quinta-feira, abril 17, 2014

Fiascos de uns, triunfos de outros


Na foto, um veículo de combate de infantaria, ex-exército de Kiev, entra em Slavyansk na posse das milícias ucranianas


Texto enviado pelo leitor Pippo: 



"Pela segunda vez no espaço de poucos dias, o governo de Kiev lançou as suas forças, fortemente armadas e apoiadas por meios aéreos, numa das suas “operações anti-terroristas” com o fim de suprimir a revolta dos ucranianos.
Contudo, os seus planos, mais uma vez, saíram gorados.

No terreno, as tropas kievitas viram-se confrontadas amiúde com populares e milícias armadas exibindo a sua “fita de S. Jorge”, e se nalguns sítios se assistiu a um mero impasse, com os soldados de Kiev indispostos a avançar contra a população e os seus legítimos protestos, noutros sítios ocorreram espectaculares volte-face que em tudo descredibilizam o regime de Kiev.

Depois de terem assaltado o aeroporto de Kramatorsk na terça-feira, quarta-feira de manhã as tropas de Kiev prepararam-se para tomar de assalto a cidade. Contudo, centenas de populares e milícias rodearam os vários blindados provenientes de Kiev na estação de comboios de Pchyolkino, a sul de Kramatorsk.
[Note-se que são todos veículos BMD-2 e 2S9 Anona (morteiro de 12cm auto-propulsado), normalmente atribuídos às tropas aerotransportadas. Estes IFV (Infantry Fighting Vehicles) aparentemente terão chegado por via férrea, possivelmente a partir da região vizinha de Dnipropetrovsk, onde está sediado o 25º regimento pára-quedista do Exército Ucraniano.]

Segundo a RIA Novosti, um veículo ucraniano abriu fogo contra as milícias de autodefesa em Kramatorsk pondo-se de seguida em fuga em direcção ao aeroporto. Três pessoas ficaram feridas.
Os demais veículos e parte das tripulações ter-se-ão juntado à milícia sem se disparar um único tiro (que é o que se vê no vídeo), o que sugere que as tropas que haviam chegado com eles teriam intenções de se juntar aos ucranianos do Leste ou, pelo menos, não pretendiam combatê-los (ver mais abaixo). Foram estes veículos (note-se a numeração na lateral do casco), desfraldando bandeiras russas, que entraram em Slavyansk ao fim da manhã.

Enquanto ocorriam estes eventos, perto de Kramatorsk, outra unidade mecanizada avançava por entre a população desarmada ameaçando mata-los à granada de mão:

E noutro ainda, a população (e não “terroristas”, como refere o governo de Kiev e os seus apoiantes) detêm uma coluna militar e protesta contra as intenções dos seus ocupantes, que parecem não fazer ideia de que iriam encontrar tamanha oposição popular. Que mentiras é que os seus superiores andarão a contar a estes pobres soldados?

Quanto à especulação sobre quem são estes homens, exibindo uma variedade de camuflados e armamento, desde espingardas automáticas e metralhadoras a espingardas de precisão e armas anti-carro, a maior parte parecia provir das fileiras da mesma milícia armada que apreendeu prédios estatais em torno da região nos últimos dias. Outros seriam pára-quedistas de Dnipropetrovsk que se juntou aos rebeldes na quarta-feira. Um grupo de mulheres reconheceu um dos combatentes mascarados e chamou-o para um abraço rápido, o que confirma quem pelo menos parte destes homens são nativos da região.

Também segundo jornalistas no local, dezenas de soldados ucranianos enviados para submeter os ucranianos do Leste do país terão desertado para se juntar aos seus supostos inimigos. Em Slavyansk, Alec Luhn do The Guardian descreve a partida das tropas de Kiev em autocarros, após terem sido aprisionados pelas milícias ucranianas: "After spending several hours in Slavyansk city hall, which has been occupied by pro-Russian militia, at about 40 to 50 Ukrainian paratroopers marched out of the building and loaded up into two buses," [] Some of the Ukrainian troops stayed to join the pro-Russian militia, the soldier said. This was confirmed by a rebel commander, who declined to say how many had stayed. However, Russian state news agency RIA Novosti reported earlier on Wednesday that 60 Ukrainian troops had gone over to the side of the militia with their armour.


