quarta-feira, maio 07, 2008

Dirigente angolano comparado a canibal Bokassa




Esta minha publicação não foi provocada pelas palavras de Bob Geldof, que declarou que "Angola é gerida por criminosos", mas pela reacção anónima publicada no Jornal de Angola, que me fizeram recordar textos soviéticos de triste memória.
Gostaria de saber como é que o Jornal de Angola reagiria ao artigo publicado pelo diário russo "Kommersant" no dia 01 de Novembro de 2006, aquando da visita de José Eduardo dos Santos a Moscovo.
Ao que eu saiba, o jornal oficioso angolano não reagiu, porque talvez os serviços de imprensa da Embaixada de Angola na capital russa não tenham tido coragem de traduzir o citado artigo e enviá-lo para Luanda.
Tentando colmatar esse lapso, embora com bastante atraso, publico a tradução do artigo. Deste já previno que não acrescentei uma palavra minha ou comentário ao que foi escrito.

“Ontem, o Presidente da Rússia (Vladimir Putin) encontrou-se com o seu homólogo angolano, José Eduardo dos Santos, e condecorou-o com a Ordem da Amizade, cerimónia que, segundo os analistas, esteve na origem da visita” – escreve Andrei Kolesnikov, jornalista do influente diário “Kommersant”.
Kolesnikov recorreu à ironia e sarcasmo para descrever a presença do dirigente angolano no Kremlin: “No início das conversações, o Presidente de Angola disse ao Presidente da Rússia: - Nós não viemos apenas pedir-vos ajuda. Ou seja, José Eduardo dos Santos tinha também outro objectivo. O facto é que o principal acontecimento deveria ser a entrega ao Presidente de culto de Angola a Ordem da Amizade. Segundo informações recolhidas pelo “Kommersant” foi decidido condecorar o Presidente de Angola depois de Vladimir Putin não ter visitado esse país durante o périplo por África em Setembro passado”.
Quanto à razão de Putin não ter parado em Luanda durante a viagem entre a África do Sul e Marrocos, o Kommersant escreve: “Avançaram-se numerosas versões. Mas eu considero que isso aconteceu, porque foi proposto a Vladimir Putin fazer uma vacina, sem a qual o voo para Angola e, depois, a viagem para um país mais ou menos desenvolvido, mesmo que a República da África do Sul, simplesmente não teria perspectivas de se realizar. Como se veio a saber, no caso do Presidente Putin, a proposta de que tinha de se vacinar também deu em beco sem saída”.
“Os angolanos – continua o diário russo – ficaram ofendidos por Putin não ter querido tomar a vacina e foi-lhes prometido uma visita do seu Presidente à Rússia para breve. Os que lhes fizeram esssa proposta estavam convencidos de que a viagem à Rússia é um bónus para qualquer estrangeiro”.
Segundo o “Kommersant”, “o Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, que governa o seu país desde 1978 e venceu a guerra pela sua independência, tencionava lutar pela honra do seu país neste caso. Ele exigiu que a sua visita fosse uma visita de Estado”.
“Os diplomatas russos – revela o jornal – sabendo que o Presidente de Angola não podia ter esperanças no mais alto nível da visita, que o dirigente desse país só pode conquistar com um comportamento exemplar ou pelo menos com a envergadura do Produto Interno Bruto do seu país, propôs aos angolanos um compromisso atractivo: a visita não seria de Estado, mas oficial, e Vladimir Putin, como compensação, condecoria Eduardo dos Santos com a Ordem da Amizade. Além disso, subentendia-se que o estatuto dessa ordem era mais ao menos igual ao da visita”.
O jornalista Andrei Kolesnikov constatou, nos corredores e salas do Kremlin que não foi fácil o diálogo entre os dirigentes russo e angolano: “Ao lado, junto à porta de um corredor que conduz a uma casa de banho, trocavam sussuros os assessores dos participantes das conversações, que, de tempos a tempos, entravam na sala: - Não há inimigos mais irreconciliáveis do que os antigos amigos...”
“Pensei precisamente nisso – continua Kolesnikov – ao ver as caras dos dois Presidentes quando entraram na Sala de Malaquite e se sentaram a uma distância de meio metro. Tratava-se de caras de pessoas não muito contentes com a vida. Elas simplesmente não olhavam um para o outro. Elas não trocaram uma só frase durante a meia hora em que foram assinados dez acordos”.
Kolesnikov ficou mais surpreendido ainda quando José Eduardo dos Santos afirmou que para ele era uma grande honra receber “dentro de alguns instantes a Ordem da Amizade”.
“Nunca ouvi dizer que uma pessoa agradeça a outra pela ordem que ainda não lhe foi dada” - comenta o jornalista.
“Quando os Presidentes da Rússia e Angola, finalmente, se levantaram, os membros das delegações e jornalistas fizeram o mesmo. Todos compreenderam que iam assistir a um acontecimento comparável à entrega da mais alta condecoração de Estado por Leonid Brejnev, Secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, ao imperador da República Centro-Africana, Bokassa”.

