terça-feira, junho 29, 2010

Mais uma história de espiões mal contada



O primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, declarou esperar que o “escândalo de espiões” não prejudique o que de positivo foi acumulado nas relações russo americanas.
Tu chegaste a Moscovo no preciso momento, a polícia “esmerou-se” no teu país e atira pessoas para a cadeia. É verdade que esse trabalho é feito em toda a parte”, disse ele ao receber, na capital russa, Bill Clinton, antigo Presidente norte-americano.
Espero muito que o que de positivo foi acumulado nas nossas relações bilaterais, nos últimos tempos, não saia prejudicado pelos últimos acontecimentos”, frisou.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia emitiu hoje um segundo comunicado onde afirma que os Estados Unidos acusaram de espionagem cidadãos russos que estiveram em território norte-americano em várias alturas, mas sublinha que eles não agiram contra os Estados Unidos.
A propósito das acusações feitas nos Estados Unidos em relação a um grupo de pessoas alegadamente por espionagem a favor da Rússia, comunicamos que se trata de cidadãos russos que se viram no território dos Estados Unidos em diferentes épocas”, lê-se num comunicado no sítio eletrónico do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia.
Declaramos que esses cidadãos não realizaram quaisquer ações dirigidas contra os interesses dos Estados Unidos”, sublinha a diplomacia russa.
Moscovo espera que os funcionários consulares e advogados da Embaixada da Rússia em Washington possam prestar o apoio necessário aos detidos.
Esperamos que a parte americana revele, nesta questão, a devida compreensão, nomeadamente partindo do caráter positivo da atual etapa do desenvolvimento das relações russo-americanas”.
Os dirigentes russos estão a revelar forte nervosismo face às acusações norte-americanas.
Nikolai Kovaliov, antigo diretor do Serviço Federal de Segurança (ex-KGB) da Rússia, considera este episódio “estupidez completa, um detetive ainda mais barato do que os de Agatha Christie”.
Claro que não se trata de uma coincidência ocasional o fato do grupo de “espiões russos desmascarados” ter sido detido logo após a visita de Dmitri Medvedev, Presidente da Rússia, aos Estados Unidos”.
Na véspera, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia refutou as acusações da polícia alemã sobre a espionagem industrial russa no território da Alemanha com argumentação semelhante.
Trata-se de um conjunto padrão de pretensões apresentadas aos representantes diplomáticos russos na Alemanha, que, segundo os serviços de contraespionagem alemães, continuam a ser “ninhos de espiões” que minam a segurança da Alemanha”, comentou Andrei Nesterenko, porta-voz da diplomacia russa.
Na semana passada, Thomas de Maizière, ministro do Interior da Alemanha, apresentou um volumoso relatório onde se acusa a Rússia e a China de serem os países que mais ativamente fazem espionagem industrial naquele país e constituem uma ameaça aos interesses alemães.
O documento apresentado pelo ministro, infelizmente, está de novo repleto de acusações infundadas ao nosso país, retiradas da época da “guerra fria”, que já parecia distante”, frisou Nesterenko.
Estou convencido de que estes incidentes não irão prejudicar fortemente as relações entre os Estados, até porque a espionagem é tão velha como o mundo.
Acho que as autoridades russas estão a agir com demasiado nervosismo para a altura. Além de dois comunicados publicados num só dia, o que não é frequente, o MNE da Rússia reconheceu que os detidos são cidadãos russos, contradizendo assim as declarações de alguns familiares dos suspeitos.
Waldo Mariscal, filho da Jornalista Vica Pelaez e do professor Juan Lazardo, dois dos alegados espiões, declarou à agência noticiosa russa que: “eles nunca estiveram na Rússia, embora, claro, se interessem pela cultura russa e gostem de Tchaikovski”.
É para estes casos que serve o provérbio: “o silêncio é ouro”.

14 comentários:

Anónimo disse...

Só sei de uma coisa: As penas serão pesadas.

PortugueseMan disse...

...Estou convencido de que estes incidentes não irão prejudicar fortemente as relações entre os Estados, até porque a espionagem é tão velha como o mundo...

Verdade. Mas há aqui algo mais.

...Acho que as autoridades russas estão a agir com demasiado nervosismo para a altura...

