terça-feira, agosto 17, 2010

Blog dos leitores (Não quero comunicar nem ser activo)

Texto traduzido e enviado pela leitora Cristina Mestre: 

"Andrei Arkhanguelsk: Não quero comunicar nem ser activo
Esta crónica não é sobre o calor, mas sobre a nossa cultura de comunicação: é que no nosso país as conversas costumam ser um dos meios de nos salvarmos de qualquer catástrofe natural. Ao mesmo tempo, a verdadeira cultura de comunicação perdeu-se e as conversas transformaram-se num meio de nos levar a consumir.
O escritor Dmitry Danilov tem um livro chamado “Posição Horizontal”. Recomendo este romance porque, creio, nenhum dos actuais escritores expressou com tal força a essência da nossa vida: a repetição de acções automáticas, vazias e sem sentido.
As conversas “sobre qualquer coisa” são uma forma segura de nos obrigarem a fazer compras espontâneas. Por isso, a actividade e a sociabilidade tornaram-se na moral deste mundo.
Uma conversa frequente:
Falamos sobre a Holanda e a França,
Falamos sobre o carácter nacional dos holandeses, comparação com o carácter nacional dos franceses,
Falamos sobre Roterdão, comparação com Amesterdão,
Falamos sobre a subcultura da claque do Feyenoord, comparação com a claque do Ajax, 
(Na mesa temos vodka, pão, toucinho fumado, carne, legumes guisados)
Falamos sobre o fenómeno dos carteiristas em Paris,
Falamos sobre as características do metro de Paris, comparação com as características do metro de Moscovo,
Falamos sobre a situação no mercado imobiliário de Moscovo,
Falamos sobre as novas máquinas fotográficas Nikon, comparação com as máquinas fotográficas Canon,
Falamos sobre os problemas ligados à crise económica,
Falamos sobre o escritor Anatoli Gavrilov, comparação com o escritor Viktor Erofeev,
Falamos sobre o restaurante Siviy Merin, que está a fechar,
Falamos ainda sobre várias coisas, à entrada do metro.
“Então até à próxima, gostei de te ver, passámos um bom bocado, depois ligo-te”.
Esta estrutura de uma típica “conversa de intelectuais num café da cidade”: ao contrário das conversas “normais” (onde se fala de coisas que se compraram e de tarifas, dos conhecidos comuns e queixas dos engarrafamentos) estas conversas consistem num interesse patológico sobre tudo o que não tem relação contigo, na rápida passagem de um assunto para outro, na demonstração de uma vasta erudição. 
Claro que este formato fragmentado nos foi inculcado pela televisão e pela comunicação na Internet. As conversas sobre os novos produtos, os gadgets, são mesmo um tema à parte: na prática, é o nosso reconhecimento de que as coisas há muito que são mais perfeitas e melhores e até mais independentes do que as pessoas. A própria pessoa sente que a sua existência não é tão importante e está igualmente longe quer da Nikon D80, quer da Nikon D90.
As conversas tornaram-se uma imitação igual a muitas outras: a cultura de comunicação como nascimento de algo novo, conjunto, de procura profunda, terminou. Nós vivemos na época não da filosofia mas da psicologia e, como me disse recentemente uma amiga-filósofa, é por isso que a conversa se transformou para nós num instrumento terapêutico.  
Conversámos – relaxámos os músculos da face, esquecemo-nos um no outro: o conteúdo da conversa não interessa, esquecemo-nos dela no meio dos nossos trinta planos. Aliás é fácil de dizer “Vamos falar de forma produtiva”; a frivolidade é o espírito do nosso tempo. Isto é reconhecido como um problema até pelos intelectuais. O curador de arte Hans Ulrich Obrist costuma juntar 16 dos mais conhecidos intelectuais londrinos na galeria Serpentine de três em três meses, às 5.45 da manhã para falar de um determinado tema. A hora não foi escolhida por acaso: às 5.45 não vais a lado nenhum por acaso, não vais lá para matar o tempo. As pessoas sacrificam o seu tempo de sono para poder conversar só se querem mesmo esclarecer algo a sério ou se têm algo para dizer.
Entretanto, o filólogo Mikhail Epstein está a recriar na Rússia a prática de “improvisações”, inventada há 30 anos. Recentemente, estive num destes encontros. Cinco, seis pessoas juntam-se a uma mesa, durante meia hora, escrevem um ensaio sobre um determinado tema, ou seja, assinalam as teses para a discussão e só depois é que discutem o tema.
“Para que é que inventou estas “improvisações” nos anos 80?” – perguntei eu a Mikhail Epstein. “Era uma fuga do sovietismo?” “Não. Era uma fuga do nosso próprio desleixo mental. Há muito que reparei que, quando na Rússia um grupo de pessoas simpáticas e inteligentes se junta à mesa e tu estás à espera de algo semelhante ao “Banquete” de Platão, afinal resulta uma conversa tipo “televisão”: não sei porquê todos consideram como sua obrigação não “falar de coisas pesadas”, deslizando para conversas sobre conhecidos comuns ou sobre anedotas… Porquê? Afinal há ainda quem tenha pena de perder tempo com futilidades! Foi por isso que inventei as improvisações …”.
A experiência de resistência à tagarelice inconsequente hoje ainda é mais actual: a grande descoberta da humanidade – a comunicação – foi colocada ao serviço do consumo. Não é por acaso que um dos argumentos na publicidade é o apelo “a conversar mais e mais”. Trata-se, obviamente, de ser propositadamente activo, conversador, participativo: todas estas coisas são actualmente sinónimo de consumo. Neste sentido, a publicidade há muito que não vende produtos mas sim a ideia de actividade. Faz-se publicidade não à imagem mas ao ritmo de vida. Um empregado experiente no restaurante, ao ver como a conversa está a animar, escolhe o momento adequando para sugerir humildemente: “Mais vinho?”
Aliás, o mesmo acontece com toda a economia, que se baseia actualmente no consumo não do que faz falta mas do que surge pela frente. A comunicação espontânea “sobre qualquer coisa” é a forma mais segura de nos levar a fazer compras espontâneas.
Por isso, a actividade, a comunicabilidade, a participação tornam-se na moral do mundo actual. Uma “pessoa como deve ser” é aquela que se interessa por tudo o que é novo, tudo o que acaba de sair, tudo o que é moderno, super-moderno. É aquela que tem um milhão de conhecidos e amigos. Consequentemente, aquele que evita a comunicação e as novidades, é amoral. Uma pessoa que não faça parte de um qualquer fórum ou rede social é considerada como doente, um irremediável outsider no mundo.
“Ó cabeça no ar, estás neste mundo ou no outro?” - é assim que dizem a uma criança, com um irónico estalar dos dedos em frente aos olhos, quando esta deixa de tagarelar alegremente e fica calada e distraída a pensar ao canto da mesa. “Estás muito calada…”, insistem os adultos com esta criança. Parece que tagarelar sem fim é considerado normal. As pessoas sentem um perigo – elas têm medo que a criança venha a ser pouco comunicativa, ou seja, que viole as regras deste mundo, que se afaste dos limites das pessoas. “Vais ficar toda a vida sozinha”, diz-lhe a mãe, assustando-a com a mais sombria das perspectivas. 
….Eu não apelo a ir viver para um mosteiro. Simplesmente, quando te puxam à força para a comunicação, convém suspeitar se tal não estará a ser feito com algum outro motivo.
A alternativa à comunicação total é escapar à actividade imposta, em última instância, escapar à manipulação.
Isto não é, de maneira nenhuma, uma crítica ao capitalismo, é simplesmente a posição de um dependente, de um calaceiro da sociedade de consumo, que vive à custa das compras dos outros e à custa da actividade alheia. Enquanto os outros vendem as palavras quase de graça, o que está calado vende a raridade das suas palavras. Este também é um comportamento económico, só que é outro modelo. Finalmente, a negação e o afastamento da comunicação é também um desejo de ser outra pessoa, de te afastares de ti próprio.