21 comentários:

Anónimo disse...

Bokassa é com k. Seria canibal, mas não era analfabeto.

Jose Milhazes disse...

Caro Anónimo, vou já emendar, não sabia que era com k. Só não sabia que uma pessoa que troca c por k num nome estrangeiro pode ser considerado analfabeto. Bem entre analfabeto e canibal, eu escolho o primeiro.

Fernando Baião disse...

É verdade que o comentário às declarações de Geldof no Jornal de Angola, não tem pés nem cabeça. Também é verdade que o cantor aplicou um termo muito pesado, que há incompetência e deixa andar por parte de alguns dirigentes,estamos de acordo, mas chamar de criminosos é forte.Disse uma verdade, o preço de aluguer e de venda das casas em Luanda, é fogo. Comparar o Eduardo dos Santos ao Bokasa acho impensável, a não ser que se esteja de má fé.

Jose Milhazes disse...

Caro Fernando Baião, não fui eu que o comparei a um canibal. Queria chamar a atenção para o facto de a imprensa e as autoridades não terem reagido ao artigo na imprensa russa, embora as acusações não sejam mais suaves do que as de Geldof.
Os dirigentes angolanos deram-se a esse luxo porque se trata de declarações feitas Portugal, porque não falariam tão alto se as declarações fossem feitas na Rússia Estados Unidos ou até na China.
Quanto à elite dirigente angolana, não tenho dados para afirmar que sejam todos criminosos ou não, mas é do domínio público que alguns deles têm culpas no cartório, e não são poucas.
Há uns anos atrás, o Pedro Rosa Mendes e eu publicámos uns artigos no Público sobre o tráfico de armas e desvio de dinheiro da dívida angolana à Rússia. O Sr. José Eduardo dos Santos e Arkadi Gaidamak puseram-nos um processo nos tribunais por difamação, mas não ganharam. A propósito, foram esses artigos que depois deram origem a uma série de publicações em França e noutros países europeus sobre os mesmos temas. E, como se costuma dizer, não há fumo sem fogo...

Jose Milhazes disse...

Caro leitor Fernando Baião, gostaria de recordar-lhe mais um pormenor. O antigo Presidente de Angola, Agostinho Neto, que muitos teimam em apresentar como um grande intelectual e poeta, era um criminoso, porque mandou matar camaradas do seu partido, e não foram poucos.

fernando baião disse...

Quer queira quer não Angola estava em guerra, civil, é possível, a outra parte era apoiada pelos americanos, e, o MPLA, apoiado pelos sóvias e cubanos, comprou armas para se defender. No negócio de armas não são todos bons rapazes, é um facto, muita trapalhada se mete pelo meio. Se vamos por esse caminho de chamar Agostinho Neto de criminoso, é ir muito longe, eu tava lá, o contexto do fraccionismo levou a muitos atropelos, houve exageros, mas, agora parece que está na moda, atacar o Neto. Será recalcamento que ainda não desapareceu, espero que não e seja apenas uma opinião, e opiniões não se discutem em democracia. Mas, essas opiniões têm que ser avançadas com conhecimento pleno dos factos e atender ao seu contexto.Mas que A. Neto foi intelectual e poeta foi, levou o seu povo até à Dipanda (independência). Se agora o povo angolano está bem é outra coisa. Como dizia um Soba da minha região, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Jose Milhazes disse...

