quarta-feira, maio 21, 2008

Quem com ferros mata, com ferros morre...


Ivan Bobriachov, comandante da Direcção de Fronteiras do Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB, KGB) na região de Petchor, denunciou que alguns cidadãos dessa região, que têm cidadania dupla: russa e estónia, preferem prestar serviço militar na NATO do que nas Forças Armadas da Rússia.

“Os mancebos, presentemente, fazem tentativas e, de facto, conseguem prestar serviço militar nas Forças Armadas da Estónia, membro da NATO, para fugir ao nosso serviço militar” – declarou Bobriachkov, numa entrevista à agência russa Interfax, sublinhando que “este facto é um dos momentos sérios”.
“Claro que não podemos deixar de prestar atenção a esse problema e não devemos olhar calmamente para isso” – frisou o general do FSB e previne: “Sabemos o nome de todos eles. No futuro, não poderão ser funcionários públicos na Rússia, nem nos seus órgãos de segurança”.
“Esses jovens puseram um ponto final na sua carreira” – sentenciou ele.
O diário russo newsru.com explica este fenómeno com o facto de o tempo de serviço militar nos países da NATO ser mais reduzido do que na Rússia.
A região de Petchor (Petseri, em estónio) fez parte da República da Estónia entre 1918 e 1939, mas, depois da anexação desse país báltico pela União Soviética, ela passou a fazer parte da Rússia. Actualmente, os dois países ainda não ratificaram um acordo de fronteiras, porque a Estónia continua a reivindicar essas terras. Por isso, Bobriachov receia que a política das autoridades da Estónia em relação à região prejudique os interesses nacionais da Rússia. “A política realizada pela Estónia em relação à região de Petchor é uma alavanca, com a ajuda das quais as autoridades estónias e as estruturas radicais não-governamentais, apoiando-se nos cidadãos com dupla cidadania, poderão ter realizar os seus desejos de expansão económica e política em relação ao território da Rússia” – considera ele. Presentemente, mais de 10 mil habitantes de Petchor têm dupla cidadania. “As autoridades da Estónia realizam um trabalho intenso a fim de alargar a sua influência política, económica, social e informativa na região de Petchor” – sublinhou, concluindo que “o trabalho das pessoas com dupla nacionalidade nos órgãos de poder local, nos organismo públicos e forças de segurança, pode ser utilizado com objectivos diversos, nomeadamente contra os cidadãos e o Estado russos”. “Foi Moscovo que ensinou a lição à Estónia. Na Abkházia e Ossétia do Sul, a Rússia concedeu nacionalidade a mais de 80 por cento dos cidadãos dessas duas repúblicas separatistas da Geórgia e, agora, utiliza esse factor como alavanca de pressão sobre as autoridades de Tbilissi” – comentou à Lusa uma fonte diplomática na capital russa. “A região de Petchor fez parte da Estónia e esse país ainda não perdeu completamente a esperança de a ver devolvida, embora isso seja muito pouco provável. Mas, em relação à Rússia, apenas se pode dizer, quem com ferros mata, com ferros mata” - acrescentou. “O precedente da proclamação unilateral da independência do Kosovo pode ser utilizado pelo Kremlin para criar complicações em países vizinhos como a Geórgia e a Ucrânia, mas isso pode-se reflectir também de forma negativa no interior da própria Rússia, pois o “vírus do separatismo” não desapareceu.

11 comentários:

Anónimo disse...

No fundo esses jovens russos estão se cagando para as forças armadas tanto da Rússia, quanto da Estônia. A sua bússola mental só aponta para o centro da Europa, onde, assim que lhes seja possível, pretendem partir para desfrutar da amplitude de sua cidadania européia e reforçar o exército de lavadores de pratos e vasos sanitários de capitais como Londres, Madrid, Berlin, etc.
E os russos devem saber que é exatamente isso o que aconteceria, caso os jovens russos tivessem a cidadania européia. Nesse caso, o problema seria dos europeus, pois creio que não haveria vasos sanitários para todos.

Jose Milhazes disse...

Caro leitor anónimo, está a reduzir extremamente a questão e a utilizar uma linguagem indigna deste blog. Olhe que a Estónia está a ultrapassar Portugal quanto a quase todos os índices económicos e não erro se disser que são mais os portugueses que andam na Europa a exercer as profissões por si citadas do que os estónios. Quanto aos russos, também não acho que tenha razão.
Eu também sou um patriota português, mas tento ver as coisas de forma mais realista. Seja mais humilde, leitor. Caso contrário, poderemos vir a ser humilhados por aqueles que humilhámos. O meu blog chama-se "quem com ferros mata, com ferros morre".

