sábado, janeiro 29, 2011

Tunísia, Egipto e qual será a próxima paragem do descontentamento social e económico?

Parece imparável a onda de descontentamento social, económico e político que começou na Tunísia. Pelos vistos, poderá varrer outros regimes autoritários do Norte de África, não se sabendo bem o que virá substitui-los. 
Entre outras coisas, os levantamentos na Tunísia e no Egipto mostram que é cada vez mais difícil esconder a verdade das pessoas na era da Internet, transformando-se esta num poderoso instrumento de mobilização social e político. É caso para dizer, recorrendo à terminologia marxista, que a supra-estrutura política e partidária deixou de corresponder às mudanças na sociedade: as cúpulas já não podem governar à maneira antiga e as bases não querem continuar a viver da mesma forma.
O regime norte-coreano de Kim Jing-il compreende bem que a sua sobrevivência passa pela proibição da Internet e pelo isolamento total dos cidadãos em relação ao mundo circundante.
É necessário dar um salto qualitativo, mas, infelizmente, ele está a ser acompanhado de derramamento de sangue devido à teimosia de dirigentes corruptos e autoritários, que pretendem não só continuar no poder  até ao último suspiro, mas também preparar terreno para que as rédeas sejam entregues a descendentes seus. 
Tendo em conta a situação criada na Tunísia e no Egipto, não seria má ideia que outros ditadores e dirigentes autoritários pensassem bem no seu futuro político e até físico, não deixassem ir as coisas longe demais.
Receio que, na maioria dos casos, isso não aconteça, até porque a qualidade das elites políticas se degrada a olhos vistos e a incompetência generaliza-se.
Apenas um exemplo muito recente, aconteceu ontem, sexta-feira, no Forum Económico Mundial de Davos, considerado uma reunião de cérebros para encontrarem respostas para os grandes desafios mundiais.
O Presidente da Ucrânia, Victor Ianukovitch, apresentou "fortes argumentos" para atrair investimentos para o seu país. 
"Para descobrir a Ucrânia, basta vê-la com os próprios olhos, quando os castanheiros começam a florescer em Kiev e, nas cidades ucranianas, as mulheres se começam a despir. É deslumbrante ver essa beleza", declarou ele, citado pelo jornal electrónio Ukraisnkaia Pravda.
Recordamos que este dirigente teve, no passado, problemas com a justiça soviética devido a crimes de cariz sexual.
É difícil pedir muito de dirigentes destes.



12 comentários:

PortugueseMan disse...

Caro JM,

Parece-me desajustado, começar a falar do Egipto, Tunísia e Coreia de Norte e de seguida enfiar no mesmo saco a Ucrânia.

Você acha mesmo que a Ucrânia está ao mesmo nível que os países que cita?

Jose Milhazes disse...

Caro PM, eu não enfio tudo no mesmo saco. O que quis dizer é que o que está acontecer no Egipto e na Tunísia pode acontecer noutros países, incluindo a Rússia, Ucrânia, etc.
O exemplo do Presidente da Ucrânia serviu apenas para ilustrar a falta de competência das elites políticas actuais.

PortugueseMan disse...

Como pode acontecer em Portugal, Espanha e a qualquer país que esteja com graves problemas económicos e que não são poucos.

Só que você começou com 3 países que são regimes ditatoriais e depois faz referência a um país que usa o sufrágio universal para a escolha dos seus líderes.

Eu não concordo com esta associação. É a minha opinião.

Jose Milhazes disse...

Caro PM, no Egipto e na Tunísia também se realizavam eleições. Concordo que o que acontece no Egipto ou na Tunísia poderá acontecer em muitos outros países, pelas razões que apontei no texto.

PortugueseMan disse...

Caro JM,

Nesses países não existem eleições mas sim "eleições".

Na Ucrânia a coisa não é bem assim.

Temos países onde existem eleições, temos países que se estão nas tintas para isso e temos países que fingem que fazem eleições.

Dizer que estes países também têm eleições meu caro, é como estar a atirar areia para os olhos. Ambos sabemos muito bem que tipo de "eleições" anda ali.

MSantos disse...

O que está a acontecer no Norte de África é a forma como outros valores se devem implantar e não pela exportação seja à força seja através de "revoluções" manobradas e arquitectadas.

