sexta-feira, abril 22, 2011

Viagem ao reino da radioatividade




Densas florestas de pinheiros e bétulas dominam uma paisagem bucólica, mas um «check-point» na estrada entre Kiev e a central de Chernobil e o ruído dos dosímetros recordam a tragédia de 26 de abril de 1986.
Os dosímetros, que detetam as radiações, assinalam em Kiev 12-13 miliroentgen/hora - um valor normal. Mas no «check-point Ditiatkin», a cerca de 30 quilómetros da central, os aparelhos sobem para 30.
Depois do rigoroso controlo de passaportes, tal como numa fronteira entre dois países, entra-se na chamada “zona restrita” de Chernobil, dominada por casas e edifícios abandonados, alguns deles já em ruínas.
A primeira paragem é no estádio de futebol de Chernobil para ver os primeiros carros blindados que combateram, após a explosão, o incêndio e a fuga de radioatividade.
Ao lado do estádio, uma alameda ladeada de lápides com nomes de heróis soviéticos que combateram nessa região durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Ao fundo, as cúpulas douradas de um templo ortodoxo e casas abandonadas da Rua Soviética.
Chega um novo «check-point»: “Kopatchi”, a dez quilómetros de distância da central. Depois, a “floresta ruiva”, assim chamada porque os cones das árvores adquiriram essa cor devido ao elevado nível de radioatividade.
Na cidade de Pripiati, ou melhor, daquilo que resta do lugar onde residiam milhares de funcionários da central de Chernobil e suas famílias. À entrada, na parede de um dos prédios, ainda se consegue ler algumas das letras enormes de uma quadra do hino soviético: “O Partido de Lenine, força do povo, conduz-nos para a vitória do comunismo”.
“Era uma cidade de habitantes maioritariamente jovens, muitos engenheiros, intelectuais, com um nível de vida mais alto do que noutras regiões da Ucrânia”, recorda Alexandre, um dos motoristas que participou na retirada dos habitantes após a explosão na central.
“Neste momento, o nível de radioatividade aqui é cem vezes superior à norma. Não toquem nas plantas, nem pisem a relva, andem pelo asfalto”, previne Iúri, funcionário do Ministério para Situações de Emergência da Ucrânia que acompanha quase uma centena de jornalistas.
“Restaurante”, “Casa da Cultura Energuetik”, “Hotel Polessia”, edifícios em ruínas, com aspeto de terem sido frequentemente pilhados.
“A rede que isola a zona não parou os pilhadores. Eles faziam e fazem buracos, entram na zona e levam dos edifícios tudo o que podem: móveis, aquecedores, tudo o que é feito de metal, para vender, não obstante tratar-se de materiais radioativos”, afirma Andrei, um dos guardas da zona.
A próxima paragem é o quarto reator da central nuclear. Coberto por uma pesada couraça de betão e metal, edificada à pressa pouco depois da explosão em 1986 para travar a fuga da radioatividade, necessita uma nova cobertura. Por enquanto, apenas estão lançados os alicerces do novo sarcófago.
Depois de uma passagem pelo edifício central chega a hora de sair da “zona restrita”. Novamente os «check-points», onde as máquinas de controlo mostram que os níveis desceram. É o regresso à “zona da normalidade”.

3 comentários:

PortugueseMan disse...

Uma viagem marcante que fez meu caro.

O que o mais o impressionou nesta viagem?

Jose Milhazes disse...

Caro PM, não sei como lhe responder. A maior sensação foi que entrei noutra dimensão e saí de lá outro. Acho que vou ter de rever o filme Stalker, de Andrei Tarkovski.

Maquiavel disse...

Ui, entäo saque de umas pílulas excitantes!
Nunca consegui ver esse filme todo, de dia ou de noite, após 1/2 hora dou comigo a dormir! :O O que é pena... entretanto parece-me que lá na Estónia há mais sítios como aquele, mesmo após 20 anos de pós-URSS...