sábado, novembro 10, 2007

As meias-verdades sobre Mikhail Gorbatchov


Claro que Mikhail Gorbatchov, primeiro e último Presidente da União Soviética, não precisa da minha defesa para se proteger dos ataques dos seus antigos camaradas. Quer queiramos, quer não, ele foi um dos maiores políticos do séc. XX, o que faz com que alguns dos seus mais acérrimos críticos, ou mais precisamente, caluniadores, não passem de pigmeus.
Gostaria de vê-los criticá-lo quando ele era Secretário-Geral do Partido Comunista da União Soviética. Não, nessa altura, iam de cabeça baixa e mão estendia pedir dólares americanos para a revolução.
Esta semana, o semanário “Avante”, órgão do Partido Comunista Português, publica uma entrevista de Jean Salem, professor da Universidade Sourbone e autor do livro “Lénine e a Revolução”, onde o académico francês afirma: “Ao contrário de muitos comunistas que conheci – autênticos heróis que passaram pelas prisões, resistiram à tortura e que quando chegaram ao fim das suas vidas a única coisa que tinham ganho para si era a estima dos seus vizinhos, comunistas e não comunistas - Mikhail Gorbatchov terminou a sua carreira a fazer publicidade de pizas e malas de marca.”
Aqui vai mais “lenha” para queimar “o agente da CIA que destruiu a URSS”: Mikhail Gorbatchov vai jantar hoje na sua casa da capital russa com um casal norte-americano, que se dispôs a pagar 160 mil dólares por essa honra.
Este jantar com a família de Mikhail Gorbatchov foi um dos lotes do leilão, realizado em Londres no passado dia 02 de Junho.
Segundo o antigo dirigente soviético, citado pela agência Interfax, a ementa será tipicamente russa: borch (sopa de beterraba), vareniki (espécie de ravioli com doce de fruta), repolho com arenque salgado, não faltando também “um ou dois cálices de vodka”.
Outro dos lotes do leilão era uma noite numa das celas da prisão preventiva Lefortovo, do Serviço Federal de Segurança da Rússia. Segundo o deputado russo Alexandre Lebedev, o preço inicial desse lote era de 50 mil dólares, mas não revelou se foi adquirido por alguém.
Foram também vendidos lotes como voos em caças militares e outros passatempos radicais.
Porém, os detractores de Mikhail Gorbatchov “esquecem-se” de dizer para onde vão os milhares de euros e dólares que ele ganha.
O citado leilão foi organizado pela Fundação Internacional Raísa Gorbatchova (falecida esposa do iniciador das reformas democráticas na URSS) e rendeu cerca de quatro milhões de dólares, que serão empregues na prestação de assistência médica a crianças com cancro em dois centros de oncologia em Moscovo e São Petersburgo.
Raísa Gorbatchov foi vítima de leucemia e o seu marido tem feito grandes esforços a fim de conseguir meios para ajudar crianças enfermas.
Críticos de Gorbatchov! Quando dizem “a”, não se esqueçam de dizer “b”! Não fica bem dizer apenas meias-verdades, que, no fim de contas, são mentiras.
Tive a honra de conhecer e trabalhar com Mikhail Gorbatchov há alguns anos atrás, quando ele esteve em Lisboa no 10º aniversário do jornal Público, e posso dizer que esse contacto alterou a minha posição face a esse político. Pode ser criticado pelos erros que cometeu, e não foram poucos, mas trata-se de uma pessoa simples, muito humana, sem as manias que têm alguns políticos muito menos significativos do que ele.

18 comentários:

Manuel Cunha disse...