Andrei Arkhanguelsk, jornalista, redactor da secção de cultura da revista “Oganiok” "

17 comentários:

Jorge Almeida disse...

Doutor Milhazes,

Off-topic:

Human Rights Watch acusou as forças armadas do Quirguistão de tomar parte activa na onda de violência que se abateu sobre a minoria uzbeque a morar no país:

http://pt.euronews.net/2010/08/16/hrw-acusa-forcas-quirguizes-de-violencia-contra-uzbeques/

Pippo disse...

Artigo, no mínimo, interessante, pois expõe uma realidade da qual poucos se apercebem, que é a obrigatoriedade de um indivíduo ser "social", de "fazer parte do grupo".

Uma das coisas que eu mais piada acho nos fora tipo Hi5, Netlog, Facebook, etc, é a ânsia que as pessoas têm de se mostrarem "populares". Isso passa por ter milhares de amigos (mesmo que não o sejam de facto, mesmo que sejam meros conhecidos) ou por mostrarem "carisma" ou que são pessoas extremamente activas do ponto de vista social.

Quanto a falar de futilidades, pois varia muito de pessoa para pessoa e de grupo para grupo. Com os meus amigos não tenho qualquer problema em variar de assuntos fúteis (normalmente jocosos) para assuntos graves, realmente importantes (política, emprego, economia, sociedade, etc.). Mas entendo muito bem o que o autor do texto quer dizer: para se ser "social" não se pode falar sobre assuntos importantes. A seriedade é chata e não é "fashion". Aprendi isso às minhas custas. Mas também eu prefiro "não comunicar nem ser activo".
:O)

Cristina disse...

