quarta-feira, fevereiro 19, 2014

Desintegração da Ucrânia à vista



A já sangrenta crise na Ucrânia entrou num impasse e é muito difícil como é que se vai encontrar uma saída para esta tragédia. O Presidente Ianukovitch ameaça a oposição com prisão se não abandonarem o centro da cidade e essa responde que só fará isso quando ele se demitir e forem marcadas eleições antecipadas.
Não vou adivinhar quem esteve na origem das desordens que levantaram esta nova onda de violência, que provocou já cerca de 30 mortos e centenas de feridos, mas, a julgar pelo encontro de Ianukovitch com o seu homólogo russo, Vladimir Putin, em Sochi, onde se realizam os jogos olímpicos, e pelas declarações cada vez mais duras de Moscovo, o dirigente ucraniano não teria decidido avançar ontem para a “operação de limpeza” do centro de Kiev sem o apoio de Kremlin. Moscovo é o único colete de salvação de Ianukovitch e da sua clã, tendo em conta que ele começa a perder até o apoio de alguns dos oligarcas que o apoiam. Ao permitir o banho de sangue a que assistimos, Ianukovitch deixou de ter legitimidade política.
As oposições também não estão isentas de responsabilidade. O armistício provocado pelos Jogos Olímpicos de Sochi poderia ter sido melhor aproveitado por elas para chegar a um acordo com o poder, nomeadamente sobre o regresso à Constituição de 2004, que retira alguns poderes ao Presidente a favor do Presidente, e a realização de eleições gerais antecipadas. Além das contradições entre os dirigentes da oposição, que não conseguem apresentar um programa único de reformas constitucionais, é de salientar também a política míope da UE e dos EUA nesta situação.
Segundo fontes em Kiev, se a UE e os EUA tivessem congelado as contas bancárias e negócios de alguns oligarcas e dirigentes ucranianos, isso teria contribuído para abrandar a agressividade do actual poder em Kiev. Hoje, ouvem-se novamente apelos à tomada de sanções contra eles pela UE, mas nada tem passado de conversas.
A Ucrânia não está no limiar de uma guerra civil, esta já é uma realidade cada vez mais evidente não só em Kiev, mas também em todo o país. Por isso, parece que será impossível resolver o problema sem intervenção diplomática internacional da parte dos jogadores internacionais interessados neste caso: Rússia, EUA e UE. Caso assim seja, é preciso que todos compreendam que a Ucrânia não pode continuar a ser um palco de confronto da guerra fria, que não terminou com o fim da URSS, que é muito perigoso a guerra por zonas de influência no centro do Continente Europeu.
O tempo passa e é preciso actuar operativamente para travar a espiral de violência. Caso contrário, a desintegração da Ucrânia será uma realidade num futuro muito próximo, com consequências imprevisíveis. Trata-se de um conflito tão complexo que duvido que acha vencedores e vencidos.


P.S. Às cabeças mais febris, que fazem comentários guerreiros com a mesma facilidade com que lavam as mãos, recomendo calma, pois na Ucrânia existem quatro centrais nucleares.  

6 comentários:

Anónimo disse...

Ianukovitch deve ser entre ao TPI para ser julgado por crimes contra a humanidade. Seria bom se Putin tb fosse. Assassinos! Mataram 25 pessoas inocentes! Será que a UE sairá de sua habitual letargia e não aplicará sanções ao governo ucraniano? Proibir as autoridades do governo de ir para UE? De congelar seus bens e contas bancárias?

Dylan disse...

"O armistício provocado pelos Jogos Olímpicos de Sochi poderia ter sido melhor aproveitado por elas para chegar a um acordo com o poder, nomeadamente sobre o regresso à Constituição de 2004, que retira alguns poderes ao Presidente a favor do Presidente..."

"retira alguns poderes do presidente em benefício do governo e do Parlamento". Acho que é assim, caro Sr. Milhazes.

Pippo disse...

1 - O Dylan já referiu a correcção que se impõe;

2 - JM, é impressão minha ou está a colocar todo o ónus da violência sobre o Ianukovitch? Então e os dirigentes da oposição, não são eles tão ou mais culpados pela violência? Como é que morreram, pelo menos, 6 polícias (agora já devem ser mais)? Foi por via do arremesse de pastéis de nata? Ou terá sido à pedrada, bastonada, bombas incendiárias e a tiro?
E se a Rússia é cúmplice de Ianukovitch, porque não acusar igualmente a Alemanha, a UE e os EUA de cumplicidade (que é gritante, como bem sabe) com os dirigentes da oposição, parte deles neo-nazis de corpo e alma?

Ou bem que há moralidade, ou comem todos (por tabela)!

José Milhazes disse...

Caro Pippo, você deixou escapar a frase: As oposições também não estão isentas de responsabilidade.
Quanto às emendas constitucionais, são precisamente mais a favor do Parlamento, que passa a ter mais poder de controlo sobre o governo e o Presidente.

Pippo disse...

Caro JM, dizer-se que "As oposições também não estão isentas de responsabilidade" é diferente de se dizer "As oposições são responsáveis". A primeira frase diz, no fundo, que "ah, tá bem, as oposições também têm uma responsabilidadezinha [mas quem é mais responsável é a outra parte]"; a segunda é muito mais taxativa: "as oposições SÃO responsáveis. Ponto.".

E neste caso, é exactamente assim: "as oposições SÃO responsáveis. Ponto."

Anónimo disse...

A Rússia irá anexar os estados de Karkiv, Donetsk, Luhansk, Dniproprtrovsk, Zaporizia, Criméia, Kerson e parte dos estados de Sumy e Poltava, isto da uma área de 195.000 km² e uma população de 19.500.000 habs, o resto da Ucrânia ficaria com uma área de 408.000 km² e uma populaação de 26.500.000 habs e se unirá a UE.