quinta-feira, abril 03, 2008

Geórgia e Ucrânia continuam no Purgatório


Tal como escrevi na postagem " Kremlin espera pelo menos adiar adesão de Geórgia e Ucrânia à Aliança Atlântica" (Segunda-feira, Março 31, 2008), a NATO acabou por não permitir a esses dois países do antigo espaço soviético que aderisse ao Plano de Acções, que conduz directamente às portas dessa organização político-militar.

As divisões no seio da Aliança foram a principal causa desse adiamento. Os Estados Unidos queriam forçar o processo de adesão desses países à NATO, enquanto que países como Alemanha, Itália, França, Portugal e outros preferiram adiar a decisão para Dezembro, esperando, talvez, que, até Dezembro, consigam "dar a volta", convencer o novo Presidente russo, Dmitri Medvedev, a ceder. Mas, como dizem os russos: "Ni dojdiotis", o que para português se pode traduzir como "não esperem por isso!", ou então, "esperem sentados que a espera será longa".

Mas o certo é que todos se declaram vencedores. O Kremlin atribui o adiamento à sua posição firme, concluindo uma vez mais que as ameaças, pelo menos por vezes, convencem. Kiev e Tbilissi vão esperar pelo Natal e a NATO também não se dá por derrotada, trata-se, no fundo, apenas de alguns meses.

Como a maioria dos meus leitores são maiores, vou recorrer a uma imagem um pouco brejeira para dar a minha opinião sobre o tema, embora tentando ser o mais correcto possível.

Na era comunista, existia a COMECOM, organização económica dos países comunistas, onde a falecida Jugoslávia tinha um estatuto sui-generis. Diziam as línguas afiadas dessa altura que a Jugoslávia, nessa organização, desempenhava o papel de dois órgãos genitais masculinos gémeos, pois participava, mas não entrava.

Parece que a Geórgia e a Ucrânia irão ter esse papel se a Aliança Atlântica continuar a sua política de criar expectativas e, depois, fazê-las gorar. Não posso dizer que esses dois países ficam numa espécie de limbo, porque, recentemente, Bento XVI liquidou esse lugar. Resta o Purgatório, lugar de permanência temporária, que pode ser breve ou longa, dependendo da quantidade e da força das orações por esta ou aquela alma.
Quanto à definição de quem são os anjos e os diabos nesta tragicomédia, cada leitor que decida. Amén.
P.S. A Turquia está numa situação semelhante em relação à União Europeia.

9 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Sinceramente, preferia que não insistissem em provocar os russos. Deixem a Ucrânia, Geórgia, Bielorússia etc, estarem como estão. Ou então, convidem também a Rússia, fica o problema resolvido...

Jose Milhazes disse...

Caro Nuno, os citados países são soberanos e devem ter o direito a decidir os seus destinos. Na Geórgia, a maioria da população votou, num referendo realizado em Janeiro, pela adesão do seu país à NATO, mas será que ele não tem direito a isso porque a Rússia não quer?
Claro que a Rússia tem todo o direito a defender os seus interesses, mas isso não deve ser feito à custa da redução dos direitos dos povos vizinhos.

Batista Export disse...

Não deixem a Bielorussia estar como está ! Direitos humanos fundamentais todos os dias atropelados, perseguição politica efectiva, prisões sumarias a jovens pró-UE, censura permanente em comunicação, Ex : MSN, Telemoveis ... , encerramento de TODOS os jornais da oposição, limite e controle de acesso à internet, impedimento de cidadãos sairem do país. Eu gosto muito da Russia, mas quanto mais tempo demorar reformas sociais/politicas, menos valor tem a vida humana nas ex-republicas sovieticas. Se a NATO ajuda ? Não faço a minima ideia, mas pelo menos o "falar" nisso já é bom.

Jose Milhazes disse...

Caro Batista, estou plenamente de acordo consigo. Porque sei que você também conhece bem estas realidades, as suas opiniões são sempre bem recebidas.

Nuno Castelo-Branco disse...

