terça-feira, fevereiro 08, 2011

"Mais um «manuscrito misterioso de Einstein»





Texto sobre "A Fórmula de Deus" de José Rodriguers dos Santos, traduzido e enviado pelo leitor Alexandre Batrakov:  

"Mais um «manuscrito misterioso de Einstein»

Por Pável Amnuel,
físico e escritor de ficção científica ex-soviético e israelita


Na sinopse de «A Fórmula de Deus» (tradução para o russo, Moscovo, Editora Astrel, 2010), esta obra do escritor português José Rodrigues dos Santos apresenta-se como um thriller científico. E mais adiante, segue-se a passagem reproduzindo exactamente a sinopse de um outro livro, «A Última Teoria de Einstein («Final Theory») do norte-americano Mark Alpert, «a narrativa do qual se desenvolve em torno de um manuscrito desconhecido de Einstein». No romance do autor português, tal como em «A Última Teoria de Einstein», nos anos finais de sua vida o grande físico cria também uma teoria misteriosa que é extremadamente importante para a Humanidade, mas muito perigosa se for implementada para o mal. Einstein não deseja publicar a «descoberta» e encripta-a usando um código muito complicado (o qual, desde logo, o protagonista conseguirá quebrar no prazo estabelecido). Passado meio século, o manuscrito misterioso começa a suscitar interesse, como é perfeitamente compreensível, tanto dos serviços secretos como os terroristas. Cinquenta anos o manuscrito guardava-se em casa de um dos discípulos de Einstein, sem interessar a ninguém. No entanto, nos nossos dias iniciou-se uma caça a ele.                  

Contudo, a fábula da obra de Rodrigues dos Santos, comparada à de Alpert, é sem pretensões. Se em «A Última Teoria de Einstein» quase em cada página acontece algo, no romance de Rodrigues dos Santos, ao longo de todo o livro (560 páginas) não sucede quase nada. Em duas palavras: o protagonista deve decifrar o manuscrito de Einstein (supõe-se que nele fica exposta em código a fórmula de uma bomba atómica de fabrico rápido e barato). O manuscrito encontra-se no Irão e os iranianos querem ser os primeiros a chegar ao busílis da questão, mas nada lhes sai bem. O protagonista do romance, perito de criptanálise, não vê o manuscrito todo, tendo acesso apenas a um par de folhas: a inicial e a final. E é por essas breves linhas que Tomás Noronha chega a intuir em quê consiste o sentido da «teoria». Acontece que o genial físico não inventava a bomba, mas sim estava a provar cientificamente а existência de Deus, nem mais nem menos.

Para quê era preciso ocultar a existência de Deus por trás dos sete selos, isso não fica bem compreensível. Ainda mais que a propria «prova», como se esclarece no final, há muito tempo que já é conhecida e consiste em que «o universo nasce, vive, morre, entra na não-existência e volta a nascer, num ciclo infinito... A história ... da criação do mundo é a do acto pelo qual Deus se torna o mundo, o qual se torna Deus.»

O herói principal, o criptanalista português Tomás Noronha, na última página do romance comunica essa verdade ao agente da CIA, quem, maravilhado, reage proferindo: «Espantoso.»

Para o oficial de inteligência norte-americano, isso seria uma revelação realmente espantosa... Mas se importaria lá Einstein de cifrar esta fórmula que se pode encontrar em numerosas obras tanto antigas como modernas?

Porém, o próprio José Rodrigues dos Santos julga «arrojada» a ideia que promove no romance, e na nota final escreve que «... neste romance, estamos a levantar uma hipótese ainda mais arrojada... Trata-se da possibilidade de o cosmos estar organizado de modo a criar vida, sem que a vida seja um fim em si mesmo, mas um meio para permitir o desenvolvimento da inteligência e da consciência, as quais, por seu turno, se tornariam instrumentos que viabilizariam o endgame último do universo: a criação de Deus. O universo revelar-se-ia então um imenso programa cíclico elaborado pela inteligência do universo anterior com o objectivo de assegurar o seu regresso no universo seguinte.» O que é que há nisso que seria necessário cifrar? Não digo já que, muito antes, a um universo cíclico aproximadamente semelhante se referiu Stanisław Lem. No seu romance «A Voz do Mestre»Głos Pana»), apresenta, aliás, uma ideia muito mais interessante, muito mais «científica» e exposta sem o mar imenso de lugares-comuns, dos quais abunda «A Fórmula de Deus».