Caro leitor, Agostinho Neto começou a matar os seus camaradas ainda no tempo da guerra colonial. Os documentos dos arquivos soviéticos, alguns dos quais já publiquei neste blogue, provam que ele mandou matar.
Isto é um facto e eu não consigo encontrar justificação para esses crimes, a não ser a sede de poder: Estaline, Hitller, Mao, etc., etc.

fernando baião disse...

Lá vamos nós falar do contexto. Deve saber o que foi a luta de guerrilha contra o domínio colonial português, as intrigas, os infiltrados, a CIA, a PIDE, etc.Na guerra colonial e durante o fascismo, em Portugal, muita gente portuguesa foi morta, vamos chamar assassinos ao Salazar, Marcelo Caetano, aos Governadores Gerais de Angola? O Salazar agora até está na moda, é Salazar para aqui Salazar para acolá, nunca ouvi ninguém lhe chamar de assassino. Quem mandou matar o General Delgado, foi ele ou não foi? Fique bem, caro José.

Jose Milhazes disse...

Caro leitor Fernando Baião, Agostinho Neto não só mandar assassinar inimigos políticos seus, mas camaradas do MPLA que lhe faziam sombra. E o facto de Salazar ter feito isto ou aquilo, não explica que Agostinho Neto tivesse o direito de fazer o mesmo. Eu sou daqueles que não faz diferença entre crimes do comunismo, do fascismo ou do capitalismo. Os crimes são crimes e não há ideologia que os transforme em actos heróicos. Hitler matou milhões, é um monstro; Lénine, Estaline ou Mao mataram milhões e têm justificação? Qual? Queriam levar o povo à força para o "paraíso comunista"?
O leitor deve andar distraído se ainda não ouviu dizer que Salazar foi um criminoso e assassino. Eu já li e ouvi falar muitas vezes disso.
O "Código Penal" da História deve ser igual para todos, sem excepção. Cumprimentos

dvfer disse...

Acho que ninguém mete em causa que todos os dirigentes angolanos (os de alta chefia pelo menos) foram bandidos e ladrões do povo angolano. Um dos países mais ricos do mundo em recursos naturais, que aparece em último de quase todos os rankings de qualidade de vida mundiais. Algo está errado e o dinheiro não desaparece, está a ir para alguma carteira. E acho que toda a gente sabe de quem...

fernando Baião disse...

Alguém ficou chatiado pot ter perdido "a jóia do império". Generalizar que todosos dirighentes são ladrões é um bocado forte. Já viram se eu começasse a perguntar onde está o dinheiro dos dirigentes portugueses, as suas casas de campo ou de praia, os montes no Alentejo e sobretudo as contas chorudas nos off shores, antes na Madeira e agora sabe-se lá aonde?Deixem Angola em paz, porque não falam dos EUA da América, onde se encontram os maiores mafiosos do mundo, onde os dirigentes, esses sim ,são bandidos, na sua generalidade.Acautelem-se, pois um dia deste a "Angola é nossa" passa a ser deles.Se calhar exagerei, mas detesto picanços, dvfer.Cumprimentos

dvfer disse...

Sou Português com orgulho no passado histórico. Portanto tenho orgulho nas colónias criadas pelos portugueses, que no final se transformaram em países. Contudo, não tenho qualquer "simpatia" pelas ex-colónias. São passado. Até porque realmente o povo português não teve qualquer ganho especial com essas colónias, a não ser umas quantas igrejas e mosteiros. E na escola ensinaram-me que "a jóia do império" era o Brasil

Dito isto, deixo claro que vejo Angola simplesmente como um país qualquer neste mundo.

