segunda-feira, agosto 27, 2007

Kremlin acusa Berezovski do assassinato de jornalista russa


Iúri Tchaika, Procurador-Geral da Rússia, sem citar nomes, declarou que os mandantes do assassinato de Anna Politkovskaia se encontram fora da Rússia, dando claramente a entender que tem em vista o oligarca Boris Berezovski, que encontrou refúgio em Londres, mas os jornalistas do "Novaya Gazeta", semanário onde trabalhava Politkovskaia, receberam com cepticismo estas declarações:
“Claro que falar da descoberta do assassinato de Politkovskaia é precipitado. Nem todos os participantes nele foram detidos e é ainda preciso provar a culpa dos detidos” – lê-se num comunicado publicado pela redacção do “Novaya Gazeta”, jornal onde trabalhou Anna Politkovskaia.
“Quem foi detido?” – pergunta o jornal e responde: “Primeiro, trata-se de vários representantes de um grupo criminoso étnico numeroso e conhecido, especializado em crimes por encomendas. Segundo, agentes das forças da ordem e serviços secretos que aceitavam “encomendas” para acompanhar “operativamente” os assassinatos, cometiam outros crimes e tinham o seu próprio negócio: extorsão”.
Os jornalistas do “Novaya Gazeta” afirmam ter uma lista de crimes cometidos por esses grupos criminosos e saber “como foram distribuídos os papéis na preparação e execução do assassinato de Anna Politkovskaia”.
Porém, no comunicado publicado, a redacção do “Novaya Gazeta” escreve que “ainda é cedo para se falar do mandante: é grande o perigo de operações especiais políticas pré-eleitorais em torno do assassinato de Politkovskaia. Não temos garantia de que coincida o apelido dos reais mandantes e o apelido dos que, no fim de contas, aparecerão na acusação”.
Desta forma, a redacção do “Novaya Gazeta” respondeu às declarações de Iúri Tchaika, Procurador-Geral da Rússia, que declarou que “por detrás do assassinato de Anna Politkovskaia está o dirigente de um grupo criminoso organizado, originário da Tchetchénia, que se dedicava, entre outros crimes, “a assassinatos por encomenda””, que “por detrás do assassinato de Politkovskaia só podem estar pessoas que se encontram fora das fronteiras da Rússia” e que “este crime é vantajoso para aqueles que querem regressar ao anterior sistema de direcção, quando tudo era decidido por dinheiro e pelos oligarcas, querem uma crise constitucional”.
Não obstante o Procurador não ter citado nomes na conferência que deu em Moscovo, os analistas em Moscovo não duvidam que Boris Berezovski, oligarca russo refugiado em Londres, é o principal alvo da acusação da justiça russa.
Interrogado pelos jornalistas se a Rússia conseguirá a extradição de Berezovski, Tchaika respondeu: “Esperamos conseguir alterar a posição da Grã-Bretanha e conseguir a entrega de Berezovski. Contra ele há também um processo-crime no Brasil e, nos tempos mais próximos, poderá ser analisada a questão da sua extradição para o Brasil”.
“Não excluo que a ordem tenha sido dada a partir do estrangeiro. Não por Berezovski sozinho, há muitos descontentes” – comentou Guennadi Gudkov, deputado russo e oficial dos serviços secretos na reserva.
A partir de Londres, Berezovski afirma-se inocente. “Não fiquei surpreendido com essas novas acusações contra mim. Isso ficou claro no segundo dia depois do assassinato de Politkovskaia, quando Putin deu uma entrevista na Alemanha. Ele disse que nós sabemos que o rasto conduz ao estrangeiro” – declarou Berezovski, e concluiu: “Como se pode ficar surpreendido com a declaração do Procurador-Geral se, ao terceiro dia, Putin lhe disse em que direcção procurar? E ele procura”.
Anna Politkovskaia, assassinada a 06 de Outubro de 2007, publicou no “Novaya Gazeta” mais de 500 artigos. “Qualquer um deles poderia ter sido pretexto ou causa” – lê-se no comunicado publicado pela redacção do jornal.

4 comentários:

Margarida Balseiro Lopes disse...

Caro José Milhazes:

Tenho apenas 17 anos, mas já há alguns anos que sigo atentamente o seu trabalho jornalístico. Mais apreço e consideração me granjeou depois de ter lido o livro "Foi Assim" de Zita Seabra. Um bem-haja pelo seu trabalho notável!

Marx disse...

A actualidade russa cada vez mais se assemelha à vida "cívica" da Sicília do início do século XX...

J disse...

É impressão minha, ou "grupo criminoso étnico" significa, para as autoridades russas, "caucasiano" ou "checheno"?

Jose Milhazes disse...

Caro leitor J, neste caso concreto, "tchetcheno".