No romance de Rodrigues dos Santos há poucas aventuras, mas em troca disso o leitor obtém numerosos conhecimentos dos mais diversos âmbitos da ciência e religião, em particular, sobre:

§        a evolução da teoria atómica,
§        os conceitos das teorias da relatividade restricta e geral,
§        os preceitos fundamentais da física quântica,
§        o que é a vida do ponto de vista da física e a teoria de informação,
§        as ideias cosmológicas modernas,
§        o princípio antrópico,
§        os teoremas da incompletude de Gödel,
§        a teoria do caos, inclusive o conhecido «efeito borboleta»,
§        as bases do hinduísmo, budismo e taoísmo,
§        o Antigo Testamento, no qual, como resulta, há tudo e ainda mais do que tudo que tem descoberto a ciência moderna
§        e, finalmente, os princípios da criptografia.

Para além dos dados científicos, expostos numa linguagem efectivamente popular e sem erros ou interpretações arbitrárias, o leitor, junto ao herói do romance, toma conhecimento do dia-a-dia do Irão actual, vagueia por ruas e ruelas de Teerão, visita o antigo mosteiro tibetano, a descrição do qual, como há de presumir, também não foi ideada pelo autor –, quer dizer, terminada a leitura do romance, na cabeça de um leitor não preparado para tal leitura surge precisamente aquele caos, a teoria do qual Rodrigues dos Santos explica num dos capítulos.

Na minha opinião, a maior utilidade de «A Fórmula de Deus» consiste na bibliografia da literatura científica e de divulgação científica a que recorreu o autor ao escrever o romance. Recomendo ler esses livros, pois revelarão, na realidade, «os segredos» da estrutura do universo, como o concebem as ciências modernas, e para isso o leitor não precisará de aplicar os conhecimentos no domínio da criptografia recém-adquiridos.

O romance é estranho, e para o leitor russo, aliás, é totalmente insólito: os amadores da divulgação científica julgarão que a exposição é demasiado aligeirada, enquanto que os admiradores da action ficarão descontentes com a falta de aventuras. Para os fãs da ciência ficção hard ali há pouco de novedoso; e para os adeptos da prosa realista, pouco de psicologismo e muito de um descoberto didactismo.

Mas o curioso é que na literatura do gênero FC, parece, surgiu uma nova «afeição»: os autores voltaram a atenção para a figura de Einstein e as obras inconcluídas do génio sobre a teoria dos campos unificados. Como podia ser que Einstein não acabou a obra de sua vida? Acaso trabalhava em vão durante trinta anos após ter criado a teoria da relatividade? Os resultados de suas investigações são confusos e, portanto... mais adiante a imaginação continua pelo carril habitual: as cifras, os segredos, as ameaças à Humanidade, os serviços de inteligência Vs. as forças do mal e, naturalmente, o herói principal realiza sozinho o que os melhores cientistas modernos não conseguiram no decorrer de muitos anos. Mais uma macedónia de religiões e filosofias orientais. Mais a ideia actualmente na moda de a ciência moderna supostamente não ter descoberto nada substancial, e só comprovar o que os hindus, budistas e taoístas sabiam já desde os tempos mais remotos.

Os autores de ambos os romances («A Última Teoria de Einstein» e «A Fórmula de Deus») são cientistas: o físico e o informático respectivamente (não é por acaso que Rodrigues dos Santos se refere aos fundamentos da criptografia com um tão profundo conhecimento da matéria). Em teoria, se tomarmos de cada um dos romances o positivo que neles há, descartando o negativo e o desnecessário, teriamos uma boa amostra da ciência ficção hard moderna – precisamente aquela que intentam ressuscitar agora na Rússia e a que evolui de maneira assaz normal no Ocidente. De Alpert tomar-se-ia, então, a destreza para enredar bizarramente a intriga, surpreendendo o leitor em cada página; e de Rodrigues dos Santos, a destreza para falar muito popularmente das ideias, hipóteses e teorias científicas bastante complicadas.

Porém, é indispensável acrescentar o senso da justa medida, o qual falta a cada um dos autores: no caso de Alpert existe o excesso de aventuras, e no caso de Rodrigues dos Santos, o excesso de conhecimentos popularizados.

E o mais importante que escasseia nos dois romances são as ideias próprias dos autores. Contudo, este defeito de Alpert e Rodrigues dos Santos é perdoável: não escreviam a FC hard, mas sim thrillers, romances de aventuras. Sim, no limite mesmo da ficção científica, mas ninguém dos dois autores não traspassou essa linha divisória, embora ambos aproximam-se muito perto dela. O romance de Rodrigues dos Santos poderia ser denominado thriller de FC hard, se o autor desse um passo – embora seja pequeno – em direcção à ficção científica e apresentasse, na verdade, a sua ideia «arrojada» sobre a evolução do universo.

