sexta-feira, fevereiro 28, 2014

Traumatismo ucraniano ou alucinação?


Legendas: Ianukovitch diz: "Vim a Rostov visitar um velho amigo", "A Ucrânia é  nosso parceiro estratégico", "Nunca tive contas no estrangeiro".

Se não tivessem acontecido tragédias como a desintegração da Jugoslávia, a independência do Kosovo e a invasão da Geórgia pela Rússia em 2008, eu poderia acreditar que a crise da Crimeia poderia ter uma solução política, mas, hoje, receio que tudo possa acontecer, não obstante os jogadores principais reafirmarem e jurarem que querem resolver tudo a bem.
A política da Rússia pode-se resumir à frase: “nós não nos ingerimos, mas não podemos travar o espírito combativo das massas populares”. O Kremlin jura que não se ingere nos assuntos da Ucrânia, nomeadamente na Crimeia, mas o consulado russo nessa região autónoma da Ucrânia decidiu começar a distribuir passaportes russos entre os agentes da polícia de choque Berkut, que se tornou tristemente famosa nos confrontos com a oposição ucraniana no centro de Kiev. Da próxima vez, com o passaporte russo no bolso, irão actuar com maior firmeza.
Ao mesmo tempo, são cada vez mais frequentes as movimentações de blindados e aviões militares russos na Crimeia, notícias prontamente desmentidas pelo Kremlin.
Do ponto de vista puramente jurídico, Moscovo até parece esta a agir em conformidade com o Direito Internacional e deixa aos pró-russos da Crimeia a realização do “trabalho sujo” no terreno. Vladimir Putin continua de tal forma calado, que até surpreendeu o seu colega ucraniano Victor Ianukovitch com o seu silêncio, tanto mais “conhecendo o carácter do Presidente russo”. Porém, o governo da Crimeia passa a ser dirigido pelo russo Serguei Aksionov, homem conhecido pelo seu passado de gangster e criminoso. Há actos que são mais elucidativos do que milhares de palavras, pois homens como esses apenas precisam de armas e munições para “defenderem a Crimeia dos fascistas ucranianos”.
Em casa, é a "oposição" que trata de revelar e realizar aquilo que os dirigentes do país têm na cabeça. O Partido Rússia Justa propôs um projecto-lei à aprovação que facilita a adesão de "partes de estados estrangeiros" à Federação da Rússia e não esconde que 
A propósito de Ianukovitch, para o espanto de ninguém, “ressuscitou” na Rússia, em Rostov no Don, e veio dizer o que dele se esperava ou não se esperava. Esperava-se que ele viesse pedir ajuda ao Kremlin, mas que dissesse sob qualquer forma, menos militar. Apoiou os separatistas da Crimeia, mas manifestou-se contra a desintegração do seu país. Pediu perdão aos ucranianos por não ter evitado o caos, mas também disse que não deu ordem para a polícia disparar. E, claro, fez saber que não tinha contas bancárias no estrangeiro.
É desde há muito evidente que Moscovo considera Ianukovitch um “preservativo gasto”, mas guardam-no porque ainda possa talvez ser utilizado, depois de uma recauchutagem.
Entretanto, o governo de Kiev lá se vai formando aos poucos e dá os primeiros passos. Faz lembrar um puto que sabe que tudo pode esperar do vizinho mais velho e forte e pede a outros rapazes de mais longe protecção. Os novos poderes ucranianos tiram dos baús todos os documentos possíveis e imaginários para mostrarem que têm razão, mas o Kremlin, não directa, mas através dos chamados russófonos e pró-russos, faz saber que os documentos podem não passar de papel, recordando-lhes que Ianukovitch foi corrido do poder por ter acreditado em papéis, principalmente autenticados por representantes da União Europeia.

Toda esta situação parece kafkiana, mas a realidade, por vezes, ultrapassa Kafka. Os dirigentes dos estados parecem estar a jogar ao xadrez utilizando humanos em vez de peças de madeira. A história da Europa repete-se, mas a um nível mais sofisticado e o que ontem parecia impossível, hoje ou amanhã pode não ser. Por isso, prognósticos...
Quanto à posição da UE e dos EUA, é difícil compreender o que os seus estrategas têm na cabeça. Eles são tão inteligentes e devem saber mais do que os comuns humanos, mas cito uma frase célebre de Vctor Tchernomirdin, antigo primeiro-ministro russo: "queríamos fazer da melhor forma, mas o resultado é sempre o mesmo..."
A história insiste em repetir-se, ou melhor, os homens insistem em repetir a história, mas sempre de forma mais cruel e desastrada.
Não digo mais nada, porque a "teoria da conspiração" está a bater à porta e eu tenho de jantar.

