quarta-feira, maio 16, 2012

Polícia desmantela acampamento da oposição e faz detenções


A polícia desalojou esta madrugada um acampamento da oposição na alameda moscovita de Tshistie Prudi, no centro da capital russa, e deteve cerca de vinte manifestantes que alegadamente teriam resistido a abandonar a zona.
Na véspera, os participantes do acampamento foram avisados de que deveriam abandonar o local antes do meio-dia de hoje, depois de um tribunal de Moscovo ordenar o seu desmantelamento.
A sentença do tribunal foi tomada com base numa queixa de 12 habitantes do bairro Tshistie pridi, que exigiram que as autoridades “restabelecessem a ordem na zona”.
Segundo testemunham as agências russas, por volta das 5.00 horas de Moscovo (2.00 horas em Lisboa), uma unidade da polícia de choque OMON apareceu no local e exigiu que os militantes da oposição abandonassem o local.
Porém, alguns não o fizeram de forma voluntária e foram detidos. O Ministério do Interior informou que 20 detidos foram conduzidos para esquadras próximas da polícia.
Segundo os dirigentes da oposição, a instalação de tendas no centro de Moscovo é uma forma de mostrar ao poder que os cidadãos russos têm liberdade de organizar “passeios” no seu país.
A oposição baseia-se no artigo 31 da Constituição da Rússia, que prevê a liberdade de expressão e manifestação, sem que seja necessário pedir autorização ao poder para a realização de comícios ou outras iniciativas de protesto.
Ília Ponomariov, deputado do Parlamento russo e um dos dirigentes da oposição, declarou que as tendas irão ser montadas noutra zona de Moscovo e que se a polícia o desmantelar, continuarão as ações de protesto noutros lugares.
“Se nos expulsarem do bairro “Barrikadnaia”, iremos passear pela cidade, em várias alamedas”, declarou o deputado à agência Ria-Novosti.
“Ninguém pode proibir os cidadãos de se sentarem em bancos, cantarem, conversarem sobre a vida. Por conseguinte, iremos continuar a fazer isso”, frisou.
Esta onda de protestos começou a 5 de dezembro do ano passado, quando a oposição considerou terem existido sérias fraudes eleitorais nas eleições legislativas, e ganharam nova força, depois da reeleição de Vladimir Putin para o cargo de Presidente, a 4 de março.
P.S. Como já era previsível, o novo/velho Presidente da Rússia, Vladimir Putin, não tenciona alterar a sua política interna e externa. Putin continua convencido de que a oposição deve aceitar o diálogo com o poder nas condições impostas por ele. Além disso, como antigo coronel do KGB soviético,  continua a ver na contestação não um fenómeno provocado por razões internas, mas ateada a partir de fora, nomeadamente pelos Estados Unidos e a União Europeia.
A oposição, pelo seu lado, tem que encontrar novas formas de organização, a fim de conservar forças para a longa luta que se adivinha. No entanto, também não pode tomar uma atitude como a assumida por Mikhail Prokhorov, que se remeteu ao silêncio e pode ser esquecido, correndo o risco de perder o apoio conseguido nas últimas eleições presidenciais.
No campo externo, a decisão de Putin não participar na Cimeira do G-8 foi recebida como um insulto nos Estados Unidos e noutros países do clube dos mais poderosos. Isso foi tanto mais doloroso para Barack Obama, vista que a cimeira se realizará nos EUA.
Obama respondeu quando foi anunciado que os EUA não participarão na Cimeira dos Países da Ásia e do Pacífico, marcada para a cidade russa de Vladivostoque.
Mas voltam a aparecer "cabeças delirantes" que exigem a expulsão da Rússia do G-8 e seja posto fim ao Conselho NATO-Rússia:
(ANDERS ÅSLUND, Kick Russia Out of the G-8, in: http://www.foreignpolicy.com/articles/2012/05/15/kick_russia_out_of_the_g_8) .
Uma ideia com lógica de guerra fria que em nada irá contribuir para o melhoramento da situação política na Rússia, bem pelo contrário. 
Claro que é necessário clarificar posições face à Rússia, mas de forma ponderada, pois destruir é muito mais fácil do que construir.
Além do mais, nem os Estados Unidos, nem a União Europeia se encontram na melhor situação para pregar sermões a outros. 
Moscovo irá utilizar ao máximo esta situação de fraqueza da Europa para mandar os burocratas de Bruxelas irem pregar para outras paróquias.
Nas relações com a Rússia, mesmo que não se simpatize com a política do Presidente Putin, é preciso manter um diálogo paciente e equilibrado com Moscovo.
E incentivar cada vez mais o diálogo entre as camadas mais jovens, permitir a abertura de horizontes e aumento de conhecimentos mútuos. A curto prazo, pode não dar resultados imediatos, mas irá dar frutos a médio e a longo prazo. 


