terça-feira, novembro 27, 2007

O meu amigo Rachid Kaplanov partiu


Para a esmagadora maioria dos leitores deste blogue, o nome de Rachid Kaplanov pode não dizer nada, mas sei que era amigo muito grande de alguns.
Kaplanov faleceu hoje de manhã no Instituto de Cardiologia de Moscovo aos 58 anos de idade. Um ataque cardíaco ceifou-lhe a vida. Morreu com aquele sorriso nos lábios com que viveu, com que recebia e ajudava os amigos.
Foi das primeiras pessoas que conheci e com quem fiz amizade quando cheguei à União Soviética em 1977. Imaginam um soviético a falar correctamente português e com um conhecimento fundamental da nossa história!? Mas o melhor veio depois, Rachid, filho de pai muçulmano e mãe judia, falava 36 línguas estrangeiras, tinha uma bagagem intelectual única, mas não era invejoso, partilhava a sua sabedoria com todos. Além disso, na era comunista, não escondia as suas ideias liberais e democráticas, o que lhe trouxe grandes dissabores, por exemplo, não lhe era permitida a saída ao estrangeiro.
Mas nunca desanimava, acreditava, ao contrário de muitos, que o fim do comunismo na Rússia estava para breve. Quando a cortina de ferro caiu, desforrou-se a viajar, queria consultar arquivos, bibliotecas, conhecer os países que tinha estudado. A doença apanhou-o numa dessas viagens pela Ucrânia.
Não exagero se disser que Rachid Kaplanov era um dos intelectuais que na União Soviética e na Rússia mais fizeram pela divulgação da História e da Cultura Portuguesas. Era o maior conhecedor das relações entre Portugal e a Rússia, principalmente no que dizia respeito ao papel dos judeus nesse processo. Não existia especialista igual no estudo da vida e obra de Ribeiro Sanches, médico judeu português que trabalhou 27 anos na Corte russa.
Além disso, era um grande especialista em separatismos na Europa, dedicando grande parte da sua vida ao estudo dos chamados "pequenos povos". Um dia, perguntei-lhe porque é que ele se interessou pela língua mirandesa e ele respondeu: "Por solidariedade, para ser mais um a falar".
"E basco?" - perguntei-lhe noutra ocasião. "- Porque devem ser as únicas cartas que escrevo para o estrangeiro que não são controladas pelo KGB (polícia política soviética), pois eles não devem ter tradutor dessa língua".
Se consultarem a enciclopédia soviética "Povos do Mundo" ou outras obras de divulgação científica, poderão constatar que Rachid foi o autor de entradas sobre portugueses, bascos, brasileiros, etc.
Rachid era um cidadão do mundo. Em Moscovo, eu vivia num edifício onde residiam dezenas de pessoas das mais variadas nacionalidades, éramos tradutores. Quando nos juntavamos, ele falava em português com os portugueses, em italiano com os italianos, em dinamarquês com os dinamarqueses, em sérvio com sérvios, etc.
Tudo o que se pode dizer numa ocasião destas é pouco, quase nada...
Grande Rachid, ficam os teus textos, artigos, a tua memória... E para os teus amigos serás sempre o Príncipe.



P.S. Talvez esta não seja a melhor hora para escrever o que vou escrever, mas não posso deixar de o fazer. Um dos maiores desgostos de Rachid foi ter trabalhado, durante muitos anos, com um português na recolha de cartas e documentos de e sobre a vida e obra de Ribeiro Sanches e o português ter desaparecido depois de se apoderar do trabalho feito. Rachid esteve várias vezes em Portugal, tentou encontrar-se com ele, mas tudo em vão. Uns dias antes de morrer, durante uma das visitas que lhe fiz ao hospital, Rachid disse que não tinha perdido a esperança de que o português lhe telefonasse ainda para continuarem o trabalho. Eu disse-lhe que há muito tempo que ele deveria ter esquecido essa pessoa desonesta e indigna, mas ele sorriu e retorquiu: ainda não perdi a esperança. Por isso, se dentro de algum tempo, essa pessoa publicar alguma coisa, que não se esqueça pelo menos de citar o nome do mestre... E que não receie nada, porque o Rachid não lhe vai exigir direitos de autor, pelo menos neste mundo.

