segunda-feira, maio 19, 2008


A indústria aeronáutica russa voltou a fabricar aviões civis e hoje teve lugar o primeiro voo do aparelho Superjet-100 que constitui "a esperança da indústria aérea russa", disseram especialistas. "A esperança da indústria aérea russa, o modelo experimental mais moderno da aviação regional de passageiros Superjet-100, levantou voo pela primeira vez, realizou com êxito o programa do primeiro voo e aterrou", declarou à agência noticiosa russa Ria-Novosti um porta-voz da companhia "Aviões Civis Sukhoi", que fabricou o primeiro exemplar do novo avião russo. "O avião levantou de forma bela, como um pássaro azul, e a aterragem foi ainda mais bonita", acrescentou o porta-voz que assistiu ao teste do Superjet-100, realizado no aeródromo de Komsomilski-na-Amur (extremo oriente russo). "O avião, cujo primeiro voo foi adiado várias vezes, constitui o primeiro avião civil russo a ser construído a partir do zero com base em tecnologias informáticas", afirmou. O Sukhoi Superjet-100, que entra na história da aviação como o primeiro avião russo fabricado depois da desintegração da União Soviética, vem substituir, nas linhas regionais da Rússia, os obsoletos Tupolev-134 e Iak-42. A empresa não excluiu a possibilidade de os novos aparelhos virem a ser exportados para outros países. A companhia "Aviões Civis Sukhoi", que pertence ao grupo "Sukhoi", fabricante dos conhecidos aviões militares homónimos, foi criada em 2000 especialmente para projectar e produzir aviões civis. Os motores SaM-146 para os novos aviões são produzidos conjuntamente pelas empresas russa Saturn e a francesa Snecma. A Itália participa também neste sector do fabrico do Superjet-100 por intermédio da empresa Alenia Aeronautica. O projecto de fabrico do novo aparelho foi financiado com mais de mil milhões de euros. A companhia "Aviões Civis Sukhoi" anunciou já ter recebido encomendas para 73 aparelhos e que estão a decorrer conversações com duas companhias aéreas com vista à encomenda de mais 27 aviões. Depois da desintegração da União Soviética, em 1991, as fábricas de aviões civis ficaram em vários países da Comunidade de Estados Independentes, principalmente na Rússia e Uzbequistão, e deixaram de ter financiamento suficiente, por parte do Estado, para criar novos aparelhos. O mercado russo de transporte de passageiros sente grande falta de aviões. Por isso, as grandes transportadoras russas recorrem à aquisição de aparelhos Boeing e Airbus, mas estes dois gigantes não conseguem responder a todas as encomendas.

11 comentários:

Fomá_Fomitch disse...

Talvez seja uma boa noticia para o povo da Rússia. Na Alemanha do pós-guerra (2ª guerra mundial) houve vários exemplos de industrias de armamento e outros afins militares que se converteram com sucesso em industrias de utilidade civil. Essas industrias através de toda a eficiência e conhecimento que advém de uma guerra conseguíram principalmente na maquinaria e nos electrodomésticos tornaram-se grandes empresas que ainda hoje vendem em todo mundo (Ex: Krups). Apesar de tardar (mas talvez como o filme que vi recentemente: "nunca é tarde de mais") pode ser que todo o potencial tecnológico da Rússia seja virado para as áreas que criam valor ao país e conforto ao povo. Será que vai ser assim caro José Milhazes? Ou é só um caso pontual com alguma propaganda barata?

Almir disse...

Merece aplauso o esforço da Rússia de reinserir-se no setor de construção aeroespacial para fins de transporte civil. Trata-se de um setor intensivo de tecnologia e capital, onde poucos países do mundo conseguem implementar esse setor produtivo de forma viável. Para que se tenha idéia, desde os anos 60 para cá, somente uma empresa no mundo adentrou nesse estreito mercado mundial, e essa foi a Embraer. Nesse exato momento em que os russos preparam seu primeiro exemplar do Superjet, tanto a China como o Japão estão desenvolvendo um avião de porte semelhante para concorrer com os aviões regionais produzidos pela canadense Bombardier e a brasileira Embraer. De todos os potenciais fabricantes de jatos de médio porte, somente os chineses anunciaram que pretendem chegar a produzir os jatos transcontinentais de longo porte, pretendendo concorrer com Boeing e Airbus. É fácil entender os chineses quando se lê uma estimativa de que o mercado daquele país adquiriá mais de 2800 grandes aviões de transporte de passageiro e carga nos próximos 20 anos (conforme publicou esta semana a revista The Economist).

