terça-feira, maio 20, 2008

Leitura imprescidível



Recomendo a leitura do livro "Não faziam mal a uma mosca", da escritora e jornalista croata Slavenka Drakulic, publicado pela Pedra da Lua em língua portuguesa. Trata-se de uma obra com interesse não só para os que se interessam pelos problemas dos Balcãs, mas para todos os que gostam de refrescar a memória histórica, para que os homens não repitam os erros.
Numa linguagem simples, mas precisa e muito humana, Slavenka Drakulic mostra-nos "como os homens banais podem ser criminosos de guerra".
Deixo aqui dois trechos muitos fortes deste livro:
"Um dia, porém, descobrimos que não é preciso haver um inimigo externo para despoletar uma guerra. O inimigo podia estar no seu seio - e estava mesmo. Como se não bastasse o desenterrar do passado - o passado que tendemos a esquecer, o facto de, durante a guerra, a Jugoslávia ter sido ocupada ou controlada pela Alemanha nazi-, estava em curso uma guerra entre sérvios e croatas. Por outras palavras, havia uma história de derramamento de sangue no nosso país, e era fácil manipulá-la para criar antagonismos mútuos: os sérvios tornaram-se inimigos dos croatas, dos bósnios muçulmanos e dos albaneses, mas, a certo ponto, os croatas estavam igualmente em guerra não só com os sérvios, mas também com os muçulmanos, enquanto os inimigos dos macedónios eram os albaneses".
E
"Tal como na Alemanha, começámos na Croácia por deixar de cumprimentar uma pessoa de outra nacionalidade, talvez apenas porque tínhamos medo que os outros nos vissem a cumprimentá-la. [...] Virar a cara criou, de facto, a oportunidade para que alguém cometesse crimes de guerra em nome dos mesmos princípios de isolamento e eliminação dos «outros»".
Slavenka Drakulic dá uma resposta demolidora, atroz, mas exacta à pergunta: para que foi tudo aquilo?
"Para nada".

5 comentários:

Fomá_Fomitch disse...

Sem duvida caro José, já vi o preço e já está no meu plano de leitura! Obrigado pela sugestão!

Jose Milhazes disse...

Comentário enviado por mail pelo leitor João Moreira"
Caro Milhazes,

Raramente comento algum post, apesar de várias vezes gostar de o fazer, mas o tempo não permite.
Assim, e de um fôlego, apenas algumas referências:

1) "Chamem a Polícia" - os monumentos portugueses deveriam, a meu ver, possuir uns folhetos explicativos em seis/oito línguas, do tipo desdobrável com uma história e súmula do que se vai ver. Mais, um livro ou uma informação mais detalhada sobre o monumento em causa, também em várias línguas, junto à recepção. Este pagável o outro, livre. A cultura, a história, o turismo e o povo também se "informam" e devem-se dar a conhecer. Quem por curiosidade, interesse e gosto deseja saber deve/deveria ser informado. Turismo também é isto... e o turismo cultural é uma forma de divulgar!

2) Sobre a indústria aeronáutica russa - na URSS (como em todos os países que se fragmentaram) as peças e materiais necessários não eram produzidos, exclusivamente, numa dada zona ou região. No fundo, no "país" produziam-se vários tipos de componentes. Ora a desintegração levou a que determinaddas áreas ficassem "descalças"...

3) Sobre o livro da autora croata: os resquícios de ajustes antigos estavam latentes e explodiram quando os povos começarm a autodeterminar-se.

4) Um post mais antigo sobre a divisão da Ucrânia: as fronteiras ucranianas (e não só!) foram substancialmente alteradas após o segundo conflito mundial do século passado. o próprio eleitorado ucraniano actual traduz essa divisão...

cumprimentos,
João Moreira"

lourrain disse...

Olá!
Obrigado pela sugestão! Já faz parte dos livros a comprar. Interesso-me imenso pela história e cultura destes povos e por isso não vou perder este livro. Já agora aproveito e faço referência a um livro brilhante de Ivo Andric intitulado A ponte sobre o Drina editado pelo Cavalo de Ferro, onde o autor faz a história da Jugoslávia desde o século XV até à 1ª Guerra Mundial.

Jose Milhazes disse...

Caro leitor/leitora Lourrain, obrigado pela sugestão. Irei ler logo que possível o livro recomendado.

ana disse...

Olá José,

Um óptimo conselho, a par da "A Rússia de Putin" da saudosa Anna Politkovskaya (ambos ilustrados pelo meu companheiro Rui Ricardo).


Deixo-lhe assim, uma palavra amiga da Póvoa de Varzim.


Um abraço,
Ana Cancela