Quando foi a última vez que foi anunciado a captura de mais de uma dezena de espiões?

A notícia é invulgar, espalha-se pelo o mundo inteiro e uma vez mais contribui para a imagem negativa da Rússia.

Agora gostaria de dar uma outra perspectiva sobre o tema.

O que me preocupa mais a mim, não é em si esta captura de espiões, mas sim o timing. É impossível não relacionar esta situação com a visita de Medvdev.

Ora numa perspectiva diplomática, estas duas coisas não deveriam acontecer num espaço tão curto de tempo, que permita o relacionar dos dois eventos. Não acredito que Obama o permitisse, mas acredito que Obama desconhecesse estes factos e isto foi lançado neste preciso momento por facções que não gostam do caminho que Obama está a percorrer.

Embora o problema pareça estar na Rússia, na minha opinião o preocupante é o que se está a passar na América. Porque isto parece-me não ter o aval de Obama e o anuncio da captura de 11 agentes deveria suscitar uma preocupação por parte dos responsáveis em questionar se este seria um timing correcto.

Obama tem uma série de problemas, como aquela entrevista do general no Afeganistão, que o obrigou a substitui-lo, este é o mês mais mortal no Afeganistão, Obama não consegue resolver o problema lá e também não está a conseguir no Iraque e o Irão nem se fala.

Quantas pessoas na América, pessoas com poder, acham que Obama não está a fazer o suficiente para defender os interesses americanos? Quantas pessoas questionam as suas opções?

Acho que esta história de espiões, oculta algo mais preocupante por trás.

ALONE HUNTER disse...

Essas infiltrações são muito valiosas para a Rússia, que assim consegue diminuir a sua defasagem tecnológica em relação aos YANKEES.

Os resultados são quase instantaneos. De onde vocês acham que veio o conhecimento científico para desenvolver o PAK-FA? Veio dessas espíonagens!

Os russos estão dentro da LOCKHEED MARTIN,da BOEING, dentro das usinas nucleares americanas, dentro do Pentagono e até dentro da NSA!!!

Isso é muito valioso para os russos, essas inovações tecnológicas americanas tem que ser desvendadas! O trabalho desses espiões são louváveis!

O mundo precisa saber o que se passa por dentro dessa indústria bélica americana, qual a tecnologia criada, e como disseminar essas informações para todos.

Precisamos saber qual a tecnologia empregada no desenvolvimento de um radar AN/APG-77, qual a tecnologia empregada nos motores Pratt & Whitney F135, do que é feito a cobertura que é aplicada na fuselagem dos F-22 RAPTORS e dos B-2 SPIRIT's, que absorvem as ondas de radar em qualquer frequencia, tornando estes caças invisíveis!!

O mundo precisa saber disso, para desenvolver sistemas que possam abater estas aeronaves! E é assim que a Rússia está desenvolvendo os sistemas anti-aéreos S-500, e está incorporando os sistemas S-400!!!

Anónimo disse...

As relações russo-americanas sempre foram assim....Quando pensa que tudo está a ir bem, aparece algo para mostrar que nunca chegarão a uma "relação perfeita".

Anónimo disse...

Para quem sempre achou que os artigos sobre espionagem russa eram "invenções sobre coisas que já não existem desde que a Guerra Fria acabou", eis que se prova o contrário.
Na Europa e, concretamente, em Portugal os espiões russos só não são desmascarados porque não temos serviços à altura de o fazer, ao contrário dos EUA. Até que isso aconteça, eles vão continuar a actuar impunemente.
A Rússia pode ser um parceiro económico e cultural da Europa (quer uma, quer outra tem interesse nisso), só não pode é andar a espiar onde não deve. Tenho dito.
José L.

Anónimo disse...

Alone Hunter
Está a candidatar-se a uma vaga no SVR?
A julgar pelo seu entusiasmo, já há pelo menos um substituto para os agentes presos...
José L.

Anónimo disse...

Milhazes
Só uma pequena observação.
No seu texto, a frase "cidadãos russos que se vieram" tem alguma conotação, digamos, imprópria. Melhor seria dizer "cidadãos russos que foram para os Estados Unidos".
Naturalmente que, fora os pormenores, o texto é muito interessante.

Anónimo disse...