A comparação entre dirigentes portugueses e angolanos também não faz sentido, porque se é verdade que Portugal não é rico em riquzas naturais, também não deixa de ser verdade que nos últimos anos colocou-se no grupo de países com maior indices de qualidade de vida(mortalidade infantil, trabalho infantil, esperança de vida, nutrição, etc). Note-se: indices de qualidade de vida é diferente que indices economicos. Neste aspecto os dirigentes portuguses têm de ser reconhecidos como competentes e sérios. Os dirigentes angolanos já não podem dizer o mesmo, pois Angola para país tão rico em recursos, continua nos últimos em termos de qualidade de vida. Para onde vai o dinheiro?

Na verdade, pouco me importa Angola. Apenas gosto de comentar o que vejo e leio diariamente. E acho que a minha análise não deve andar muito longe da realidade.

Também não percebi como é que os EUA vieram parar a esta discussão. É a prova que por mais defeitos que tenham os EUA, continuam a sr o "farol" deste mundo.

fernando baião disse...

Qualquer pessoa tem o direito de opinar sobre que assunto for, eu respeito a opinião do outro, mas não posso deixar de dar também a minha. Angola tem 33 anos de existência e sabe, se calhar, melhor do que eu como se passou a transição para a independência e Portugal, tem quantos, são mesmo muitos, e a qualidade de vida que fala só a tem há meia dúzia de anos.Que o EUA continuam a ser o farol de não sei quê, gostei, só que já começa a ter uma luz cinzenta.Vamos continuar a falar. A propósito, sou angolano e do MPLA, mas não sou comunista, nem nunca o fui, mesmo na altura do Partido Único.

Anónimo disse...

Talvez fosse bom o Sr.Fernando Baião ver este vídeo no youtube e depois, se tem consciência, falar.
http://br.youtube.com/watch?v=kMOxUZAHNLk

Jose Milhazes disse...

Caro Fernando, apenas lhe posso desejar que o seu país e o seu povo cheguem rapidamente ao nível de vida que merecem. Tenho amigos angolanos, estudei com alguns na Rússia e tenho boas recordações. Diz-se que cada povo tem o Governo que merece, mas, no caso do angolano, acho que há muito merecia melhor.
Quanto aos Estados Unidos, acho que tem cometido erros de palmatória na política externa. Os exemplos da intervenção no Iraque e a independência unilateral do Kosovo são dois de bradar ao céu. Por isso, é necessário que apareçam novos jogadores na cena internacional que possam travar determinadas políticas, mas pela positiva.
A União Soviética foi um desses jogadores, mas, para Angola, a sua intervenção não foi claramente positiva, tal como a de outras potências estrangeiras.
Um abraço para todos os meus amigos angolanos.

Cristina disse...

Subscrevo totalmente a opinião do leitor dvfer. Também sou portuguesa com orgulho no passado histórico. Portanto tenho orgulho nas colónias criadas pelos portugueses, que no final se transformaram em países.
Convivi igualmente com angolanos e moçambicanos e vejo neles, a nível pessoal e de cultura, uma parte de Portugal, muitas coisa boas que talvez não existam em outros países africanos.

Gostaria de saudar a lucidez dos posts e comentários do José Milhazes. Estou plenamente de acordo com as suas opiniões, neste tema sobre Angola e especialmente nas análises que faz à Rússia, país onde vivi 13 anos.

fernando baião disse...

Gostei do comentário de JM.Fui muitas vezes à antiga URSS e conheço bem a mentalidade dos seus dirigentes em relação a África e especialmente a Angola, racistas, até criaram uma universadade só para pretos, "Patrice Lumumba". Foram os caméricas que nos empurraram para eles, com a chamada "guerra fria". Cara Cristina, em Angola ninguém, que se preze é contra o povo português, mesmo muitos daqueles que lá estiveram, são agora bem-vindos. Agora que o colonialismo fez muito mal, lá isso fez, e os portugueses de bom caracter sabem-lo muito bem.Cumprimentos.

dvfer disse...

fernando baião, se não fosse o "colonialismo", Angola nem existiria. Sabe bem que quem criou as fronteiras, estabeleceu uma língua unificadora, estabeleceu instituições "gerais" para a colónia foram os portugueses. Não digo que o colonialismo não tenha tido aspectos negativos, mas você só se pode identificar como "angolano" devido a esse mesmo colonialismo.