Julgo que esta crónica mostra bem o estado de espírito da actual intelectualidade moscovita, empenhada por um lado em grandes polémicas culturais e, por outro lado, passando completa e conscientemente ao lado dos temas políticos (não sei se repararam, na conversa dos dois amigos não se fala de política, "tema pesado").
Se nós em Portugal num grupo de amigos podemos falar de coisas mais sérias, como disse o Pippo, parece que em Moscovo o ambiente é outro. Será porquê?
É esta a reflexão que podemos fazer...

Jose Milhazes disse...

Cara Cristina, eu acho que isso tem uma explicação. As discussões políticas não levam a lado nenhum, os intelectuais têm consciência da sua impotência face a um poder que "queimou" todo o campo político à sua volta. Resta apenas a Internet.
Quanto às grandes discussões culturais, elas são praticamente inofensivas.
Por exemplo, Iúri Lujkov destrói o pouco de histórico que resta em Moscovo, as pessoas protestam, mas sem qualquer resultado.
Ao mesmo tempo que permite a destruição de monumentos históricos, gasta milhões na construção de uma cópia de um dos palácios em madeira dos Romanov, como gastou milhões na construção de uma cópia do templo de Cristo Redentor.
E não nos podemos esquecer que, como acontece sempre, aparece sempre uma intelectualidade a servir o poder, a lamber botas. Por exemplo, o cineasta Nikita Mikhalkov com as suas manias de grandeza e de que é nobre.

Cristina disse...

JM, sim acho que tens razão, há de facto esse sentimento de impotência, de sentir que qualquer intervenção cívica não é escutada (e até pode ser reprimida), daí o refúgio na frivolidade.
O único consolo é que este ambiente algo sufocante costuma estimular a criatividade na cultura, tal como aconteceu nos anos 70 e 80.

António disse...

Os russos podem estar conscientes da sua irrelevância política, mas não andam seguramente passivos quando se trata de ajudar os outros, especialmente durante esta crise dos incêndios. Consciência cívica há de sobra, e vem à tona quando o estado não cumpre as suas funções.

Em resposta à incompetência das autoridades na gestão da crise, tem vindo a brotar do nada uma rede de auxílio sustentada em blogs e outros sites na internet (pozhar.ru e os blogs de Igor Chersky e Elizaveta Glinka são bons exemplos), assim como em organizações não governamentais, tais como a Spravedlivaya Pomoshch, que está empenhada em levar alimentos e outros tipos de ajuda às regiões assoladas pela calamidade. Esta organização tem vindo a receber grandes quantidades de suprimentos da população não carenciada e recebe diariamente centenas de ofertas de trabalho voluntário.

De acordo com o Svobodanews, os cinemas moscovitas estão a oferecer exibições de filmes em salas com ar condicionado e o site snob.ru tem encorajado empresários a ceder salas com ar condicionado a moscovitas que não conseguem pernoitar nas suas casas devido ao fumo.

Por outro lado, um post anónimo a circular no LiveJournal dá uma descrição caricata da componente "oficial" da gestão da crise: residentes de Cheboksary deslocaram-se durante a noite á república vizinha de Mari-El para entregar alimentos e medicamentos sem receita médica, que tinham adquirido com donativos. A páginas tantas, foram mandados parar pela polícia local que os acusou de "actividades ilegais", tendo alguns dos seus membros pilhado parte dos produtos. Mais tarde, depararam com um grupo de funcionários do Ministério das Situações de Emergência a jogar às cartas e a beber vodka, ao lado de dois camiões cisterna cheios de água, mas inactivos.

http://alhas-m.livejournal.com/83611.html
http://community.livejournal.com/pozar_ru/
http://i-cherski.livejournal.com/
http://doctor-liza.livejournal.com/
http://www.svobodanews.ru/archive/ru_news_zone/20100810/17/17.html?id=2123764
http://www.snob.ru/selected/entry/22484

António Campos

Maquiavel disse...

Iúri Lujkov foi eleito Presidente de Moscovo em 1992... 20 anos passaram, já mudou de casaco 2 vezes pelo menos, e continua com o mesmo tacho.

Até em Portugal se sabe que é um facínora que anda a destruir Moscovo, especialmente a parte histórica, numa escala que lembra os bombardeamentos nazis.

Mas as massas continuam a elegê-lo, o que me leva a concluir que, afinal, os moscovitas gostam dele, e sufragam a destruiçäo da sua cidade em favor de uma "merdernidade". Näo admira que os de Petrogrado os chamem de "campónios". É pena.