Jose Milhazes disse...

Comentário enviado por mail pelo leitor João Moreira: "Nos países europeus ocidentais sempre se olhou depreciativamente para a Europa de Leste. Mesmo a emigração que surgiu depois da queda do muro de Berlim e do alargamento da UE, tende a olhá-los como "trabalhadores desqualificados" o que não é verdade. Muitos exemplos poderiam ser citados, mas basta-me referir dois: a facilidade com que muitos "europeus orientais" usam a língua onde se instalam (como, por exemplo, Portugal) e o nível de apresentação que muitos apresentam.

Só estranha o crescimento desses (novos)países quem desconhece a sua riqueza cultural e histórica. A disciplina e a educação que mostram são bem elucidativos de um nível cultural e educativo bem superior ao nosso. Já li (e tive, pessoalmente, a confirmação) que muitos gostam de Portugal mas consideram o ensino muito facilitado. O nível de produção, cultura e desenvolvimento de um país começa por aqui. Não admira que a Estónia, a Eslovénia ou a Hungria estejam a nossa frente.

Cumprimentos,
João Moreira"

Almir disse...

João Moreira:
É imprecisa e generalista a classificação "Europeus do Leste" para designar, indistintamente, qualidades ou defeitos dos povos que habitam esses países.
Qualquer pessoa que conheça bem essa região, sabe das enormes diferenças culturais entre, por exemplo, estonianos e romenos, ou russos e húngaros, etc.
Não dá para analisá-los como se vivessem sobre um mesmo guarda-chuva cultural, mesmo que seja de uma forma elogiosa, como você tenta fazer. Se refletir bem, verá que no fundo é uma forma depreciativa de referir-se a cidadãos de cultura tao distintas.

António disse...

Acabei de me lembrar de um pormenorzito inconsequente, após ter lido o mentecapto comentário deixado pelo senhor anónimo acima, mas que não resisto a partilhar:

A empresa Skype, que criou o software VoIP mais conhecido do planeta, que conta hoje com cerca e 270 milhões de assinantes e foi recentemente vendida à Ebay por 2,6 mil milhões de dólares, é criação de uma equipa de programadores estónios, que já tinham desenvolvido anteriormente o programa Kazaa, que revolucionou a partilha de ficheiros na internet. Ainda que agora a Skype seja agora uma multinacional, a equipa principal de programadores, de onde continuam a vir as ideias revolucionárias, continua a ser a de Tallinn.

Nada mau, para uma corja de lavadores de latrinas...

António Campos

ferreirov disse...

Ferreirov disse...
O leitor anonimo tem pouca razao. Hoje em dia os jovens russos da regiao de Pechori podem ir buscar trabalho a Moscovo ou S.Petersburgo vizinho onde, nalguns sectores, ja se pode ganhar mais que em Madrid. Mas o servico militar em Estonia e melhor organizado e e mais curto que em Russia, onde o jovem recruta pode ser mandado para a tropa a milhares de kilometros da sua casa.
Tambem nao concordo com a afirmacao do amigo Milhazes de que
os estonianos fazem o mesmo que os russos com os abkhazios e ossetios. As autoridades estonianas dao os passaportes so aos cidadaos russos, naturais duma pequena regiao que Estonia considera territorio seu. Os russos dao os seus passaportes as pessoas que, no momento de os receber, nao tem nenhuma outra nacionalidade e possuem apenas passaportes da URSS nao existente que ja nao tem validade juridica. Os politicos, tanto estonianos como os russos, tem os seus objectivos e as pessoas que recebem passaportes os seus interesses. Os abkhazios e os ossetios podem tambem receber passaportes georgianos, mas isto nao lhes interessa do ponto de vista economico. O mercado de trabalho, em expansao, se encontra em Russia e nao na Georgia.

Almir disse...

O leitor anônimo exagerou na linguagem "indigna", mas fez referência a um fenômeno atual que constrange a Estônia e outros países do Báltico neste momento. Recentemente a revista Economist publicou um artigo investigando as razões por que as capitais do Báltico tem os imóveis mais caros do que Berlim, Viena ou Frankfurt. A conclusão é a de que falta mão-de-obra no país para a construção civil, já havendo casos em que as construtoras são obrigadas a recorrer à rica Finlândia para contratar trabalhadores. Onde estão os estonianos? Ora, estão exatamente onde o leitor anônimo apontou, nas grandes capitais européias lavando pratos. É fato!
Quanto ao comentário do Sr. Antônio, não há nenhuma relação entre a realidade acima e o fato de o inventor do Skype ter passaporte estoniano. Aliás, o software Skype foi um empreendimento conjunto de estonianos e finlandeses.