6 comentários:

PEDRO LOPES disse...

Dr Milhazes,


Uma vez que voçê não gosta que se façam comparações(tem havido destes campos em toa a Europa e EUA, e desmantelados pelo policia também), pergunto-lhe se sabe que reivindicações apresentam estes protestantes?

Nos países da dívida as manifestações são facilmente compreensíveis, mas não Rússia não ouvi falar em aumentos de impostos, aumentos de preços, reduções de salários, de feriados, de desemprego a aumentar etc.

Portanto estou realmente curioso em saber as causas desta insatisfação de alguns Russos.

@kosk_orr disse...

Geraldo Vandré - Pra nao dizer que nao falei das flores ...

Jose Milhazes disse...

Leitor Pedro, se lesse atentamente o meu artigo, teria constatado que, neste momento, as reivindicações da oposição mais importantes são de cariz político, mas não julgue que não há reivindicações de carácter económico, por exemplo, uma melhor redistribuição da riqueza, etc.

PEDRO LOPES disse...

"A oposição baseia-se no artigo 31 da Constituição da Rússia, que prevê a liberdade de expressão e manifestação, sem que seja necessário pedir autorização ao poder para a realização de comícios ou outras iniciativas de protesto.
"
É só isto?
Por cá as manifestações também tem de ser autorizadas, mas pronto, não se pode fazer comparações.

Na minha opinião tem de haver aqui algum bom senso. Se não fosse necessária autorização para manifestações, em certas situações podia-se gerar o caos sendo prejudicados outros cidadãos que não participassem nessas manifestações. E se não houver autorização a policia não vai ao local e se por acaso aparece outra manifestação de sentido contrário?
Pode haver confrontos físicos graves.

E na verdade tem havido tanta manifestação autorizada em Moscovo, antes e depois das eleições, que sinceramente já não percebo nada disto.

Então não é o Regime Russo de Putin um regime déspota que abafa a oposição e até mata jornalistas? Porquê então autorizarem tanta manifestação? Porque é que aquele individuo "Alexei Navalny" anda sempre a ser preso e depois solto logo de seguida? Porque não lhe dão um tiro na cabeça?
Não percebo este regime tão déspota como é o deste ditador de pacotilha que é Putin.

"mas não julgue que não há reivindicações de carácter económico, por exemplo, uma melhor redistribuição da riqueza, etc."

Caro Milhazes, dessas é que eles devia fazer, e fazer muitas mais. E dessas serei certamente apoiante.
A inadequada distribuição de riqueza é dos maiores males que existe no mundo. O resto é politiquices para entretenimento.

Ricardo disse...

Bom, a nível de comparação todos os acampamentos do Occupy Wall Street nos EUA foram desmantelados, muitos com brutalidade. De fato existe russos insatisfeitos, porém em uma cidade de 10 milhões de habitantes, 300 ou mesmo 20 mil se rebelam com insatisfação, ainda é um número inexpressivo. E não é mentira que muitas dessas organizações são financiadas pelos EUA e Europa, com que finalidade seria?!

URAGAN disse...

Manifestações são inúteis! E isto está provado na história. A Primavera Árabe foi uma excessão pois foi financiada por agentes externos.

Tentaram fazer o mesmo na Rússia, mas não funcionou, porque acredito que grande parte da população apoia os atuais dirigentes russos. Só que a mídia não passa manifestações pró-governo porque não atende os interesses políticos ocidentais.

Como podem me explicar então a grande quantidade de pessoas que compareceram no estádio que Putin pronunciou seu último discurso, e a quantidade de pessoas que prestigiou o discurso de vitória de Putin?