Mikhail Gorbatchov foi um político importante na medida em que ajudou o processo do capitalismo. Por isso lhe prestam tantas honras. O capitalismo não é só a Europa e os USA é acima de tudo os 80% da população mundial que vive em capitalismo na maior miséria. Na Europa somos além de vítimas também elos duma máquina tenebrosa capitalista que desde há vários séculos massacra milhões; desde o colonialismo à escravatura, as guerras de rapina, I e II guerra etc. Este texto não pode referir todo o passado e presente do tenebroso capitalismo. O processo da URSS de mudança deveria ter encontrado um caminho alternativo e construtor duma nova sociedade. M Gorbatchov não foi arquitecto dessa solução por isso não é um grande estadista. Fez o que qualquer um poderia fazer, não estar à altura de ser dirigente daquele periodo importante, sem duvida, mas de retrocesso.
Manuel Cunha

Jose Milhazes disse...

Caro leitor, Mikhail Gorbatchov sempre foi um crítico do capitalismo, defendendo posições sociais-democratas. Não compreendo como é que ele ajudou o processo do capitalismo.
Quando o leitor diz que Gorbatchov "deveria ter encontrado um caminho alternativo e construtor duma nova sociedade", pergunto: "qual?"
Gorbatchov recebeu a URSS com graves problemas sociais, económicos e nacionais. Quando permitiu o abrandamento da censura, começou a ser revelada a verdadeira situação no país. Apenas um número: o complexo militar-industrial soviético consumia mais de 50% do PIB.
Além dos problemas citados, é de recordar que, quando Gorbatchov chegou ao poder, os preços do petróleo nos mercados internacionais eram muito baixos, ou seja, falhou uma das principais fontes de abastecimento do PIB.
Neste situação, Gorbatchov não tinha meios e tempo para realizar as reformas internas por ele propostas. Havia outra via, a chinesa, tentada impor a 19 de Agosto de 1991 por golpistas comunistas. Se tivessem vencido, mergulhavam o país num banho de sangue.
Claro que Gorbatchov cometeu erros. Por exemplo, não conseguiu muitas vezes reagir operativamente aos novos desafios, vacilava entre conservadores e reformadores, etc.
No campo internacional, o dirigente soviético nem sempre soube defender os interesses do seu país. Por exemplo, acreditou nas palavras do chanceler alemão de que a dissolução do Tratado de Varsóvia não seria acompanhada do alargamento da NATO ao Leste da Europa.
Por essas e outras razões (desanuviamento, abertura da URSS ao mundo,erc.) Gorbatchov goza de maiores simpatias no estrangeiro do que no seu país.
Por isso, caro leitor, que mais alternativas existiam?

antonio disse...
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antonio disse...