Recordam-se do recente post sobre a construção de uma igreja russa no centro de Paris, que não será só igreja? Pelos vistos, os serviços secretos russos também avisaram Sarkozy, mas este prefere não ver o óbvio....

Anónimo disse...

Peço desculpa, queria dizer os "serviços secretos franceses também avisaram Sarkozy"

Jest nas Wielu disse...

Uns anitos atrás de grades sempre vão apoiar os nossos “von Stirlitz”…

p.s.
Com tanta tecnologia doméstica, não se percebe o que o império energético faz espiando: PAK-FA; LOCKHEED MARTIN, BOEING, usinas nucleares; Pentágono; NSA; AN/APG-77; Pratt & Whitney; etc.

PortugueseMan disse...

Caro JM,

Reparou nesta notícia?

RS-24 Yars missile system put on combat duty in Russia

The Rs-24 Yars missile system has been put on combat duty, a high-ranking official in the space and rocket industry told Itar-Tass on Wednesday...

...Institute Director Yuri Solomonov said, “All journalists are writing about Bulava, but are saying little about the new mobile missile system RS-24 Yars with multiple warheads that we created at the same time.”...


http://www.itar-tass.com/eng/level2.html?NewsID=15279683&PageNum=0

E este parágrafo... fez-me lembrar uma troca de palavras que tivemos no ano passado.

Cristina disse...

Peço desculpa pelo tamanho do texto que vou publicar, mas acho que vale a pena para compreender melhor todo este caso.
"VISÃO RUSSA DA HISTÓRIA DOS ESPIÕES NOS EUA

Andrei Fediachin, RIA Novosti
A recente detenção de onze alegados espiões russos é um caso sem precedentes nas relações entre a Rússia e os EUA, mesmo na época da Guerra Fria. Parece uma verdadeira rede de espionagem que poderia comparar-se à célebre Orquestra Vermelha, um grupo de espiões soviéticos que actuavam na Europa ocupada pelos nazis.
Até agora, nem os EUA nem a Rússia haviam conseguido levar a cabo operações de semelhante envergadura. Em 1971, a Grã-Bretanha expulsou 105 presumíveis agentes do KGB. Tratava-se de diplomatas e jornalistas; gente que, na essência não tinha nada a ver com a espionagem. Segundo fontes russas, entre eles só havia 60 oficiais de carreira do Serviço de Inteligência soviético.
O FBI recusou formular uma acusação directa de espionagem contra os detidos. É-lhes imputada “conspiração para actuar como agentes de um governo estrangeiro”. A legislação norte-americana em vigor só autoriza os diplomatas, funcionários das embaixadas e dos consulados de países estrangeiros a recolher informação sobre a política de Washington.
O tribunal norte-americano pode condenar os detidos a cinco anos de prisão pela citada actividade ilegal. É uma sentença ligeira em comparação com a pena de 25 anos de prisão, prevista nos EUA para crimes de espionagem. Não obstante, aos suspeitos, que presumivelmente receberam grandes somas de Moscovo, poderiam ser aplicadas penas de 20 anos de prisão por “branqueamento de dinheiro”.
Os documentos do FBI identificam os detidos como sleeper (adormecido) ou mole (toupeira), utilizando o jargão dos serviços secretos, ou seja, agentes infiltrados ilegalmente num país sob uma boa cobertura. Têm o objectivo de se integrar na sociedade e tentar penetrar nos organismos militares e políticos, serviços de inteligência, centros de investigação e nos centros nevrálgicos do país a fim de se apoderar de informação ou preparar actos de sabotagem.
O certo é que tudo isto parece o guião de uma novela de espionagem ao estilo do Espião que Saiu do Frio, de John Le Carré, ou do Quarto Protocolo, de Frederick Forsyth.
Tudo isto nos remete para o passado, um passado já bastante afastado e tudo pareceria uma montagem ou a rodagem de um filme se não estivesse implicada uma organização tão respeitável como o FBI.
Os supostos espiões, que têm idades entre 30 e 45 anos, vinham sendo vigiados desde os finais dos anos 90. As mensagens decifradas que presumivelmente enviaram para a Rússia por métodos tão primitivos como o alfabeto Morse, revelam que Moscovo pretendia obter através destes agentes os dados mais variados: a correlação de forças políticas na véspera das eleições presidenciais de 2008, a posição dos EUA face às negociações sobre o Tratado de Redução dos Armamentos Estratégicos Ofensivos (START), as intenções no Afeganistão, o problema nuclear do Irão e da Coreia do Norte, os programas de desenvolvimento de novas armas nucleares, etc. (Continua)

Cristina disse...

