quinta-feira, novembro 07, 2013

Quais os resultados da Revolução Comunista de 1917?


Os historiadores russos, que por incumbência do Kremlin, escrevem a história oficial do país, decidiram juntar as revoluções de Fevereiro e de Outubro na “Grande Revolução Russa”, mas considero que a Grande Revolução Socialista de Outubro de 1917 merece continuar a ser escrita com letras maiúsculas porque se trata, sem dúvida, de um dos maiores acontecimentos não só da História do séc. XX, mas de toda a Humanidade.

O dirigente chinês Den Ziao Ping considerava que ainda é cedo para analisar as consequências da Revolução Francesa de 1789, pois elas continuam a manifestar-se actualmente. O mesmo se pode dizer em relação à Revolução Russa.

No entanto, isso não nos impede de abordar o tema, tanto mais na altura em que se celebra o seu 96º aniversário.

Não se pode concordar com aqueles que afirmam que a revolução realizada pelos bolcheviques a 25 de Outubro (7 de Novembro) de 1917 se tratou de um “fenómeno estranho” à Rússia, uma conspiração da “maçonaria e do judaísmo internacional” para enfraquecer o país, etc.

Os acontecimentos em Petrogrado foram provocados pela grave situação em que se encontrava a Rússia. As graves chagas sociais: desigualdade extrema, miséria em que viviam milhões de operários e camponeses, tinham sido profundamente agravadas pela entrada do país na Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

Pode-se não se simpatizar com Gregori Rasputin, mas é impossível ignorar algumas das suas opiniões sábias. Segundo ele, a entrada da Rússia conduziria a grandes desgraças, o que veio a acontecer. Verdade seja dito, ele não era o único que tinha essa opinião, mas o certo é que a Corte de São Petersburgo não lhes deu ouvidos.

A grave crise económica, social e política, agravada pela participação da Rússia na grande guerra e pela incompetência das autoridades russas, levou o czar Nicolau II a renunciar ao trono em Março de 1917.

O Governo Provisório que o sucedeu não teve tempo para tomar medidas que pudessem pelo menos travar o avanço da crise, nem para reorganizar o poder no país. As forças armadas estavam desmoralizadas e desintegradas, o que levou ao fracasso a tentativa do general Koltchak impor uma ditadura no país.

Além disso, os novos dirigentes da Rússia não souberam avaliar o perigo real da força política e mobilizadora dos bolcheviques, vendo em Vladimir Lénine e Leão Trotski políticos marginais, incapazes de tomar o poder no país e mantê-lo.

Enganaram-se. Em Outubro (Novembro) de 1917, o poder estava caído nas ruas de Petrogrado e Lénine compreendeu bem a situação: “ontem era cedo, amanhã é tarde, tem de ser hoje!”.

Para os bolcheviques, foi muito mais fácil tomar o poder que conservá-lo depois. Foi muito mais fácil tomar o poder porque, além da anarquia reinante no país, os bolcheviques avançaram palavras de ordem que gozavam do apoio da esmagadora maioria da população: fábricas aos operários, terra aos camponeses, paz aos povos.

Porém, nenhuma destas promessas foi cumpridas. As fábricas passaram das mãos dos capitalistas para as mãos do Estado (burocracia soviética), a terra passou dos latifundiários também para as mãos do Estado (kolkhozes e sovkhozes) e paz foi afogada na guerra civil que se seguiu à revolução e que provocou milhões de mortos. Mas isso veio depois.

Ao tomar o poder na Rússia, Vladimir Lénine estava convencido de que a “revolução socialista” se iria alastrar a outros países, principalmente aos países desenvolvidos da Europa (era isso que estava escritos também nas obras de Marx e Engels). As revoltas na Alemanha, Hungria pareciam dar razão ao dirigente bolchevique.

Porém, tal não aconteceu e Lénine viu-se obrigado a criar a teoria da “construção do socialismo num país”.

