quinta-feira, setembro 09, 2010

Guerra civil no Cáucaso continua


As autoridades da Ossétia do Norte ordenaram a evacuação de todas as escolas e infantários de Vladikavkaz, capital dessa república do Cáucaso do Norte russo, receando novas explosões.
“Para o Ministério da Educação telefonou um desconhecido que afirmou que iria ocorrer uma explosão numa das escolas de Vladikavkaz”, anunciou o Ministério do Interior da Rússia.
Antes, a explosão de um automóvel no mercado central de Vladikavkaz, capital da república da Ossétia do Norte, no Cáucaso do Norte russo, fez subir o número de mortos para quinze e o de feridos para cerca de oitenta, entre as quais quatro crianças informam as autoridades policiais.
O Presidente da Ossétia do Norte, Taimuraz Mamsurov, declarou que o automóvel explodiu ao passar perto da entrada do mercado, sublinhando que o carro era conduzido por um suicida.
As autoridades policiais informam que o condutor do automóvel já foi identificado, tratando-se de um habitante da Inguchétia, república vizinha do Daguestão.
Segundo testemunhas citadas pelas agências russas, a explosão, que ocorreu às 11. 30 horas (08.30 horas em Lisboa) foi tão forte que partiu os vidros em numerosos edifícios das redondezas e destruiu quase totalmente o edifício do mercado.
As autoridades policiais calculam que a potência do explosivo equivale a trinta quilogramas de trotil.
A polícia isolou o mercado e começou investigações, apontando o terrorismo como causa única do incidente.
O Comité Nacional Antiterrorista da Rússia não exclui a possibilidade de os terroristas terem instalados explosivos noutros bairros de Vladikavkaz.
Este incidente é mais um episódio dos confrontos entre as forças de segurança e guerrilheiros islâmicos que lutam opela separação do Cáucaso do Norte da Rússia.
A onda separatista começou na Tchetchénia nos anos 90 do séc. XX e alargou-se a outras repúblicas do Cáucaso do Norte: Daguestão, Inguchétia, Ossétia do Norte e Cabardino-Balkária.
Trata-se de uma guerra civil que parece não ter fim.

19 comentários:

PortugueseMan disse...

Trata-se de uma guerra civil que parece não ter fim.

Verdade.

Isto é para durar anos e anos.

Pippo disse...

O problema não é económico ou social mas sim político e cultural. Enquanto não forem eliminados os focos de extremismo religioso e irredentismo a luta continuará.

Por um lado, terão de ser inflitradas as células da guerrilha, pois o seu carácter é claramente descentralizado.

Por outro lado, só uma firme política de interacção entre o Estado e a população, melhorando o seu nível de vida e educando as pessoas de forma a afasta-las da religião, é que poderá cortar os "laços" que ligam o povo aos guerrilheiros. Esta actuação será melhor executada por elementos locais, os quais não só não serão tidos por "estrangeiros" como conhecerão "os cantos à casa".

Por fim, será de todo o interesse do Estado Russo criar milícias, devidamente enquadradas e disciplinadas, de cossacos e ossetinos, as quais servirão para defender a população e, eventualmente, poderão realizar operações de busca a elmentos guerrilheiros.

Nuno B. disse...

Pergunta:

Como é possível que o FSB que parece controlar e saber de tudo em todo o mundo, não tenha capacidade de conhecer a proveniência desses 30kg de explosivos?

Pippo disse...

Basta rouba-los numa pedreira, caro Nuno.

O que nos leva a pensar: será que o FSB não seja o bicho-papão Orweliano que toda a gente pensa que ele é?

Gilberto Mucio disse...

Bobagem, Pippo.

O problema é antes de tudo econômico e social sim.

Apenas reprimir é como dar murro em ponta de faca.

Mata-se um, aparecem 10. Mata-se 10, aparecem 100. E assim não acaba nunca.

Enquanto aquela região imperar a miséria, e a pobreza e a corrupção -- por culpa direta ou indireta do Kremin -- sempre se encontrará ali um terreno fértil para a proliferação de homens-bomba.

Não dá para discordar do Milhazes nessa questão do Cáucaso.

Pippo disse...

