terça-feira, outubro 04, 2011

Putin quer que UE e União Euroasiática formem área de comércio livre entre Atlântico e Pacífico

O primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, defendeu a interação entre a União Europeia e a União Euroasiática na esfera do comércio livre e nos sistemas de regularização no espaço do Atlântico ao Pacífico.
“A edificação da União Alfandegária e do Espaço Económico Único lança a base para a formação, no futuro, de uma União Económica Euroasiática. Ao mesmo tempo, terá lugar o alargamento gradual do círculo de participantes da União Alfandegária e da União Económica Euroasiática com a adesão completa da Quirguízia e Tajiquistão”, considerou Putin num artigo publicado no diário Izvestia de terça-feira.
Neste momento, a União Alfandegária e a União Económica Euroasiática são constituídas por países como a Rússia, Bielorrússia e Cazaquistão.
“Não pararemos aí e colocamos perante nós uma tarefa ambiciosa: chegar a um nível mais alto de integração: a União Euroasiática”, acrescentou.
Segundo o candidato ao cargo de Presidente da Rússia, em março de 2012, “as duas grandes uniões do nosso continente – a União Europeia (UE) e a União Euroasiática em formação –, baseando a sua interação nas regras do comércio livre e na compatibilidade dos sistemas de regularização, nomeadamente através das relações com terceiros países e estruturas regionais, são capazes de alargar esses princípios a todo o espaço entre o Atlântico e o Pacífico”.
Putin considera também que “a crise mundial, que teve início em 2008, tinha um caráter estrutural”, acrescentando que “a raiz do problema está nos desequilíbrios globais acumulados”.
Segundo o primeiro-ministro russo, “a saída pode estar na elaboração de abordagens comuns, como se costuma dizer, a partir de baixo. Primeiro, no interior das estruturas regionais formadas: UE, NAFTA [Área de Comércio Livre da América do Norte], Organização da Cooperação Económica da Ásia e do Pacífico, Associação de Estados do Sudeste Asiático, e de outras; depois, através do diálogo entre elas. Com semelhantes ‘tijolinhos’ de integração pode-se formar um caráter mais sólido da economia mundial”.

9 comentários:

Gilberto Mucio disse...

A Rússia só tem a perder com isso.

Significará a definitiva desindustrialização do país.

Em contrapartida, continuará como sempre nesses últimos tempos -- exportando commodities.

Catastrófico.

Gilberto Mucio disse...

Isso significaria a definitiva desindustrialização da Rússia.

Seria catastrófico.

Haja vista que a única coisa que exporta é petróleo/gás.

Anónimo disse...

O que os nossos russófilos/putinófilos estão a pensar sobre estas declarações de Putin? A Rússia está a querer integrar-se com o Ocidente malvado e decadente... Ohhh Putin pró-mercados, quer estar na UE, ou talvez nossos russófilos devem estar a pensar: >Mãe Rússia salve a Europa<. Risos

MSantos disse...

Isto até parece pôr em prática a teoria de um certo senhor que já em tempos discutimos aqui mesmo.

Em qualquer dos casos é uma estratégia interessante e inteligente:

Ganhar a Europa ao inimigo utilizando as armas deste.

Resta saber se será exequível o que para já, duvido muito.

Cumpts
Manuel Santos

MSantos disse...

Desconfio das intenções de Putin mas não concordo com o seu ponto de vista, Gilberto.

Os actuais modelos de "comércio livre" são nefastos porque assentam na base do choque neoliberal, cujo desastre se sentiu na Rússia pós-soviética (e que agora estamos a assistir em Portugal de uma forma mais "violenta") e na assimetria abrupta dos custos de produção como é o caso de uma fábrica ocidental onde os seus trabalhadores são pagos com salários, trabalham 8 horas/dia, 5 dias/semana, gozando férias e outros direitos e que vai competir com uma fábrica chinesa cuja jornada pode ir às 12h/dia sem férias, fins de semana cortados, paga à malga de arroz.