Caro José,
Compreendo muito bem a sua declaração de princípios acerca das nações. No entanto, não estou bem informado acerca da realidade ucraniana e de facto as suas fronteiras parecem-me apenas mais uma consequência dos presentes concedidos pelo regime de Estaline após 1945. Tito fez o mesmo na Jugoslávia e vê-se o resultado. A Crimeia é ucraniana ou russa em termos populacionais? E o que dizer da clivagem ocidente-leste naquele país? É evidente que se os ucranianos querem ser independentes, terão todo o direito a sê-lo (o "Kosovo" é). Mas não seria melhor esperar algum tempo antes de integrar a NATO? É assim tão urgente? Uma vez que vive na Rússia e sabe da realidade, explique-me porquê.

Maks disse...

Nuno acrescente tambem a tão falada pelos russos Abkhasia, que foi integrada há cerca de 50 anos na Georgia por Stalin, que por sinal não era russo mas georgiano. A Abkhasia tem mais recursos para ser independente que o Kosovo, que me interroggo como irá subsistir.Aquele país foi sempre independente, tinha um turismo fantastico, de alto nivel, e uma razoavel agricultura. Nos anos 90 os USA e Nato decidiram isola-los por colaboração terrorista( mais tarde verificou-se que os terroristas vinham da propria Georgia e tinham passaportes desse país...) e hoje aquela gente está reduzida a nada; Toda a economia está arruinada.Mas achará estranho depois de tantos anos ainda este estado de coisas?É que, meu caro Nuno, a Abkhasia está colada ás fronteiras do sul da Russia junto á estancia onde se vão realizar os jogos olimpicos de Inverno Sochi. Tem uma importancia estratégica enorme.
É claro que a Russia já disse que vai começar a investir por lá contra os tão democraticos e humanos membros da Nato.

Jose Milhazes disse...

CaroNuno, como você sabe, as fronteiras na Europa, até à Segunda Guerra Mundial, mudacam com frequência, daí o grande número de conflitos armados no continente. O princípio da inviolabilidade de fronteiras, fixado, por exemplo, na Acta de Helsínquia de 1976, vieram pôr alguma ordem na casa. Eu pessoalmente considero que este princípio deve prevalecer em relação ao direito dos povos à independência.
Quanto à Crimeia, até a segunda metade do séc. XVIII, fazia parte do Império Otomano e aí continua a viver um povo autóctone: os Tártaros da Crimeia, que foram deportados por Estaline para a Ásia Central e Sibéria em 1994.
É verdade que a Crimeia foi oferecida por Khrutchov à Ucrânia em 1954, mas também é verdade que, em 1991, aquando da desintegração da União Soviética, as 15 repúblicas que faziam parte dela acordaram não mexer nas fronteiras para não provocar uma guerra ainda pior do que nos Balcãs. Actualmente, a desintegração da Ucrânia só poderá ser provocada por factores externos. Internamente, as forças políticas têm sabido encontrar saídas para os mais difíceis problemas.
Respndendo ao leitor Maks, gostaria de dizer que está longe de correspnder à verdade a afirmação que os terroristas na Abkházia vinham da Geórgia. Volto a repetir, o tchetcheno Chamil Bassaev e o seu batalhão foram treinados pela espionagem militar soviética GRU para combater os georgianos na Abkházia. Mais tarde, virou-se o feitiço contra o feiticeiro e Bassaev, antes de ter sido liquidado, mandou para o outro mundo muitas centenas, se não milhares de russos, militares e civis.
Caro Maks, lembre-se do provérbio: "quem com ferros mata, com ferros morre", pois existe um equivalente russo que você deve conhecer bem.

Jose Milhazes disse...

Apenas uma ressalva ao comentário anterior: onde escrevo espionagem militar soviética, queria dizer soviética e russa, porque isso ocorre no período de desintegração da URSS e da formação da Rússia como Estado independente

Anónimo disse...

E o que é a união europeia? Para mim foi uma desilusão. Cada vez mais está dependente dos grandes grupos económicos.