A propósito, deve-se reconhecer que o primeiro dirigente soviético era um génio no campo da táctica. Quando, durante a guerra civil de 1917-1922, Lénine viu o seu poder ameaçado pela política desastrosa do “comunismo de guerra”, que pôs o novo regime à porta da falência e da ruína económica, ele conseguiu encontrar a saída genial da “nova política económica”, mesmo que para isso tenha sido necessário ceder aos capitalistas. “Enriquecei-vos!” – proclamava o bolchevique Nikolai Bukharine.

Esta nova formúla no campo da economia não foi acompanhada de fórmula semelhante no campo político. Pelo contrário, os bolcheviques, ao falsificarem os resultados das eleições para a Assembleia Constituinte em 1918, puseram fim a qualquer possibilidade de desenvolvimento democrático no país. Mais, à medida que iam reforçando o seu poder, iam liquidando os seus “companheiros de caminhada”. O esmagamento da revolta de Kronstadt é um dos exemplos mais evidentes.

A recém-criada TCHEKA (Comissão Extraordinária de Combate ao Banditismo) já não prendia só monárquicos ou burgueses, mas também anarquistas, socialistas de direita, socialistas de esquerda, etc.

A “ditadura do proletariado”, que Lénine prometera, transformava-se cada vez mais no poder da burocracia dos comissários. Às portas da morte, o primeiro dirigente comunista dá conta desse e de outros males do poder soviético, mas a burocracia comunista reservou-lhe o destino que mais tarde em Portugal iria ser reservado a Salazar. Foi isolado numa antiga casa senhorial dos arredores de Moscovo e lia jornais especialmente impressos para ele ler. Tudo isto a pretexto de “cuidar da saúde do camarada Vladimir Ilitch”.



Não vale a pena discutir o que teria acontecido se Lénine não tivesse falecido em Janeiro de 1924, se lhe tivesse sucedido no Kremlin não Estaline, mas Trotski, etc. Trata-se claramente de uma tarefa estéril.

Venceu Estaline, mas, a julgar pela herança teórica deixada por Leão Trotski, as coisas não teriam decorrido de maneira muito diferente se ele passasse a dirigir os destinos da União Soviética. Trotski já tinha dado provas, durante a guerra civil, que não era menos cruel do que Estaline ou outros dirigentes comunistas.

Mas a verdade é que José Estaline vence a luta pelo poder, dando origem a uma nova dança macabra. Não me recordo quem disse que “as revoluções devoram os seus próprios filhos”, mas esta frase define bem a luta política no Partido Comunista depois da morte de Lénine.

Estaline alia-se a Kamniev e Zinoviev para isolar e neutralizar o seu camarada Trotski. Depois, alia-se a Bukharine para fazer o mesmo com Kamniev e Zinoviev e, por fim, liquida Bukharine para impor o seu poder absoluto no partido. Claro que tudo isto é acompanhado de “julgamentos abertos” e fuzilamentos em massa.

Como é sabido, as purgas não ficaram por aí e o ano de 1937, auge das repressões estalinistas, ainda estava para vir.

Entretanto, José Estaline, que se considerava um grande teórico, não só no campo da política, mas também da filosofia, biologia, agricultura, culinária, etc., constata que “a luta de classes se intensifica à medida que se constrói o socialismo”.

Como a nobreza e a burguesia já tinham sido exterminadas, chegou a vez do campesinato, que queria trabalhar as suas terras e não ingressar voluntariamente nas unidades colectivas agrícolas (sovkhozes e kolkhozes). O resultado são milhões de pessoas que morreram de fome nas regiões agrícolas.

Por exemplo, as actuais autoridades ucranianas pedem à comunidade mundial que reconheça o Holodomor (fome conscientemente provocada pelas autoridades comunistas para obrigar os camponeses a aderir à colectivização, que provocou milhões de mortos) como um “genocídio”.