No caso da Europa/Rússia esta assimetria já não se verifica e no passado houve zonas de comércio livre como foi o caso da CEE antes da queda do muro onde isto funcionou na perfeição sem friedmanismos nem laisser-faire desonestos e oportunistas.

A indústria forte da Rússia basicamente resumir-se-á ao militar e ao Espaço, o que não interessará à UE. Em contrapartida a UE terá todo um mercado a desenvolver em bens e serviços que neste momento a Rússia não é capaz de providenciar que terá de dar em troca matérias primas e energia podendo proporcionar um boom económico de procura que a Europa está desesperada para ter, para sair da crise.

Se houvesse vontade e mestria nesta manobra, o processo podia subtilmente vir a ser pilotado pela própria Europa, contribuindo para "europeizar" no bom sentido, e acabar com os remanentes maus costumes da maneira de pensar russa, podendo até daí emergir uma Rússia mais moderna e europeia.

Claro que havia um país que tinha forçosamente de estar fora, para isto funcionar e obviamente isto não é do interesse desse país que utiliza a globalização neoliberal como arma de domínio económico e que desgraçadamente as classes políticas europeias são plenamente subservientes.

Cumpts
Manuel Santos

Anónimo disse...

Eu acredito que isto só seria possível da seguinte maneira: em vez dessa união aí defendida por Putin, a Rússia se adaptaria as exigências da União Européia para assinar um Acordo de Estabilização com o bloco. Essa é a melhor maneira de Europeizar a Russia Manual dos Santos.

Anónimo disse...

Eurasianismo é a palavra de ordem na Rússia atual de Putin. Eu não entendo pq a Rússia sempre renega suas origens Européias. O que o país quer? Ser um Russistão?!

Gilberto Mucio disse...

MSantos,

Falas isso porque não moras na Rússia, e não vê a ampla desindustrialização do país, a olhos vistos, e o cada vez maior controle do país pelo capital internacional.

UM tratado de livre comércio com a Europa só beneficiaria a Europa, já que a Rússia não exporta produtos industrializados. E escancararia de vez as portas do país.

MSantos disse...

"Falas isso porque não moras na Rússia, e não vê a ampla desindustrialização do país, a olhos vistos, e o cada vez maior controle do país pelo capital internacional."

Gilberto

Provavelmente todas as pessoas que vivem em Portugal há pelo menos 15 anos rir-se-ão ao ler isto pois é precisamente isto que aconteceu com Portugal e neste momento está a acontecer até em países como a Suécia. E é precisamente aqui que está a falha do actual modelo neoliberal que só destrói a indústria, a produção, e consequentemente o emprego.

No campo das indústrias que ainda existem na Europa, a Rússia não teria nada a perder porque são quasi inexistentes aí. Mesmo que as empresas europeias se aí instalassem provavelmente trariam necessidades de consumo e serviços novos. E aí a sociedade russa iria ganhar com esse know-how contribuindo para mudar também a sua mentalidade.

As portas escancaradas seriam limitadas pelas fronteiras marítimas da Europa e da Rússia.
E não seria através de choques económicos nem das selvajarias que regem hoje as trocas comerciais. Os Estados seriam soberanos e não pós-soberanos por muito que isto choque os habituais leitores do blog e um mercado económico como este teria obrigatoriamente de mudar o paradigma económico mundial.

Os teus receios justificam-se se o tal comércio livre fôr como é actualmente. Mas como referi, existiram outros modelos que funcionaram plenamente no passado e proporcionaram prosperidade aos povos que os abraçaram.

Tal como o comunismo, o neoliberalismo não é a única alternativa ao modelo que actualmente nos estão a impôr.

O grande problema será sempre a actual ingerência nefasta de uma América conservadora que a Europa teima em manter na liderança, porventura virá a descobrir da pior maneira a perigosidade de não quebrar este tabu.

Cumpts
Manuel Santos