Em 19 de Maio de 1991, 76,4% dos soviéticos pronunciaram pela continuação da sua URSS.
Sete meses depois, em 25 de Dezembro, Gorbatchov anuncia o fim da União Sovética, dando origem a uma acelaração sem precedentes na recuperação capitalista a nível mundial.
Hoje os cidadãos da ex-URSS têm muito piores condições de vida e os do resto do Mundo passam por uma instabilidade social, que queiramos quer não, temos de associar ao fim da URSS.
José Milhazes cita, indignado, Jean Salem àcerca das suas declarações ao «Avante» sobre Gorbatchov. É pena que também não faça referência a outras partes da longa e interessante entrevista, nomeadamente a parte onde ele afirma que «os jornais falam de um sentimento de nostalgia pela ordem antiga na RDA que parece aumentar cada vez mais. Ninguém duvida de que, se se realizasse um referendo na Rússia, as pessoas responderiam que estavam melhor antes do que agora.»
E parece que nem a propósito o jornal alemão Der Spiegel apresenta o resultado de um referendo onde mostra que a esmagadora maioria dos dos alemães da parte oriental preferiam a RDA.
Passo a transcrever do «Vermelho», «11 DE NOVEMBRO DE 2007 - 05h27
92% dos alemães orientais preferem o comunismo no país
Para marcar a data da queda do Muro de Berlim, o Der Spiegel fez uma pesquisa, divulgada neste sábado (10), com mil alemães que cresceram nos dois lados do país dividido até 9 de novembro de 1989. A conclusão, para desespero do semanário alemão, é que, mesmo depois de 18 anos da queda do muro, 92% dos germânicos orientais, de 35 a 50 anos, ainda preferem o regime comunista ao capitalista. Já 60% dos jovens, de 14 a 24 anos que moram no Leste, lamentam que nada tenha restado do comunismo na sua pátria.
Por Carla Santos»
PS: Estamos a falar de alemães, o supra-sumo do capitalismo…, não esquecer.
Num artigo anterior, José Milhazes cita 4 ou 5 países do Norte da Europa, entre os quais a Dinamarca, como sendo países capitalista onde o povo vive em felicidade.
Má opção: cito outra vez Jean Salem, que afirma: « Lenine recorda-nos que em países capitalistas desenvolvidos é muito possível que haja todas as aparências da democracia do ponto de vista da liberdade de imprensa, da liberdade de expressão, e evidentemente do ponto de vista económico. É muito possível que nestes países a classe operária possa recolher algumas migalhas da pilhagem das nações colonizadas e que a atmosfera social seja inteiramente agradável.»
Eu digo: é possível, mas não é bem assim: Em 2 de Outubro passado 100 mil pessoas manifestaram-se na Dinamarca contra a precarização das condiçõs sociais“ e, já é a terceira manifestação desta envergadura no prazo de pouco mais de um ano. E estamos a falar do berço da famosa «flexisegurança».
Pergunto: alguém viu nalguma TV, em algum jornal de referência alguma peça sobre o assunto?
E os 200 mil que se manifestaram na EXPO aquando da cimeira da UE em Lisboa… 1300 jornalistas não os conseguiram ver…
Algo vai mal no «Reino da Dinamarca».
Um abraço para todos, no fim desta bela tarde de São Martinho.
António Lopes

Jose Milhazes disse...

Caro António, não deturpe os factos históricos. Gorbatchov anunciou o fim da União Soviética, mas não foi ele que a destruiu. Pelo contrário, lutou por ela até ao fim.
A queda da URSS foi precipitada pelo golpe comunista reaccionário de Agosto de 1991, e não por Gorbatchov.
Depois, ele deixou de ter poder para fazer o que quer que fosse.
Quanto à entrevista de Jean Salem, lia-a com atenção e discordo com a maior parte das ideias.
Se os habitantes da ex-RDA têm saudades do antigo regime, votem no Partido Comunista ou Socialista Alemão, vençam as eleições e voltem a viver como antigamente. Ou será que vai dizer que na Alemanha as eleições são viciadas.
Quanto à seguinte citação, deixando desde já claro que não defendo o capitalismo selvagem e desumano, mas uma sociedade democrática, justa, « Lenine recorda-nos que em países capitalistas desenvolvidos é muito possível que haja todas as aparências da democracia do ponto de vista da liberdade de imprensa, da liberdade de expressão, e evidentemente do ponto de vista económico. É muito possível que nestes países a classe operária possa recolher algumas migalhas da pilhagem das nações colonizadas e que a atmosfera social seja inteiramente agradável.», quero dizer que se nos países citadas "há aparências", nos ditos "países socialistas, nem se preocupavam com as aparências. Acha que os dirigentes chineses e norte-coreanos se preocupam com insignificâncias como aparências?
Quanto ao nível de vida na antiga URSS e nos actuais países que dela saíram, é verdade que muitas pessoas tenham perdido, mas quero chamar a atenção para o facto de o nível de vida melhorar rapidamente naqueles que aderiram aos ideais democráticos: Letónia, Lituânia e Estónia.
Caro António, se você tivesse vivido num país comunista, saberia dar mais valor à forma como vivem os portugueses, embora ela esteja muito longe do ideal.

antonieta disse...

Não há pior cego do que aquele que não quer ver. Esta chamada 'sabedoria' popular que, precisamente por ser popular deve agradar muito ao António Lopes, faz bem o respectivo retrato.
Um grande amigo meu que viveu e conviveu, em Angola, com cubanos e soviéticos,vendo a extrema pobreza dos primeiros e a arrogância, o racismo e a total ausência de respeito pelos outros, dos segundos, costuma dizer: "é muito confortável ser comunista em países democráticos". Abra os olhos, meu amigo! Leia as fontes com os seus próprios óculos e não com os que lhe forem impingidos.A ignorância a ninguém aproveita.

antonio disse...

Antonieta
Tenho por princípio não aceitar nada como verdade adquirida, venha ela de onde vier.
Se tem alguma coisa a dizer sobre aquilo que escrevo, esteja à vontade para contestar.
Não me trate como «ceguinho» ignorante… porque naquilo que já lhe vi escrito ainda não encontrei uma ideia interessante… limitando-se a repetir chavões costumeiros.
Eu sei que há quem esteja com a barriga cheia, apesar da crise que atormenta, pelo menos, dois milhões de portugueses pobres.
António Lopes

antonieta disse...

Caro António,
Quando as opiniões dos outros são dissonantes das nossas, quase sempre as achamos desinteressantes. As suas, por exemplo, parecem-me ecos de um discurso enrugado de que não conseguiu ainda libertar-se. Eu também já acreditei em muitas das coisas em que o António acredita mas, quer o conhecimento de que me fui munindo, quer as evidências incontornáveis, me fizeram reverter posições. Não me envergonho daquilo em que acreditei, porque sempre acreditei com honestidade intelectual; a mesma que me levou a desacreditar. Não sou de opinião de que se possa apagar a História ou branquear o passado, por isso também jamais pretendi apagar a minha prória. Prefiro olhar-me - e às convicções que tenho - com todos os defeitos e virtudes inerentes. A coerência, para mim, é algo mais do que não mudar de ideias, porque isso é cristalizar. Foi neste sentido que lhe citei o tal ditado popular.
Só mais uma questão: no contexto desta nossa 'convesa', não consegui entender o teor do último parágrafo do seu comentário. É que, mau grado a pertinência da questão que nele é colocada, ela nada acrescenta para a luz do que estava a ser discutido.
Embora não nutra especial admiração pela figura em causa, não posso deixar den concordar que, para uma discussão procedente e frutífera, é sempre útil ser um pouco cartesiano, não misturando alhos com bugalhos.

António disse...

O problema dos ideólogos como Marx, Engels ou Lenin é que o seu conhecimento da natureza humana era extremamente limitado. Hoje deixamos essa tarefa aos biólogos sociais, tais como Richard Dawkins e Desmond Morris. É sempre louvável teorizar sobre sistemas sociais alternativos no sentido de criar sociedades mais justas, desde que se tenham em conta as motivações dos animais humanos e se arranje um sistema que tire partido das virtudes e defeitos dos destinatários. Em poucas palavras, ao contrário do que lenin achava, é impossível criar um “homo sovieticus” contra a sua vontade.

O idealismo bolchevique era absolutamente contra-natura. Os homens não passam sem bens próprios e terão mais motivação para produzir se souberem que estão a trabalhar em proveito próprio. Contra isso, só talvez uma lobotomia (que os bolcheviques tentaram realizar psicologicamente ao povo russo e não resultou). A comprovar a premissa acima estão o sucesso da NEP que, após a revolução e a guerra civil, elevou a produtividade da Rússia a níveis anteriores à guerra de 1914, e o desastre da colectivização forçada dos camponenes.

Por outro lado, é sabido que os bolcheviques no poder cedo enveredaram para uma sociedade elitista e dominada por corrupção, patrocínios e castigos. O ideal da “sociedade sem classes” descambou rapidamente para uma sociedade com uma elite dirigente privilegiada, com poderes absolutos de vida ou de morte sobre todos, e uma massa popular pobre e oprimida, ofuscada por propaganda oca. De resto, qualquer pessoa entendida em biologia social sabe que não seria de esperar outra coisa. A persecução de objectivos pessoais dessa elite resultou num sistema injusto que não melhorou, ao contrário do que muitos insistem em afirmar, numa sociedade mais justa.

A alternativa do “capitalismo”, com as suas virtudes e defeitos, está pelo menos alinhada com as motivações do ser humano em geral. Como dizia com muita razão a personagem fictícia Gordon Gekko, no filme “Wall Street”, “A ganância é boa”. Se a ganância individual for controlada por um estado que seja um mediador justo dos interesses sociais em conflito, levar-nos-á a descobrir novos medicamentos, novos alimentos, levar-nos-á à lua e a descobrir novos universos e, em última análise, criará uma vida melhor para a sociedade como um todo.

Claro que não é fácil...mas é a única forma de fazer com que a ambição individual, uma característica intrínseca e imutável dos seres humanos, gere benefícios para toda a gente. O capitalismo democrático é a política do possível.

António Campos

António disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
António disse...

Só mais uma pequena achega: o comentário do senhor António Lopes fez-me lembrar um livro interessante que li há já alguns anos, chamado "Como mentir com estatística", de Darrell Huff. Este dizia, a páginas tantas "a lnguagem da estatística, tão apelativa numa cultura orientada para os factos, é empregue para sensacionalizar, inflacionar, confundir e simplificar exageradamente".

Citar números sem contexto, já para não falar na credibilidade dos mesmos, representa um dos perigos para o qual Huff nos alertou. mais uma vez, o embate das instituições democráticas em sociedades destruídas e fragmentadas pela influência soviética é totalmente ofuscado por números sem qualquer contexto. Mas admito que a clarividência não é privilégio de mentes simples. Ou de quem pretende beneficiar de uma cultura das meias-verdades que o José Milhazes refere como tema deste post.

Por outro lado, é pena que o sucesso económico de nações que se libertaram recentemente da opressão "socialista", tais como os estados bálticos, a Polónia, a República Checa e a sua aversão pelo regresso ao passado não tenham sido usadas em contraposição, para que os leitores possam ter uma opinião mais informada.

Mas será esse mesmo o objectivo? Se o fosse, não eram precisas meias-verdades para nada.

António Campos

Francisco disse...

Caro Antonio,

1. Se em 19 de Maio de 1991, 76,4% dos soviéticos pronunciaram pela continuação da sua URSS foi pelo medo ao caos, caos que ainda lembravam da revolucao, guerra civil e II guerra mundial, e caos que ja eles presentiam ante agresivas reformas politicas e economicas.
2. Os noventa foram dramaticos em todos as republicas da antiga uniao sovietica, mas na grande maioria delas a situacao tem melhorado e a populacao vive melhor do que na epoca sovietica. Melhor materialmente e muito melhor em relacao as liberdades. Uma possivel reintegracao na uniao sovietica seria totalmente rejeitada em todas as republicas, e so existiram duvidas em paises feichados como a Bielorussia, ou corruptos e repressivos como o tadjiquistao e o uzbequistao.
3. Embora a vida da maioria dos russos nao seja optima, apenas os reformados sentem nostalgia da URSS, e nem todos. Eles foram os mais castigados pela mudanca. Agora existem oportunidades e espectativas para a populacao... e uma sociedade que tende a liberdade. Fale com os mais jovens.
4. Como diz a companhera, e muito facil ser comunista num pais democratico e desenvolvido economicamente. E bom criticar, mas a ideologia comunista ja nao aporta nenhuma alternativa credivel. Alem disso, nao e preciso manipular os factos historicos para criticar.
5. no caso alemao, existe um problema de integracao. Que perguntem a gente da alemanha occidental se concordam com a actitude dos seus vizinhos "ozzy's".
6. Possivelmente Gorbachev nao estava preparado para afrontar a dificuldade da situacao, mas acho que sempre foi honesto.
7. Nao acredito em frases como "o passado tenebroso do capitalismo", o capitalismo e um sistema de organizacao humana, e em todo caso somos nos, as pessoas, os responsaveis das nossas acoes.
8. Nao aceita ideias adquiridas mas organiza a sua cabeca com dogmas ideologicos que determinam o seu olhar a realidade.
obrigado

jal disse...

Caro José Milhazes,
Muito interessante esta discussão, quer na forma e no conteúdo.

Gostaria de ver esclarecido o seguinte:
«Mikhail Gorbatchov, primeiro e último Presidente da União Soviética»

Como certamente saberá, o Sr. Gorbatchov foi amplamente criticado quando SG do PCUS por isso não compreendo o seu desejo.

Só o facto de nos países que formavam a URSS ser necessário fazer-se leilões e outras coisas do género para financiar o sistema de saúde e o combate ao cancro já diz muito do papel do «grande estadista» que recebe o pessoal lá em casa para jantar.
O mesmo que contribuiu de forma crucial para a destruição da URSS e do sistema de saúde e de investigação médico-científica ai existente.

Outra questão que me parece interessante verificar nesta discussão é que existe uma espécie de sindromeZita: «eu acordei e vi a luz, vocês continuam cegos». Ou seja, quem não se encostou, quem não desistiu de transformar a sociedade, quem não se vendeu ao sistema que antes dizia combater, é ignorante, é cego, tem a famosa cassete, é limitado, só vê a realidade através de palas. Os outros, os modernos e cultos, os bem instalados no sistema, os yesman, esses têm de ser aplaudidos, são inteligentes e só eles conhecem a verdade.

Pois bem, eu rejeito essa verdade que nos obriga à passividade, ao comodismo, à inevitabilidade da opressão e exploração.

Por isso festejo a Revolução de Outubro, por isso combato o oportunismo daqueles que foram revolucionários quando era fácil falar em revolução, por isso considero que Gorbatchov foi um criminoso, uma personagem sinistra que esteve envolvida na destruição da pátria soviética, que colocou o país a saque, vendendo a retalho todo aquilo que resultou do esforço e do trabalho dos povos soviéticos, partilhou com uns quantos amigos a felicidade de destruir aquilo para que tinha sido eleito para defender.
Vale a pena reler a Perestroika e verificar quem tinha razão e onde ia levar o caminho proposto.

Por muitos aplausos, a história registará Gorbattchov não como um herói, mas como um traidor.

jal disse...

Pedindo desculpas, mas, certamente pelas minhas limitações intelectuais de comunista ultrapassado e fora de prazo, fiquei com outras 2 dúvidas:


«Mikhail Gorbatchov sempre foi um crítico do capitalismo, defendendo posições sociais-democratas.»
O que é um social-democrata? Defende o fim da propriedade privada? Tem por objectivo o fim da exploração e da opressão?
Um social-democrata defende a economia de mercado, o funcionamento do sistema capitalista com algumas atenuações das suas consequências sociais mais gravosas. Um social-democrata defende o capitalismo e a critica que lhe possa fazer é pura maquilhagem.
Já agora, o que fazia um social-democrata num partido comunista? Certamente, um equívoco.


«A queda da URSS foi precipitada pelo golpe comunista reaccionário de Agosto de 1991, e não por Gorbatchov.»
Esta é do melhor que já ouvi e corresponde à tentativa de branquear o papel dos que criminosamente destruiram a pátria soviética. Como se o objectivo, com ou sem tentativa de «golpe» não fosse esse.
E quem é que na verdade deu o golpe? terão sido esses «comunistas reaccionários» ou os «comunistas progressistas» e seus amigos que dividiram para reinar e hoje alguns contam com belas fortunas?

Jose Milhazes disse...

Caro leitor Jal, não tenha dúvidas de que Gorbatchov lutou até à última contra a desintegração da URSS. Você sabia que o actual dirigente comunista russo, Guennadi Ziuganov, que se afirma um grande defensor da URSS e Estaline, votou, em 1991, no Soviete Supremo da Rússia, pela independência desta?
Ou você acredita que aqueles cinco indivíduos que constituíram o Comité de Emergência em 19 de Agosto de 1991 foram manipulados pelas forças imperialistas ou pelos democratas?
Quanto ao fim da propriedade privada, da opressão e exploração, defendo que deve haver melhor repartição da riqueza, mais igualdade de direitos e oportunidades, mas não acredito em utopias devido à própria natureza humana.
As tentativas de realizar as ideias que defende deram o que deram, custaram milhões de vidas. Por isso, talvez seja mais sensata a evolução.
Caro leitor Jal, eu não li a perestroika, via-a dia após dia. Antes disso, vivi muitos anos na URSS e talvez por isso seja mais realista. Acredite, e volto a repetir, não obstante todos os problemas existentes em Portugal, você gostaria mais de ter nascido e vivido em Portugal do que na URSS.

Pedro Ruivo disse...

Caro José Milhazes,

Gostaria de saber o que pensa sobre o apoio que Gorbachov tem dado a Putin.

Cumprimentos,
Pedro Ruivo

Jose Milhazes disse...

Caro Pedro, tenho dificuldade em responder a essa pergunta. Se, por um lado, Gorbatchov declarou publicamente o seu apoio a Putin, ele, por outro lado, faz críticas ao regime existente na Rússia, mas sem citar o nome do Presidente. Além disso, o antigo dirigente soviético financia um dos jornais mais importantes da oposição, o Novaya Gazeta, onde trabalhava a jornalista Anna Politkovskaia, assassinada no ano passado.

antonieta disse...

Leitor Jal,
Pese embora o atraso, que ficou a dever-se a uma dificuldade minha de aceder ao envio deste comentário, não quero deixar de dizer-lhe algumas coisas.
Um dos maiores problemas das pessoas que, como o leitor, vêem o mundo a preto e branco, é o de se satisfazerem com apenas dois sacos ideológicos: um para os fascistas e outro para os comunistas, sendo que, no primeiro enfiam todas as pessoas que consideram de direita e no segundo todas as que classificam de esquerda. Note que eu ainda sou do tempo da ditadura, durante o qual também era apanágio da classe governante reconhecer, em cada opositor, um comunista. Também esses antigos governantes, de direita, dividiam as pessoas em dois lotes, tal como o leitor faz. Não me parece ser um bom exemplo a seguir, não acha?
Ora bem: sucede que nem todas as pessoas de direita são fascistas, nem todas as de esquerda são comunistas e, para ser de esquerda, ser comunista não é, seguramente condição necessária e muito menos suficiente, como os dados empíricos já nos mostraram. Insistir nesta posição maniqueísta é comprometer irremediavelmente o diálogo e o alcance do objectivo que nos propomos de encontrar uma sociedade mais justa.
Uma das particularidades que melhor caracteriza o comunismo é a aposta no aniquilamento do indivíduo, em nome do todo, do colectivo. Sucede, meu caro, que as pessoas são todas diferentes: têm afectos, crenças, convicções, desejos e ambições muito diversificados, o que torna impraticável uma convergência integral de interesses e de perspectivas e inevitável um enorme descontentamento, se não infelicidade, de cada um dos indivíduos. Ora, como é fácil perceber, um colectivo feito à custa de indivíduos infelizes e descontentes será sempre um mau colectivo. É, principalmente, por esta razão que eu continuo a preferir viver nesta democracia, por muitos defeitos que ela evidencie. Pelo menos, somos capazes de reconhecê-los e tentar corrigi-los.