quinta-feira, dezembro 22, 2016

Retórica belicista como símbolo das fraquezas de Putin


                         
                    Símbolo da "modernização" de Vladimir Putin




A crescente retórica belicista de Vladimir Putin parece ainda não advir de problemas do foro psiquiátrico, nem deve visar assustar Donald Trump, mas da necessidade de desviar a opinião pública russa dos problemas cada vez maiores do país, garantir a sua nas eleições presidenciais de 2018.

Num encontro com comandantes militares em Moscovo, Putin afirmou que, actualmente, a Rússia é mais forte do que qualquer potencial agressor, mas considerou isso pouco e defendeu a necessidade de continuar a modernizar as Forças Armadas russas, criando, nomeadamente, armas que consigam superar o sistema de defesa antimíssil que os Estados Unidos tencionam instalar no Leste da Europa.

Se se concordar com aqueles que esperam que Putin vá cooperar seriamente com o seu futuro homólogo norte-americano, Donald Trump, torna-se difícil compreender o aumento do discurso militarista do dirigente russo, pois poderá ofender o orgulho nacional do novo senhorio da Casa Branca e este reconsiderar o seu discurso da campanha eleitoral de redução do apoio à NATO ou de aumento do isolacionismo na política. É de frisar que o general James Mattis, escolhido por Trump para o cargo de Ministro da Defesa, não é conhecido pelas suas posições pró-russas, bem pelo contrário.

Certamente que Vladimir Putin não tentou assustar ainda mais a União Europeia, cujos dirigentes conduzem já uma política que vai ao encontro dos anseios do czar: o enfraquecimento e desintegração da UE. 

As razões do aumento da retórica militarista do Kremlin têm a ver com a política interna russa. O Presidente Putin está a criar na opinião pública a ideia de que a Rússia é uma fortaleza cercada por inimigos, explicando assim a deterioração da situação económica do país.

Isto é cada vez mais importante se tivermos em conta o envolvimento militar cada vez maior da Rússia na guerra da Síria. O assassinato do embaixador russo na Turquia, Andrei Karlov, é uma consequência da intervenção militar russa, e, provavelmente, não deverá ser a única. E, mesmo que Moscovo venha a ser um dos vencedores da contenda – se é que um conflito deste tipo tem fim -, terão de ser os russos a financiar a manutenção do regime de Bashar Assad em Damasco.

Além disso, a Rússia continua envolvida no conflito no Leste da Ucrânia, que também está longe da solução. Nas últimas semanas, tem-se observado o aumento de confrontos entre as tropas ucranianas e os separatistas pró-russos na região de Debaltsevo, que, no ano passado, foi campo de fortes combates. Não se pode excluir a escalada deste conflito.

Aproximam-se também as eleições presidenciais na Rússia, previstas para 2018, e o sentimento de “fortaleza cercada” é ideal para justificar a continuação de Putin no Kremlin até 2024. Se a situação social, económica e política se degradar de forma mais acelerada, não se exclui a possibilidade de o escrutínio ser antecipado para 2017 para garantir a reeleição do hoem que dirige a Rússia desde 2000.

E enquanto do Kremlin soam ameaças militares, as atenções da opinião pública não se concentrarão em desgraças como aquela que acontece na Sibéria, onde pelo menos 77 pessoas já morreram por terem ingerido loção para banho e o número de vítimas mortais poderá ainda aumentar. Isto é mais uma prova cruel da degradação social na província russa.

A fanfarra propagandística militar é um dos métodos clássicos para a manutenção de regimes autoritários, mas, normalmente, os cidadãos cansam-se.
Segundo um estudo do Levada-tsentr, 30% dos russos inquiridos consideraram que o aumento dos preços e à desvalorização do rublo foram o principal acontecimento de 2016, colocando estas questões à frente da eleição de Trump (28%) e do afastamento dos atletas russos das Olimpíadas devido ao doping (23%).

4 comentários:

Anónimo disse...

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antónio m p disse...

No seu post anterior, o José Milhazes reconhece – inevitável reconhecer depois de tudo o que se sabe dos noticiários – que «os Estados Unidos e os seus aliados (…) têm também sérias responsabilidades neste conflito, armando nomeadamente grupos armados de oposição a Bashar Assad».

Reporta agora “o sistema de defesa antimíssil (passe o eufemismo) que os Estados Unidos tencionam instalar no Leste da Europa”, e acrescenta que “o general James Mattis, escolhido por Trump para o cargo de Ministro da Defesa, não é conhecido pelas suas posições pró-russas, bem pelo contrário”.

E a conclusão a que chega é que Putin não tem razão para pensar que “a Rússia é uma fortaleza cercada por inimigos”.

Quanto à conversa sobre os inquéritos aos russos, era evitável, José Milhazes, por respeito à inteligência dos seus leitores.

Anónimo disse...

José Milhazes, a Rússia está cercada pela OTAN, O Sr. quer que Putin fique de braços cruzados? Não é a Rússia que está nas fronteiras americanas, então o quê os EU está fazendo do outro lado do Atlântico ?

João José Horta Nobre disse...

«E enquanto do Kremlin soam ameaças militares, as atenções da opinião pública não se concentrarão em desgraças como aquela que acontece na Sibéria, onde pelo menos 77 pessoas já morreram por terem ingerido loção para banho e o número de vítimas mortais poderá ainda aumentar.»

Mas porque raio é que alguém vai beber loção para banho?!?