quarta-feira, janeiro 21, 2015

Russos e chineses – irmãos para sempre?



Na era de Estaline e Mao foi lançada a palavra de ordem “russos e chineses – irmãos para sempre” e Moscovo tenta apresentar uma aliança sino-russa como uma panaceia contra o seu isolamento face ao Ocidente, não obstante o utopismo da ideia.
Efectivamente é verdade que, nos últimos anos, as trocas comerciais e os contactos políticos entre Moscovo e Pequim têm registado avanços significativos. Por exemplo, segundo a agência noticiosa russa TASS, entre 2000 e 2013, o comércio bilateral conheceu um aumento de mais de dez vezes, crescendo de 8 para 89,2 mil milhões de dólares.
Além disso, e principalmente depois do início das sanções ocidentais contra a Rússia devido à anexação da Crimeia por ela e ao apoio dos separatistas pró-russos no Leste da Ucrânia, o Kremlin assinou com Pequim uma série de acordos que pretendem mostrar que a Rússia se pode dar ao luxo de virar as costas ao Ocidente e irar para o Oriente. O mais relevante prevê o fornecimento de 38 mil milhões de metros cúbicos de gás russo à China durante 30 anos.
Porém, nem todos os analistas políticos e economistas russos embarcam nessa euforia, sublinhando que esses projectos dificilmente poderão ser realizados e, se o forem, poderão colocar a Rússia numa total dependência da China.
O combustível será transportado por um novo gasoduto “Força da Sibéria”, cuja construção, que será financiada pela Rússia, irá custar 55 mil milhões de dólares e, tendo em conta a instabilidade nos mercados internacionais de hidrocarbonetos, é difícil prever a que preço esse gás será vendido em 2018, ano em que se prevê o início dos fornecimentos.
Outro dos grandes projectos é a substituição do dólar pelas moedas nacionais no comércio bilateral.
As contas em moedas nacionais, em todo o caso entre parceiros como a China e a Rússia, são uma direcção com muita perspetiva na nossa interacção. Isso permite alargar as nossas possibilidades no comércio bilateral e incluir subatancialmente nos mercados mundiais: financeiro e energético”, declarou Vladimir Putin , em Novembro do ano passado, depois de um encontro com o seu homólogo chinês. Porém, a brusca desvalorização do rublo russo que se seguiu atirou por terra, pelo menos nos tempos mais próximos, essa ideia. Segundo a agência chinesa Xinhua (21.10.14), a queda do rublo cria riscos para a economia chinesa pois as reservas do Banco Central da Rússia são insuficientes para cobrir as dívidas russas e as perspectivas da própria economia russa estão longe de ser optimistas.
Além disso, não se pode deixar de salientar que a Rússia e a China nem sempre têm interesses coincidentes na política externa. Por isso, Pequim iniciou o projecto de criação do Banco Asiático de Investimentos em Infraestruturas, medida que provoca desconfiança em Moscovo, não obstante necessitar de grandes investimentos na criação ou renovação das suas infraestruturas.
Um dos objectivos é a criação de uma nova “Rota da Seda”, ou seja, a formação de uma zona económica que engloba a China, Ásia Central e a Europa. Até à anexação da Crimeia, a Rússia não tinha lugar nesse plano, mas apenas alguns portos dessa península estavam nele presentes. Como esse novo projecto engloba países como o Cazaquistão, Tadjiquistão e Uzbequistão, Moscovo receia que a rota se transforme numa concorrente da União Alfandegária, nomeadamente na Ásia Central. Quanto aos portos da Crimeia, os chineses encontrarão certamente alternativas.
E não nos podemos esquecer que alianças sólidas só podem ser concluídas em pé de igualdade se entre os Estados membros não existirem grandes diferenças no desenvolvimento económico e influência internacional real. No caso, é de salientar que o PIB da China é cinco vezes superior ao russo e que o crescimento económico anual deste país é ainda maior do que o da Rússia.
Queimamos pontos nas relações com o Ocidente e, por outro lado, começamos relações diversas com a China em ramos estratégicos. Não gostaria que a Rússia nas relações com a China se transformasse numa potência profundamente dependente do financiamento, dos créditos e do sistema de pagamento chineses, que ceda posições estratégicas fulcrais às empresas chinesas. A África fez isso, mas eu não quero viver em África”, considera Vladimir Milov, presidente do Instituto de Política Energética.
Como é sabido da história, o Império do Meio nunca foi muito dado a acordos de amizade e cooperação eternos, e o caso da “eterna amizade” entre a China maoista e a URSS estalinista terminou logo após a morte do ditador soviético José Estaline com uma guerra por fronteiras entre os dois “países socialistas irmãos”. Pequim é conhecido pelo seu pragmatismo nas relações internacionais, que não deixa qualquer espaço ao sentimento. Por isso, a Rússia é para a China um dos muitos instrumentos que poderão ser aproveitados na disputa com os Estados Unidos e que pode ser sacrificado se os interesses supremos chineses assim o exigirem.