(Continuação)
Este tipo de escândalos pode estalar de vez em quando e continuará a acontecer. Não obstante, as próprias agências já se apercebem de que é necessário torná-los públicos mais do que o necessário.
Há muitos sectores onde os serviços homólogos estrangeiros podem e devem cooperar como, por exemplo, o tráfico de droga, o terrorismo, a pirataria informática, o crime organizado, o branqueamento de dinheiro, etc., apesar de a sua missão principal ser a defrontação mútua.
As relações entre a Rússia e os EUA foram sempre de rivalidade e é necessário verificar toda a informação utilizando as melhores fontes disponíveis, ou seja, os agentes secretos.
Os próprios serviços de inteligência geralmente consideram tais incidentes como problemas rotineiros. É o melhor para todos, já que ninguém tem interesse em provocar uma guerra política.
Talvez a culpa tenha sido do FBI, que pretendeu tirar dividendos, já uma das suas missões é a contra-espionagem. E conseguiu-o em parte, porque esta operação foi um êxito. Não obstante, quando estes incidentes coincidem com o relançamento das relações entre os EUA e a Rússia, poderemos supor que por detrás de tudo isto há outras coisas.
Moscovo e Washington acabam de iniciar o relançamento no âmbito do controlo e da não-proliferação nuclear, o terrorismo, a modernização económica. O novo tratado START deve ser ratificado em breve. Os EUA desejam abolir a emenda Jackson-Vanik que restringe o comércio entre os EUA e a Rússia desde os tempos da Guerra Fria. O presidente russo, Dmitry Medvedev, acaba de concluir com êxito uma viagem aos EUA.
De repente, esta tendência positiva vê-se travada por um escândalo de espionagem.
Seja como for, a Rússia deveria sentir-se orgulhosa pela quantidade de espiões que conseguiu infiltrar nos EUA.

Cristina disse...

(Continuação)
Na realidade, esta informação era de livre acesso e podia ser obtida nas monografias dos centros científicos, directamente da imprensa ou de fontes diplomáticas. Os Serviços de Inteligência têm centros especiais que analisam todos os dados, provenientes das mais variadas fontes.
Não obstante, é impossível obter uma imagem completa sem tomar em consideração pormenores importantes enviados pelos agentes secretos. O Serviço de Reconhecimento Externo (SVR- sigla russa) e a Direcção Geral de Inteligência (GRU- sigla russa) têm os seus próprios agentes que analisam a informação obtida, estabelecem contactos com várias fontes, comparam tudo o que ouviram, viram ou leram e tiram as suas conclusões. Nenhum serviço de inteligência do mundo poderá funcionar sem essa rede de agentes.
A CIA e o FBI sabem perfeitamente que o SVR e o GRU russos actuam desta forma. Seria absurdo considerar isto uma catástrofe e acusar indiscriminadamente todos os diplomatas de espionagem.
No fundo, os diplomatas, os agentes secretos e os jornalistas têm a mesma missão: recolher e fazer chegar a informação a diferentes destinatários. Não há nada de estranho nem raro nisso, é uma prática habitual.
O FBI continua sem revelar se os presumíveis espiões obtiveram algum segredo ou afectaram a segurança dos EUA.
Em qualquer caso, seria interessante saber por que motivo os presumíveis agentes foram agora desmascarados, se tinham vindo a ser investigados desde há quase dez anos e (o que é mais importante) para quê foram desmascarados.
Também é comum os serviços de inteligência utilizarem os agentes “adormecidos “e identificados para os recrutar para as suas fileiras ou para lhes dar informações falsas. Isso é muito mais vantajoso do que provocar escândalos cujas consequências, na maioria dos casos, só são prejudiciais para ambas as partes. Os políticos usam esses escândalos nos seus interesses, mas destroem todo o tecido e uma estrutura fundamental construída e mantida em segredo durante muitos anos pelos serviços de informações.