13 comentários:

Pippo disse...

Mas, JM, o que é que queria que a Rússia fizesse? Que cruzasse os braços enquanto os "do costume" lhe fazem a folha mais uma vez?

A única coisa que eu tenho a criticar em toda esta situação é a actuação "por baixo da mesa" da liderança moscovita. Acho que deveriam ser mais frontais e até digo mais, deveriam ser confrontacionais e dizer muito claramente aos "do costume" que se eles não tiveram vergonha na cara em dividir um país (Sérvia) para apoiar guerrilhas criminosas (UÇK), usando as armas e mentiras para atingir os seus objectivos, então agora a Rússia, para proteger O SEU POVO, iria fazer o necessário, mesmo com o recurso às armas.

Ou há moralidade, ou comem todos.

Pelas imagens que já tive oportunidade de visualizar, parece-me que os soldados que ocuparam os aeroportos serão mesmo de tropas especiais (Spetsnaz), provavelmente da 17ª Brigada Independente de Forças Especiais (GRU) que está estacionada na área.

Há movimentações de fuzileiros (http://www.youtube.com/watch?v=TlcS1bAM15E) e, supostamente, de helicópteros de combate a sobrevoar Belbek, a norte de Sevastopol (http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=ZUthbNCA1nc)

O apoio da esmagadora maioria da população será importante para firmar o poder na Crimeia. Se a maioria quiser, de facto, a independência da Península face à Ucrânia, não me parece que qualquer autoridade mundial (e muito menos regional) se possa opor, mormente EUA e a maioria do países na NATO/UE.
Afinal de contas, não estiveram todos a favor da independência do Kosovo?

Anónimo disse...

Milhazes
Se não fossem os factos narrados serem actuais até poderia estar a imaginar ler um apocalipse qualquer só que a besta, desta vez, está desfalecida ou exaurida e promete uma ajuda de mil milhões de dólares aos usurpadores do poder ucraniano, quais neo fascistas e fieis adeptos do FMI.
Mil milhões de dólares, pergunta a Besta e onde foi que os arranjaste? O mais certo é teres ido pedir essa mísera quantia aos chineses, minha besta desgraçada...E achas que é com essa quantia que vou pagar a conta do gás aos russos? Julgas que quero morrer de frio como já acontece nalguns estados americanos? Ingratos!
G Vicente

João Pedro disse...

"eles não tiveram vergonha na cara em dividir um país (Sérvia)"

Já a Rússia não teve vergonha alguma em dividir a Geórgia, além de que lá não houve nenhuma Sebrenica.

A candura com que os russófilos de serviço tentam fazer perceber que todos os actos dos russos são legítimos ou justificados, contra o "malévolo" bloco ocidental (que por acaso á aquele a que Portugal pertence) é comovente.

João Pedro disse...

Obviamente, o facto de pertencer ao bloco ocidental não significa que ache que todas as suas acções são legítimas ou louváveis. Mas não façamos da Rússia a vítima que não é (e o facto de Yanukovitch estar em Rostov é mais uma prova disso: quem o levou para lá? Quem o deixou entrar?).
Melhor seria fazer nova troca de regiões (e não de populações, como a seguir à 2ª Guerra, que deixou profundos traumas À Europa): A Crimeia regressava à Rússia, Kaliningrado/Konigsberg à Alemanha (embora aí fosse quase inevitável haver migrações), e a Abkhazia e Ossétia do Sul à Geórgia. E tínhamos a paz por uns bons anos, embora possa parecer demasiado optimista.

PortugueseMan disse...

IMF History With Ukraine Leaders May Cloud Aid Negotiations

The International Monetary Fund has extensive experience lending to Ukraine in recent years. It’s not a track record favoring the country as it seeks aid to stave off default.

Twice since 2008, the IMF froze loans to the former Soviet republic after governments at the time balked at measures they had agreed to carry out....

