aínda, continua a estudar (eu, por sinal, não aprovo muito os pais dele que o enviaram lá para estudar, mas era moda, e não é comigo). Pois, quando ele vizita a Rússia, ele no máximo critica o estado das estradas ou alguma coisa semelhante, mas, por alguma razão, não começa a gritar de "falta da democracia", nem escreve artigos chorosos no Washington Post, nem luta contra a "passividade dos seus conterrâneos face ao estado das coisas". Porque seria? Pode ser porque aqui não andam ursos pelas ruas a pedir subornos. Ou talvez porque aqui esses malditos falsificadores de votos não assaltem a qualquer um que passa pela rua exigindo votar na "Rússia Unida"? Ou talvez porque veja que o país se desenvolve aos poucos e tudo já é totalmente diferente daquilo que houve aqui há uns 15 anos?

O que quero dizer com isso? Quero dizer que essa jornalista de Washington Post faz o seu trabalho e nada mais. Se alguns não entendem o estado das coisas reais, a luta politica e geopolitica, o problema é deles. Mas o artigo aqui apresentado nada tem a ver com as impressoes e mágoas de uma jovem emigrante, mas sim é um bom artigo ao estilo de Washington Post e nada mais.

Anónimo disse...

Na Rússia tudo voltou a melhorar...de acordo com algumas projecções a economia do país crescerá acima de 4% neste ano, cá estamos todos nós a criticar e falar mal da Rússia sem olhar os nossos umbigos... Portugal está numa difícil situação, nessas horas que a democracia não está a servir para nada.

Pippo disse...

PM, não sei se leu no The Wall Street Journal, mas o Pentágono está a preparar-se para se tornar mais activo na corrida para adquirir matérias primas.

Isto é interessante porque demonstra que, cada vez mais, o controlo e o acesso aos recursos pode ditar a ascenção ou a queda dos actores internacionais.

Segundo o WSJ, a China controla uns 90% dos minerais raros da Terra.
Qual será o papel da Rússia neste jogo?

http://online.wsj.com/article/SB10001424052748704608104575220112898707130.html

Pippo disse...

Off Topic

A China envia enormes delegações de especialistas à procura da tecnologia militar russa:

http://www.washingtontimes.com/news/2010/may/04/china-eager-for-russian-air-technology/

MSantos disse...

Pippo, o link do Wall Street Journal não funciona.

Sobre a delegação chinesa, eles buscam a tecnologia dos motores a jato, mas duvido que consigam pois os russos ficaram muito escaldados com a cópia pirata do SU-27.

Antigamente a Rússia vendia armamento à China por extrema necessidade. Agora os tempos são outros.

A geopolítica também está a mudar e a China cada vez mais vai ser um oponente à Rússia, como tal, é provável que tenham "fechado a loja" pelo menos em transferências de tecnologia.

Mas veremos

Cumpts
Manuel Santos

Jest nas Wielu disse...

Já agora, os partidários pró – russos conseguem nós apresentar pelo menos um artigo da autoria da Júlia Ioffe, onde ela “fala mal”, “ofende”, “cospe” (quer o próprio Putler, quer os putleiranos adoram a temática dos retretes: cuspos, canalizações, killar nos retretes, etc.

a.tavares.almeida disse...

"nenhum governo desde o fim da época sovietica não ordena nada a ninguem em relação aos pensamentos, ideologia etc. "


Pelo amor de Deus, menos cinismo Anônimo russo.



Quem não se dará ao trabalho de responder a essa afirmação sou eu.

Anónimo disse...

"Os comunistas gregos dizem:
-Pague a crise quem a causou!
Se isso significa identificar a corrupção, os desvios, as incompetências que a originaram, a Grécia e a Europa só podem aplaudir."


Esses não passam de GOLPISTAS violentos. Mas já foram derrotados uma vez. Serão novamente.


Não querem a reestruturação do país, nem que se resolva nada.

Apenas odeiam as leis, a Constituição e o Estado de direito, pois sabem que por meio de eleições jamais chegarão ao poder.

PortugueseMan disse...

Caro Pippo,

Desconhecia o artigo.

The U.S. military is gearing up to become a more active player in the global scramble for raw materials, as competition from China and other countries raises concerns about the cost and availability of resources deemed vital to national security...

Este 1º parágrafo diz tudo. O problema dos custos e o problema da disponibilidade das matérias primas.

Elas podem existir mas nada lhes garante que sejam para eles.

