quarta-feira, janeiro 21, 2015

Algumas explicações sobre a Crimeia



Nos últimos dias, tenho recebido algumas mensagens que me chamam a atenção para a “tontice” de eu considerar que um dos objectivos da Rússia no conflito no Leste da Ucrânia é conseguir um corredor terrestre que a ligue à Península da Crimeia. Com mais ou menos insultos pelo meio, mandam-me olhar para o mapa e notam que a Rússia, na região de Krasnodar, está separada da Crimeia apenas por “4,5 quilómetros de mar”.
Não tenho nada contra as críticas, principalmente quando são feitas de forma correcta, mas os insultos merecem resposta, tanto mais quando são fruto da ignorância.
Realmente, é verdade que a Crimeia não fica muito longe da Rússia do ponto de vista geográfico, mas o problema é que a distância geográfica é insuficiente para explicar todas as dificuldades dessa ligação. É preciso ter em conta os sérios problemas logísticos.
Neste momento, a Crimeia está ligada à Rússia por via aérea e por um sistema de ferry-boats que estão longe de satisfazer todas as necessidades da península. São frequentes as longas filas de automóveis e de passageiros, pois basta que a ondulação no mar seja um pouco mais intensa para obrigar os ferry-boats a não saírem dos portos.
Além disso, é conhecido o facto de a Crimeia necessitar de fornecimentos externos de água. Esta península não utiliza todas as potencialidades agrícolas precisamente por causa da falta desse bem essencial. Até à anexação desse território pela Rússia, o problema era resolvido porque a Ucrânia desviava parte do caudal do Dniepre, através de um canal, para fornecer água à península. Mesmo assim, nos anos mais quentes, o problema com o abastecimento de água fazia-se sentir com alguma agudeza.
A Crimeia precisa também de importar praticamente 100% da energia eléctrica que consome. (Há uma empresa portuguesa que construiu moinhos de vento na Crimeia, mas a produção é insignificante).
A electricidade pode ser fornecida pela Rússia, mas as linhas eléctricas terão de passar obrigatoriamente pelo território ucraniano e, por conseguinte, os habitantes da península só poderão receber electricidade com a autorização de Kiev.
Podem dizer-me que a Rússia poderá resolver esses problemas sem necessitar de ocupar ou de apoiar os separatistas a conquistar um corredor terrestre com a Crimeia, mas para isso são necessários vários anos.
Ainda não saiu do processo de discussão a necessidade de construir uma ponte rodoviária e ferroviária entre a Rússia e a Crimeia. Segundo o projecto mais provável, essa ligação, nada fácil do ponto de vista da engenharia, deverá ter um comprimento de 19,5 quilómetros. Esta obra não será barata e, na actual situação económica da Rússia, exigirá grandes esforços financeiros.
Poderão ser também instalados cabos de alta tensão entre a Rússia e a Crimeia através do mar, mas trata-se de mais uma obra dispendiosa. Quanto à água, aí a única forma de solucionar o problema é mesmo a normalização de relações entre a Rússia e a Ucrânia.

Resumindo, a manutenção da Crimeia no seio da Rússia constitui um fardo muito pesado para a já fraca economia russa. Se Moscovo se tivesse ficado pela anexação da península, o Ocidente já estaria resignado, mas o Kremlin decidiu esticar ainda mais a corda...

3 comentários:

ANTI-COWBOY disse...

Oh caro JM,acha que a Rússia não tem tecnologia mais que suficiente para resolver esses problemas de filigrana que enuncia? E a ponte vai ser feita,palavra da Rússia.

José Milhazes disse...

Putin já deu essa palavra há 15 anos.

ANTI-COWBOY disse...

Pode ser como diz JM mas há sempre a data própria e ideal.E ela chegou só agora,mas já,pelos vistos, estava então nos planos de Putin.Era preciso era o pretexto,e ele surgiu porque lho deram de bandeja.E vão suceder outras concretizações dos planos de Putin que o ocidente lhe vai dar,mas tudo a seu tempo sem grandes pressas.Essa sabedoria é bem oriental.Não vai ser à ganância como é uso no ocidente decadente.