Em ambos os romances sobre «os manuscritos misteriosos de Einstein» há suas faltas, mas há também um mérito comum: os livros chamam a atenção dos leitores para realizações da ciência MODERNA. São os livros que tratam de homens do mundo da ciência e de realizações da ciência, inclusive as realizações nas esferas as quais, segundo muitos autores e críticos, é muito difícil ou mesmo impossível relatar na literatura de ficção e com uma linguagem compreensível. Os exemplos de Alpert e Rodrigues dos Santos convencem do contrário.

Se um autor russo puder amalgamar os méritos e evitar as faltas inerentes aos dois romances citados, acrescentando, além disso, uma pitada de suas próprias ideias originais, ele criará a nova ficção científica russa.

Claro, não é com a renascença da ficção científica que na Rússia começará o renascimeto da ciência. Em termos gerais, o processo é inverso. Mas, em detrminado sentido, não é isente de influências recíprocas. Talvez, são precisamente as ideias da ficção científica renascida que atrairão jovens para a ciência? E que os jovens farão tudo que puderem para ressuscitar as escolas científicas que existiam antes e criar as novas? E que a ciência renovada suscitará o interesse por uma nova ficção científica, a qual, por seu turno...

Isso chama-se retroalimentação positiva. Mas, para que a interacção opere, é preciso começar com algo. Se não sai, por enquanto, com a ciência, comecemos, talvez, com a ficção científica? E depois, mais adiante, pouco a pouco, devagarinho...
Porquê não?" 

8 comentários:

Jorge Almeida disse...

Doutor Milhazes,

a tradução do livro de Português para Russo foi obra sua?

Cristina disse...

Não li ainda o livro e não tenho por isso muitas bases para emitir opinião, mas pareceu-me que o artigo em si está escrito de forma interessante e bem traduzido.

Tiago Pereira disse...

José Rodrigues dos Santos é informático?

MSantos disse...

A crítica está bem feita e expressa bem o livro de José Rodrigues dos Santos, que na minha opinião é a sua melhor obra.

Quem ler à espera de um empolgante thriller cheio de acção com um fim espantoso e inesperado apanhará uma desilusão.

No entanto é uma autêntica "bíblia" da cosmologia moderna passando pelas mais notáveis teorias de cosmogénese, metafísica, determinismo e probabilidade quântica de Paul Davies, Stephen Hawking ou Richard Feynman.

No essencial preconiza o princípio existencial que por acaso também compartilho:

"Trata-se da possibilidade de o cosmos estar organizado de modo a criar vida, sem que a vida seja um fim em si mesmo, mas um meio para permitir o desenvolvimento da inteligência e da consciência, as quais, por seu turno, se tornariam instrumentos que viabilizariam o endgame último do universo: a criação de Deus. O universo revelar-se-ia então um imenso programa cíclico elaborado pela inteligência do universo anterior com o objectivo de assegurar o seu regresso no universo seguinte."

De notar que aqui Deus não tem nada a ver com o deus ou deuses das religiões mas sim uma inteligência que se desenvolveria ao longo do tempo (que poderia ser o nosso eventual futuro pós-humano.

Esta ideia de facto já não é nova. No conhecidíssimo "2001 Uma Odisseia no Espaço" de Arthur C. Clarke, os visitantes que largam o monólito negro tinham sido uma raça alienígena que tinha evoluído tecnologicamente para um estádio que dispensava os corpos físicos, estando a sua consciência armazenada na própria estrutura do Universo, algo muito semelhante ao sobrenatural dos crentes religiosos.

Outra coisa muito fascinante tem a ver com o incrível paralelismo entre as cosmogéneses budista e taoista com as recentes descobertas a nível de partículas sub-atómicas e física quântica.

Cumpts
Manuel Santos

Jose Milhazes disse...

Caro Jorge, eu não traduzo obras de português para russo, mas de russo para português. Esta tradução não é minha.

PortugueseMan disse...

Caro MSantos,

Também gostei bastante do livro do José Rodrigues dos Santos. Todos desta linha dele são interessantes uns melhores outros piores.

Leu a "linha" Rama de Arthur C. Clarke?

Pedro disse...

Li o "sétimo selo".

O Tema do livro é algo que me pareceu demasiado fantasioso e alarmista, mas acho que ele é muito bom a desenvolver a história.
julgo que dava numa boa adaptação para o cinema. E até porque o vilão da história é um russo.

MSantos disse...

Caro PM

Gostei preferencialmente do primeiro ("Rendez-vous com Rama"), embora a saga seja muito interessante dado aqui ser uma espécie mais avançada que anda a "colher" as inteligências do Cosmos. No entanto encontro mais preferência em 2001, "Canções da Terra Distante" e muitos dos contos publicados em várias obras.

Na minha opinião, o melhor de Clarke está nas obras até meados da década de 80, quando a conquista espacial e o progresso técnico ainda eram encarados com um certo romantismo e caminhos radiosos para o futuro da humanidade.

Cumpts
Manuel Santos