sábado, dezembro 09, 2006

CARTA À MÃE


Serguei Essenine (1895-1925) é daqueles poetas que os russos dizem ser "intraduzivéis", tal é a carga "étnica", "nacional" que a sua poesia transporta. Os meios literários da época receberam-no como "o mensageiro da alma russa".
José Sampaio Marinho ousou traduzir parte dessa alma russa e penso que conseguiu:

CARTA À MÃE

I

Vives ainda, minha velhinha?
Também eu vivo. Salve-te Deus!
Que caia sobre tua isbazinha
A vesperal, doce luz dos céus.

II

Alguém me escreve que, preocupada,
Chamas por mim morta de saudade,
Que muitas vezes sais para a estrada
No velho trajo de uma outra idade.

III

Na treva azul da noite serena
Sempre te ocorre a mesma visão:
Que numa briga, alguém, na taverna,
Me crava a faca no coração.

IV

Nada, querida! O teu medo acalma.
É só delírio de bem-querer.
Nou sou um bêbado tão sem alma
Para, sem ver-te, poder morrer.

V

Sou carinhoso como era outrora
E um sonho só dentro em mim se aninha:
Mandar a insone saudade embora,
Voltar à nossa casa baixinha.

VI

Regressarei quando no jardim
A Primavera florir os ramos.
Mas de manhã não venhas a mim
Pra me acordar como há oito anos.

VII

Deixa dormir o de sonhos lasso,
O que não fiz por favor olvida:
Cedo de mais, perdas e cansaço
Que sofrer tive na minha vida.

VIII

E orar não quero. Não é preciso!
Para o passado não há regresso.
Só tu pra mim és ajuda e riso,
Só tu és luz de intenso reflexo.

IX

Deixa de estar tão preocupada,
De mim não tenhas tanta saudade.
Não corras tanto para a estrada
No trajo velho de uma outra idade.

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