As sucessivas tentativas falhadas do Exército fiel ao regime de Kiev em debelar a revolta dos ucranianos do Leste do país representam "um recurso inconstitucional à força contra manifestações pacíficas", segundo Moscovo, e a confirmação não só da incompetência como, sobretudo, da total indisponibilidade dos soldados do regime em atacar a população revoltosa.

Porquê tal fiasco por parte das forces enviadas por Kiev? segundo Lindsey Hilsum, do Channel 4 News, que está em Kramatorsk:
“The Ukrainian government may want to force the separatist armed men out of buildings they have occupied in towns across eastern Ukraine, but their soldiers are very reluctant. “I don’t want to shoot anyone,” one said to me. “Actually I was against this mission.””

Um outro soldado, pára-quedista, afirmou "All the soldiers and the officers are here. We are all boys who won't shoot our own people."


Enquanto as suas tropas fazem entradas de leão e saídas de cordeiro, as novas autoridades de Kiev desdobram-se em terias da conspiração. Hoje, o Serviço de segurança da Ucrânia (SBU), disse ter interceptado comunicações que mostram que os comandantes russos no Leste separatistas tinha dado às milícias ucranianas ordens de "atirar a matar".
As alegadas comunicações interceptadas "mostram que as operações de sabotagem no Leste da Ucrânia estão a ser conduzidas abertamente por oficiais regulares da inteligência militar russa [GRU], que emitiram cínicas ordens de atirar a matar contra os soldados ucranianos", disse o SBU em comunicado.
A televisão de Kiev exibiu depois o que disse ser uma conversa interceptada entre dois comandantes russos no Leste da Ucrânia os quais pareciam estar a discutir formas de assegurar que os homens das milícias abrissem fogo contra os soldados federais caso fossem atacados.

Quanto aos nacionalistas do Oeste, apoiantes da primeira hora do golpe de Estado em Kiev, nada mais lhes resta fazer para dar escape às suas frustrações do que criar novos mitos e novos heróis, como o do coronel da polícia Andriy Kryshenko, da cidade de Horlivka, que depois de “heroicamente” ter atirado um manifestante do telhado de um edifício abaixo, levou uma valente tareia da população da cidade!

Por último, Sergei Lavrov lançou um forte aviso a Washington quanto às consequências catastróficas do seu apoio insensato a Kiev (trad. Alan Yuhas):
It's important to note that the US State Department is frantically gathering any speculation spread by the acting powers in Kiev in order to justify charges against Russia about inciting and even organizing disorder in south-east Ukraine. [...]
But the important thing is not the distortion of facts, but the stubborn unwillingness or inability to see reality as it actually is, and in striving to impose on the rest of the world a distorted view of what's happening in south-east Ukraine. From briefing to briefing to justify the riots of the "heroes of Maidan" but to describe the protests in Donetsk, Kharkiv, Luhansk, Slavyansk and other cities as actions guided from outside terrorists – It's not simply a double standard, but blatant hypocrisy.
Now, as the ruling regime in Kiev has made an attempt to use force, the official [rhetoric of] the White House and State Department that this is a "maintenance of law and order", indicates nothing less than an endorsement for [Kiev's] war against their own people. Washington must recognize the catastrophic consequences of such reckless support for its Kiev charges."

6 comentários:

José Milhazes disse...

Caro Pippo, um grupo de desconhecidos tentou tomar um quartel da Guarda Nacional da Ucrânia em Mariupol. Os soldados abriram fogo, mataram 3 e feriram 13 atacantes. É isso que você quer? Talvez seja para que Moscovo envie mais "homenzinhos verdinhos" para a Ucrânia?
Fico com a impressão que você trata esta guerra civil como um jogo de computador.

PortugueseMan disse...

Caro JM,

Como é que exactamente foi essa tomada de assalto?

Os soldados abriram fogo, porque estavam a ser atacados?

Como é que eles estavam a tomar o quartel?

Acho que falta ainda aqui uns pormenores sobre esta acção.

Já agora quantos morreram exactamente na tomada do Aeroporto?


Fico com a impressão que você trata esta guerra civil como um jogo de computador.

Porquê?

Porque o Pippo não partilha da sua interpretação da realidade?

chukcha disse...

"Fico com a impressão que você trata esta guerra civil como um jogo de computador."

Caro Milhazes,
Apesar da retórica mais ou menos inflamada ninguém aqui tem tratado esta situação como virtual.

E a escalada retórica e militar tem origens, responsáveis e objectivos e uma história conhecida, nos últimos meses.
A situação que agor se verifica no Leste e sul é quando muito uma reacção aos eventos e humilhações.


Quer um exemplo, e passe a publicidade, Dneproprovetsk, hoje:

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Paulo disse...

Caro José Milhazes, você está um pouco a leste do que se passa.

Este blog, conta com alguns participantes, que não fazem outra coisa que não seja produzir o mesmo tipo de comentário em vários locais por toda a internet em língua portuguesa.

Eles são crianças desde os 14 aos 30 anos, frequantam forums de jogos de computador e de temas militares e depois fazem-se passar por especialistas de alguma coisa.

A situação absurda a que se chegou na Ucrânia acaba por ajudar este tipo de maniacos das guerras. A lógica, a argumentação com pés e cabeça não faz qualquer sentido para este tipo de pessoas.



O que se deve no entanto perguntar neste momento, é o que é realmente a Ucrânia e até que ponto é que a Ucrânia é realmente um país e até que ponto o império russo (incluindo aqui a sua versão soviética) deixou de existir.

Ou então, se é que realmente desapareceu e em contrapartida continua a existir, com as elites de Moscovo a continuar a dominar o país do ponto de vista político e militar.

A outra questão, é o que passa pela cabeça dos ucrânianos para acreditarem em todas as patranhas sobre o poder da extrema-direita em Kiev, quando é sabido de toda a gente que os nazistas russos são muito mais numerosos, muito mais poderosos e muito melhor armados e controlam uma parte considerável da DUMA.

O partido de Zhirinovsky transformou-se num grupo de homens de mão de Putin.
Os grupos de neo-nazis russos são a guarda avançada dos grupos que estão a instigar o terror nas ruas da UCrânia.

A Nashi, também conhecida como a Juventude Hitleriana russa, está no terreno e é o principal grupo de pressão e propaganda na Internet.

O que é espantoso, é como estes grupelhos de extremistas poluem os lugares de discussão.

Eles são apenas cinco ou seis, mas parece que não fazem absolutamente mais nada.

O braço de Putin é longo...

Pippo disse...

JM, o que eu quero é que deixem os ucranianos em paz e que eles possam decidir o destino das suas terras.

Se as forças de ocupação não estivessem em Mariupol nem tivessem tentado "reconquistar" Kramatorsk, nada disto se estaria a passar nem haveria mortos.

té digo mais: se as forças do Oeste tivessem RESPEITADO o acordo firmado com o presidente da Ucrânia e aguardado pela chegada das eleições antecipadas, nada disto se estaria a passar.

Já quanto a si e aos seus amigos Nuno Rogeiro ou Dmytro Yatsyuk, parece que tudo o que o governo ilegítimo e ilegal de Kiev faz é bom, nomeadamente o querer impor a sua autoridade - ilegal - à totalidade do território. Em compensação, o que quer que seja que as milícias populares anti-Kiev façam é um apelo à guerra, etc.

Diz você que este "governo" é o melhor para resolver a situação. Pois eu digo que este "governo" não só não é como nunca foi a solução para nada. Foi um "governo" "cozinhado" no exterior e que foi imposto pela força. Dúvidas? Vitaly Klitchko, "amamentado" na Alemanha; Victorian "Fuck Europe" Nuland; John "I love Svoboda" McCain; visita secreta, primeiro desmentida, depois admitida, do director da CIA a Kiev;... sim, os seus leitores são inteligentes e sabem ligar os pontos!

Eu trato esta guerra civil como aquilo que ela é: um crime contra a Humanidade. Acontece apenas que eu não estou do lado dos criminosos.

Carlos Caseiro disse...

Eu aprendi na minha tropa enquanto oficial que os soldados não servem para combater o seu próprio povo. Caso tal o façam estão sujeitos a Tribunal. Só um oficial que não esteja no seu próprio juízo irá mandar os seus soldados disparar sobre as suas mães, os seus pais e os seus irmãos. Se Kiev quiser resolver os seus problemas usando o exército, apenas criará mais problemas. Em ultimo caso, se assim não o entenderem, para evitar derramamento de sangue o exército só terá uma saída: Tomar o poder.