quinta-feira, setembro 20, 2018

Ouvindo o futuro Patriarca Ortodoxo Russo na Universidade Católica


                                                    Ilarion, Metropolita de Volokolamsk



Quando soube que Ilarion, Metropolita de Volokolamsk e dirigente da Secção Internacional da Igreja Ortodoxa Russa, iria fazer uma palestra na Universidade Católica de Lisboa a 19 de Setembro, decidi que não podia faltar. De tal forma que tive de levar comigo o meu neto, pois tinha prometido ficar com ele. Como diz o povo, primeiro o dever, depois a devoção.

Verdade seja dita, o miúdo portou-se lindamente, embora não compreendesse muito bem o que andava para ali a fazer.

A sala estava cheia para ouvir o metropolita falar da situação dos cristãos no Médio Oriente, das perseguições desencadeadas contra eles pelos terroristas islâmicos, etc. Conhecedor profundo do problema, não revelou grandes novidades sobre o assunto, sublinhando, por exemplo, que, agora, o essencial é conseguir meios para reconstruir o que foi destruído durante a guerra na Síria. Considerou que não estão provadas as acusações que são feitas contra o Presidente sírio Bashar Assad e condenou a intervenção militar ocidental do país, justificando, ao mesmo tempo, o envio de tropas e armas russas para lá.

No período de perguntas e respostas, Ilarion provou porque é que está à frente do ministério dos negócios estrangeiros da Igreja Ortodoxa Russa pela forma diplomática como respondia às perguntas da sala. Quanto à guerra entre os patriarcados ortodoxos de Constantinopla e de Moscovo em torno da autocefalia da Igreja Ortodoxa Ucraniana, Ilarion reafirmou a posição negativa do Patriarcado de Moscovo, justificando-a com o facto de os ortodoxos ucranianos não quererem independência e de este conflito ter origem nas guerras políticas entre dirigentes ucranianos.

A Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscovo tem 12 000 paróquias, enquanto que as outras duas igrejas ortodoxas que lutam pela autocefalia controlam cerca de quatro mil.

Ao falar da possível aproximação entre católicos e ortodoxos, o metropolita Ilarion colocou como um dos obstáculos o facto de a Igreja Católica ser universal e as ortodoxas serem nacionais. Não será isto uma contradição com o que ele afirmou sobre a Ucrânia?

Quanto à pergunta sobre as perseguições religiosas na Rússia, nomeadamente sobre a proibição das actividades das Testemunhas de Jeová, ele considerou que na Rússia nunca houve tanta liberdade religiosa como actualmente, apoiando as atitudes repressivas das autoridades russas face às Testemunhas de Jeová com o argumento de que são uma “seita”. Esta resposta foi recebida com efusivos aplausos da sala.

Mas talvez a maior das desilusões da plateia tenha a ver com a questão da “consagração da Rússia a Nossa Senhora”. Ilarion afirmou que tinha visitado Fátima e tinha ficado surpreendido com a espiritualidade do lugar. Depois, acrescentou: “a minha opinião pessoal é que já se cumpriu a profecia de Fátima”, frisando que não era necessário fazer mais consagração alguma, como defendem certos círculos católicos, pois isso já teria sido feito aquando do Baptismo da Rus no séc. X em Kiev. Além disso, o aumento do número de fiéis e de templos ortodoxos na Rússia é uma prova de que não é necessária nova consagração.

O Metropolita Ilarion, que, se não ocorrerem grandes mudanças e convulsões na Rússia, deverá suceder a Kirill I na cadeira de Patriarca de Moscovo e de todas as Rússias, defende claramente uma aproximação mais estreita entre ortodoxos e católicos na luta pelos princípios tradicionais cristãos e europeus, e talvez por isso tenha sido convidado a visitar Portugal.

No entanto, alguns círculos ortodoxos ultraconservadores não lhe perdoam essas ideias, acusando-o, nomeadamente, de “papista” e “uniata”.

Como acontece nestes casos, muito fico sempre por dizer porque o tempo é curto, mas foi uma conversa importante para quem se interessa por estas coisas.

Recomendo a leitura da entrevista que o Metropolita Ilarion deu ao “Observador”:  https://observador.pt/especiais/lider-da-igreja-ortodoxa-russa-defende-putin-uso-de-armas-quimicas-na-siria-foi-encenado/.

Sem comentários: