domingo, junho 17, 2007

Os "Velho" na Rússia


"José Pedro Celestino Velho, mercador do Porto, foi vender o mundialmente conhecido néctar de uva português no mercado russo. Quando, finalmente, Lisboa e São Petersburgo estabeleceram relações diplomáticas em 1778, o número de portugueses que viviam em várias cidades do Império Russo já era significativo. A Corte Portuguesa precisava de quadros competentes e, por isso, a Rainha D. Maria I nomeou-o cônsul em São Petersburgo. Mas José Velho, insatisfeito com a inactividade das autoridades portuguesas, passou a servir a Corte da Rússia, fazendo uma brilhante carreira, continuada por filhos e netos que chegaram a lugares de destaque na hierarquia do poder russo.

A nomeação de Velho como "Consul Geral da Nação Portugueza nos Dominios do dito Imperio, Cidade de S. Petersburgo, e mais Portos Maritimos dos referidos Estados" foi feita em 25 de Abril de 1781, tinha ele 26 anos, afirma o cientista português Rómulo de Carvalho na sua obra "Relações entre Portugal e a Rússia no séc. XVIII". Ele só chegou à Rússia em Dezembro desse ano. Além de cônsul, Celestino Velho era também um dos quatro administradores da Casa Portuguesa de Comércio em S. Petersburgo, criada em 1781 pela administração da Companhia do Alto Douro para incentivar as trocas comerciais.

Ao fim de 12 anos, por volta de 1793, o mercador e diplomata abandonou o serviço da Coroa Portuguesa para se dedicar aos seus próprios negócios. A julgar pelos documentos conhecidos, a razão desse passo deve-se, provavelmente, ao facto de não ter sido nomeado "ministro plenipotenciário de Portugal na Rússia" - ou então de ver que o seu país perdia oportunidades únicas de incentivar as exportações para o Império Russo. Rómulo de Carvalho remata assim a sua investigação: "Não sabemos até quando Celestino Velho viveu na Rússia, nem se lá acabou os seus dias". Mas sabe-se que morreu em 1802 e casou com Sophie Severin (1770-1839), filha de um comerciante francês que, tal como ele, se estabeleceu definitivamente em território russo.

Os arquivos e bibliotecas russas guardam numerosos testemunhos de que José Pedro Celestino Velho teve uma brilhante carreira na Corte de São Petersburgo. Ainda ao serviço de Portugal, aprendeu o russo, algo pouco frequente entre os numerosos estrangeiros que viviam na Rússia, pois o francês era, na prática, a língua oficial entre a nobreza. A par disso, o português conseguiu boas relações nas mais altas esferas do poder russo. Ele próprio o sublinhou em carta dirigida ao secretário de Estado Martinho de Melo e Castro: "por felicidade e fortuna minha particular estou bem conceituado nesta Corte, e com os Ministros e Secretários de estado, conhecendo muito bem não só esta Capital como o interior deste Império".

Tudo isto lhe permitiu chegar ao cargo de banqueiro de Pavel I (1754-1801), Imperador da Rússia, e desempenhado essas funções com êxito. Em 14 de Junho de 1800, o imperador assinou um decreto que fez entrar Velho na nobreza russa: "... manifestando a benevolência monárquica de Sua Realeza Imperial para com o serviço e afinco de Velho, Sua Alteza concede a ele e aos seus filhos que nascerem depois, bem como aos seus descendentes, a dignidade de barão do Império Russo", com direito a escudo, pormenorizadamente descrito no "Livro de Linhagens da Rússia". O novo barão russo construiu uma das suas residências em Tsarskoe Selo (Vila Real), nos arredores de São Petersburgo que, tal como Sintra em Portugal, foi escolhida pelo czar e pela nobreza para fixar as residências de Verão. A nova casa transformou-se rapidamente em lugar de encontros frequentes da nobreza e da intelectualidade. Terá acontecido lá, por exemplo, o primeiro encontro do czar Alexandre I (1777-1825) com o poeta Alexandre Puschkin (1799-1837).

Entre 1811 e 1817, Puschkin, na altura aluno do Liceu de Tsarskoe Selo, uma escola média para os filhos da nobreza russa, era um visitante frequente dos Velho e de outra família influente, os Tepper, que não eram apenas vizinhos mas tinham laços de parentesco: Guilherme Tepper de Ferguson, compositor e professor de música no liceu local, estava casado com Janette Severin, irmã da mulher de Velho. As visitas de Puschkin pareciam também dever-se ao facto de o maior dos poetas russos, como outros estudantes, ser atraído pela beleza das duas filhas de José Celestino: Sofia e Josefina. Puschkin dedicou mesmo a Sofia o poema "Para o Palácio de Babolovski", lugar de encontros românticos entre ela e o czar Alexandre I; o poeta é incapaz de esconder os seus ciúmes. A ligação amorosa parece explicar a protecção que Alexandre I irá conceder, mais tarde, ao irmão de Sofia, Ossip (José) Velho.

Terá sido através dos Velho que Puschkin entrou em contacto com a cultura portuguesa. Em 1814, no primeiro poema que publicou, "Ao amigo poeta", Puschkin recorda o destino triste e abandonado de grandes literatos, nomeadamente do grande Luís de Camões: "Todos elogiam os poetas,/ mas apenas as revistas os mantêm; / A roda da fortuna passa ao lado deles; / Rousseau nasceu e morreu nu; / Camões partilhou o leito com miseráveis; / Kostrov morreu esquecido num sótão; / Foi enterrado por outros; /A vida deles é um rosário de tristezas,/A glória não passou de um sonho". E em 1825 traduziu para russo o poema "Recordações", de Tomás António de Gonzaga (1744-1807), dando-lhe o título "Tradução do Português".

A admirada Sofia Velho acabou por casar com o nobre Alexandre Rebinder, que fez serviço militar com Ossip Velho e chegou ao cargo de general-major da cavalaria. Quanto a Josefina, representada num dos numerosos desenhos de juventude de Puschkin, o seu destino foi trágico. Ela vivia com os tios, que não tinham filhos. Guilherme Tepper, depois de receber uma pequena herança da sogra, decidiu tratar-se no estrangeiro, sendo acompanhado pela sobrinha e a esposa. Mas a viagem acabou da pior maneira. Em Paris, Josefina caiu de uma janela, morreu e foi sepultada na capital francesa; a mulher de Tepper acabaria por morrer, pouco depois, em Dresden, na Alemanha.

Do casamento de José Pedro Celestino Velho e de Sophia Severin, nasceram, além de Sofia e Josefina, três rapazes. Dois, Emmanuil e Karl, morreram em 1798 e 1801 com um e três anos de idade, respectivamente. Ossip Ossipovitch, o sobrevivente, nasceu em 1795 (morreria em 1867) e fez uma brilhante carreira militar iniciada aos 18 anos como cabo do Batalhão de Cavalaria da Guarda Imperial e protegido do imperador. Em 1821, Ossip foi enviado como correio diplomático a vários países da Europa, tendo passado por Portugal. Mas nos seus "Apontamentos", pouco revela da missão ou do que terá sentido ao visitar a terra onde o pai tinha nascido. Esta passagem por Portugal coincidiu com as convulsões políticas provocadas pelas ideias liberais na Península Ibérica: "Sua Alteza - escreveu Ossip - ordenou que eu fosse primeiramente enviado para Londres, porque a Petersburgo já chegara a notícia de que em Espanha rebentara uma revolta e aí já tinha sido proclamada a constituição. Quando parti de Varsóvia, encontrei o conde Valentin Stroganov, que trazia o correio de Madrid e me informou que também em Portugal a situação não estava calma".

Ao ouvir as notícias que Velho trazia da Península Ibérica, o czar Alexandre comentou: "Espero que, não obstante tudo o que aí viste, tenhas regressado com os mesmos sentimentos de fiel súbdito com que me habituei a ver-te". A resposta do jovem militar, a avaliar por acontecimentos posteriores foi sincera: "Senhor, Vós cobristes-me a mim e à minha família conta tanta misericórdia que os meus sentimentos de fiel súbdito e a minha infinda fidelidade por Vossa Alteza são imutáveis e não têm limites". Regressado à Rússia, Ossip Velho foi promovido a comandante de batalhão e, em 1825, a coronel, passando a comandar o 2º Esquadrão da Cavalaria da Guarda Imperial. Neste cargo, realizaria um dos feitos mais marcantes de toda a sua carreira.

Não obstante todos os esforços das autoridades russas para impedir a difusão das ideias liberais no império, estas iam ganhando terreno entre a nobreza. Os principais portadores do liberalismo foram os jovens oficiais russos que expulsaram as tropas de Napoleão da Rússia e entraram em Paris, em 1814. Eles descobriram uma Europa onde a servidão da gleba, que sobreviveu na Rússia até Fevereiro de 1861, já tinha passado à história, onde era impossível matar impunemente os camponeses servos, onde se respeitavam algumas das liberdades fundamentais do homem. Jovens militares e intelectuais como Pavel Pestel e Nikita Muraviov juntaram-se em sociedades secretas, em lojas maçónicas, e marcaram para 14 de Dezembro de 1825 o primeiro levantamento liberal na história da Rússia. Nesse dia, um dos dois filhos de Alexandre I, Constantino ou Nicolau, devia ser proclamado Imperador da Rússia por morte do pai. Os revoltosos tentaram aproveitar a oportunidade para levar Constantino ao trono, esperando que esse príncipe realizasse as ideias liberais por eles defendidas. Mas venceu Nicolau.

