segunda-feira, julho 16, 2012

O Exército Vermelho no dealbar da 2ª Guerra Mundial



Texto escrito pelo leitor Pippo:

"2ª Parte – Os oficiais

Uma das características do RKKA que o diferenciava das forças armadas dos demais países era o facto do recrutamento dos oficiais ser efectuado preponderantemente entre os operários e os camponeses de estrato mais baixo, para além dos membros do Partido e do Komsomol. À antiga nobreza, que tradicionalmente seguia a carreira das armas, aos burgueses, aos kulaks e à maioria dos cossacos estava, por norma, vedado o acesso, quer ao oficialato, quer inclusive ao ingresso nas fileiras do Exército. As razões para esta opção eram evidentemente políticas, vide ideológicas, mas o facto é que, desta forma, se privou o RKKA dos indivíduos mais cultos do país, bem como daqueles que mais seguiam a tradição das armas, como era o caso dos cossacos.
Entre os oficiais também havia antigos quadros do exército tzarista que tinham aderido à Revolução e ainda o grupo dos antigos oficiais tzaristas, contratados ou forçados a servir durante a Guerra Civil pelos bolcheviques na qualidade de voyenspetzy (“especialistas militares”). Estes homens, com larga experiência datada dos tempos da 1ª Guerra Mundial, eram os membros mais qualificados do RKKA e apreciados pelos seus conhecimentos técnico-militares, mas foram sendo gradualmente substituídos por novos oficiais saídos das fileiras do proletariado.
Desde 1926 que os efectivos e o treino dos oficiais do RKKA foi extremamente deficiente, com a situação a agravar-se a partir do momento em que o Exército começou a engrossar as suas fileiras. O incentivo às contratações de oficiais aumentou o número dos cadetes nas diversas Academias militares do país, mas as taxas de abandono no Exército, devido às más condições salariais e de vida ndos oficiais, e o exponencial aumento dos efectivos do RKKA, forçou o Exército a recrutar entre indivíduos com baixas qualificações (se comparados com os seus congéneres nos exércitos alemão, francês ou britânico) ou sem reais aptidões para o oficialato. Além disso, a formação para oficiais de baixa patente saídos das fileiras era dada à pressa ou limitava-se a um mero exame escrito; e estes oficiais eram desviados das suas funções e forçados a exercer as que, noutros exércitos, eram da competência dos sargentos (no RKKA os sargentos não eram uma classe profissional mas simples graduados a cumprir o serviço militar de dois anos).
Os oficiais de escalão intermédio geralmente não revelavam capacidade de coordenar acções entre unidades, e apenas parte dos oficiais de escalão superior revelava alguns conhecimentos e capacidade de comando, entre outras razões devido ao facto de participarem em cursos avançados de comando e serem obrigados a adquirir conhecimentos académicos em escolas civis ou militares. Em suma, o treino individual dos soldados e dos oficiais era normalmente negligenciado.
Quando se discutem as razões da fraqueza do Exército Vermelho face à Wehrmacht em 1941 e 1942, um dos temas mais abordados é o das purgas efectuadas no seio do Partido Comunista em 1937-38 e que afectaram o oficialato soviético, sobretudo o que também era filiado. 
As primeiras purgas começaram, na verdade, em meados dos anos 20, com a expulsão de Trotsky e dos seus apoiantes das estruturas militares do país. No final da década, foi a vez dos voyenspetzy e dos antigos oficiais “Brancos”, os quais foram expulsos do Exército, o que se traduziu numa óbvia redução da qualidade do comando, treino e disciplina das tropas. Uma nova purga, iniciada em 1936, originou a detenção e extermínio de uma parte considerável dos oficiais de patente intermédia, seguida de imediato, em 1937, pela purga da cúpula militar soviética, que atingiu três dos cinco Marechais da União Soviética (Tukhachevsky, Blyukher e Yegorov), treze dos quinze comandantes de Exército, oito dos nove Almirantes da Armada, 50 dos 57 comandantes de Corpos de Exército e 154 dos 186 comandantes de Divisão, para além dos comissários políticos.
Em suma, 90% dos Generais, 80% dos Coronéis e cerca de 30.000 oficiais de outras patentes foram erradicados do Exército, tendo a maior parte morrido.
A sangria operada entre os escalões mais bem preparados do oficialato soviético e a sua substituição, em muitos casos, por indivíduos de qualidade inferior, para além das sequelas físicas e psicológicas entre os afectados, obviamente afectou a eficácia do RKKA aquando das operações a partir de 1940. Contudo, há que ter em conta que as purgas, que afectaram cerca de 7% do corpo de oficiais, apenas agravaram a tendência geral de défice de oficiais no Exército Vermelho. No princípio de 1938, o RKKA tinha 39.100 oficiais a menos, e no final desse ano, o défice já ascendia a 93.000 homens. “Apenas” 1/3 deste montante se deveu às purgas, o resto sendo resultante do aumento exponencial das unidades militares e da consequente necessidade, não preenchida, de homens para as comandar.
30% dos oficiais afectados pelas purgas foram reabilitados e voltaram ao serviço."

