domingo, maio 11, 2008

Nova Biografia de Lenine


As edições 70 acabam de lançar a obra "Lenine - Uma Nova Biografia, livro cuja leitura recomendo a todos os leitores deste blogue.
Cito as palavras com que é apresentada a obra para depois fazer algumas considerações.
"A 21 de Janeiro de 1924 morria Vladimir Ilyich Ulyanov, que o mundo conhecia pelo seu nome «revolucionário» – Lenine. Durante muitos anos, fez-se a distinção entre a sua doutrina política, o leninismo, e a brutalidade do regime soviético, em especial o estalinismo, denunciado por Kruschev no XX Congresso do PCUS e considerado a corrupção do dogma político original de Lenine.
Com esta biografia, no entanto, Volkogonov demonstra a falência desta tese; de facto, a génese do estalinismo está já contida no governo de Lenine e no seu cinismo político: a criação da Cheka, dos Gulag, a repressão brutal da Igreja ortodoxa, dos meios de comunicação social, e do campesinato, em especial dos kulaks; e, em especial, a instituição de um aparelho político-partidário que viria a funcionar como um poder autónomo dentro do próprio Estado, alheio aos interesses da população".
Começo por considerar que, em geral, as razões acima apresentadas para se ler esta obra são correctas e mais de suficientes para a ler.
Mas há mais. Dmitri Volkogonov foi um general soviético que dirigiu, durante vários anos, o trabalho ideológico e político no Exército Vermelho. Entre as obras que escreveu na era comunista, destaco "A educação ideológica do combatente soviético", que eu traduzi para português a fim de ser distribuído nas antigas colónias de expressão portuguesa. Um livro bastante abjecto aos olhos de hoje, mas que, na altura, serviu para educar os militares angolanos, moçambicanos, etc. a atirarem-se para debaixo de um tanque com uma granada nas mãos e a fazer-se ir pelos ares a fim de travar o avanço do inimigo.
Resumindo, não posso dizer que as suas obras da era soviética tivessem trazido algo de novo ao pensamento universal. No entanto, depois do fim da União Soviética, o general passa a trabalhar com o Presidente da Rússia Boris Ieltsine e a ter acesso aos arquivos soviéticos, até então inacessíveis à esmagadora maioria dos estudiosos.
Monopolizando essa situação, Volkogonov escreveu e publicou rapidamente volumosas biografias dos três mais conhecidos dirigentes revolucionários da Rússia: Lénine, Estaline e Trotski. Um pouco mais tarde, editou mais um livro "Lideres", que contém pequenas biografias de outros dirigentes soviéticos: Khrutchov, Brejnev, Andropov, Gorbatchov.
Em qualquer uma destas três obras, o general Volkogonov citou, baseou-se em muitas centenas, diria mesmo, milhares de documentos inéditos sobre esses e outros dirigentes comunistas para derrubar numerosos mitos.
Volkogonov aborda numerosos temas outrora proibidos. Além dos já citados, acrescento, por exemplo, a origem étnica de Vladimir Lenine. Na União Soviética, era probido saber-se que nas veias do "timoneiro da classe operária" corria sangue judeu e alemão, além de russo, calmuque.
Em poucas palavras, qualquer uma das obras de Volkogonov vale apenas ser lida pelas novidades documentais, pela revelação de escritos que não entraram nas "Obras Completas" de Vladimir Lenine, que, no fim de contas, não eram completas, mas censuradas.
No entanto, é de assinalar que as volumosas biografias escritas pelo general têm fortes insuficiências. No caso da biografia de Lenine, o meu julgamento baseia-se na edição em russo, pois ainda não comprei a tradução portuguesa e quase de certeza que não a comprarei porque é muito cara (33 euros) e parece ser um resumo daquela que eu li há mais de dez anos atrás.
Por exemplo, Volkogonov não consegue analisar com a frieza de um historiador os documentos por si revelados, deixando-se levar pelo mesmo estilo tendencioso com que escrevia na era comunista. Para ele, o objectivo era derrubar mitos, atirar Lenine, Estaline e Trotski abaixo do pedestal em que tinham sido colocados por comunistas de várias as tendências.
Além do mais, pelo menos no texto russo, a sua escrita é, frequentemente, pesada e repetitiva, o que faz com que a biografia de Estaline tenha quatro volumes, quando poderia ser mais concisa e clara.
Isto pode ter uma explicação. Volkogonov faleceu em 1995 vítima de um cancro e talvez a falta de tempo, penso eu, o levou a escrever depressa.
E por último, no caso da edição portuguesa da biografia de Lenine, acho um claro exagero apresentá-la como "uma nova biografia". Primeiro, o texto russo foi publicado há bem mais de dez anos e, depois disso, muito foi escrito com mais cuidado e ponderação sobre o primeiro dirigente comunista soviético. Como se costume dizer, "já muita água correu por debaixo das pontes de Moscovo".
A publicação deste livro é mais um exemplo flagrante, diria até vergonhoso, de quanto o mercado livreiro português está atrasado em relação aos outros no que respeita à tradução de obras russas. Um rápida consulta na internet mostra que a primeira edição inglesa da obra surgiu em 1998.
No entanto, volto a frisar, é uma obra de leitura fundamental para quem se interessa pela temática do comunismo soviético e mundial e não tem o privilégio de saber ler russo, inglês, francês ou espanhol.

4 comentários:

Carlos Tomás disse...

Caro José Milhazes

A propósito de livros sobre o tema, queria perguntar-lhe a opinião sobre: "História da União Soviética" de Peter Kenez, também das edições 70( pelo menos este demorou um pouco menos). Serão os vinte e tal euros bem empregues, na sua opinião.

Jose Milhazes disse...

Caro Carlos Tomás, não conheço essa obra, por isso não me posso pronunciar.

Anónimo disse...

Que barbaridades é capaz de dizer sobre a história...vá aprender um pouco mais...

Anónimo disse...

Você deve ser um belo de um anormal capitalista...