Eu gostaria muito que a próxima paragem do descontentamento social e económico fosse...no Ocidente.

E que as pessoas se mobilizassem de vez para acabar definitivamente com um modelo económico-financeiro que nos andou a empobrecer sucessivamente nos últimos 20 anos.

Mas as perspectivas são sombrias pois o mesmo fórum de Davos foi aberto com declarações de que é necessária maior harmonização económica global, ou seja, temos que empobrecer (nós, classes médias) ainda mais para nos nivelarmos com esses grandes "faróis" desse admirável mundo novo que são países como a China ou a Índia.

No mesmo fórum de Davos e transcrevendo um artigo do Jornal de Negócios, "um alto responsável do JP Morgan disse ontem que o excesso de regulação está a penalizar a banca, o que prejudica a economia; e outro alto responsável do Goldman Sachs, também a partir de Davos, fez manchete no "Financial Times" avisando que o excesso de regulação vai afastar os riscos para um sector menos regulado, o dos "hedge funds""

Ou seja, assaltaram-nos a casa e os ladrões agora reclamam que ao estando a reforçar as fechaduras, lhes estamos a dificultar a actividade.

Quanto à Ucrânia qual seria a alternativa a este criminoso?
Os anteriores criminosos?

Cumpts

Jose Milhazes disse...

Caro MSantos, as alternativas são um grande problema, pois as que existem não são realmente alternativas aceitáveis.
Caro PM, você acha que na Rússia se realizam eleições sem aspas? Na Ucrânia é um pouco melhor, mas... E que forças políticas saiem dessas eleições?

FAB FLANKER disse...

No Norte da África, os únicos países importantes são a Argélia, a Líbia e o Egito!

Os outros países inevitavelmente vão cair em crise, pois seus governos são corruptos e a população jogada ás traças!

E mas ao Norte está a Europa. Então é bom que países como Itália, França, Espanha e Grécia comecem á agir,porque pode desencadear uma imigração em massa para estes países!

PortugueseMan disse...

...Caro PM, você acha que na Rússia se realizam eleições sem aspas? Na Ucrânia é um pouco melhor, mas... E que forças políticas saiem dessas eleições?...

Estamos afinal a chegar ao cerne da questão não é verdade?

Parece que afinal temos alguma relação entre a Coreia do Norte, a Rússia e a Ucrânia.

Mas eu não acho. Ou então vai esclarecer-me uma coisa. Os russos são OBRIGADOS a votar nas urnas por Medvedev ou Putin?

E a Ucrânia? As eleições são com aspas? ou só são com aspas quando e eleito alguém de quem não gostamos?

Já agora podemos incluir até o Brasil neste conversa, afinal existe semelhanças com a Rússia, tanto Putin como o Lula não puderam continuar porque o sistema não permite. Ambos escolheram os seus sucessores e apoiaram. Ambos ganhariam de novo, dado a sua popularidade. Ambos podem voltar.

Diga-me meu caro, pela quantidade de críticos que existem e falam criticamente de Lula, acha que no Brasil as eleições são sem aspas?

Pippo disse...

Caro JM, "bocas" como a do Ianukovitch são similares... não, estão ainda longe de serem semelhantes à do Burlesconi. E contudo, este lidera há mais de uma década um país moderno, "europeu", desenvolvido...

Em todo o caso, a sua extrapolação, apesar de ser um tanto ou quanto forçada (na Tunísia não havia verdadeiras eleições, Egipto idem), não é desprovida de razão. Quanto mais informadas estão as pessoas, mais elas podem reagir às situações. Ou não. Depende tudo do temperamento do povo.

Cristina disse...

PortugueseMan
Sim, os russos são OBRIGADOS a votar em Medvedev e Putin pelas televisões completamente CONTROLADAS pelo poder,às quais os outros candidatos não têm acesso, num país enorme em que a televisão em muitos sítios é o único meio de informação disponível.
(E também por outras formas mais subtis como os "otkrepitelnye udostoverenia" ou a prática de fazer cocktails nas secções de voto.

MSantos disse...

Burlesconi!

Boa tirada.

;)

Cumpts
Manuel Santos