A grande questão é, até onde estarão dispostos a ir para atingir os seus objectivos.

a.tavares.almeida disse...

05/05/2010 - 15h17
Presidente grego diz que a Grécia está à beira do abismo; três morrem

Três pessoas morreram quando uma agência bancária do centro de Atenas foi incendiada por coquetéis molotov jogados por jovens com o rosto coberto por lenços durante as manifestações de protesto.

Quase 20 pessoas estavam no banco quando teve início o incêndio. Duas mulheres e um homem morreram no meio das chamas, segundo informações da polícia grega.

Dois prédios públicos, uma agência da receita e um edifício da prefeitura de Atenas, também foram incendiados com coquetéis molotov.

Dezenas de jovens jogaram coquetéis molotov contra as vitrines de lojas e bancos no centro de Atenas, o que provocou vários pontos de incêndio.



QUANDO ESSES COMUNISTAS SERÃO PRESOS E CONDENADOS DE ACORDO COM A LEI POR TEREM ASSASSINADO 3 PESSOAS INOCENTES?



A GRÉCIA É UM PAÍS DE FROUXOS.

PortugueseMan disse...

Esse da China mostra claramente que os chineses continuam com problemas nos motores.

Os chineses arranjaram um problema com os russos. Ao copiarem o SU-27, quando não o podiam fazê-lo, irritaram os russos.

Agora como a Rússia, já não está naquela situação de que tudo está à venda por tuta e meia, já não aceita qualquer pedido chinês.

E os que são aceites, serão a um preço imcomparavelmente maior.

Não deixa de ser curioso que enquanto a Rússia tenta modernizar a sua tecnologia, e no caso dos motores isso nota-se no novo motor para o sukhoi superjet, ainda consegue estar à frente da China, pois estes continuam sem conseguir construir um motor ao nível dos russos.

Achei interessante este parágrafo:

...The aircraft-engine-technology trade show this year had a smaller turnout than in previous years following Moscow's consolidation of almost all of the aviation-engine design and production facilities into one large, state-mandated firm...

Mais uma indicação das reformas que estão a ser efectuadas.

Sabia da situação em relação a barcos, aviões, mas não sabia que estavam a fazer isso para motores.

É bom sinal e considero uma aposta correcta por parte da Rússia. Juntar o que pode ser aproveitado, investir na modernização e captar know-how estrangeiro para recuperar o tempo que foi perdido. Para isto é preciso dinheiro e dinheiro é aquilo que têm.

Tempo de semear e daqui a uns anos veremos se dará frutos.

anónimo russo disse...

a.tavares.almeida disse...
"nenhum governo desde o fim da época sovietica não ordena nada a ninguem em relação aos pensamentos, ideologia etc. "


Pelo amor de Deus, menos cinismo Anônimo russo.



Quem não se dará ao trabalho de responder a essa afirmação sou eu."


Há quanto tempo é que o sr estudante brasileiro vive na Rússia? Eu nem olhava para o que voce escreve aqui se não tivesse pena de que aquelas pessõas que não conhecem a situação de perto possam levar à sério as suas palavras. Eu já disse que conhecia um pouco a vida que os estudantes estrangeiros levam aqui, as suas dificuldades com a lingua, as dificuldades vindas da diferença das mentalidades (já ouvi alguns brasileiros se qeuixarem das coisas semelhantes) etc. Mas misturar o seu descontentamento pessoal com a política - isso eu não posso levar à sério. Mas voce é um veradeiro fanático virtual, italo, e responder a tudo o que voce escreve seria gastar tempo em vão.

Pippo disse...

Concordo convosco, MSantos e PM.

A China teve um grande avanço industrial e tecnológico, fruto da estabilidade política, social e económica, e soube apostar nas cópias de produtos estrangeiros, vide aviões russos. O problema é que a China não equacionou a possibilidade de os russos recuperarem economicamente e "fecharem a torneira" da transferência de tecnologia, e agora os chineses já não têm parceiros para lhes copiar os produtos.
Não tenho quaisquer dúvidas que neste momento, estarão a operar, em solo russo, muitos espiões a soldo de Moscovo.

PM, eu também prestei atenção a esse pormenor da concentração da indústria de motores numa grande entidade. É uma maneira de ganhar sinergias e evitar fugas de informação.

E uma vez que a Rússia tem dinheiro em caixa, neste momento pode investir, quer em tecnologias, quer no seu potencial humano (que é onde qualquer Nação deve investir). Se fizer uma correcta gestão desses fundos, como diz, os frutos serão bem grandes.