Voltando à Rússia, como usuário eventual do transporte aéreo desse país, confesso que ficaria satisfeito se soubesse que o país dedicasse esforços também para melhorar a manutenção da frota aérea atualmente em operação. Já seria um grande progresso!!

Jose Milhazes disse...

Caros leitores, nos comentários de especialistas russos sobre este acontecimento, afirma-se a sua importância positiva, mas chama-se a atenção para o facto de a maioria das peças e elementos do avião terem origem ocidental. O astronauta russo Talbuev diz que só as chapas são russas.
Esta crítica tem fundamento, porque, como escrevi no artigo, a Rússia teve necessidade de se aliar a empresas francesas e italianas para produzir o avião.
Eu até considero um factor positivo de integração internacional, mas os russos receam ficar depedentes.

Anónimo disse...

Você tem razão, Milhazes
É este um projeto em que a Sukhoi figura praticamente como uma montadora. Mas seria impossível a Rússia recuperar o tempo perdido na construção de turbinas eficientes, seguras ou econômicas, além dos sofisticados aviônicos eletrônicos, sem os quais hoje em dia não venderá sequer um exemplar. Esse avião é tanto francês (Snecma) e italiano (Finmecanica), como russo (Sukhoi), que detém o projeto. Mas é a maneira de os russos se atualizarem e dominarem as tecnologias modernas.
Não fosse assim, a opção seria restaurar as linhas de montagem dos velhos Tupolev e Ilyushins, mas parece que nem a Aeroflot compraria.

Anónimo disse...

Meu caro Milhazes:

Quem não é dependente'

A Rússia, ao abrir-se ao exterior e ao aceitar parcerias caminha para uma inserção natural na comunidade internacional de forma a evitar situações de autarcismo doentio...

É um sinal positivo este!

rouxinoldebernardim.blogspot.com

Jose Milhazes disse...

Caro leitor Rouxinol de Bernardim, eu estou plenamente de acordo consigo, mas há muita gente na Rússia que considera que o país não deve depender de ninguém e de nada. Se o Muro de Berlim não conseguiu travar a influência dos mercados internacionais na União Soviética (basta recordar o preço do petróleo), não sei como será possível evitar a integração da Rússia na economia mundial!
O que acho também é que os dirigentes russos devem investir meios para que este país volte a ser um dos centros de inovação científico. Se a Rússia não aproveitar a actual chuva de petrodólares e petroeuros para se modernizar, arrisca-se a transformar-se definitivamente num "Alto Volta com armas nucleares", como alguém chamou um dia à União Soviética.

dvfer disse...

O mundo necessita de mais "jogadores" na construção aeroespacial. Recentemente a China também lançou o seu avião comercial "de última geração". Quanto mais, melhores, para os preços descerem e a tecnológia avançar mais rapidamente.

Agora, se a Rússia terá "estofo" para aguentar-se na corrida, que custa muito, muito, dinheiro, já é outra questão.

Jose Milhazes disse...

Caro leitor, dinheiro aqui não falta, falta,sim, sabê-lo investir e não esbanjar.

dvfer disse...

Caro Jose Milhazes, era a isso que me referia. Ter este tipo de industrias exige não só dinheiro, mas uma boa "máquina de estado": bons tribunais, boas dministrações, bom controlo dos gastos de dinheiro...

Anónimo disse...

Vender aviões comerciais de grande porte é jogo para "cachorros grandes" do capitalismo. O bom projeto é somente a primeira condição para o sucesso. A seguir virá o desafio de fato, que é criar uma rede de serviços que garanta qualidade de manutenção aos operadores que se arriscarem a comprar o SuperJet. Sem essa estrutura mundial, é impossível se estabelecer nesse mercado. Ou será que os russos estão se lançando no mercado para vender somente à Aeroflot e às companhias domésticas? A China inicia um empreendimento semelhante, totalmente voltado para o seu mercado interno. Como disse acima o leitor Almir, aquele país demandará quase 3000 aviões de grande porte nos próximos 20 anos, o que já justifica os investimentos aeroespaciais chineses.

Jose Milhazes disse...

Caro autor anónimo, segundo disse o Primeiro-ministro, Vladimir Putin, a Rússia pretende exportar o novo avião civil. Tendo em conta o potencial económico e científico deste país, ele poderá produzir e concorrer aviões concorrentes, pois a Rússia sempre foi uma potência aeronáutica. Porém, e repetirei isto até à exaustão, isso só será possível se a economia for dirigida de forma inteligente e com alguma transparência para que o dinheiro não se perda nas areias da corrupção.