quarta-feira, julho 23, 2014

A repetição do falso paradigma soviético


Não vou falar hoje dos mistérios que ocorrem em torno da investigação da queda do Boeing 777 malaio no Leste da Ucrânia, pois são muitos e de difícil compreensão, tanto mais que há políticos que não querem que nós os compreendamos.
Por exemplo, o paradeiro do comboio com os restos mortais das vítimas que se perdeu a caminho da cidade ucraniana de Kharkov ou os cadáveres de 16 vítimas “a mais” que foram encontradas debaixo da fuselagem do malogrado aparelho. Podem ser dificuldades criadas pela guerra, mas estes exemplos apontam para que a investigação possa ser muito longa e talvez não conclusiva.
Hoje mesmo, os separatistas pró-russos e a imprensa de Moscovo anunciaram - com a mesma força e alegria com que anunciaram o derrube de um avião de transporte militar Tupolev-76, mas que depois se veio a ver que se tratava de um Boeing 777 malaio – o derrube de dois Su-25 da Força Aérea da Ucrânia.
Claro que me podem dizer, e certamente muitos me dirão, que são coisas diferentes, que foi muito bem feito porque eles atacam alvos civis, etc, etc. Mas isso também mostra que os separatistas pró-russos utilizam armas sofisticadas que não se vendem num armeiro qualquer, mas são fabricadas na Rússia. E, a julgar pelo discurso de Vladimir Putin no Conselho de Segurança da Rússia, ontem realizado, Moscovo até fornece essas armas, mas porque o Ocidente a isso o obriga: “E colocam à Rússia quase ultimatos: ou nos permitem que a parte dessa população [da Ucrânia], que é étnica, cultural e historicamente, próxima da Rússia, seja exterminada, ou iremos decretar sanções contra vós. Estranha lógica. E claro que absolutamente inaceitável”.
Estou plenamente de acordo que se trata de uma lógica estranha e inaceitável do Presidente Putin.
Voltemos à ocupação militar da Crimeia pela Rússia. Um dos argumentos era que a infraestrutura da NATO se estava a aproximar das fronteiras russas e que foi preciso tomar medidas para travar tal ameaça, mas, no discurso de ontem, Putin diz-nos: “Devo desde já assinalar que, claro está, hoje, não existe ameaça militar directa à soberania e integridade territorial. A garantia disso deve-se, antes de tudo, ao balanço estratégico de forças no mundo”.
E aqui também estou de acordo com o Presidente russo e que seja sempre assim. Mas coloco esta questão: essa garantia surgiu depois da invasão da Crimeia?
Fico com a ideia de que Putin nunca evoluiu muito além da mentalidade de coronel do KGB da URSS. Não quero dizer com isso que ele ou os coronéis desses serviços secretos soviéticos fossem ignorantes ou incompetentes, mas estavam e estão presos a princípios errados. Elas pensavam, tal como muitos soviéticos, que um enorme potencial nuclear e forças militares armadas até aos dentes num país pobre seriam um êxito, mas não, foram algumas das causas da derrocada do regime por eles defendido.
Um país como a Rússia, com desejos e pretensões ao estatuto de super-potência, não pode sobreviver apoiando-se nesse poderio militar e apenas mais na exportação do petróleo e do gás. Isso pode ser possível durante algum tempo, mas pouco. Ora, a Rússia está a perder claramente o comboio do progresso e continua a ser um “Alto Volta com mísseis”. Com uma chaga gigante que a URSS possuía em dimensões menores: uma corrupção verdadeiramente ao nível africano.
O sistema económico, produtivo e financeiro não é apenas o tendão, mas as pernas de Aquiles.
Para os que se interessam por estas coisas, deixo aqui o lugar onde poderão ler na integra e em inglês o discurso de Putin. É interessante ler, porque, a julgar pelas suas palavras a Rússia está próxima da prosperidade, mas ele governa o país há 14 anos e a prosperidade continua a ser uma miragem.
No campo interno, ninguém lhe tem criado dificuldades particulares. O regime económico e social russo é cada vez mais semelhante àqueles regimes corporativistas criados por Salazar ou Mussolini. Mas já estamos no início de um novo século e as receitas são muito antigas.



http://eng.kremlin.ru/news/22714

5 comentários:

ANTI-COWBOY disse...

A intervenção de Putin na reunião do Conselho de Segurança da Federação Russa centra-se em,fundamentalmente em 6 pontos.
1-A não existência de uma ameaça directa à soberania e à integridade da Rússia,que aliás eu referi na minha intervenção anterior.
2-A desestabilização do Estados que desafiam determinados interesses (leia-se "americanos")com as chamadas revoluções coloridas,financiadas do exterior destruindo a "etnia" daqueles que apoiam a Rússia com a chantagem de sanções.
3-Tentativa de desestabilização da Rússia para tentar enfraquecê-la social e economicamente,o que não vai resultar.
4-Apelo ao desenvolvimento económico e social equilibrado.
5-Dificuldades que as próprias forças militares ucranianas fizeram à entrega das chamadas caixas-negras do avião malaio e que foram vistas pelos próprios especialistas internacionais com a abertura de fogo que punha em causa a vida de todos (Putin frisa até a circunstância de que não podiam sequer ser os próprios separatistas a fazerem fogo sobre eles mesmos).
6-Propósito da Rússia de ajudar em tudo o que puder no sentido de se poder esclarecer completamente o que sucedeu com a queda do avião da Malásia.
7-Os problemas da Nato na vizinhança da Rússia com aumento mesmo de alta tecnologia de ataque.
Estes pareceram-me os pontos fundamentais levantados por Putin na reunião referida.Aqui deixo a todos um pequeno resumo da minha inteira responsabilidade.Peço desculpa se não percebi muito bem nalguns casos a tradução a que tive acesso.Desta vez não faço comentários deixando isso para outra ocasião posterior.

Jonatan Souza disse...

http://www.planobrazil.com/eua-nao-encontram-sinais-de-envolvimento-direto-da-russia-na-queda-do-mh17/

Jonatan Souza disse...

http://noticia-final.blogspot.com.br/2014/07/guerra-vista-russia-prepara-para.html?m=1

Anónimo disse...

Putin deve andar sofrendo de transtorno de dupla personalidade. Ele pode até não ter receio da Otan, mas andar a negar sua ameaça vai contra outra declaração sua:

www.youtube.com/watch?v=ictz4AnIEI8

Vai contra o que pensa Aleksandr Dugin e, principalmente, vai contra as teorias de Zbig em The Great Chessboard. Penso que nesta reunião foi usada a tática dos panos quentes. Talvez numa tentativa de amainar as coisas.

Pippo disse...

"Mas isso também mostra que os separatistas pró-russos utilizam armas sofisticadas que não se vendem num armeiro qualquer, mas são fabricadas na Rússia"

Presumo então que todo o equipamento militar sofisticado usado por Kiev também seja de construção russa...
:)

"Essa garantia surgiu depois da invasão da Crimeia?"

Sem dúvida, pois como todo sabemos, após a queda do Muro a NATO, que tinha dado garantias de não avançar no antigo espaço do Pacto de Varsóvia, fez exactamente o contrário.
A Crimeia, tal como toda a Ucrânia, é uma peça extremamente apetecível para a estratégia norte-americana de cerco à Rússia. Para isso é que se fazem "revoluções coloridas".

Ao retomar a Crimeia, a Rússia, aparentemente, terá quebrado esta fase de crescimento, já debilitada em 2008 com a guerra da Ossétia do Sul.