5 comentários:

Celso Cunha disse...

É. Nunca se espera a morte de um amigo porque ele nunca morre verdadeiramente. Conheci o Rachid, o nosso doce Princípe, há 29 anos, tal como te deves recordar, Milhazes. No meu caso foi num jantar no Restaurante Nacional, em frente à Praça Vermelha. Lembro-me de termos de dar algum dinheiro ao porteiro para poder entrar. Como sempre estava cheio mas havia como sempre muitas mesas vazias. Lembro-me da sua mãe, da sua avó. Lembro-me da sua honradez, lealdade, inteligência. Lembro-me dos nossos encontros, tanto na Rússia como, mais recentemente, em Portugal. Das conversas, da clareza e brilhantismo dos seus pensamentos.
Não me despeço de ti, porque nunca me esquecerei de ti, Rachid.
PS- No teu PS, Milhazes falas de qualquer coisa que causou dissabores ao Rachid. Se for o que eu penso, e posso estar enganado, não te preocupes. O que é que se pode esperar de quem, a troco de umas míseras benesses, era informador do KGB?

Jose Milhazes disse...

Caro Celso, o teu comentário voltou a trazer à memória os grandes momentos que passámos juntos, tanto na URSS, como em Portugal.Onde estava Rachid, estava sempre a boa disposição.
Quanto à personagem do meu PS., não estás enganado. É esse mesmo. Aquele personagem com um ar de "alto intelectual", superior a tudo e todos. Conseguiu enganar o Rachid, porque este acreditava que todos os homens neste mundo são bons.
Mas, não obstante tudo, ficam a memória, os artigos do Rachid.
Na internet, procurando com Rashid Kaplanov, encontrei dezenas de sítios sobre a sua participação em colóquios internacionais, mas não consegui descobrir nenhum texto.
Tenho publicações dele em russo, mas é preciso traduzir...
Um abraço, Celso. Obrigado pela mensagem.

Miguel Carvalho disse...

Também eu vive na Rússia, e continuo a nutrir um grande respeito pelo seu povo, e por muitos intelectuais. Não conheci o Rachid Kaplanov pessoalmente, embora fosse um intelectual sobejamente conhecido. Penso que não será esquecido. Mas, penso que tive a infelicidade de conhecer a personagem negra do "pseudo-intelectual" que o aldrabou. Não merecia sinceramente o tempo dispendido pelo Rachid

Worldinare disse...

Os meus sentimentos e homenagem a um cidadão do mundo. A sua capacidade intelectual foi uma ponte de ligação entre diferentes povos. São pessoas como ele que fazem falta para que os povos possam conviver em união. Um exemplo a seguir. Há concerteza muitos portugueses que não são conhecedores da sua própria história e cultura.

Jose Milhazes disse...

Comentário enviado por mail pelo nosso leitor Pedro Reis: "Aproveito, entretanto, para lhe dizer outra coisa até porque lhe queria voltar a escrever, como continuo sem conseguir publicar comentários no seu blogue, venho por email mostrar a minha satisfação pelo artigo sobre o seu amigo Rachid Kaplanov. Eu lembro-me de o ouvir e ver dando uma entrevista ao Carlos Fino, para um programa transmitido na RTP intitulado creio eu – 5 Dias em Moscovo. Eu tenho esse programa em VHS. Na altura também fiquei admirado como um Russo poderia falar tão bem português e sabia tanto sobre Portugal, mas longe estava de pensar que aquele entrevistado sabia falar 36 línguas, eu imagino a dimensão cultural do Rachid Kaplanov, pois consigo compara-lo com um amigo meu Moscovita, o qual também é a pessoa mais culta que conheço na face da terra. Na Rússia existe este tipo de pessoas com alguma abundância, relativa, é mais uma das riquezas do maior país do mundo. Este tipo de história, nomeadamente sobre pessoas, é aquele tipo de artigos que gosto de ler no seu blogue".