Se Vladimir Putin não encontrar forma de retirar o seu país do beco em que o meteu com a sua política externa e a Rússia continuar na queda económica, os chineses poderão lembrar-se dos velhos mapas onde as fronteiras eram muito mais favoráveis ao Império Celeste. 

6 comentários:

Ricardo disse...

Moscou não precisa temer os chineses do ponto de vista militar enquanto for uma força nuclear e ao contrário dos países ocidentais, a China historicamente não tem realizado invasões em outros países com desculpas esfarrapadas. A Rússia se tornou altamente dependente da UE e olha só o que ganhou. Sempre que Washington se irritar ele da ordens a Bruxelas para frear Moscou. Não vejo vantagem na Rússia ficar dependente de subalternos dos americanos. A relação China e Rússia acaba sendo uma via de mão dupla com dupla dependência e ao contrario de Bruxelas Pequim jamais se prejudicaria economicamente para agradar a Casa Branca.

José Milhazes disse...

Ricardo, mas Pequim também não se vai prejudicar para agradar a Moscovo.

Christian N disse...

Resumindo: "A amizade entre Rússia e China jamais se consolidará".

Isso é uma análise ou um desejo teu?

José Milhazes disse...

Christian, eu não mantenho um blog para escrever sobre os meus desejos.

Bandido disse...

Quando a China invadiu o Tibete para o Ricardo foi uma invasão devidamente fundamentada. O facto de quererem impor a sua soberania sobre Taiwan é devidamente fundamentada e não com base em desculpas esfarrapadas. Perguntem aos povos Turcos do leste da China se a sua anexação pela China foi ou não uma invasão. É incrivel como alguns Ocidentais têm complexos ao ponto de os levar a não querer ver o que é obvio.

ANTI-COWBOY disse...

Em Política não, nem nunca existiram amizades para sempre.Agora, dada a proximidade geográfica por um lado,dado o facto dos chineses já terem percebido muito bem o que se passou na Ucrânia no começo desta crise mais grave,dado ambos perceberem bem os intentos expansionistas dos EUA que não se fazem tanto por ocupação territorial mas antas por ocupação financeira que é muito mais perversa,é natural que estejam de mãos dadas até ao isolacionismo a que os EUA irão ser,no tempo,obrigados.Aliás todo este comportamento ultra nervoso da América é a expressão do medo inexorável.Os EUA estão com medo.O cerco mundial vai-se apertar naturalmente porque os povos não vão suportar a ideia de um País querer comandar todo o mundo.Os países devem cooperar.Esse é o sinal dos tempos.Quem não o compreender sucumbirá politicamente pelo menos.Portanto nesta fase, russos e chineses estão e estarão juntos.E vão ser temíveis.Ainda iremos assistir ao colapso político americano que,repito, emite sinais de grande nervosismo,sinal sempre inequívoco de grande perturbação.