terça-feira, dezembro 11, 2007

Contributo para HIstória de Portugal


Continuação (5ª parte) da publicação do artigo "Estado Novo do Doutor Salazar", da autoria de Nikolai Skidenko, ideólogo da União Nacional Russa. A quarta parte foi publicada a 17/11/2007.
Ao mesmo tempo que absolutizava a nação, Salazar não separava dela tudo o que durante muitos séculos passou a fazer parte desse conceito. A nação é o principal elemento de um complexo variado de realidades históricas, cimentando num todo único conceitos como solo, país, tradição, religião, etc.
Por isso, a essência do pensamento de Salazar poderá catacterizar-se como nacional-patriotismo. Nisso consistia a causa da firmeza do regime, que soube juntar a ascensão romântica da nação na via das transformações decisivas com o firme apego às tradições.
Recusando completamente o séc. XIX maçónico, Salazar tentou construir um Estado novo com base na cultura popular do Portugal medieval, o que garantiu uma solidez interna ao regime, que nunca se separou do solo pátrio, habitual. Nisso consistiu uma das principais diferenças do “Estado novo” português em comparação com o Terceiro Reich, na ideologia do qual, por paradoxal que pareça, havia muito pouco lugar para os próprios alemães.
Tentando limpar ao máximo o conceito de nação, ver nela uma “coisa em si”, os dirigentes da Alemanha esqueceram-se dos alemães e recuaram a uma comunidade rácica pré-histórica de pessoas brancas, os ideiais nacionais foram substituídos por rácicos, o nacionalismo transformou-se numa espécie de cosmopolitismo ariano. Na história medieval da Alemanha, a atenção fundamental era centrada na cavalaria, que, também pela sua natureza, constituía um fenómeno cosmopolita europeu, que se contrapunha ao núclear fundamental da sua nação. Claro que semelhante ideologia contribuía para que o regime perdesse, em medida significativa, a base nacional.
Sem negar o conceito de raça, ele, não obstante, colocava no centro a nação e os interesses nacionais. A organização estatal do novo Portugal estava de acordo com as inclinações e tradições nacionais. Tendo em conta o apego dos portugueses ao regime monárquico, onde um homem como que encarnava toda a nação e o Estado, estava acima dos interesses dos estados sociais, partidários e territoriais, Salazar dedicou muita atenção ao lugar e papel do chefe na sociedade. Chefe-nação-Estado – nesta “trindade” devia edificar-se a sociedade portuguesa. Salazar fez renascer a tradição da ligação directa entre o chefe e o povo, esquecida pela monarquia absoluta. Nas condições da época, isso manifestou-se nos referendos nacionais, a que o Primeiro Ministro submetia as questões mais importantes da vida do país, nos apelos directos de Salazar à nação. Segundo a tradição da direcção unipessoal, onde só é possível o funcionamento normal do Estado, Salazar reforçou, decidida e firmemente, o seu poder pessoal. As funções e poderes do Presidente e do Parlamento tornaram-se, a pouco e pouco, puramente cerimoniais, sem real conteúdo político. Todos os partidos políticos foram proibidos enquanto organizações que contribuem para a cisão da nação segundo as classes. A União Nacional era o único partido autorizado.
Porém, não seria correcto afirmar que na Portugal foi instalado o sistema de partido único. A União Nacional não era um partido dirigente do tipo do PCUS ou do Partido Nacional-Socialista Alemão. Salazar chamava à União Nacional um anti-partido e, na realidade, essa organização não tinha quaisquer poderes no Estado. Ela não tinha nem Bureau Político, nem Comité Central tal como nós conhecemos. A União Nacional era um movimento sócio-político de massas de apoio ao regime e, pessoalmente, a Salazar.
A necessidade da unidade total do núcleo saudável da nação ditava a necessidade não só de reprimir o elemento doentio adversário, unido em grupelhos anti-estatais, mas também de afastar do palco político os antigos aliados inseguros, não capazes de ter consciência total das tarefas nacionais.
Nos primeiros tempos, Salazar gozava do apoio dos monárquicos, que consideravam o seu governo apenas uma etapa na restauração da monarquia. Na etapa do estabelecimento do poder unipessoal, a sua união com os monárquicos desempenhou o seu papel positivo. Depois de reforçar o poder e ter conseguido um forte poder do povo, Salazar proibiu as organizações monárquicas que, nessa altura, começaram a tecer intrigas contra ele. Utilizando o falecimento do último rei Manuel na Inglaterra, Salazar declarou que a questão da monarquia era retirada da ordem do dia, que a dinastia se tinha comprometido demasiadamente e que, no Estado Novo, dificilmente haveria lugar para ela.
A proibição das organizações monárquicas enfraqueceu a possibilidade do inimigo secular: a Inglaterra, influir na opinião pública e na situação política interna no país. A propósito, Salazar nunca revelou inimizade aberta contra os monárquicos, o que lhe permitiu manter a concórdia na sociedade, onde as disposições monárquicas sempre foram fortes.
Depois do decreto de 1935 sobre a proibição dos partidos e organizações políticas, Salazar, durante algum tempo, permitiu agir legalmente os chamados “camisas azuis”, análogo português dos destacamentos de choque alemães. Essa organização, que era dirigida por Rolão Preto, uma das pessoas próximas de Salazar, surgiu com base nos sindicatos fascistas. Os dirigentes da organização orientavam-se fortemente para a Alemanha, manifestavam-se pela pacificação mais rápida e completa de Portugal segundo o modelo alemão, sem ter em conta a especificidade nacional, e pela submissão total da política portuguesa aos interesses do Reich.
Além disso, no movimento sindical português, eram fortes os elementos do anarquismo e da tradição do terrorismo político, o que era muito perigoso para o “Estado Novo”. Gradualmente, os sindicatos fascistas transformavam-se num facto desestabilizador na vida política, eles planeavam a tomada do poder e a prisão de Salazar. Em Setembro de 1935, a sua conspiração foi descoberta e os “camisas azuis” desapareceram do teatro político.
(continuação)

2 comentários:

Sapka disse...

Não sabia que a UN salazarenta tinha feito seguidores no "Império do Mal"

Jose Milhazes disse...

Caro leitor Sapka, e não são poucos mesmo entre os intelectuais. Em alguns aspectos, o regime de Putin assemelha-se cada vez mais ao corporativismo salazarista.