
A União Europeia depende das reservas russas de petróleo e gás. Os EUA precisam do apoio de Moscovo para resolver questões inquietantes, como os dossiers nucleares do Irão e da Coreia do Norte. O Kremlin está também a utilizar bem as dificuldades dos países vizinhos que pretendem sair da sua órbitra. É por tudo isto que o Presidente Putin quer tornar o país num sujeito activo da comunidade internacional.
A Rússia quer deixar de ser objecto da política internacional para se tornar novamente num seu sujeito activo. Desta vez, as armas nucleares são substituídas pelo petróleo, gás e energia atómica. Este é o cerne do programa de política externa de Vladimir Putin.
Também neste campo, a situação é extremamente favorável ao Presidente. A Rússia tem das maiores reservas de gás natural e petróleo do mundo, tornando-a extremamente necessária ao desenvolvimento da economia mundial. Por exemplo, a extrema dependência da União Europeia em relação aos combustíveis faz com que os seus membros não tenham uma política minimamente coordenada em relação a Moscovo, regendo-se pelo princípio de "cada um que se arranje".
O erro da Administração norte-americana de resolver o "problema do Iraque" pela via da força e o posterior "afundamento" das suas forças militares nesse país fazem com que Washington não consiga concentrar as suas atenções no "dossier da Rússia". Além do mais, George W. Bush necessita de Moscovo para resolver questões internacionais importantes como os dossiers do Irão e a Coreia do Norte, países com quem a Rússia tem relações especiais, e, por isso, pode ser útil a Washington.
O Kremlin está também a utilizar bem as dificuldades dos países vizinhos que pretendem sair da sua órbitra. A Ucrânia passa por um profunda crise social, económica e política, mas as chamadas forças "pró-ocidentais" não souberam colher os dividendos da "revolução laranja" de 2004, estando em risco de perder o poder para as forças pró-russas. Na Geórgia, o Governo vê-se perante graves problemas de separatismo na Abkházia e Ossétia do Norte, apoiado por Moscovo. Tendo como justificação o referendo sobre a independência do Montenegro e sobre o futuro estatuto do Kosovo, Putin diz ter chegado a hora de fazer também um plebiscito nesses territórios georgianos, à esmagadora maioria dos habitantes dos quais o Kremlin já concedeu cidadania russa.
A mentalidade da actual elite política russa em pouco difere da soviética, no sentido em que considera que o país está ser rodeado por países membros da NATO, formando uma espécie de anaconda em torno do "pescoço" da Rússia.
Depois do fracasso da Comunidade de Estados Independentes, Moscovo tentou formar blocos regionais capazes de pôr em causa o "unipolarismo" americano: Organização de Cooperação de Xangai, Tratado de Defesa Colectiva, Organização Económica Euro-asiática, etc.Não interessa se os membros dessas organizações sejam Estados democráticos ou ditatoriais, porque os russos acreditam cada vez menos em moral nas relações internacionais. O sonho da "casa europeia comum" passou ao passado como um dos seus criadores: Mikhail Gorbatchov.
Além disso, a Rússia não é menos democrática do que a China ou a Líbia, nem os políticos russos têm menos escrúpulos do que Gerhard Schroeder, ex-chanceler alemão que aceitou dirigir a empresa que constrói o gasoduto Rússia-Alemanha a troco de um chorudo ordenado.
Maquilhagem política
Nas vésperas da cimeira do G8, o Kremlin gastou uma fortuna para realizar em Moscovo uma cimeira de líderes religiosos mundiais e uma reunião de organizações não-governamentais. "A reunião correu muito bem e foi muito interessante. Estivemos com Putin durante duas horas. Tudo parte de uma manobra de charme, mas, mesmo assim, bastante interessante e produtivo", disse ao PÚBLICO um dos participantes.
Depois disso, os ideólogos da nova Rússia consideram não haver argumentos para criticar o país por falta de democracia.
Numa situação em que a Realpolitik volta a imperar, parece um pouco descabida a questão de saber se a cimeira do G8 se deveria realizar em São Petersburgo. Isolar a Rússia seria contraproducente e até prejudicial para o Ocidente. Talvez seja mais produtivo ligá-la com laços económicos, culturais e políticos cada vez mais fortes.

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