sexta-feira, junho 13, 2014

Será a Rússia adversa à democracia? (fim)


A minha comunicação feita nos XXXV Colóquios de Relações Internacionais na Universidade do Minho

No campo da política externa, a anexação da Crimeia é sintomática. Putin, alegando novamente a “protecção” dos russos e baseando-se no precedente do Kosovo, ocupou aquela península que pertencia à Ucrânia, criando precedentes muito perigosos para a própria russa. Basta dizer que Moscovo foi além do precedente do Kosovo, pois se este antigo território da Jugoslávia se tornou um Estado independente, a Crimeia foi simplesmente engolida.
Como não existem democracias ideais ou puras, sendo, em maior ou menor grau, híbridas, o regime político existente na Rússia pode ser considerado ainda um regime democrático híbrido, mas com uma preponderância cada vez maior de sinais de autoritarismo.
A ideologia em que se baseia o regime, cada vez mais agressiva e reinante, faz-nos lembrar a trilogia czarista: “Ortodoxia, Autocracia, Povo”.
No entanto, é de salientar que se Vladimir Putin continuar por este caminho, irá voltar a conduzir a Rússia para um beco perigoso. As ambições imperiais requerem meios económicos e financeiros, mas a economia do país entrou em recessão e os lucros obtidos com o petróleo e o gás são insuficientes para “fazer canhões e garantir manteiga”. Tanto mais se o Kremlin continuar a sua actual política externa em relação aos Estados vizinhos.
A lição da queda da URSS parece ter ensinado muito pouco aos dirigentes russos. Só um país com fortes e sólidas bases económicas pode realizar uma política externa como aquela que está a realizar Vladimir Putin. Não basta aparecer em tronco nu, todo musculoso, ou tripular um avião militar, ou descobrir ânforas do séc. VI depois de Cristo no Mar Negro, para que o mundo acredite que a Rússia possa pretender ao estatuto de super-potência.
Talvez fosse melhor se Vladimir Putin se recordassem da experiência do czar russo Alexandre II. Depois da pesada derrota da Rússia na Guerra da Crimeia (1853-1856), o autocrata russo lançou uma série de reformas que deram um grande impulso ao crescimento económico e social do país, bastando recordar a lei da abolição da servidão camponesa, em Fevereiro de 1861.
Continuando assim, o dirigente russo conduz o seu país para o isolacionismo. Alguns analistas afirmam que tal não é possível devido ao grau de integração da Rússia na economia mundial e os actuais dirigentes russos também parecem estar convencidos disso e de que a Europa não poderá passar, por exemplo, sem o gás russo, mas também é verdade que a Rússia não poderá aguentar muito tempo sem vender essa e outras matérias-primas ao Ocidente. O desvio das correntes de exportação russa para a China e outros países asiáticos é possível, mas não é imediato e exige grandes investimentos.

Não posso terminar sem deixar de assinalar que a ausência de política externa, energética comuns da União Europeia, bem como a política externa dos Estados Unidos face à Rússia estão também na origem do desvio da “democracia híbrida russa” no sentido da degeneração. Depois da queda da URSS, foram muitos os que no Ocidente consideraram que a Rússia estava enfraquecida para sempre e não passaria de um fornecedor de matérias-primas. Alguns até declararam o “fim da História”. Os resultados dessa política estão à vista. (fim)

8 comentários:

Pippo disse...

E por falar em democracia...
Cohen on Ukraine civil war: ‘Lincoln didn’t call Confederates terrorists’

http://rt.com/op-edge/165932-lincoln-confederates-terrorists-ukraine/

Anónimo disse...



Foi pena o José Milhazes não ter hi-do confrontar-se sobre o mesmo assunto (Ucrânia) com estes dois senhores profundamente conhecedores da situação, Carlos Santos Pereira e José Inácio Sánchez Amor no ISCTE no dia 5 de Junho.


Têm uma opinião totalmente contrária àquilo que o José Milhazes aqui costuma divulagar.

Quem será que tem razão?


Carlos Carapeto ?

José Milhazes disse...

Carlos Carapeto, pergunte aos organizadores porque é que não me convidaram. Eu participo de boa vontade e em qualquer debate. Um dos oradores foi CCP, meu amigo de longa data e por quem tenho consideração, embora possamos ter opiniões diferentes. Sabe que eu só soube desse colóquio depois de ele ter acontecido, pois estou em Moscovo, mas gostaria de participar, o problema é que não me convidam e vá lá saber-se por qual razão. Talvez eu não seja perito na matéria, embora viva na Rússia há 37 anos. Outros, que poucos dias passaram na Rússia e arredores, não falam russo e comentam tudo. Acha isso normal?

Pippo disse...

"Outros, que poucos dias passaram na Rússia e arredores, não falam russo e comentam tudo. Acha isso normal?"

Olha, faz lembrar o seu amigo Nuno Rogeiro, que não pesca puto daquilo mas divulga como verídicas informações que recebe via CIA e SBU!
Sim, de facto não acho isso normal! :0)


Quanto ao CSP, é pena que ele já não seja "publicado". Não percebo porquê... ou melhor, perceber, percebo, aliás, todos o percebem. Mas ao menos ele poderia ter um blog, do qual, se tivesse, eu seria um seguidor fiel.

Ricardo Break disse...

Olhe o sr e natural da povoa de varzim assim como eu e mora na russia assim como eu mas claro sou muito mais novo que você é moro apenas a um ano na russia mas resumindo não entendo como o sr não consegue ver a realidade é ver que não são os russos os agressores e se você vive na russia a 37 anos como pode vc ser tão pro ocidental ??? Como pode você falar tão mal da russia ??? Eu sinceramente não falo russo mas penso seriamente em pedir para traduzir as suas falas e provocações para com a russia que se bem sei é lá que você ganha o seu sustento Pq creio que você deveria ser proibido de entrar na russia sinceramente vc fala demasiado mal e faz acusações inadmissíveis !

José Milhazes disse...

Ricardo, como é meu conterrâneo, eu explico-lhe uma vez mais que não estar de acordo com a política do Presidente Putin não significa ser anti-russo. São coisas completamente diferentes. Este político está a conduzir o seu país para um beco sem saída. Quanto ao amor do povo, ele é muito volátil. Desejo-lhe felicidades na Rússia e que não tenha de assistir aos resultados da política de Vladimir utin.

Ricardo Break disse...

Mas a política de putin e aceite por 82% da população adulta e por os incríveis 86% da população jovem ou seja se você não gosta da opinião do presidente putin e não respeita às suas opções e ideologias políticas esta no momento a não respeitar o povo russo ! Não pretendo desde já faltar ao seu respeito como tanto o senhor como eu o fizemos mas sinceramente vindo as políticas americanas que sem tirar nem por e a política da bomba e do drone como pode você condenar a política russa e não condenar a política América ? Como você sendo jornalista saber da morte do jornalista russo e não escrever nada sobre isso ??? Todos os noticiários pro ocidente não escrevem que foram mortos pelo governo de Kiev simplesmente dizem ter morrido lol como pode isso ser possível ?? A russia tem graves problemas tem sim as ruas são horríveis a corrupção é enorme sim é tem que mudar tem !!!! Mas a nível de política externa eu concordo com TUDO estão completamente correctos de verdade !!!! A minha esposa toda sua família e de lugansk e donetsk falamos todos os dias por 6 meses via Skype Pqe que você não pode confiar nas pessoas que estão no "terreno " ?? A família são mulheres bebés marido reformado filho policial Pq iriam mentir a minha esposa diga me Pqe ???

Ricardo Break disse...

Continuo aguardando a aprovação e a resposta ao meu comentário .