Discordo totalmente, Gilberto, e a razão é óbvia: se tirarmos os factores Islão e Nacionalismo, teremos uma região onde o nível de vida é superior, por exemplo, a muitas regiões da Índia ou da China. E contudo, neste países não temos terrorismo de base económica mas sim terrorismo étnico e religioso, ou seja, precisamente o mesmo tipo de terrorismo que temos no Cáucaso.

A base económica, é certo, causa descontentamento, e esse descontentamento é aproveitado pelos grupos políticos para veicular a sua mensagem.
Se lermos o "Manuel da Guerra Subversiva", do Gen. Giap, verificaremos que a resolução da questão económico-social ("A questão da terra") serviu os objectivos de recrutamento do Viet Minh. E porquê? Porque os senhores feudais, suportados pelo regime colonial francês, oprimiam e exploravam o povo. Assim, eliminando-se o feudalismo, indissociado do colonialismo, acabou-se com a exploração do povo, o qul aderiu em massa à Revolução.

Contudo, a razão da luta do Viet Minh não era a reforma agrária mas sim o nacionalismo anti-colonialista. Por isso, mesmo quando os franceses esboçaram gestos de reforma económico-social, a luta manteve-se pois o objectivo era nacionalista e não económico.

Aliás, temos suficientes exemplos para constatar que o terrorismo normalmente não tem raíz económica ou sequer social, mas sim política/ideológica. O terrorismo basco, por exemplo, não teve origem económica e não é a economia que lhe está a ditar o ocaso, o mesmo se passando com o terrorismo corso. De raíz político-social temos, sim, o do IRA ou das FARC, mas estes exemplos são totalmente diversos do terrorismo islâmico/nacionalista do Cáucaso.

Ab,

Jose Milhazes disse...

Cato Pippo, acho que você tem metade da razão e a outra metade é do Gilberto. Claro que os factores político-ideológicos são fortes e serão cada vez mais fortes à medida que a situação se agravar.
Inicialmente, no início dos anos 90, o movimento independentista na Tchetchénia era laico, o fundamentalismo islãmico veio depois.
Mas se fosse lançada uma luta séria contra a corrupção e o compadrio, se fossem criados empregos e os jovens tivessem oportunidade de trabalhar normalmente, o terrorismo teria muito menos terreno.
Porém, tendo em conta a situação criada no Cáucaso do Norte, começo a ficar cada vez mais convencido de que a Rússia perdeu essa região.

Pippo disse...

Perder perder, não perdeu. A Rússia agarrar-se-á ao Cáucaso como uma lapa pois o Cáucaso é uma região-chave sob o ponto de vista geopolítico. Mais depressa faria uma guerra repressiva do que largar a região.

Quanto à insurgência, de facto, inicialmente era laica, sim, mas nacionalista. E como sabe, o nacionalismo está ligado à História e à identidade nacional pelo que a deriva para o nacional-islamismo é perfeitamente natural, diria mesmo que quase inevitável dada a falência, nos anos 80, dos nacionalismos laicos ou socialistas nos países muçulmanos.

Acabar com a corrupção, com o nepotismo e criar empregos e boas condições de vida poderá minorar a propaganda islamita e independentista, mas não a eliminará, pois as causas e as razões da insurgência são outras.

António disse...

Reportagem vídeo da BBC sobre o atentado:

http://www.bbc.co.uk/news/uk-11252586

António Campos

Jest nas Wielu disse...

Mais fotos do local, alguns são chocantes:
http://drugoi.livejournal.com/3358115.html

PortugueseMan disse...

...Porém, tendo em conta a situação criada no Cáucaso do Norte, começo a ficar cada vez mais convencido de que a Rússia perdeu essa região.

Não perdeu caro JM, nem vai perder. Vai sim, ter um longo e penoso caminho a percorrer.

A zona é muito complicada com muitos factores à mistura. Mas é território russo e assim continuará a ser.

Vão ser anos e anos complicados.

Jose Milhazes disse...

Caro PM, eu considero que a saída da Rússia do Cáucaso constituiria uma tragédia geopolítica não só para ela, mas para toda a Europa. Isso transformará o Cáucaso numa Somália.
Porém, os dirigentes russos não têm estado à altura de pelo menos começar a resolver os problemas dessa região.