Aliás, toda Africa e América do Sul só existem devido aos europeus e à criação das fronteiras e estabelicimento das "fundações" para os futuros países se formarem.

Não deixa de ser irónico que muitas pessoas das ex-colónias são rápidas a acusar os europeus de acontecimentos com mais de 200 anos, mas esquecem-se que a razão de ser da sua identificação mais básica, a pátria, devem aos europeus.

cumprimentos

fernando baião disse...

O senhor dvfer deve estar a brincar. Quando o Diogo Cão aportou no Rio Zaïre, já existiam vários reinos na regão onde hoje se situa Angola. Foram os portugueses com as suas intrigas, que começaram a fazer ruir as estruturas desses reinos, e as guerras do Kwata-Kwata, a caça ao escravo fez com parte do continente se visse privado dos seus melhores filhos, ou não foi, a escravatura, ou não se lembra.Depois, dizer que foram "os colonialistas portugueses" que desenharam as fronteiras de Angola, é desconhecer a história, a Conferência de Berlim, Nov 1884 a Fev 1885, determinou as regras de ocupação de África pelas potências coloniais e resultou numa divisão que não respeitou, nem a História, nem as relações étnicas e mesmo familiares dos povos do continente africano. Portugal foi a grande vencido, pois viu o seu Mapa Cor-de-Rosa ir por água abaixo. Acho que já chega, pois podia ainda continuar a lembra-lhe o que foi a ocupação portuguesa em África. Fica para outro dia.

dvfer disse...

Ficamos então a saber graças ao senhor Fernando Baião, que existiria Angola, se não fossem os portugueses. De certo falariam uma aproximação do português e teriam as fronteiras que têm hoje. Mesmo essa história do "mapa cor de rosa" não se entende: mesmo tendo problemas com Inglaterra, foi Portugal que "construiu" Angola.

Sim, construi, destruindo os reinos locais, mas e depois? Isso impede que tenha construído Angola? Portugal só é Portugal, porque os Mouros invadiram a Península Ibérica e um "visionário" decidiu começar a conquistar território de volta.

Quanto à escravatura, é algo que em tudo o mundo já se viu. Já os Romanos o faziam, e já havia escravatura africana desde do tempo dos árabes e o seu império islâmico. Os portugueses começaram "tarde" nesse "negócio", apesar de o terem elevado a números nunca antes visto.

Devo lembrar que vários Reinos Africanos participaram e ajudaram a capturar escravos. Ou seja, o seu "povo" ajudou a capturar o seu "próprio povo". Portanto muitos dos líderes que tem no seu país, devem ter antepassados que ajudaram à escravatura do seu próprio povo. Talvez até você tenha antepassados desses.

Jose Milhazes disse...

Caros leitores, a discussão entre Fernando Baião e dvfer é interessante, mas deveria ser menos emocionada. Claro que o colonialismo, a escravatura foram realidades históricas e que devem ser estudadas. Não para se apresentarem facturas uns aos outros do que uns ganharam e os outros perderam, porque o se na História não tem lugar. Como diz a velha anedota, se a minha avó tivesse tido rodas, não teria sido minha avó, mas um eléctrico. Mas o facto é que foi minha avó e é daí que temos de partir. É difícil imaginar como Angola poderia existir com o seu desenho geográfico se Diogo Cão não tivesse descoberto esse país. Todavia, é necessário detectar, estudar os erros do passado para curar as feridas nas relações existentes entre portugueses e angolanos. Não atirar pedras uns aos outros, mas tentar encontrar o que temos de comum para avançar.