sexta-feira, setembro 10, 2010

33 anos na Rússia


Há dias inesquecíveis para qualquer um de nós além dos inevitáveis dias de aniversário do nascimento. Para mim, um deles é 10 de Setembro de 1977, dia em que aterrei em Moscovo vindo de Lisboa num avião Tupolev 154.
Tratou-se de uma viragem radical na vida vida, mas não estou arrependido. Tive a oportunidade de conhecer novos mundos, embora isso significasse também a perda de muitas ilusões.
Foi um processo doloroso e longo, mas mais curto do que o exigido pelo dirigente cubano Fidel Castro para reconhecer que o sistema comunista não funciona.
(Escrevo isto baseando-me numa entrevista recentemente dada por Fidel Castro de que tenho sérias dúvidas de que seja verdadeira, parcial ou totalmente).
Como todas as mudanças radicais, também a minha teve momentos bons e maus, mas não estou arrependido. A minha vinda para a URSS/Rússia permitiu-me fazer coisas que nunca sonhei fazer, por exemplo, dedicar-me ao jornalismo.
Sonhei ser missionário, advogado ou historiador, mas jornalista, nunca! Mera ocasionalidade! Mas “seria pecado” não ser jornalista quando se vive num país onde a História dá voltas de 360 graus. Foi-me feito o desafio e aceitei-o imediatamente.
Vivo na Rússia há mais tempo do que em Portugal, mas o meu país continua (e isto é dito sem patriotismo balofo) a ser Portugal, as minhas raízes da Póvoa de Varzim, Caxinas continuam bem vivas e fortes.
No entanto, a Rússia foi para mim a casa que me acolheu, foi aqui que frequentei a Universade, que me casei e nasceram os meus filhos. Não, não lhe quero chamar “segunda pátria”, porque não gosto do adjectivo “segunda”, prefiro dizer que é a minha “outra pátria”, também querida.
Alegro-me com os russos nos bons momentos e fico triste, choro mesmo com eles nas horas mais trágicas e difíceis. É minha opinião pessoal, mas acho que os povos russo e português têm muitos traços comuns, para o bem e para o mal.
No entanto, não confundo o povo e o poder na Rússia, pois acho que os russos merecem melhor, muito melhor...
Mas isso é outra conversa... e, além do mais, vivendo há 33 anos na Rússia, não tenho direito a voto, sou apenas um observador, imparcial quanto possível. 

13 comentários:

AAC disse...

Caro José Milhazes, acompanho este seu blogue com muita regularidade, e gostei muito deste seu post. Um abraço.

Jest nas Wielu disse...

Belo texto, tenho menos anos de Moçambique, mas já são bastantes, a 2-da pátria torna-se a primeira...

Tiago Rocha disse...

Mais um rico testemunho do José. O que adoraria ler um dia as suas memórias dos anos 80/90.
De um fiel Leitor,
Tiago Rocha

António Reis disse...

Oi Zé! Obrigado por teres partilhado connosco esta data. Parabéns e um grande abraço

Cristina disse...

Caro Zé
Só tenho de ter orgulho na tua amizade, pois a Rússia também nos ensina a guardar os bons amigos. O país fica-nos colado à pele, parece que deixamos lá uma parte da alma. Quando em 1999 voltei à Rússia e apareci sem Moscovo sem amigo...s nem trabalho, foste um dos poucos que me tentou ajudar e isso não se esquece. O que às vezes também não nos lembramos é que nestes 33 anos, com o teu exemplo, também mostraste à Rússia o que é ser português e como é o nosso povo. As muitas pessoas que aí conheceste, russos e de outros países, ficaram (e ficam) com certeza com a imagem de um bom lusitano, um bom Homem.
Viver na Rússia vale sempre a pena. E se às vezes balançámos entre o amor e o ódio, entre a revolta pelas dificuldades diárias e o arrebatamento pela grandeza da sua cultura, no fim fica sempre uma indizível nostalgia.

Anónimo disse...

Mas o Medvedev vai de informar o mundo da liberdade que se vive na Rússia
(pausa para rir)
e como se algum russo soubesse o que é a liberdade.

Francisco Lucrecio disse...

Até que enfim! Foi decifrado o código do anti-comunismo.

Apesar do humanismo militante, Leonardo Boff, Ernesto Cardinalli, Mário de Oliveira ou o radical Tomás da Fonseca e muitos mais, nunca conseguiram desenvencilhar do espartilho espiritual do Criacionismo.

O Doutor Milhazes acabou de fornecer a chave do ódio ao materialismo e ao Evolucionismo.

Missionarismo religioso!

Jose Milhazes disse...

Sr. Francisco Lucrécio, grande tirada. Sempre é mais agradável do que os insultos enviados para este mail por uma badalhoca que assina como Pasionaria.

Nuno B. disse...

Concordo consigo, o carácter russo é parecido com o português. Talvez porque estes 2 povos nunca viveram tempos fáceis.

Parabéns pelo seu período russo!

E votos de uma longa vida para o Jornalista Milhazes!

Jose Milhazes disse...

Sr. Francisco Lucrécio, obrigado pelo seu comentário. Pelo menos é mais bem educado do que uma badalhoca que envia comentários insultuosos sob o pseudónimo de Pasionaria.

Anónimo disse...

Leonardo Boff?????????????



PelamordeDeus....



Esse amiguinho das FARC? Não é à toa é tão detestado aqui no Brasil. De amigos, só tem grupos terroristas e fanáticos ideológicos ligados aos comunistas e petralhas.


Deveria ter sido excomungado de vez.

Anónimo disse...

Belo texto. Muito iteressante.


Ítalo

Lídia disse...

Olá José Milhazes, este é meu primeiro comentario em teu blog
venho sempre que posso ler as noticias e acompanhar de longe (aqui do Brasil) a nossa querida Russia...
Parabens pelos 33 anos