Pippo disse...

"Porém, os dirigentes russos não têm estado à altura de pelo menos começar a resolver os problemas dessa região."

Nesse campo dou, naturalmente, o braço a torcer. Mas também, convenhamos, a resolução do problema é, no mínimo, difícil, pois não se tratam de questões de miséria humana mas sim de nacionalismo e religião.

MSantos disse...

Ontem enviei um post mas devido a problemas no meu PC, não passou:

"E fica sempre a pergunta:

Como será um Cáucaso entregue a si próprio?

O meu ponto de vista é que se isso acontecesse provavelmente nasceriam vários califados islâmicos que mesmo combateriam entre si. A instabilidade da região aumentaria exponencialmente e propagar-se-ia, tudo isto misturado com campos de treino de terroristas, comércio em larga escala de armas e droga.

Obviamente face a um cenário tão dantesco e tal como no Afeganistão, os Estados Unidos interviriam a pretexto do direito internacional.

Resultado final: a Rússia via-se sem o seu corredor do sul, ainda por cima com os seus velhos "amigos" da NATO mesmo à soleira da porta.

Até Ieltsin, embora desastradamente, percebeu isso."

Mas continuo a insistir. Era bom que quem sempre aponta o dedo apresentasse medidas concretas que o governo russo deveria fazer.

Cumpts
Manuel Santos

Cristina disse...

Caros leitores
O presidente Medvedev disse uma coisa fantástica no recente fórum em Yaroslavl: "Para a Rússia, a democracia parlamentar é uma catástrofe".
Talvez consiga traduzir em breve um artigo da NG sobre este polémico tema.

Jose Milhazes disse...

Caro MSAntos, se ler os comentários do Pippo e meus poderá ver que há propostas para tentar solucionar os problemas do Cáucaso.

MSantos (algures) disse...

Caro José Milhazes

O Pippo sempre apresentou a sua opinião sobre quais seriam as soluções e já as conheço bem, mas no seu caso, apenas vejo referências à má forma como a Rússia conduziu o processo, que repare, concordo inteiramente.

Sobre o que poderá fazer daqui para a frente apenas escreve isto:

"Porém, os dirigentes russos não têm estado à altura de pelo menos começar a resolver os problemas dessa região."

Ora isto é muito vago e seria interessante conhecer as soluções concretas que a Rússia poderia aí aplicar.

Eu na minha opinião passa tudo por dinheiro que é como quem diz investimento que crie condições às populações de modo que estas se revejam mais no Estado Russo do que na barbárie dos movimentos terroristas.

Cumpts
Manuel Santos

Gilberto Mucio disse...

Caro, Pippo.

A repressão a esses grupos, claro que tem que haver. Ninguém pode deixar que saiam por aí explodindo as pessoas.

Mas ela(a repressão), por si só, não basta e é - e tem se mostrado - infrutífera.

Como Milhazes mesmo apontou, e como sabemos, as primeiras guerrilhas e grupos terroristas no Cáucaso eram laicas.

Fundamentalismo islãmico é só uns instrumento, uma arma("eficaz" e perigosa, é verdade), mas não a causa.

Se as pessoas do Cáucaso estivessem vivendo bem, trabalhando, ganhando a vida, com conforto, etc, ninguém ia se meter com esse negócio de terrorismo. E nem mesmo com separatismo.

Mas não. Aquilo ali é terra de ninguém e o estado russo e suas marionetes locais só existem para reprimir.

Maquiavel disse...

"Se as pessoas do Cáucaso estivessem vivendo bem, trabalhando, ganhando a vida, com conforto, etc, ninguém ia se meter com esse negócio de terrorismo. E nem mesmo com separatismo."

Exacto! Tal como na Jugoslávia, enquanto houve dinheiro eram todos amigos. O homem humano é igual em todo o lado.

A soluçäo? Repartir melhor os rendimentos, para näo haver täo pouco päo pela casa grä-russa! Os oligarcas (os tais 5% que detém 90% da riqueza) arriscam-se a conhecer o velho ditado português de "quem tudo quer..." e eu vou rebolar a rir!