Ossip Velho manteve-se fiel à palavra dada ao Imperador Alexandre I e nesse dia 14 de Dezembro apoiou o seu filho Nicolau contra os revoltosos liberais. No único combate entre os conspiradores liberais e as tropas fiéis ao novo czar, que ocorreu na Praça do Senado, no centro de São Petersburgo, Ossip perdeu um dos braços. O embate, breve mas dramático, foi decisivo para o resultado da contenda. O próprio coronel Velho recordou o episódio: "Quando eu vi que os 4º e 5º esquadrões, que se encontravam nas proximidades do edifício do Ministério da Guerra, passaram ao ataque, eu quis comandar também o meu e levantei a mão com o sabre, mas, nesse instante, uma bala atingiu o meu cotovelo e atravessou-o". Foi necessário fazer a amputação do braço direito acima do cotovelo. No dia imediatamente a seguir à fracassada revolta, Nicolau nomeou Ossip Velho "ajudante de Sua Alteza, o Imperador". O filho de José Celestino não abandonou a carreira militar. Pelo contrário, participou na guerra com a Turquia de 1828-29, já como major; em 1833 foi promovido a general; em 1846 foi nomeado comandante de Tsarkoe Selo; e em 1856 conheceu uma última promoção, a general de cavalaria, acompanhada com várias medalhas. Morreu com 73 anos e foi sepultado, como o pai e restante família (excepção feita a Josefina) no Cemitério Evangélico Smolenskoe, em São Petersburgo, a última morada dos súbditos cristãos dos czares russos que não se convertiam à Ortodoxia.

Ossip Velho casou-se, em 1827, com Ekaterina Ivanovna Albreht, filha de uma família russa de origem alemã. Do casamento nasceram Nikolai, Ivan Ossipovitch e Hermínia. Ivan Ossipovitch Velho (1830-1899) estudou numa das mais prestigiosas escolas russas: o Liceu Imperial de Alexandre em São Petersburgo e, aos 17 anos, terminados os estudos, foi trabalhar para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, passando pelas missões diplomáticas russas em Dresden (Saxónia) e Bruxelas (Bélgica).

Em 1861, ano das grandes reformas de Alexandre II na Rússia, quando este imperador, entre outras coisas, liquidou, nomeadamente, a servidão da gleba, Ivan Velho regressou a São Petersburgo e foi transferido para o Ministério do Interior, onde ocupou sucessivamente os cargos de vice-governador da Província de Kherson (1861), governador civil da Província da Bessarábia (1862-1863), governador da cidade de Odessa (1863-65) e governador da Província de Simbirsk (1865-66). Entre 1866 e 1868, Ivan Velho foi director do Departamento da Polícia do Ministério do Interior da Rússia, passando a controlar a imprensa e ficando conhecido por ser um censor demasiadamente rigoroso. Inspirou até uns versos a Alexandre Konstantinovitch Tolstoi, conhecido poeta e escritor do séc. XIX: "Eu escreveria / a minha última palavra, / mas tenho medo do castigo, / temo o senhor Veillot".

Zelo censório e policial à parte (ele foi ainda director do Departamento da Polícia do Ministério do Interior, encarregado de combater a oposição política), Ivan Velho ficará na história pelo seu trabalho à frente do Departamento Postal, entre 1868 e 1880 - foi ele que organizou a entrega diária do correio em todo o imenso território do Império e criou a rede de correios na Ásia Central e na Sibéria Oriental.

Quanto aos irmãos de Ivan, Nikolai chegou a ocupar o cargo de chefe da polícia na cidade de Petergofski, nos arredores de São Petersburgo, e Hermínia casou-se com o oficial russo Ivan Lichin. Foi ela também que traduziu do francês para o russo e publicou as notas do seu pai".

7 comentários:

disse...

Antes de mais parabéns pelo blog!
Continue com o bom trabalho!
Convido-o agora a visitar:

http://aguia-de-ouro.blogspot.com/

Futebol e política num só!
Já agora se quiser adicionar à sua barra de links laterais esteja à vontade para o fazer!
Obrigado!

Ze_Porvinho disse...

Será caso para se escrever: Velhos são os trapos!!!!

E, uma vez mais, o néctar de uva português, como muito bem o define, a dar o impulso inicial para uma história de sucesso nacional.

Queira fazer o favor de continuar a escrever da forma brilhante como o tem feito, pois é a contar pequenas "estórias" que melhor percebemos a História!

Abraço vínico,

Hic Hic Hurra

Joshua disse...

Foi a melhor das surpresas ter encontrado hoje o blogue Da Rússia. Vai preencher de conhecimento o que é lacuna natural no mais extremo ocidentalismo português. Tendo tido por muitas vezes jovens alunos russos, é bem saber que existe um espaço rico para onde os remeter futuramente.

Sem falar do interesse que eu próprio nutro há muito tempo por matérias eslavas. Também!

007 disse...

Muito bem senhor Milhazes, isso contado dessa maneira até parece real. Só me fica uma duvida quem encomendou o artigo Sócrates ou Putin. Esclareça-me se faz favor.

007 disse...

grande imaginação senhor Milhazes isto contado desta maneira até parece real!!!?

Jose Milhazes disse...

Caro agente, desculpe, queria dizer, leitor 007, não esperava essa pergunta de si. Deve saber melhor do que eu quem me encomenda essas coisas.E, claro, quem e quanto me paga.
Se não sabe, deve mudar o seu pseudónimo e, então, respondo-lhe às perguntas. Um abraço.

Jose Milhazes disse...

Caro 007, esqueci-me de lhe dizer que se encontrar alguém que me queira pagar, diga-me, eu comunicar-lhe-ei o número da minha conta bancária, em Portugal ou no estrangeiro. Garanto-lhe uma comissão.