E näo me venham com a lengalenga do costume: "ai mas näo há opçöes". Häo sempre. E se näo häo, façam como em 1917. OhO!

Maquiavel disse...

Eu prefiro ser polémico e ter poucos amigos do que falar sobre o tempo. O tempo é difícil de mudar, agora a política é feita, em democracia, pelos eleitores.

Claro que é muito mais divertido falar sobre as últimas festas dos famosos, mas eu näo quero ser fútil, e falo do que realmente interessa, como a política.

Quem näo gosta vá ser fútil para outro lado! Eu quero comunicar e ser activo, mas näo "comunicar" e ser "activo" como entendido pelas massas acéfalas e manipulávies que pululam tal pulgas pelas "redes sociais"!

Anónimo disse...

Caro Maquiavel
Você com certeza sabe como são feitas as eleições na Rússia (se não souber, qualquer amigo russo lhe explica).
É por essa razão que Lujkov é reeleito há 20 anos. São mais ou menos como em Portugal no tempo em que o meu pai era pequenino, mas com o actual know-how do marketing político. Uma receita infalível ...

everardo disse...

Caro Milhazes,

O que mais importa é que a Russia está se soerguendo graças ao grande líder Vladimir Putin. A antiga URSS será restabelecida e a vitória sobre os “barões da democracia” se deslanchará a todo vapor. O mundo terá equilíbrio mais sólido e as garantias de vida as populações voltarão às mesas de discussão, deixando a ditadura “democrática” dos USA boiar na sua própria desgraça. Viva o império soviético! A aurora está a chegar! Um abraço do everardo, de Teresina, Brasil.

Editorа disse...

Caro Everardo
O que diz, desculpe-me, é uma completa idiotice. Não me diga que os brasileiros são todos assim?

Maquiavel disse...

Anónimo, sei muitíssimo bem como säo feitas. No tempo em que o seu, e o meu pai eram pequeninos näo havia escolha, havia um só candidato (direi, no máximo).

Agora candidatos häo muitos, mas as agências de publicidade é que mandam, porque as massas säo acéfalas, e querem é eleger "o mais bonito", ou no caso de Lujkov... sei lá!

Mas quem pensa näo vai na conversa. E se a maioria é bacoca, leva o que elege, ou entäo, elege porque gosta de sofrer. Há gente assim. A questäo é que, em democracia, HÁ SEMPRE ESPERANÇA!

Claro que eles poderiam manipular os resultados como fazia o Estaline, mas isso é outra história, e os EUA deixariam de os considerar democráticos.

Pippo disse...

Bom, quanto a isso das discussões sobre política serem fúteis, não é só na Rússia. Por cá passa-se exactamente o mesmo. Lembra-se da petição para se reduzirem o número de deputados na nossa AR de 230 para 180 deputados? Pois o grande Francisco Assis disse que "agora não é o momento de se discutir essa questão". E pronto, o caso ficou arrumado na gaveta, apesar de haver uns 60.000, ou mais, peticionários...

Ou seja, em Portugal, nem sequer na net vale a pena discutir (e agir!) sobre política.

Anónimo disse...

Toda a gente sabe que na Rússia as eleições não são democráticas, porque há manipulação da legislação eleitoral, ou seja, só determinados candidatos é que são autorizados a participar. A coisa é feita de forma tão subtil e profissional que nem os americanos percebem

Jest nas Wielu disse...

Moscovo, golpe comunista na noite de 19 para 20 de Agosto de 1991:
http://www.youtube.com/watch?v=
Gp3lITfBYUQ

Milagre na Wisla (Vístula): polacos e ucranianos derrotaram as hordas bolcheviques em Agosto de 1920:
http://shiropaev.livejournal.com/53380.html

Anónimo disse...

Caro José Milhazes:
Bom dia. Conte comigo para depôr a seu favor, isto caso a justiça (mormente o TPI) o importune em virtude de Karadzic, o líder Sérvio, estar exactamente disfarçado da sua pessoa na altura em que foi capturado!
Deste que o estima e aprecia o seu trabalho,
César Monteiro
p.s.: Quem diria! Karadzic disfarça-se de José Milhazes!!!! Indecente! Julga uma pessoa que está segura e há meliantes destes a fazerem tamanhas judiarias nas nossas costas... Conte com o meu apoio incondicional uma vez sabê-lo incapaz de fazer mal a uma mosca!
Mais grave: se no motor de busca google, clicar em "Imagens" e escrever "José Milhazes" verá que, por pouco, não aparece abraçado ao sanguinário líder sérvio!!!
Sugiro que tome as devidas providências!
rcesarmonteiro@gmail.com

Jest nas Wielu disse...

Fotos de Agosto de 1991:
http://public.fotki.com/Ed-Glezin/c4c5/page3.html