Como historiador, é difícil aceitar como exacto o termo “genocídio”, pois ele significa que se trata do extermínio consciente de um povo, e o objectivo não era acabar com o povo ucraniano, mas enquadra-se perfeitamente na definição de “crime contra a Humanidade”.

As repressões alargaram-se a outras camadas sociais e profissionais, tendo sido pesadas, nomeadamente, entre os altos comandos do Exército Vermelho.

Esta é uma das razões que explicam a chegada das tropas nazis aos arredores de Moscovo. Outra é o facto de Estaline não ter dado ouvidos aos seus agentes secretos, que o preveniram na preparação da invasão nazi.

Aqui, não se pode passar ao lado do Pacto Molotov-Ribbentrop, assinado secretamente entre a União Soviética e a Alemanha nazi em Agosto de 1939. Os historiados soviéticos e alguns historiadores russos actuais explicaram a sua assinatura por Estaline para ganhar tempo a fim de se preparar para o confronto com Hitler.

Mas coloca-se a questão: e Hitler não ganhou esse mesmo tempo para preparar a operação contra Estaline?

Por isso, o Pacto Molotov-Ribbentrop é uma das provas da natureza expansionista do regime comunista na Europa e no mundo, que se veio a revelar várias vezes depois da Segunda Guerra Mundial.

Como é sabido, os ideólogos soviéticos afirmavam que a vitória na Grande Guerra Pátria, como é conhecida a Segunda Guerra Mundial na Rússia, foi possível graças ao “génio militar de Estaline”, “à direcção sábia do Partido Comunista” e, por fim “aos esforços jamais vistos dos povos da União Soviética”.

É de assinalar que, durante a Primeira Guerra Pátria (1812-1815), o povo russo venceu as tropas napoleónicas sem Estaline e sem o Partido Comunista. Quanto à Segunda Guerra Patriótica, pode-se afirmar que a política de Estaline e do Partido Comunista fizeram com que tenha sido sacrificado o número muito maior de vítimas no altar da vitória sobre o nazismo alemão. Os soldados e oficiais, os povos soviéticos foram os verdadeiros vencedores.

Seria falsificar a História se não se reconhecesse os grandes êxitos da ciência e da tecnologia soviéticas, principalmente no período do pós-guerra. O fabrico das bombas atómica e de hidrogéneo, a construção do primeiro satélite artificial da Terra, a primeira viagem do homem ao Espaço, etc., etc.

Tudo isso é verdade, mas convém analisar os custos económicos e humanos dessas inovações.

Muitos cientistas soviéticos faziam as suas investigações encerrados em campos de concentração estalinistas, bem como milhões de escravos que constituíam mão de obra quase gratuíta. Por eles passaram Andrei Tupolev, o engenheiro criador dos aviões militares e civis TU, Serguei Koroliov, criador dos foguetões e satelites espaciais, etc.

Além disso, essas descobertas científicas, bem como o fabrico de armas sofisticadas, não contribuíam para melhorar a qualidade de vida dos comuns cidadãos soviéticos, mas para manter uma competição com Estados Unidos. E, neste campo, o comunismo não aguentou a corrida.

De que vale um país ter foguetões, mísseis nucleares, centrais atómicas, se os cidadãos comuns estão privados dos produtos mais elementares? Quem viveu na União Soviética sabe que, em numerosas regiões do país, as senhas de racionamento existiram desde 1917 até 1991, ou seja, do início ao fim do regime comunista.

Para manter concorrentes indústrias como a militar, espacial e outras, o regime soviético tinha de preparar quadros competentes, o que conseguiu com grande êxito.

Mas foi desta forma também que o regime comunista preparou os seus “coveiros”. Quando, depois da morte de Estaline, em 1953, a “cortina de ferro” se abriu um pouco, os soviéticos começaram a compreender que, afinal, o capitalismo ocidental não era tão mau como pintava a propaganda soviética e a população da Europa, dos Estados Unidos e de outros países desenvolvidos vivia bem melhor do que eles. É muito mais difícil enganar pessoas cultas do que analfabetos e ignorantes.

