terça-feira, março 11, 2014

Rússia apoia independência da Crimeia sem esperar resultados de referendo




O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia informa hoje que a declaração de independência da Crimeia por parte do Soviete Supremo (Parlamento) está conforme a Carta da ONU, outros documentos internacionais, bem como (prestem bem atenção) à decisão do Tribunal Internacional da ONU de 22 de Julho de 2010 sobre o Kosovo.
E para que não hajam dúvidas, o MNE da Rússia acrescenta “na decisão citada, tomada a pedido da Assembleia Geral da ONU por iniciativa da Sérvia, o TI confirmou o facto de que a proclamação unilateral da independência de parte do estado não viola qualquer norma do DI”.
Por isso, o MNE da Rússia considera essa decisão absolutamente “legítima”.
A Federação da Rússia irá respeitar completamente os resultados da vontade livremente expressa dos povos da Crimeia durante o referendo, para o qual, como é sabido, foram convidados observadores da OSCE e por via bilateral”, sublinha-se no comunicado.
Ou seja, Moscovo deixa claramente a entender que não só irá aceitar a vontade dos habitantes da Crimeia serem independentes, mas também de passarem a fazer parte da Federação da Rússia.
E parece não haver dúvidas de que o Kremlin irá repetir a mesma experiência no Sul e Leste da Ucrânia, afirmando sempre que nada tem a ver com a situação nessas regiões, mas que tudo se tratará da vontade do povo.
Também parece ser evidente que Moscovo pretende terminar esse processo antes das eleições presidenciais na Ucrânia, marcadas para Maio. Desse modo, o novo Presidente será representante de uma parte do país.
Se o Kremlin não enveredar pela via mais directa (descarada), poderá, eventualmente, fazer regressar a casa Victor Ianukovitch e dar-lhe o cargo de presidente de uma espécie de República Popular da Ucrânia. Desse modo, tenta proteger-se das acusações de “anexação” ou “ausschluss”.
Em qualquer dos cenários, a divisão da Ucrânia parece ser um facto consumado e irreversível.
O esquema funcionou perfeitamente na Geórgia em 2008 e, se funcionar na Ucrânia, outros vizinhos da Rússia que se cuidem.
Quanto à reacção do chamado Ocidente, por enquanto nada mais além de palavras, palavras, palavras. E não se prevê de que outra forma poderão reagir a UE ou os EUA a breve prazo. A médio e longo prazo, algo poderá mudar, mas para isso será necessário tomar medidas sérias e urgentes. E muita, muita coragem política.
E, mais, volto a aconselhar os diplomatas e teóricos da UE e dos EUA a pensarem nas consequências das medidas políticas que vão tomar. Era de todo evidente que a Rússia iria reagir da forma que reage, mas Bruxelas e Washington deviam andar distraídos, ou era demasiada a vontade de derrubar Ianukovitch. Falhanços desses só podem ser atribuídos à ignorância e má preparação daqueles que estão à frente das diplomacias da UE e EUA, ao desconhecimento total das forças no terreno, das relações históricas e mentalidades dos povos em questão.

Por outro lado, continuo a defender a ideia de que, a média e longo prazo, a Rússia irá pagar uma factura muito pesada por esta sua política externa, pois corre o risco de se engasgar com tanta fartura e de não ter meios económicos e financeiros para tantos luxos. 

7 comentários:

Nuno Rolo disse...

Uma pergunta se o caso da Ucrânia se concretizar, estamos a beira de outra Guerra Fria do sec. XXI, vamos ver como vai se portar a Belorussia?

Pippo disse...

Só me ocorre uma palavra: touché!

Durante mais de uma década, o "Ocidente" andou num regabofe, numa orgia de "engenharia geopolítca", derrubando e esquartejando países a seu bel prazer, impondo "revoluções democráticas", mais ou menos coloridas, e instalando "defensores da Democracia e da Liberdade" um pouco por todo o mundo.

Vemos no que isso deu: guerras na Jugoslávia; guerra no Kosovo, violações flagrantes do DI posteriormente remendadas (como é o caso citado); revoluções "coloridas na Ucrânia e na Geórgia, com a instalação no poder de incapazes, corruptos e tiranetes; guerras e golpes de Estado no Médio Oriente e Norte de África sob a capa da "luta contra o terrorismo" ou a "luta pela Liberdade", com a subsequente instalação do caos, da guerra civil e o fim das liberdades individuais (vejam-se as mulheres e os convertidos ao Cristianismo no Afeganistão, por exemplo)...

Durante anos, foi assim, sem oposição, sem mais do que a mera contestação verbal.

Agora, acabou-se. E inacreditavelmente, todos gritam "Lobo!", ou melhor, "Urso!".

É assim a vida, fizemos por merecê-la.

Receio bem que o regabofe tenha mesmo acabado.

João Pedro disse...

Ainda não percebi o porquê desta pressa toda, a dias do referendo/plebiscito. Claro que com os boicotes e o total controlo da região por forças russas mal disfarçadas o resultado devia ser o esperado, mas ao menos sempre emprestava alguma forma de "escolha democrática". Então qual a razão da convocação do referendo?

Europeísta disse...

JM,

O próximo da lista será a Moldávia.

Europeísta disse...

Sendo assim, eu nao vejo outra saída senao a Rússia reconhecer a independência do Kosovo. Se ela usa decisao sobre a legalidade da independencia do Kosovo para fundamentar a da Criméia, não fará sentido mais a Rússia não reconhecer a independencia do Kosovo. Como a Rússia vai se explicar com a Sérvia? Se a Rússia reconhecer esse independencia legitimará a do Kosovo.

Buíça disse...

Não entendo o espanto por a Rússia apoiar a auto-determinação de uma região autónoma onde vivem esmagadoramente russos...
Uma região que votou esmagadoramente e elegeu um presidente (corrupto ou não, como todos, é outro tema) que preferia ter relações preferenciais com a Rússia do que aderir à UE...
Uma região onde se fala essencialmente russo, uma língua que o novo "presidente" Ucraniano quer ilegalizar no país...

Está mais do que evidente que foi o "Ocidente" quem decidiu esticar a corda depois do recuo da Ucrania em relação a uma eventual adesão à UE. Num dia todos os intervenientes Ucranianos acordaram marcar eleições, negociar um governo provisório e referendo. No dia seguinte o "Ocidente" forçou a fuga do país do líder da facção pro-Russa e nomeou imediatamente um fantoche não-eleito que logo começa a ser tratado pelo "Ocidente" como se tivesse sido eleito e já nem de eleições se fala.
Tudo isto entra pelos olhos adentro de tão óbvio.

Esperemos que acaba um bocadinho melhor do que a Síria, mais esta tentativa de substituír a Gazprom como principal fornecedor de energia à Europa central e oriental.

Anónimo disse...

Apoiam a independência da Crimeia (e posterior "filiação" à Rússia) porque é a decisão soberana do povo de lá.
Agora, porque o discurso muda quando o assunto é a Chechênia?