7 comentários:

Gilberto Mucio disse...

Os expurgos deixaram o EV acéfalo.

Os maiores generais e estrategistas com experiência militar, foram limados.

Stalin colocou medíocres em sectores chave de comando.

Stalin era débil mental.

Quem criou e comandou o Exército Vermelho na vitoriosa Guerra Civil foi Trotski, cujos homens de confiança eram os brilhantes Tukhacheviski e Blücher, criadores da teoria da guerra de movimento blindada (panzer).

Stalin os fuzilou e botou em seu lugar os medíocres sargentões Budienny, Timoshenco e Voroschilov.

Os 3 acabaram as divisões panzer do EV e quase conseguiam perder a guerra em 4 meses.


Até Zhukov escapou por pouco dos expurgos e estava semi-exilado no Extremo-Oriente onde preparara um forte exército nos moldes de Tukhachevski-Blücher.

Stalin colocou os "segentões" medíocres Budienny, Voroshilov e Timoshenko para treinarem recrutas na retaguarda e chamou Zhukov, Chuikov, entre outros. Foi quando a coisa começou a mudar de figura.

Pippo disse...

Não é bem assim, Gilberto.

Como expus claramente no meu texto, o problema não estava apenas nas cúpulas, aliás, longe disso, o problema estava nas patentes mais baixas, sem qualquer formação e completamente boçais, que, por vicissitudes várias (sobretudo motivadas pela criação de cada vez mais unidades), ascenderam na hierarquia e foram ocupar lugares intermédios, de comando de batalhão, regimento ou divisão, para a qual não estavam minimamente preparados.
Quando se pega num tipo com quatro anos de carreira, se faz dele um capitão (!) e o coloca à frente de um batalhão, não se pode esperar grande coisa, pois não?

Evidentemente, com um nível de formação de soldados e oficiais quem nem permitia o eficaz emprego de tácticas ao nível de companhia, como é que se poderiam aplicar as "operações profundas" do Tukhachevsky que requeriam uma enorme proficiência na coordenação e emprego de armas combinadas?

Gilberto Mucio disse...

Esse foi um problema que veio desde a guerra civil, mas que estava sendo sanado já no começo dos anos 30.

E o que se agravou enormemente com os expurgos.

Se não só os marechais e generais, mas coronéis e majores, etc..

As patentes mais baixas que subiram, e para o lugar desses, outros de baixo...

Logicamente, a falta de quadros em cima, afeta toda a cadeia.

O EV no começo da guerra chegou ao absurdo ter gente promovida a general de campo com 28 anos de idade(!).

Generais e marechais testados em guerra, quadros técnicos, estrategistas, etc... foram quase todos fuzilados.

Quadros que levariam 20 anos para formar.

Projetos magníficos como a divisão de blindados(Panzer) de Tukhachevsky... que levaram mais de 15 anos desenvolvendo... foram simplesmente abolidos.

Não seria exagero dizer que o Exército Vermelho foi extinto por Stalin.

Se o EV não tivesse sofrido o golpe que sofreu, a Alemanha não teria passado nem da Polônia.

Também não é exagero dizer que expurgos foram co-responsáveis pela morte de quase 30 milhões de soviéticos.