A União Soviética não aguentou a competição económica e social com o Ocidente também porque não conseguiu dar o salto qualitativo para a sociedade da informação, perdeu aquilo a que a ideologia comunista chamava a “revolução técnico-científica”.

Por isso, é ridículo explicar o fim da União Soviética com conspirações do imperialismo e dos seus “agentes” no país. É difícil acreditar que Mikhail Gorbatchov fosse capaz de destruir uma super-potência se ela estivesse baseada em sólidos fundamentos. A URSS ruiu devido às contradições que se foram criando no seu interior e que os dirigentes do país não souberam resolver.

Mas será que alguém ganhou com a Grande Revolução Socialista de Outubro, além, claro está, da nomenclatura soviética?

Ganhou, mas não foram os povos soviéticos, nem os países da chamada “comunidade socialista”. Ganharam as classes menos desfavorecidas dos países mais desenvolvidos. Receosos de perder tudo, os capitalistas foram obrigados a ceder parte dos lucros para a esfera social. Os melhores exemplos desta política são os países que realizaram na prática políticas sociais-democráticas: Suécia, Dinamarca, Noruega, Finlândia, etc.

Desaparecida a União Soviética, começaram a ser postas em causa muitas das conquistas sociais nos países ocidentais. O outro grande “país socialista”: a República Popular da China, nunca desempenhou, nem desempenhará o papel desempenhado pela URSS no plano social. Pelo contrário, é o exemplo mais gritante do capitalismo selvagem.

Alguns pensadores e forças políticas comunistas não desistem de querer convencer-nos a aceitar uma “segunda tentativa”. Respondo com palavras da “sabedoria popular soviética”: “Só quem odeia o seu país é que tem coragem para realizar uma experiência como a comunista”.

Por isso deixo aqui um conselho: encontrem um país de que não tenham pena para repetir a experiência, mas como não deverão encontrar nenhum, recomendo que se limitem aos vossos próprios lares, se não tiverem dó das esposas e filhos.

7 comentários:

Conbild disse...

Muito bom. Excelente análie. De algumas pessoas com quem tenho falado (russos e ucranianos) é opinião unânime que foi Gorbachev quem destruiu a URSS. Quanto a mim abriu um pouco a porta e não contolou a avalanche.

RioD'oiro disse...

O caro Milhazes publica coisas que complicam a vida à esquerda lusa e depois surpreende-se que a Lusa resolva dedicar-se mais a notícias de Urano.

Nem na URSS se brincava a feijões nem em Portugal se brinca embora, por enquanto, na medida do possível.

João José Horta Nobre disse...

Excelente!

Publiquei:

http://historiamaximus.blogspot.pt/2013/11/quais-os-resultados-da-revolucao.html

Mas não esquecer o apoio ofereceido aos bolcheviques pela alta finança de Wall Street, como muito bem demonstrou o historiador Antony C. Sutton:

http://historiamaximus.blogspot.pt/2013/08/wall-street-revolucao-bolchevique-e.html

Contacto: historiamaximus@hotmail.com

Cumpts,
João Nobre

Pippo disse...

Belo!

Benedito Venturoso disse...

Muito boa essa narrativa histórica, caro Milhazes. E melhor ainda é sua análise dos fatos passados e atuais. Há deslumbrados contemporâneos que vivem na Rússia atual e têm nostalgia de um passado que não conheceram. Dizem idiotices com a pretensão de quem conhecessem os desejos da população soviética humilhada pela desorganização da economia da URSS. Tenho repulsa de ler ou ouvir as idiotices nostálgicas que se publicam por aí.

Anónimo disse...

Benedito Venturoso,

a situação atual é melhor? A Rússia continua tão ruim quanto. Nunca melhorou, continua na mesma precariedade.

Anónimo disse...

Quais os resultados da Revolução Comunista de 1917? - a sua bolas de estudos !