Jose Milhazes disse...

Caro Almir, deixe-me discordar da sua opinião em relação à Estónia, país que conheço bem por razões familiares. Na Estónia há falta de mão de obra, porque muitos saíram para a Finlândia e outros países onde se ganha mais. Por isso, agora há falta de mão de obra na construção civil, transportes, etc.
~Isso não significa, porém, que todos tenham ido lavar casas de banho ou pratos para a Europa. Muitos trabalham para bancos, na investigação científica, etc.
Quanto ao Skype, não é por acaso que ele aprarece na Estónia. Em poucos anos, este pequeno país colocou-se na vanguarda da informática. Foi na Estónia que apareceu o primeiro "Governo computarizado", ou seja, a reunião do Conselho de Ministro não exige a presença corporal de todos os ministro numa dada sala, mas é feita via computador, o que poupa bastante dinheiro.
Mas não é só isso. Não obstante a Estónia não ter petróleo e gás, tem um crescimento anual enorme, da ordem dos 10% e, segundo numerosos indicadores, começa a ultrapassar Portugal e outros países da União Europeia.
É um exemplo a estudar com atenção.
A Velha Europa continua a olhar com um certo desprezo para a Nova Europa, mas isso é um erro crasso.

António disse...

Mais uma vez, há que recorrer à frieza dos números para clarificar algumas questões suscitadas nesta discussão. Para já, comparar o mercado imobiliário alemão com o que se passa na Estónia é um disparate. Qualquer pessoa com o mínimo de conhecimentos do mercado imobiliário internacional sabe que a Alemanha tem o menor índice europeu de posse de casa própria (44%) e que a maioria os imóveis é propriedade do governo ou de grandes grupos de investidores, que, por pressões de redução de custos, têm vindo a despejar casas no mercado a preços de saldo, que ninguém quer comprar, tanto pelo reduzido desejo de comprar casa como pela deprimente situação económica do país. É por isso que é possível comprar hoje um apartamento numa zona central de Berlim por 70 mil euros, coisa que em Lisboa não se consegue provavelmente há décadas…

Não se podem comparar alhos com bugalhos: o que se passou no mercado imobiliário estónio aconteceu também nas outras economias emergentes do leste europeu: crescimento económico de dois dígitos, maior confiança na economia, aumento do investimento estrangeiro e maior facilidade de acesso a crédito aliado a juros baixos estimula a procura tanto por famílias como por investidores, atraídos pelos preços baixos. É por isso que hoje não se consegue comprar nada de jeito em Kiev ou em Varsóvia por menos de 200 mil euros, e os preços continuam a aumentar, e com eles a construção de mais empreendimentos.

Claro que as pressões inflacionistas causadas por falta de mão-de-obra para acompanhar um crescimento económico rápido pesam na equação. Mas na Estónia tal não se deve de todo à emigração, nem a jovens a sair do país para ir lavar pratos nos países ricos da União, ou tretas do género. O facto é que desde 2000 que o país regista uma taxa líquida de migração marginalmente positiva (entra mais gente no país do que sai). O verdadeiro problema é que a Estónia tem uma população envelhecida e que regista a maior taxa de decréscimo demográfico na Europa (-2,04%), causada por taxas de natalidade consistentemente muito baixas (a Estónia está no top 20 dos países com taxa mais baixa do mundo). Aliás, não faz muito sentido acreditar que o governo esteja a lançar planos para agilizar os procedimentos burocráticos de imigração para atrair finlandeses, que vivem, curiosamente, num país onde os salários dão para pagar casas que custam 3 (três!) vezes mais o que em Tallinn (lá vai por água abaixo a ideia de que a Estónia tem os apartamentos mais caros da Europa), e a sua juventude não veja outra hipótese de vida senão ir lavar pratos a 2 euros à hora para Londres…

Só mais um pequeno esclarecimento: os criadores do Skype (Toivo Annus, Jaan Tallinn, Pritt Kasesalu e Ahti Heinla), que já tinham criado o motor peer-to-peer do Kazaa, no qual a tecnologia Skype se baseia, têm passaporte estónio pelas mesmas razões que eu tenho passaporte português. Porque nasceram, cresceram e vivem na Estónia. Quase todos ainda ocupam posições de chefia na equipa de desenvolvimento do produto. Depois, um empresário sueco (Niklas Zennström) e um dinamarquês (Janus Friis) pegaram na ideia e criaram a empresa.

António Campos

Jose Milhazes disse...

Caro António, obrigado pela sua contribuição, pois os números dizem mais do que mil palavras.

Maria disse...

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