..The challenge facing interim Prime Minister Arseniy Yatsenyuk is convincing IMF officials burned by his predecessors that he’ll adopt unpopular measures such as raising gas prices before May presidential elections. ...


http://www.bloomberg.com/news/2014-02-28/imf-history-with-reneging-ukrainian-leaders-may-cloud-fresh-aid.html

Não se preocupe com os russos meu caro, se este governo vai realmente tentar implementar as medidas que o FMI sempre exigiu, a Ucrânia vai incendiar-se e a Rússia será a menor das preocupações.

Se a Ucrânia não aumentar o gás aos ucranianos, alguém terá que o pagar aos russos.

esse alguém terá que ser os Europeus, pois nem consigo ver os americanos a enterrar dinheiro na Ucrânia para estes o irem entregar à Rússia.

Quando os europeus começarem a subsidiar gas ucraniano para os ucranianos, algo vai rebentar na Europa. Muitos paises europeus estão a passar por sérias dificuldades e não têm energia subsidiada.

Como se justifica esse tipo de ajuda a um país que nem na UE está?

E só estamos a falar de energia.

Tal como está o país vai implodir.

E quando os bancos secarem, porque já não devem ter muito dinheiro disponível, vai estar metade do país a culpar a outra metade.

Vão-se "comer" uns aos outros. É nesta direcção que o país vai.

Os russos nem precisam de fazer nada. Basta exigirem pagamento dos fornecimentos energéticos.

Europeísta disse...

A Rússia vai mesmo invadir a Criméia. Isso já está acontecendo. É óbvio que quem tá invadindo é o exército russo. Tá mais que hora desse Barack Obama tomar pulso e colocar Putin no seu devido lugar. Já perdeu oportunidade diversas vezes de engrossar o tom de voz com os russos. A Rússia é um país com importância economica mínima. Pq nao ter mais rigor com ela?

Anónimo disse...

Os americanos usam e abusam da todo-poderosa NSA para espiar particulares inofensivos em vez de controlarem o que devem, daí, não saberem o que se passa ou passou na Ucrânia, ou seja, Putin faz o que quer.

Anónimo disse...

boa!!

O sr. Milhazes já começa aos poucos a admitir que não tem a inteligência para perceber certos assuntos...

Quando as coisas são muito complicadas para algumas cabeças entenderem passam a ser rotuladas de "teorias da conspiração". O sr. é daquele tipo de gente que aquando das divulgações de Snowden afirmou que "já se sabia, já se suspeitava". Mas imediatamente antes dizia que essas alegações eram fantasias, teorias da conspiração.

Ainda há uns meses você disse qui a um leitor que procurasse "debaixo da cama judeus" por este ter afirmado que a cúpula soviética sempre foi controlada por judeus, or, passado pouco tempo o próprio putin admitiu que pelos menos 80% da cúpula soviética era composta por judeus....

O sr. Milhazes passou de comunista a uma espécie de capitalista liberal e cristão, o que na practica é exactamente a mesma merda que o comunismo sob um rótulo diferente, são duas ideologias universalistas totalitárias que são seguidas por gente vazia.

o sr. continua o mesmo tipo de pessoa que era quando tinha 18 anos, submisso, inseguro, simples, rendido ao universalismo totalitário, à igualdade utópica. A questão da fé religiosa é apenas uma aquisição de quem está a ficar velho e com muito medo de morrer.

José Milhazes disse...

Anónimo, não seja cobarde, assine os comentários, pois eu não faço mal a uma mosca. Ou tem vergonha?

Fernando Negro disse...

Vou avisar toda a gente aqui, uma vez mais, disto...


A Internet está cheia de "trolls", ao serviço do poder estabelecido, cuja missão é andar em tudo o que são sítios na Internet, onde ocorrem discussões sobre assuntos políticos importantes, com objectivo de:

1) Tentar descredibilizar/desacreditar/ridicularizar quem denuncia coisas incómodas (incluindo jornalistas verdadeiramente independentes, que tanto denunciam os "podres" da UE, como os da Rússia, ou de quaisquer outros interesses que devam ser denunciados) - nomeadamente, tentando-se fazer passar por uma dessas mesmas pessoas que denunciam coisas importantes (vejam aqui um exemplo do que fizeram a um jornalista português e vejam aqui as provas de que há pessoas que são pagas pelo poder estabelecido para andar a fazer isto mesmo).

2) Sabotar as discussões/denúncias que ocorrem, tentando desviar o assunto dessas mesmas discussões, ou tentando provocar quem denuncia tais coisas incómodas, para que essas mesmas pessoas percam o controlo - e, possivel e consequentemente, a razão.