Pippo disse...

Gilberto, não havia practicamente qualquer tipo de treino, nem para soldados, nem para oficiais, e essa era uma situação decorrente, quer da fraca instrução geral da população, quer do desinvestimento nas FA.
A admissão de dezenas de milhar de oficiais sem que houvesse as estruturas educativas apropriadas; a existência de exames sumários para a promoção rápida de soldados graduados a oficiais (mladshi leytenanty, o equivalente aos nossos alferes); o facto dos cursos nas academias terem sido encurtados de 3 para dois e depois para ano e meio; todos estes casos foram motivados, não pelas purgas, mas sim pela expansão do EV de 500.000 para 1.500.000 homens em meia-dúzia de anos, e depois, num repente, para 5.000.000(!). Sem uma estrutura educativa de base e sem uma aposta na qualidade (que era o que acontecia na Alemanha), sem haver oficiais capazes de liderar uma companhia ou um pelotão, não é possível fazer-se o que quer que seja.

As purgas agravaram, repito, agravaram, esta situação, pois muitos dos mais bem preparados foram eliminados, mas o facto é que o oficialato soviético, salvo raras excepções, era fraquíssimo e cada vez ficou mais fraco à medida que, pro necessidades de comando, eram admitidos para oficiais indivíduos que, num exército normal, provavelmente nem passariam de cabos.

Pippo disse...

Já agora, convém referir que em Khalkhin Gol, apesar das operações terem tido sucesso (os japoneses nunca mais se armaram em parvos com os soviéticos), o facto é que as operações combinadas não foram eficazmente realizadas, a ponto da "cavalaria" (carros de combate) ter avançado desapoiada pela infantaria para o combate. Isso permitiu aos japoneses contra-atacar os carros, destruindo-os com cocktails Molotoff.

Os alemães, muito melhor treinados, criaram os panzergranadier para apoiar os carros.

Gilberto Mucio disse...

O alto oficialato soviético não era fraco, Pippo.

Isso é um engano.

Foi sendo minado a partir nos anos 30, depois de 1931~1932 quando Stalin tomou o poder absoluto e começou a perseguir o Exército, e se enfraqueceu com os expurgos.

Muitos dos maiores generais e estrategistas do mundo estavam no EV.

Ora... foram generais e marechais que num Exército que com |"paus e pedras", venceram uma guerra civil contra mais de 15 exércitos estrangeiros.

Esse foi talvez o feito militar mais espetacular da história.

Como é que pode chamar esse oficialato de "fraco"? Não tem cabimento.

Discordo totalmente dessa sua análise aí...

Pippo disse...

Olhe que não, Gilberto.

Em primeiro lugar, na Guerra Civil os bolcheviques não lutaram propriamente contra uma frente unida "Branca", muito pelo contrário.
Os "Brancos", que congregavam desde tzaristas reaccionários a social-democratas (que se odiavam mutuamente) actuavam em frentes descoordenadas. No Norte, tiveram o apoio, primeiro declarado, depois encapotado, dos alemães (http://en.wikipedia.org/wiki/Freikorps_in_the_Baltic e http://en.wikipedia.org/wiki/West_Russian_Volunteer_Army); no Sul, o Exército Voluntário do Denikin teve o apoio técnico e material dos franceses e britânicos; e a Leste, era o Kolchak com um apoiozinho dos japoneses. As únicas intervenções realmente significativas de estrangeiros foi na Ásia Central (britânicos), Cáucaso (alemães, turcos e britânicos) e Arkangelsk ( norte-americanos e britânicos). Mas estes foram episódios "episódicos", passe o pleonasmo, sem grande relevância para o desfecho final. Era nas cidades, controladas pelos comunistas, que estava concentrada a indústria, e como a guerra não se vencia com uns quantos tanques Mk V e Whippet, a guerra civil acabou por ser ganha por quem tinha a maior moral e mais recursos. Ou seja, pelos bolcheviques.

No que diz respeito às lideranças militares, os vencedores da Guerra Civil (uma guerra muito diferente da travada em 1941) foram os generais e marechais (que não lideravam companhias), e os voyenspetzy, que foram corridos ainda antes da década de 20 acabar.