sábado, agosto 04, 2012

Dança macabra na Síria está para continuar e durar

A dança macabra na Síria está para continuar e parece não ter fim. As partes do conflito têm luz verde para se exterminarem umas às outras, até que fique apurado um vencedor ou vários e, neste último caso, poderão continuar a mesma dança macabra mas sob outros pretextos. A luta pela democracia poderá ser substituída pela luta pela pureza do Islão, mas o "mexilhão" é que continuará a lixar-se.
O facto de Kofi Annan se ter demitido do cargo de enviado especial da Liga Árabe e da ONU para a Síria foi o sinal de que, como já escrevemos antes, as Nações Unidas provaram a sua impotência total e absoluta. Annan deverá ocupar o cargo até 31 de Agosto, mas não se prevê que este político consiga fazer milagres em tão pouco tempo.
Ainda antes da cadeira ficar vaga, começaram a surgir nomes para o substituir, mas, a julgar pelas primeiras reacções, a tarefa irá ser difícil, se não impossível de resolver.
Ora vejamos o seguinte exemplo.  A Rússia excluiu a possibilidade de Martti Ahtissari, antigo Presidente da Finlândia e Prémo Nobel da Paz, poder vir a substituir Kofi Annan no cargo de enviado especial da ONU para a Síria.
“Isso está fora de hipóteses. Ahtissari está numa demissão profunda”, comentou Vitali Tchurki, representante russo nas Nações Unidas, citado pelo jornal gazeta.ru.
Esta posição de Moscovo, tomada ainda numa fase em que o nome do político e diplomata finlandês surge apenas em conversas sobre futuros candidatos à sucessão de Annan, visa deixar bem claro que o Kremlin não pretende sequer analisar essa possibilidade.
Não obstante a longa experiência do Prémio Nobel da Paz de 2008 na solução de conflitos internacionais, Moscovo não lhe perdoa a forma como conduziu o processo de solução da situação em torno do Kosovo.
Até março de 2007, o ex-Presidente da Finlândia foi o mediador das conversações sobre o Kosovo enquanto enviado da União Europeia. O finlandês traçou um plano que defendia uma independência da província sérvia, sob supervisão europeia, com uma autonomia alargada para a minoria sérvia que habita o Kosovo. Mas este plano foi rejeitado pela Sérvia e pela Rússia, o que acabou por original a independência unilateral do Kosovo a 17 de Fevereiro deste ano.
A Rússia e a Sérvia até hoje não reconhecem os resultados obtidos por Ahtisaari, considerando que eles abriram um perigoso precedente no Direito Internacional, o da inabalabilidade das fronteiras.
Para uma situação de provável impasse há quem proponha as receitas mais "curiosas".
Por exemplo,
Valeri Chniakin, vice-presidente do Comité para Relações Internacionais do Conselho da Federação (câmara alta) do Parlamento Russo, propõe que Kofi Annan seja substituído por um dueto de “representantes que se manifestam a favor e contra a ingerência armada na solução do conflito.
“Então, nenhum dos campos acusaria o outro e agiriam de forma eficaz”, frisa o senador russo que fez parte da delegação so Conselho da Federação que visitou a Síria.
Não lhes faz lembrar nada? Este político russo parece ter vivido já muitos anos na era do dueto Putin-Medvedev e, como as coisas parecem ter corrido às mil maravilhas, tenta aplicar essa experiência no campo internacional.
Mas fica uma pergunta: será que um dueto conseguirá travar o derrame de sangue na Síria? Não estou a ver onde é que o Conselho de Segurança da ONU encontrará dois santos milagreiros e em que base poderão conseguir um acordo.
Há uns meses atrás, a experiência do Iémen talvez pudesse servir para solucionar a crise na Síria. Ou seja, Bashar Assad demitia-se, abandonava o país e os seus adeptos e adversários chegariam a um acordo sobre a forma de transição do sistema político. Hoje, essa possibilidade parece estar fora de hipótese. Ninguém quer ver Assad em sua casa, nem sequer a Rússia ou a China, e o actual dirigente sírio parece estar de malas feitas.
Entretanto, a matemática da morte não pára. No total, pelo menos 21.053 pessoas morreram desde o início do conflito.
Estas 21.053 vítimas mortais incluem 14.710 civis com armas e sem armas, 5.363 soldados e 980 desertores.

7 comentários:

Jorge Almeida disse...

Doutor Milhazes, o que é "demissão profunda"?

Jose Milhazes disse...

Caro Jorge, o diplomata russo expressou-se mesmo assim. Ele quis dizer que jamais poderá reassumir funções. Talvez esta expressão entre no calão político.

Pippo disse...

É jargão para "erradicado".

PortugueseMan disse...

Realmente a demissão de Assad é uma das soluções que mais rapidamente trave a guerra civil.

Agora duvido é que o futuro da Síria seja melhor do que era.

Vamos imaginar que Assad sai. Quem vai governar a Síria? um governo democrático? Duvido. Será a Síria governável democraticamente ou será partida em bocados e cada facção terá um pedaço de território? E ficarão melhores?

Penso que a Síria como país já não terá solução. Existem demasiadas forças externas envolvidas e não me parece viável ver a Síria por inteiro.

O futuro para quem lá vive não é nada bom.

marcosomag disse...

O Presidente Franklin Roosevelt dizia sobre Anastásio Somoza, então ditador da Nicarágua: "é um desgraçado; mas é o nosso desgraçado."

Assad é um desgraçado. Mas este desgraçado, ao acolher os russos na base de Tartus, impede que os EUA e NATO consigam realizar um velho sonho: o domínio total sobre o Mar Mediterrâneo.

Seria desastroso para os palestinos, para a Rússia e até para os povos europeus sob ataque de políticas neoliberais que tentam levar as relações trabalhistas no continente de volta ao século 19, uma capitulação de Assad e um governo da Al-Qaeda na Síria.

Já não basta a Al-Qaeda dominar a Líbia, onde expulsa as mulheres da escolas, usa mercenários para massacrar opositores e implantar leis religiosas sob a benção dos EUA?

Espero que a Rússia aja de forma decisiva para aniquilar os terroristas dos EUA na Síria. Depois, sem o perigo de ser expulsa de Tartus pelos fantoches dos EUA, ajudar uma transição da Síria para a democracia.

Anónimo disse...

General russo teria morrido na Síria...será verdade?!

Pippo disse...

Parece que é treta e que o dito general até veio à televisão mostrar que "as notícias acerca da sua morte foram grandemente exageradas"...