quarta-feira, maio 30, 2007

Visita de Sócrates à luz da imprensa russa


Para que não haja confusão, hoje publico apenas a forma como a imprensa russa cobriu a visita do primeiro-ministro português, José Sócrates. Quanto às minhas opiniões pessoais, virão depois de "moer" tudo o que vi.

“Putin apela à Europa a não fazer da Rússia um monstro com cornos”, este foi o título escolhido hoje pelo sítio electrónico russo que difunde as notícias mais importantes do dia: zagolovki.ru.

Os diários russos de referência começam por chamar a atenção para “o facto de a presidência portuguesa iniciar-se no próximo mês de Julho, sublinhando que as declarações positivas dos dois líderes, que caracterizaram a cooperação entre a Rússia e Portugal como “bastente enérgica”, são um importante resultado do encontro de Vladimir Putin com José Sócrates” – escreve o zagolovki.ru.

Ao mesmo tempo, a imprensa russa sublinha que Vladimir Putin fez toda uma série de “comentários claros” sobre as relações entre a Rússia e a União Europeia.

“Vladimir Putin falou à Europa de monstros com garras” – titula o diário Vermia Novostei, sublinhando que o dirigente russo apelou a que não se compare a Rússia “a um monstro que acabou de sair da floresta e em vez de pés tem garras e crescem-lhe cornos”.

Além disso, o dirigente do Kremlin passou ao contra-ataque. Putin, segundo os jornais russos, acusou também “países ocidentais” de se desviarem dos valores democráticos.

“E a pena de morte em alguns países ocidentais, aos quais não vamos apontar o dedo? Prisões secretas e torturas, problemas com os média em alguns países, legislação da imigração em alguns países?...” – cita o Vremia Novostei as perguntas deixadas no ar pelo Presidente Putin.

O jornal de negócios Vedomosti concentra a sua atenção no problema da “carne polaca”, dando destaque às palavras de Putin que “não proporá a Merkel comer carne estraga”.

O diário oficial do Governo russo, Rossiskaia Gazeta, considera que “Vladimir Putin recebeu o apoio do primeiro-ministro português”.

“Não há nada de pior do que quando um país tenta dar lições a outro. É preciso evitar isso. Devemos falar um com os outros de forma honesta e aberta, e não dar lições de moral uns aos outros. Quando falamos de democracia e direitos humanos, não há sociedade que seja perfeita nesse sentido” – declarações de José Sócrates publicadas no Rossiskaia Gazeta.

O diário Gazeta preferiu concentrar a sua notícia nos contactos económicos bilaterais, frisando que “a troca de mercadorias entre os dois países atingiu 1,5 mil milhões de dólares, foi conseguido o acordo sobre a pagamento das dívidas soviéticas, foi aberta uma linha de crédito de 200 milhões de euros, bem como se prepara a criação em Portugal de um centro de assistência e venda de meios aéreos russos”.

“O primeiro-ministro português trouxe consigo um certo joging” – titula o diário Kommersant, dedicando uma longa reportagem à corrida matinal de José Sócrates na Praça Vermelha.

“Ontem o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, encontrou-se com o primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates, chegou a acordo com ele sobre o pagamento da dívida extrena soviética a Portugal e declarou que para a Rússia e a UE chegou a hora de serem parceiros e de assinarem finalmente o respectivo acordo. O correspondente do Kommersant, Andrei Kolesnikov, considera que a boa disposição nunca vista do primeiro-ministro português se deveu, até certo ponto, ao joging matinal triunfal pela Praça Vermelha” – escreve um dos diários de referência de Moscovo.

“Ontem, às oito da manhã, a Praça Vermelha estava virginalmente limpa (vazia), se assim se pode dizer de parelelos que já muito sofreram. Ou seja, ela estava fechada” – começa a reportagem.

Andrei Kolesnikov conversou com os jornalistas portugueses que não acreditavam no que estavam a ver e lhe perguntaram se a praça estava realmente “limpa” devido à corrida matinal de Sócrates.

“Senti uma satisfação sincera ao confirmar esse facto, pois vi que prazer lhes dava cada palavra que eu pronunciava”- escreve o repórter.

“De súbito, na Praça Vermelha entraram a correr várias pessoas calçando sapatilhas, vestindo t-shirts e calções, tingidos com as cores da bandeira nacional de Portugal... Era a guarda do primeiro-ministro José Sócrates... É de assinalar que essas pessoas, se eu compreendi bem, com os seus próprios corpos iriam defender o corpo protegido, porque não tinham mais nada, nada estranho estava pendurado por debaixo das t-shirts ou calções” – continua Kolesnikov.

“No centro corre um homem magro, que nos sauda amavelmente com o braço. Era José Sócrates. Os seus acompanhantes – eram cerca de dez – não acenavam com a mão. Eles corriam. Pelos seus rostos escorregavam gotas de suor. Mas só um homem sentia prazer no que estava a acontecer” – acrescenta o jornalista.

Kolesnikov, ao mesmo tempo, conversava com os seus colegas portugueses: “se alguém corresse com o Putin, talvez já não voltasse – disse um jornalista português que pretendia conhecer as realidades políticas russas”.

“É tudo? – perguntei eu aos jornalistas portugueses. – Eu pensava que ele viesse ao menos um minutinho falar connosco” – escreve o desiludido repórter russo.

“A corrida matinal teve influência favorável nas conversações de Vladimir Putin e José Sócrates. Conversaram sozinhos duas horas e meia. Essa conversa continuou também na conferência de imprensa. Por um lado, os temas discutidos não eram, suavemente falando, novos... mas, por outro lado, tanto o Presidente da Rússia, como o primeiro-ministro português conseguiram trazer algumas alegrias aos jornalistas” – constata Kolesnikov.
O resto da longa reportagem do Kommersant é dedicada às conversações no Kremlin, salientando as conversas e as decisões já sublinhadas acima noutros órgãos russos de informação.

2 comentários:

António disse...

Curiosa a tese de Putin sobre a ilegitimidade das "lições de moral" das democracias ocidentais. Por analogia, será que se eu descobrir que o meu vizinho é traficante de droga ganho automaticamente legitimidade moral para o imitar?

Era engraçado saber o que pensam as famílias de Paul Klebnikov e de Anna Politkovskaya sobre esta teoria. E, qualquer dia, do José Milhazes, se este não se puser a pau. Na Rússia, ser uma voz discordante é considerado um grave problema de saúde, muito mais perigoso do que fumar dois maços por dia.

Mais engraçado ainda é ver como José Sócrates, com uma estratégia tola de conciliador de casal desavençado, deu de bandeja a Putin mais uma oportunidade de exercer o que melhor sabe fazer: dividir para reinar.

António Campos

antonio gonçalo disse...

Também curiosa a aplicação interpretativa dada pelo comentário anterior.
E comovente a preocupação manifestada pelo bem estar do jornalista português.
Parece detectar-se um toque de "antirussianismo" primário, como é habitual em comunistas saudosistas dos goulags e avessos ao lento e cauteloso nascimento de uma democracia.
Quanto a Sócrates, procedeu como seria de esperar num Chefe de Governo educado e consciente das suas funções. Sem mendicidade e sem arrogância, apenas naturalmente político como é seu dever e função.