3) E lançar a confusão, sobre esse tipo de assuntos/denúncias importantes, emitindo desinformação, misturada com informação genuína.


Podem ver aqui, as mais recentes provas de que tudo isto é um facto.

E, podem ler mais sobre isto, na lista de hiperligações que se segue.

http://www.activistpost.com/2014/02/yes-there-are-paid-government-trolls-on.html
http://www.infowars.com/pentagon-armies-of-paid-trolls/
http://www.prisonplanet.com/obama-information-czar-outlined-plan-for-government-to-infiltrate-conspiracy-groups.html
http://www.danielestulin.com/2012/02/03/facebook-y-sus-conexiones-con-cia-y-darpa/#comment-18705


Se se fartarem dos "anónimos", ou de pessoas que assinam com nomes que ninguém conhece de lado nenhum, podem sempre apenas permitir a colocação de comentários de pessoas que tenham uma conta criada na Blogger. (É muito simples de o fazer, nas opções de configuração dos blogues. E, é também muito simples e rápido, para alguém que queira comentar em blogues, criar uma conta na Blogger.)

Pippo disse...

João Pedro:

Uma lição de geografia grátis:
Sebrenica fica na BÓSNIA;
O Kosovo fica na SÉRVIA;
Nem a Bósnia nem o Kosovo fazem fronteira com países da NATO ou a sua instabilidade ameaçava países da NATO;
A Geórgia faz fronteira com a Rússia, pactuou com inimigos da Rússia, fechou os olhos às movimentações de terroristas chechenos no seu território, e além disso, o seu domínio sobre a Abkhazia e a Ossétia do Sul foi contestado, por duas vezes, pelas próprias populações.

Quer que lhe faça um desenho?

E porque é que Kaliningrado deveria ser entregue à Alemanha? Ela não a perdeu na 2ª GM? Por essa ordem de ideias, porque não devolver-lhe a Prússia Oriental, a Silésia, a Alsácia e a Lorena? Ou só os russos é que têm de amochar?E os russos do enclave, o que é que eles pensam dessa proposta?

E porque é que a Abkhazia e Ossétia do Sul deveriam ser entregues à Geórgia? Os georgianos não perderam essas regiões na sequência de duas guerras? E o que é que os autóctones pensam acerca disso?

Comentar e lançar atoardas não chega, é preciso reflectir primeiro.

ovigia disse...

meu caro,

"e a invasão da Geórgia pela Rússia em 2008"

seria bom não se reescrever a história, está mais que provado que o problema da Geórgia uma vez mais foi provocado pelos mesmos de sempre, os EUA e seus donos, os zionistas que vão destruindo Israel (repare que escrevi zionistas e não israelitas, uns nada têm a ver com os outros), EUA apoiaram e treinaram tropas do fantoche Saakashvili, zionistas modificaram e instalaram equipamento militar http://www.spiegel.de/international/world/new-report-on-russia-georgia-war-eu-investigators-debunk-saakashvili-s-lies-a-652512.html, https://en.wikipedia.org/wiki/Responsibility_for_the_Russia%E2%80%93Georgia_war.

https://en.wikipedia.org/wiki/Georgia%E2%80%93Israel_relations, http://www.wired.com/dangerroom/2008/08/did-israel-trai/

Pippo disse...

Finalmente, V. Putin mostra como são as coisas, de forma clara, que é como eu gosto:

Russian President Vladimir Putin has asked the upper house of parliament to approve sending armed forces to Ukraine’s Crimea region, the Kremlin said in a statement on Saturday.
“In connection with the extraordinary situation in Ukraine, the threat to the lives of citizens of the Russian Federation, our compatriots, and the personnel of the armed forces of the Russian Federation on Ukrainian territory (in the Autonomous Republic of Crimea) ... I submit a proposal on using the armed forces of the Russian Federation on the territory of Ukraine until the normalisation of the socio-political situation in the that country,” the statement said.

Reuters

E pronto!

E se hipócritas como o Durão Borroso vierem denunciar a "agressão russa", O ministro Lavrov só terá mesmo é que lhe perguntar, de forma clara, claríssima, o que é que o Borroso estava a fazer com o José Maria Aznar, o Tony Blair e o George W. Bush naquela famosa reunião nos Açores!

Ou há moralidade...