segunda-feira, outubro 16, 2017

Incêndios e diplomas manhosos


A nova vaga de incêndios, com consequências trágicas para os portugueses, continuam a lavrar. Por isso, lembrei-me deste texto meu escrito há algum tempo e que encontrei na gaveta. Será que os diplomas manhosos não são uma das causas dos incêndios?
Os meus pensamentos estão concentrados nas numerosas notícias da comunicação social sobre os diplomas manhosos conseguidos por várias dezenas de dirigentes e funcionários da Protecção Civil. Pelos vistos, foi um fartar vilanagem e, como é tradição na nossa terra, ninguém presta atenção ao fumo até que a casa começa a arder.

No livro "As minhas aventuras no país dos sovietes", eu relato as dificuldades que eu e alguns colegas meus tivemos de superar para ver os nossos diplomas, tirados nos antigos "países socialistas", reconhecidos nas nossas universidades. Mas relembro para os que ainda não leram o livro, nomeadamente os que não o conseguem ler por ter sido escrito por um "traidor" ou por um “novo chico da cuf”.

A minha licenciatura em História da Rússia (cinco anos e a defesa de uma tese) foi reconhecida depois de ter realizado quatro exames sobre História de Portugal na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, em cumprimento da legislação em vigor. Embora eu tivesse estudado História de Portugal em disciplinas como a História da Europa e noutras, fiz os exames e recebi como nota final a média das notas obtidas nas provas.

Fiquei muito surpreendido que as notas conseguidas na Faculdade de História da Universidade de Moscovo não tenham sido levadas em conta, mas a lei é para se cumprir. Foi como eu tivesse andado cinco anos a coçar calças nos auditórias dessa conhecida instituição soviética.

Tal como eu, dezenas ou centenas de estudantes em antigos “países socialistas” tiveram de passar por provas que, nalguns casos, demorou um ano e mais, ou viram-se obrigados a tirar outros cursos superiores. Não respondo por todos, mas sei, por exemplo, que os licenciados em Medicina, Farmácia tiveram que se esforçar bastante pois em causa “estava a saúde e a vida das pessoas”. Um forte argumento, sem dúvida…

Mas qual é a função da nossa Protecção Civil? Não é proteger a saúde e a vida das populações? E o que se viu no Verão passado? E que desgraças continuarão a acontecer se à frente desses e de outros serviços vitais se encontrarem pessoas com currículos académicos manhosos?

Veja-se os casos do já ex-presidente do Conselho de Administração da Autoridade Nacional de Aviação Civil Portugal ou do também já hoje ex-dirigente da Autoridade Nacional de Protecção Civil. Não são simples bombeiros voluntários (com todo o respeito por estes heróis), mas funcionários de topo. Estes casos são dignos de um país do Terceiro Mundo.

Após a desintegração da URSS, em 1991, o mesmo sistema de “reconhecimento de cursos” atirou para as obras (com isto não quero dizer que não tenha admiração pelos construtores) numerosos emigrantes do Leste da Europa com capacidades intelectuais e preparação universitária que permitiriam, caso tivessem sido aproveitadas, um maior desenvolvimento do nosso país. Mas o corporativismo do mundo académico português revelou-se mais uma vez com todo o seu esplendor.

O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, remeteu para a Inspecção-Geral de Educação as conclusões da auditoria pedida às licenciaturas na Protecção Civil e espera-se que ela nos revele como são possíveis coisas dessas em Portugal, quem os autores dos “reconhecimentos” das equivalências de dezenas de cadeiras e a troco de quê, como é que institutos académicos se deixam mergulhar nesta podridão?

É também preocupante que este problema tenha afectado, nos últimos anos, governos de diferentes famílias políticas. Um sinal de que o “chico espertismo” continua a vencer a meritocracia e um péssimo exemplo para os nossos jovens, que concluem que não vale a pena ser honesto em Portugal.

Convençam-nos do contrário…



P.S.1)  A título de curiosidade, gostaria de saber se os licenciados em Cambridge, Stanford, Sorbonne, Boston, Sevilha tiveram também de “passar pelo calvário” que passaram os licenciados em Moscovo, Kiev, Kharkov, Praga, etc., etc.?

 2) E quando os médicos cubanos vêm trabalhar para Portugal, alguém faz alguma prova?




3 comentários:

Madalena Amaral disse...

Boas interrogações !
Senhor Milhazes , li o livro da sua autoria, As minhas Aventuras no País dos Sovietes . Por coincidência também li, um ano anos, outro livro com o título O Fim do último Soviético, da Svetlana Aleksievitch , nome complicado, para mim, mas o livro tenho-o na minha frente e copiei . Depois , também li uns volumes oferecidos pelo Expresso sobre Estaline . De modo que , alguns pontos sobre o que relatou do seu livro citado acima não me espantou . Aliás , confirmou-se ainda mais .
Na minha página do Facebook colocava apontamentos dando a minha opinião do que li sobre este seu livro e houve quem comentasse o que relatou no seu post do bolg . Que era um traidor e etc e tal . Foram por outras palavras mas vieram dar ao mesmo . É impressionaste como a cegueira actua ! Bom, acredito em si !
Cumprimentos
Madalena Amaral

antónio m p disse...

Julgo saber que os médicos cubanos que vêm trabalhar para Portugal não adquiriram nem conseguiriam adquirir equivalência académica aos médicos portugueses, o que não diminui mas antes acrescenta à sua acusação implícita, entenda-se.
Afinal, quem se interroga sobre as habilitações individuais dos médicos que integram as Brigadas Médicas Cubanas (BMC)? É talvez uma característica do voluntariado - o que remete para o início do seu artigo (post).

Rui Pimentel disse...

http://demo.cratica.org/sessoes/1989/03/31/ pesquisar eucalipto.

Apenas relembrando que em vários pontos do país houve manifestações populares contra a florestação de eucaliptos em 89.

«[...] A Guarda Nacional Republicana começou a descer rapidamente a encosta em direcção aos populares que se acocoravam a arrancar eucaliptos. A turba respondeu com duas breves 'chuvas de pedradas.
Algumas pedras voaram na ocasião [...]»

Sem querer desrespeitar a AR, a "chuva de pedradas" deveria ter sido direccionada para São Bento e não para a GNR.